Três dias sem água

Comentários sobre a Porção Semanal da Torá de Beshalach

 

Pragas

Os Filhos de Israel acabam de atravessar o Yam Suf, mal traduzido como “Mar Vermelho” e iniciam sua aventura no deserto de Sinai.

Passaram por experiências muito especiais. Durante vários meses, testemunharam as Dez Pragas enviadas pelo Criador, atormentando os egípcios, enquanto o povo se libertava, gradualmente, da servidão. Nas Pragas, eles não somente presenciaram o castigo merecido de seus senhores cruéis, mas receberam, em cada um destas, uma nova lição sobre o Criador: que Ele existe, que sabe exatamente o que acontece no mundo e que intervém milagrosamente para executar seus planos.

Após a última Praga, e uma longa noite de vigilia, estes deixaram o Egito com suas famílias, seu gado, com roupas tiradas de seus vizinhos, a caminho do desconhecido. Menos de uma semana depois, sentiram os passos dos egípcios que se arrependeram de ter mandado embora seus trabalhadores gratuitos, contudo, milagrosamente desaparecem por entre as águas do Yam Suf.

 

Os Mananciais da Parashá020206w

A Torá conta (Êxodo 15:22) que Moshe teve que forçá-los a sair do mar, enquanto retiravam tudo que podiam dos corpos dos soldados egípcios que se afogaram. O mesmo versículo diz que passaram-se três dias no deserto sem que encontrassem água.

Em seguida, (id. 15:23-26) surgem os versículos que falam de Mara, a fonte de águas amargas, que eram adoçadas através das instruções divinas. Pouco depois (ibid. 15:27) encontraram doze fontes de Elim. E, finalmente, perto do final do Parasha (id. 17: 1-7), a “criação” de um manancial como resultado de um golpe que deu Moshe com sua vara em uma rocha, em um lugar chamado de Massah e Merivá.

Não há dúvida de que as doze fontes de Elim escondem uma mensagem especial, já que estamos falando das Doze Tribos de Israel que começam uma jornada perigosa pelo deserto. No mesmo local haviam também setenta palmeiras que são mencionadas no Salmo 92, que fala dos Justos, que se parecem com uma palmeira que dá fruto, no que parece ser uma alusão das setenta palmeiras em Elim com os setenta juízes do Grande Tribunal. Neste versículo não há reclamações ou protestos, somente a indicação de que o Povo, acampou lá ‘sobre as águas’.

Diferentes são as outras duas referências citadas, a de Mara e de Massa e Merivá, onde se constata protestos dos Filhos de Israel.

 

Águas amargas

Na primeira, Mara, a denúncia parece bastante justificada. Se passaram três dias de viagem pelo deserto sem terem encontrado água e, quando, finalmente, encontram um manacial, percebem que as águas são amargas. Não é de se admirar que as pessoas, desesperadas, tenham ido protestar a Moisés dizendo: ‘O que beberemos?”. Também não existe ‘retaliação’ ao protesto somente o Criador explicando a Moisés como corrigir o problema.

Em Massa e Merivá parece haver algo de errado, já que presenciamos um protesto contra todo o processo do Êxodo do Egito, aonde Moisés acredita que será apedrejado e o Criador chama aquele lugar de Massá e Merivá, o que significa algo como ‘Teste e Briga’, como está escrito (id. 17: 7) “pela briga dos Filhos de Israel e por terem testado o Senhor…”

Na história das águas amargas, o Midrash nos surpreende dizendo que, na verdade, era uma fonte de água doce. Quando os filhos de Israel chegaram a agua, esta ficou amarga. O Midrash explica que os Filhos de Israel tinha enchido seus cantis com as “águas milagrosas” do Yam Suf, que não terminava, por mais que bebiam dela. Isso causou grande aflição às pessoas, que temiam que o milagre não duraria para sempre e, de repente, toda a água desapareceria.

É lógico: o milagre depende da nossa conexão com o Criador. Quando o nosso comportamento é adequado, não é de estranhar que o Criador nos ajude, mesmo com milagres. Mas quem me garante que amanhã continuarei me comportando bem? Como posso ter a certeza de que serei recompensado, também amanhã, com este milagre? As pessoas preferem uma vida ‘normal’, na qual a comida e a bebida não são “dependentes” do comportamento.

Quando viram o manancial, que sabiam que continha água doce, disseram “finalmente podemos parar de depender dos milagres e voltar à vida normal”. E, em seguida, as águas ficaram amargas.

O Criador diz: ‘Quem te ensinou que somente um milagre é milagroso? Tudo depende da palavra de D’us, todo o universo depende da vontade do Criador, tanto o que é regido pelas leis da natureza, que o Criador estableceu, quanto os milagres – atos “sobrenaturais” – que estão acima das leis da natureza. Assim, após terem presenciado a água sendo adocicada, D’s lhes introduz as primeiras leis sobrenaturais, as leis da Torá, para ajudá-los a ver a mão de D’us na natureza.

 

Um Caminho Largo

EIsso não é suficiente. Na estação seguinte são os mananciais de Elim, onde sugere a relação com as Doze Tribos, liderados por um Tribunal de setenta estudiosos que deveriam ensinar-los, cada um individualmente, para que possam descobrir como cada passo, cada ato ou pensamento, tem suas repercussões.

Mas este é um estudo longo e difícil. A comida milagrosa, Maná, aparece no capítulo 16. Esta refeição dependia também de seus comportamentos diários. Não era possível guardar de um dia para o outro. Se você praticou o bem hoje e recebeu o Maná sem ter que realizar grande esforço físico, também amanhã você deberá continuar praticando o bem, pois o esforço do dia anterior não é suficiente.

Isso deve reforçar a confiança em nós mesmos. Nosso comportamento é perfeitamente gerenciável, não devemos nos desesperar, desistir de nós mesmos, perder a fé em nossas capacidades espirituais. Por quarenta anos eles estiveram num caminho de formação espiritual, aprendendo que a alma tem muito mais força do que os maus instintos.

O lugar onde o teste ocorreu, no Capítulo 17, aparece como ‘Refidim’. Este nome é interpretado como ‘mãos fracas’. O Povo havia enfraquecido em somente alguns dias. A água desaparece, termina, e novamente aparecem as reclamações. Na verdade, sempre que falta água poderíamos considerar a queixa como justificada, uma vez que não há vida, especialmente no deserto, onde a água é escassa.

 

Não nos abandonou

Mas o Povo briga com Moisés e coloca em questão todo o processo que tem ocorrido até agora. Era tudo uma farsa. “Você nos tirou do Egito para matar-nos no deserto”.

Pior ainda. O versículo 7 diz: “… por ter testado o Senhor dizendo ‘estará o Senhor dentre nós, ou não?’”. Nos comportamos mal, nossas mãos se enfraqueceram e, portanto, a água terminou. Isso significa, para o Povo, que o Senhor os abandonou.

Mas não é verdade. A escolha do povo de Israel por D’us não se cancela pelo fato de que o Povo se comporta mal ou perdem a confiança em D’us. A escolha de D’us é baseada em algo muito mais profundo e não depende de mudanças climáticas, econômicas, alterações e nem mesmo, o comportamento das pessoas, como acreditam os cristãos e os muçulmanos. Eles pensam que o mau comportamento detectado no texto bíblico juntamente com o fato da destruição do Segundo Templo e a dispersão do Povo de Israel, significa que a eleição divina foi abolida ou substituída por outra. Este erro é grave.

Precisamente nos piores momentos é quando estamos mais perto do Criador. Como uma pessoa doente: a família e os vizinhos se reúnem para ajudá-lo a se alimentar e se limpar a casa, compram medicamentos e fazem compania para que a pessoa não se sinta sozinho. Na verdade, por que está doente? Certamente porque merece, já que não há injustiça para com o Criador. É precisamente por esta razão que a pessoa necessita a ajuda dos demais, mais do que nunca.

Não é somente a nossa ajuda, mas também o Criador o Apoia neste momento difícil. É muito mais fácil alcançá-Lo nessas ocasiões, e aproveitar o momento, não somente, para se curar da doença, mas para chegar a níveis muito mais altos do que os anteriores. Desespero é acreditar que o Senhor o abandonou. Para nós, não se trata apenas de um erro, mas um pecado condenável.

Desde os primeiros passos no deserto aprendemos a não ficar sem água. A água espiritual é a Torá, os ensinamentos de nossos Sábios e a Palavra Divina. O Povo não pode ficar três dias sem água.

Desta passagem, nossos Sábios aprendem que não se deve passar três dias sem ler a Torá em público. E assim, foi estabelecida a obrigação de ler o início da Parasha que se segue, na sinagoga, nas segundas e quintas feiras – além da leitura dos sábados – para evitar três dias sem a leitura da Torá. Cada um de nós deve agir em conformidade com estas instruções e dedicar tempo ao estudo da Palavra de D’us todos os dias e todas as noites, e assim, não permitir, sob quaisquer circunstância, deixar passar t

2 thoughts on “Três dias sem água

  • January 23, 2016 at 3:46 am
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    Obrigada por me enviar essa belíssima mensagem. Abraços. Antonia F. Zamuner Morales Gabriel

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  • January 24, 2016 at 10:04 pm
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    todar rabar por esta linda mensagem!

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