Parashá da Semana – Vaietze

Parashá da Semana – Vaietze

Pelo Rav Reuven Tradburks

A nossa Parasha começa com Yaakov a fugir da terra de Israel, da intenção assassina de Esav, e termina com o seu retorno à terra de Israel. Ao partir, sonha com uma escada que chega até ao Céu, e com D’us a prometer-lhe que o trará de volta em paz. Yaakov encontra Rachel no poço em Charan, casa com Leah e Rachel, nascem 11 dos seus 12 filhos e a sua filha Dina. Lavan e Yaakov discutem. Yaakov ganha o seu salário com a criação de animais. Uns anjos cumprimentam Yaakov no seu retorno a Israel.

1ª Aliá (28: 10-22) Yaakov foge da terra de Israel. Ele sonha: uma escada com anjos, D’us no topo. D’us reitera a Yaakov a promessa da terra de Israel e de numerosos descendentes. E de que Ele protegerá Yaakov e o trará de volta à Terra. Yaakov faz um monumento naquele local e declara que, após o seu retorno seguro, voltará e fará deste local uma casa de D’us.

Um dos grandes sonhos da Torá. Na verdade, o primeiro sonho de uma próxima série de sonhos na Torá: o sonho de Yosef, o sonho do Faraó. Neste sonho, Yaakov tem a garantia da proteção Divina. Mas porque precisava ele dessa garantia? O que tinha em mente?

Vamos pôr-nos nas sandálias de Yaakov. Ele não sabe o fim da história. Nós sabemos, mas ele não. Ele está cheio de incertezas. Avraham teve dois filhos: Yishmael e Yitzchak. Um, Yitzchak, continuou o legado de Avraham como judeu. O outro, Yishmael, ficou de fora. Depois Yitzchak teve dois filhos: eu e o meu irmão Esav. Talvez nós também repitamos esse mesmo padrão: um entrará e o outro ficará de fora. Mas quem será? Estou dentro ou fico de fora? Eu roubei a bênção destinada a Esav, meu irmão. Talvez a minha fuga de Israel agora seja um sinal Divino de que estou fora e Esav dentro. Afinal, o meu pai Yitzchak nunca deixou a terra. Então, estou a ser expulso da terra, expulso da promessa da terra? D’us tranquiliza-o: dar-te-ei a Terra e trazer-te-ei de volta. Mas foi num sonho. Os sonhos são reais ou ilusórios?

2ª Aliá (29: 1-17) Yaakov chega a Charan. Conversa com pastores no poço. Eles estão à espera que cheguem vários para remover a pedra do poço. Ele faz perguntas sobre Lavan; aquela que vem ali a chegar é Rachel, filha de Lavan. Yaakov remove a pedra pesada do poço e dá água a Rachel. Diz-lhe que é filho de Rivka. Rachel corre para contar a seu pai, Lavan corre para cumprimentar Yaakov. Yaakov fica com eles por um mês.

Se Yaakov estava à procura de um sinal de que D’us está com ele, conseguiu-0. Existem vários paralelos com Eliezer, quando encontrou Rivka no poço, mas aqui é ao contrário: Rivka tirou água para Eliezer e os seus camelos; Yaakov removeu a pedra e tirou água para Rachel e os seus animais. Eliezer perguntou a Rivka quem ela era; Yaakov diz a Rachel quem ele é. Rivka foi a correr contar à mãe; Rachel foi a correr contar ao pai. Lavan foi a correr cumprimentar Eliezer; Lavan foi a correr cumprimentar Yaakov. Eliezer estava à procura de uma esposa para Yitzchak e voltou para Israel; Yaakov está à procura de família, mas não se vai embora.

3ª Aliá (29: 18-30: 13) Yaakov ama Rachel. Em resposta à pergunta de Lavan sobre como ele poderia compensar Yaakov, Yaakov oferece-se para trabalhar 7 anos para casar com Rachel. No final desse tempo, Lavan fez uma festa. Deu Leah a Yaakov. Pela manhã, Yaakov apercebeu-se. Lavan informa que aqui não trocamos os mais jovens e os mais velhos. Yaakov casa com Rachel e trabalha mais 7 anos. Leah tem 4 filhos: Reuven, Shimon, Levi, Yehuda. Rachel está desgostosa, pois é estéril. Ela dá a Yaakov Bilhah, sua serva. Ela tem Dan e Naphtali. Zilpah, a serva de Leah, tem Gad e Asher.

Vamos voltar a pôr-nos nas sandálias de Yaakov. Ele ainda se pergunta se faz parte do povo judeu ou se foi rejeitado – aquele sonho da proteção divina foi profético ou a mera expressão de um desejo? Foi enganado à noite, quando é difícil ver, e casou com Leah. Será isto um sinal de descontentamento de D’us por Yaakov ter enganado o seu pai que já não podia ver, para obter a brachá? Talvez eu fique de fora. Por outro lado, a minha querida esposa Rachel parece seguir os passos da minha avó Sarah; ela é estéril e deu-me a sua serva para eu ter um filho, assim como Sarah era estéril e deu Hagar a Avraham para ele ter um filho…

4ª Aliá (30: 14-27) Reuven traz jasmim, um intensificador de fertilidade para Leah. Rachel pede-o, e em troca Leah concebe e tem Yissachar, seguido por Zevulun. Rachel tem Yosef. Yaakov pede permissão a Lavan para voltar para casa.

Nasceram 11 dos filhos de Yaakov e sua filha Dina. Há apenas um filho da sua querida esposa Rachel. Voltemos a pôr-nos no lugar de Yaakov: ele não sabe se estará dentro do povo judeu ou não. E há outra coisa que o faz sentir-se desconfortável: Avraham foi a primeira geração do povo judeu. Ele estava dentro, e o seu irmão Nachor ficou de fora. De volta ao final de Vayera (22: 20-14), aprendemos que Nachor teve 8 filhos com a sua esposa Milka e 4 com a sua concubina Reuma. 12 filhos. E no final de Chayei Sarah (25: 12-15), aprendemos sobre os filhos de Yishmael, aquele que ficou de fora do povo judeu. 12 filhos. Hmm… Aqueles que ficam de fora do povo judeu (Nachor, irmão de Avraham, e Yishmael, irmão de Yitzchak), tiveram 12 filhos. Eu tenho 11. Por outro lado, todos os meus filhos estão a seguir os passos de Avraham, deixando a sua terra de Charan e viajando para Israel. É sinal de quê? Estou dentro ou fora?

5ª Aliá (30: 28-31: 16) Lavan pergunta a Yaakov qual é o seu salário por todo o trabalho que fez. Yaakov pede permissão para selecionar e criar certos animais como seu salário. É extremamente bem-sucedido e fica carregado de gado. Os filhos de Lavan ficam com ciúmes. Yaakov sabe que é hora de partir. Ele explica cuidadosamente a Rachel e Leah que está preocupado porque Lavan não foi honesto com ele. E que o anjo lhe disse que é hora de voltar para a terra. Elas concordam; tudo o que D’us diz é para fazer.

Yaakov cria uma enorme riqueza. Talvez este seja um sinal Divino: Avraham tinha grande riqueza e Yitzchak foi abençoado com “meah shearim”, uma abundância de agricultura 100 vezes maior. Talvez este seja um sinal Divino de que estou a andar nas pegadas dos meus antepassados.

6ª Aliá (31: 17-42) Yaakov e a família partem sem contar a Lavan. Rachel rouba os ídolos de Lavan. Lavan persegue-os. D’us diz-lhe para não ferir Yaakov. Lavan repreende Yaakov pelo seu engano, não permitindo que ele beijasse os seus filhos. Se D’us não lhe tivesse dito para não o fazer, ele estaria justificado em ferir Yaakov. Lavan procura os seus ídolos, mas não os encontra. Yaakov está farto. Repreende Lavan pela sua falta de consideração  por todo o seu trabalho árduo, ao ter mudado o seu salário 10 vezes. Mas D’us viu meu trabalho opressor e recompensou-me.

Um último olhar a partir do lugar de Yaakov. Ele ainda não tem a certeza se faz parte da aliança ou não. Mas outra previsão ecoa nos seus ouvidos. Anos antes, Avraham foi informado de que os seus filhos estariam numa terra estrangeira e seriam oprimidos, a palavra hebraica “eenu”. Por 400 anos. E voltariam com grande riqueza. Yaakov usa essa mesma palavra para descrever o seu trabalho árduo para Lavan “D’us viu meu trabalho opressor – an’ee”. Talvez, pergunta-se Yaakov, eu seja aquele povo judeu. Terra estrangeira. Oprimido. Estou aqui há 20 anos, muito tempo – parecem 400. Partindo com muita riqueza.

Por um lado, Yaakov vê sinais na sua vida que apontam que seja ele o próximo elo do povo judeu. E por outro lado, vê sinais de que talvez seja ele quem está fora e Esav dentro. Mas a balança está claramente pesando a seu favor.

7ª Aliya (31: 43-32: 3) Lavan e Yaakov separam-se, com uma cerimónia de despedida. São colocados um marcador e pedras como testemunho de que Lavan não se aproximará de Yaakov, nem Yaakov de Lavan. Lavan volta para casa. Os anjos encontram Yaakov quando ele retorna à terra.

O rompimento com Lavan é completo. Há pactos de várias formas e tamanhos diferentes. Se tiveres problemas, virei ajudar-te. Ou abriremos as nossas fronteiras ao comércio. Ou uma parede. Uma paz fria. Tu do teu lado e eu do meu. Mais ou menos como a mitzvá de nunca mais voltar ao Egito. Anos de decepção, de labuta, de suspeita. Esse capítulo está encerrado.

Os anjos cumprimentam-no. Anjos à partida e anjos à chegada.

 

Parashat Vaietze

Elogios  a Lea

Autora: Edith Blaustein

Extraído do texto de Shulamit Hareven na Antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

Nos primeiros dias de Jacob, enquanto ainda tem a sua primeira identidade e não é Israel, há nele uma espécie de negação da discórdia. Uma negação da vida. Característica, diria um psicólogo moderno, do filho mimado da sua mãe, do filho preferido, cujo relacionamento com a sua mãe não é nem mais nem menos do que a vara com a qual ele mede o mundo.

Sem mais reflexão, o jovem Jacob assume o roubo, sem vacilar, sai ao caminho e chega à mesa do seu sogro (também irmão de sua mãe) quando trabalha para ele (estamos perante o primeiro retrato do que é uma relação entre sogro e genro).

Isaac também trouxe sua esposa através de um enviado (e não bebeu nem um copo de água na casa do seu sogro). Jacob não possui a independência masculina claramente estabelecida que caracteriza os líderes do povo. Também não é o criador de uma vida patriarcal, seu pai e avô não lhe serviram de exemplo. Ele é, pode dizer-se, um filho sem pai, «o filho da mamã», um homem cheio de imaginação, cuja força não se encontra no conflito direto. Ele é um homem encoberto.

A não aceitação das suas duas mulheres, Raquel e Lea, faz parte da negação do conflito em Jacob, uma parte do mundo imaginário em que ele se encontra.

Jacob diminui cada uma das irmãs: em Raquel recusa-se a ver a sua essência maternal; só vê a bela mulher por quem se apaixonou, e, em Lea, pelo contrário, só vê o aspeto maternal e não a sua dimensão de esposa / mulher.

O amor de Jacob por Raquel é o amor do sentimento (tão característico da adolescência).

Pelo contrário, Raquel não quer ser essa mulher que Jacob ama; ela não quer ser a mulher-mito, a mulher-menina: ela percebe muito claramente a pobreza humana essencial de uma situação fechada e coberta como esta, que não tem saída, e quer, expressamente, ser como sua irmã Lea.

Do ponto de vista simbólico, quando ela chega a Jacob com a exigência «Dá-me filhos, senão morro», ela está exigindo que ele pare de fazer dela a mulher extraída de sua imaginação errante, e que veja suas verdadeiras necessidades. Mas então «Jacob ficou muito zangado»: Zangou-se pelo próprio facto da exigência. Ele não lhe sugere que reze para ter um filho. Não lhe dá esperança alguma. Ele diz: Foi De’s quem te impediu de dar à luz. Noutras palavras, continua teimosamente a ver a esterilidade de Raquel como um princípio de De’s, como uma força especial, como uma parte da magia que é impossível mudar.

Em geral, Jacob não está inclinado a alterar situações, não discute com De’s, como fez Abraão no caso de Sodoma, ou como fez Isaac para pedir a De’s que abra o ventre de Rebeca. Jacob pensa que não tem o poder de mudar nada. Não tem forças para acreditar na possibilidade de uma mudança. Prefere permanecer na sua perceção de que existem forças mágicas que não estão sob seu domínio e que, portanto, não é obrigado a mudá-las.

Lea, cujos «olhos são meigos», numa leitura detalhada, não é aquela personagem fraca que só sabe ter filhos, que nós vemos assim, talvez por influência de Jacob, e que se projeta em nós até hoje.

A força vital de Lea é muito mais forte que a de Rachel, não só na sua fertilidade, que é consequência e não qualidade, mas na sua humanidade. Em nenhum texto é dito ou sugerido se Raquel tem forças para amar o seu marido. Raquel até vende a sua noite com o marido por umas mandrágoras. Lea ama-o e luta por ele. Aos olhos de Raquel, os filhos são o objetivo; aos olhos de Lea, os filhos são o meio para obter o amor de Jacob.

A personalidade realmente emotiva, possuidora da verdadeira força romântica, e não a aparente, de amor e de luta desesperada, é a de Lea e não a de Raquel.

Aos olhos de Lea, Jacob é marido só dela e ela não reconhece a ninguém o direito o partilhar (Ainda é pouco teres levado o meu marido?.. (Gen., 30:15) – como se ele também não fosse marido de Raquel). Este é a sua forma de amar.

Mas Jacob não via as coisas como eram; nunca percebeu que o mito que ele tanto desejava esteve sempre ao seu lado, na sua cama.

Lea é a «aborrecida», literalmente. Jacob persegue uma mentira, vai atrás de um engano de brilho luar distante, que nunca pode ser alcançado, já que que não vem de De’s, mas da magia. O próprio facto de as  mulheres de Jacob serem trocadas tem um certo esplendor. Ele passa uma noite inteira de amor com Lea-Raquel, sem perceber a diferença, e quando lhe mostram à luz do dia que a Raquel do seu coração é na verdade Lea, ele não percebe. Não entende o que lhe é pedido que entenda, não se curou do feitiço. A negação completa de qualquer conflito em que Jacob esteja envolvido obriga-o a continuar e a separar o «princípio Lea» do «princípio Raquel». Essa dicotomia enganosa, como se fossem princípios opostos, onde uma é a amada e a outra odiada, mantém Jacob preso. Na sua cama é criada a maldição da divisão, que será mantida posteriormente ao longo das gerações.

A força divina intervém aqui com dedicação. Como se quisesse ensinar a Jacob figurativamente que gastou todo o vigor da sua vida numa questão secundária: Raquel está enterrada na beira da estrada, enquanto Lea está enterrada no túmulo de Machpelá.

Parece que Jacob tivesse afastado Rachel para fora dos limites permitido e do possível, e assim introduziu nos seus filhos o princípio da diáspora. José, filho de Raquel, é retirado do círculo da vida na terra de Israel. A tribo de Efraim e a meia tribo de Menashé levam muito tempo para entrar em Israel. Eles não querem agir com energia, só quando são forçados a tomar o destino nas suas mãos, é que quebram o feitiço que pesava sobre Rachel e estabelecem-se permanentemente. O monte de Efraim nunca deixou de ser um lugar onde se praticava o paganismo. A diáspora está relacionada com os filhos de Rachel. E não apenas a dispersão, mas também esterilidade.

As duas mulheres estéreis mais importantes descritas mais adiante no Tanach são Chana, mãe de Samuel, e Michal, a filha de Saul. Ambas descendentes de Raquel, porque Chana pertence à tribo de Efraim e Michal à de Benjamim.

O fundamento da beleza e esterilidade da casa de Saul é um princípio totalmente pertencente a Raquel; embora Michal, filha de Saul, seja a única mulher no Tanach sobre a qual se diz (duas vezes) que amou um homem. À primeira vista, amou-o e exigiu ser dele. Apesar dessa tremenda independência, a maldição que pesava sobre Raquel permaneceu nela.

Como nos foi sugerido através das gerações, Raquel representa a esterilidade da diáspora. Mas os filhos de Raquel receberam uma compensação muito grande: beleza e graça pessoal, além da compensação monetária; não deveriam ser punidos porque não pecaram em nada.

Mas o ciclo da vida estabelece que o grande evento histórico, a revelação divina e não a mágica, tenha permanecido ao longo das gerações entre os filhos de Lea.

É comum no Tanach que um homem com uma responsabilidade histórica tenha algo mudado em seu nome. Então Abrão é Abraão, Sarai é Sara, Oshea é Yeoshua. Jacob é o único que, com sua entrada na corrente histórica, não recebe nenhuma mudança em nenhuma letra de seu nome, mas recebe uma mudança completa de identidade. Mais uma vez, a intervenção divina aparece, desta vez projetada em forma simbólica, quando o seu nome é mudado de Jacob para Israel após a sua luta com De’s.

Quando seu nome é mudado pela primeira vez, após a luta solitária na margem do rio, parece que o facto ainda não se enraizou: Jacob não muda. Coxeando e teimoso, continua à sua maneira. É necessária mais uma intervenção divina, e isso ocorre em Bet-El. Então Jacob é declarado Israel. Desta vez, da boca do próprio Santo, Bendito Seja.

Não há mais escapatória; deve enfrentar seu destino histórico, tornar-se um povo.

Mas, o que acontece imediatamente depois de Bet-El? A uma curta distância de ali, Raquel morre, ou como Jacob mais tarde dirá: «Raquel morreu-me». Literalmente: Raquel, a imaginária, aquela que nunca existiu, a Raquel da sua fantasia, «morreu para ele» no seu interior, ao lado da verdadeira Raquel (e, sem dúvida, infeliz), para que ele pudesse começar sua missão como Israel. E então a primeira coisa que ele faz é ir ver Isaac, seu pai. Retorna à fundação patriarcal. Ele não tem mais medo de Esav. Ele é Israel, que pode enfrentar os conflitos em sua vida. Isaac morre e ele é seu herdeiro.

Nem ouvimos dizer que Jacob-Israel chora Raquel com um lamento especial. Ele, artífice da palavra, não diz nada. Apressa-se a enterrá-la, coloca uma lápide, «e Israel viaja.» Não há descanso; o amor mágico foi enterrado numa sepultura apressada. O local onde uma pessoa é enterrada é muito importante para Jacob, ele é muito cuidadoso.

Este é o fim amargo de uma fantasia, que é enterrada rapidamente e sem lamentação ou choro.

Mas nenhum homem muda a sua maneira de ser de um dia para o outro, muito menos um homem como Jacob. Em pouco tempo volta a desviar-se com o episódio de José e, de certa maneira, também com  Benjamim.

Mais uma vez ele divide, novamente prefere o sentido mágico pessoal em detrimento da realidade que lhe é destinada, que entretanto se revestiu de uma maneira muito tangível: um grupo de filhos que estão zangados.

Ele renova o feitiço nos filhos de Rachel. E não lhes faz nenhum bem com isso. Joseph é punido pelos sonhos, pelos de seu pai e pelos dele. A punição é a diáspora. Jacob também, no final de sua vida, não pôde manter sua casa na Terra de Israel.

Ele não é um dos escavadores de poços, como seu pai e avô. Eles cavaram poços, ele colocou lápides. E terminou sua vida na diáspora, abrigado sob o poder de seu filho, que, por sua vez, estava sob as ordens de um governante estrangeiro. Realmente não é uma situação muito respeitável para o pai de um grande povo. No momento em que se desenvolve, com o apoio de Jacob, o fundamento de Raquel, todos descendem à diáspora.

Pode-se dizer que José é, em essência, o primeiro judeu diaspórico.

Viu-se inclusive obrigado a apoiar seus irmãos israelenses em momentos de necessidade. Nada de novo sob o sol.

Até à escravidão e a partida do Egito, o povo está sob a proteção temporária de um filho de Raquel. A redenção só pode vir das mãos de um filho de Lea: Moisés, da tribo de Levi. É ele quem reintegra o fundamento patriarcal e o princípio da terra. Ambos os princípios são sempre encontrados juntos na Bíblia: A terra de Canaã é a terra dos patriarcas, o local do monoteísmo.

José não saiu diminuído: as qualidades de Raquel, a inteligência, a rapidez, a graça que conquista o coração dos estranhos, tudo isso, juntamente com a recompensa material, são sinais da diáspora.

A possibilidade de se sair bem, de subir os degraus do poder estrangeiro, o carisma, têm sido  características de Raquel, a ladra do Trafim. (Em Gén., 31:19 Raquel rouba a seu pai estes elementos idolátricos que também são usados por Labão para adivinhação e feitiçaria).

Depois vem o trabalho forçado e a escravidão. De alguma forma, a diáspora vem de Raquel, uma consequência do erro do princípio da Raquel de Jacob, do engano. E não é em vão que Raquel é a mãe que chora por seus filhos exilados. Os filhos de Lea não foram para a diáspora? Sim. Mas aqui trata-se do sentido da diáspora: O distanciamento, a esterilidade, o temporal, são o eco do princípio de Raquel, consequência da mentira e da separação que aqui se encontram. A consequência é ficar de fora do grande «projeto» de De’s.

É muito estranho o modo como Jacob procurou com todas as suas forças, até seus últimos dias, perseverar na dicotomia sobre suas duas mulheres. De’s não lhe respondeu.

«As bênçãos de seu pai são mais importantes que as bênçãos de meu pai», diz Jacob a Joseph, e dá a ele e a seus filhos bênçãos de diferentes tipos. Mas antes de abençoar seus filhos, ele pede que seus netos, os filhos de Joseph, se coloquem de pé ao lado dos filhos de Lea, e não é atendido.

O divino não responde à magia privada. David constrói o reino e Moisés é o maior dos profetas, todos eles vêm dos filhos de Lea, Judá e Levi. O Monte do Templo e a capital não se encontrarão na herança dos filhos de Raquel. O Divino passou por cima do mágico e o deixou-o à beira do caminho.

O espírito, a poesia, a moral, o reinado, foram revelados aos filhos de Lea. E é claro que, no final, o próprio Jacob pede para ser enterrado ao seu lado, como se, em sua morte, ele mudasse e aceitasse a sentença divina. Permanece com seus antepassados, em sua terra e com sua verdadeira esposa.

A atração de Raquel é forte, vemo-lo em muitos escritores, que foram seduzidos por sua aparência. A imaginação continuou e a relevância poética foi atribuída a Raquel, e a qualidade «prosaica» a Lea. No entanto, essa diferenciação não tem fundamento. Não é atribuível a um fundamento poético, a diferença não passa de um engano. Há muita prosa turva e falta de imaginação, sem um remanescente de bondade, na essência de Raquel, a ladra dos Trafim. Até o ciúme e as disputas e o episódio das mandrágoras.

O nascimento e a morte da matriarca da estrada, quando a caravana quase não para. Por outro lado, há muita poesia na essência de Lea e na sua luta desesperada pela alma do homem que ama. Ela não tem esperança, porque Jacob nunca será um homem completo em sua alma, um homem com a bondade de De’s. Jacob diz ao Faraó que os anos de sua vida foram duros e amargos, e isso, é claro, é a verdade suprema. Um psicólogo moderno veria em suas contradições repetidas e não resolvidas a impossibilidade de se libertar da magia. Um relacionamento edipiano não resolvido, em sua impossibilidade de tolerar um conflito real, «conflito genital» em termos psicológicos, em sua falta de fé básica na possibilidade de mudança e em seu desejo de se sentir protegido até o fim de seus dias. Mas desta vez não estamos interessados em psicologia. Lea nunca conseguiu libertar Jacob do mundo assombrado em que ele estava preso, mesmo quando a força da moral e a energia da vida estavam do seu lado.

Muitos escritores continuaram no caminho do pecado de Jacob. Por exemplo, Tomas Mann em José e seus irmãos, sua preferência pelos belos e inteligentes deixa muitas suspeitas, enquanto os filhos de Lea recebem uma descrição quase caricatural. Ele insiste em ver a vitalidade nervosa especial dos filhos de Raquel como uma qualidade espiritual, e a dos filhos de Lea como um atributo materialista. Mann esquece que a graça que desperta a atenção e a estética não têm nada do divino no sentido mais elevado do termo, mas muito pelo contrário, é um tipo de compensação dada pela falta do divino.

A origem das qualidades espirituais, da essência divina, do princípio de Raquel, tem em vários autores um significado de olhar diaspórico. Uma linha direta leva-nos daqui a vários autores judeus norte-americanos dos nossos dias. Um olhar que prefere um princípio de beleza à força, imaginação à vitalidade, proteção estrangeira ao orgulho, astúcia ao simples. Pecam porque se separam entre duas possibilidades. Este é precisamente o pecado de Jacob, a dicotomia. Então, no seu tempo, Jacob transformou Raquel num mito, e Lea num monstro. Mann, entre outros, teima em ver os filhos de Lea como homens grandes que serviam apenas para a luta, um pouco tolos até. Isso é mais que um pecado literário, é uma cómoda filosofia de vida, sentimental, decadente, que não entra realmente em conflito com o princípio de Lea, pois é ela, e não outra, a fundadora da estirpe espiritual e física.

Parece que, precisamente, sua vida cinzenta, onde tudo é dado sem graça, sem coisas que se destacam, é o que reflete a verdade. E acaba sendo mais espiritual do que a graça vã e inteligente dos filhos de Raquel, fruto da imaginação de Jacob. Talvez tenha chegado a hora, do ponto de vista literário e metafísico, de rever mais de perto a essência de Lea e seus fundamentos.

Não a odiada pelo sonhador, mas, precisamente por causa dessa diferenciação, a amada pela força divina, destinada a ser a matriarca de uma grande religião e do grande povo. É a existência judaica em sua essência e sua surpreendente pluralidade, na qual a divisão de Raquel é incorporada às suas margens, porque tudo está incluído em Lea.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein

Interpretando sonhos e sonhadores – Parashat Vaietze

«E foi-se Yaacov de Beer Sheva para Charán. E fez-se de noite no caminho, porque o sol já se tinha posto… E sonhou com um escadote cuja base estava na terra e cujo topo chegava aos céus, e anjos de De’s subindo e descendo por ele, e eis que o Eterno estava sobre ele…»

Um dos sonhos mais maravilhosos que um homem alguma vez sonhou foi o sonho de Yaacov ao ir embora de casa do seu pai – ao fugir de casa do seu pai – rumo a Charan.

Já na antiguidade bíblica o sonho suscitou uma atitude de respeito e valorização, bem como uma certa desconfiança, e, por vezes, uma aberta reserva.

Esta ambivalência divide também o texto talmúdico e prolonga-se até aos nossos dias. A tensão entre uma atitude que vê no sonho uma possibilidade transcendente e a que o considera um fenómeno natural que não vai mais além da psique do indivíduo que sonha, gera, no seu movimento, a riqueza simbólica irredutível da vida onírica. Read more