Parasha da Semana – Toldot

Parasha da Semana – Toldot

Parasha da Semana – Toldot

Pelo Rav Reuven Tradburks

Esta é a parashá da vida de Yitzchak e Rivka. Rivka tem gémeos, Esav e Yaakov. Yaakov compra a primogenitura de Esav. Yitzchak vai para Guerar num período de fome, é instruído a não deixar a terra, cava os poços que Avraham cavou e renova o pacto com Avimelech. Yitzchak é idoso, planeia dar a bênção a Esav, mas é enganado por Yaakov. Esav quer matar Yaakov. Yaakov viaja para Padan Aram para não casar com uma mulher de Canaã.

1ª Aliá (25: 19-26: 6) Yitzchak tinha 40 anos quando casou com Rivka. Ele ora por ela, pois ela é estéril. Rivka está preocupada com a sua gravidez, foi-lhe dito que tem duas nações no seu ventre e dá à luz quando Yitzchak tem 60 anos. Yitzchak ama Esav, Rivka ama Yaakov. Yaakov compra o direito de primogenitura de Esav por um tacho de sopa de lentilhas. Yitzchak viaja para Gerar num período de fome. D’us diz-lhe para não ir para o Egito, mas para habitar na terra, pois esta foi-lhe prometida.

Esta é a parashá da sucessão. Yitzchak agora assumiu o lugar de Avraham, Rivka assumiu o de Sarah. E já nasceu a próxima geração. Mas Rivka fica a saber que tem duas nações no seu ventre. Esta revelação que lhe foi feita é crucial para a compreensão da história posterior, de Yaakov a roubar a bênção destinada a Esav.

Quando lemos as histórias da Torá, ficamos em clara desvantagem. Porque já sabemos como acaba a história. Afinal, lemos a Torá todos os anos e já conhecemos essas histórias muito bem. Mas é extremamente importante lermos as histórias como se fossem em tempo real, como se não soubéssemos o fim. Rivka sabe que os seus dois filhos são duas nações. Mas isso é tudo o que ela sabe. O que significa isso? Isso significa, como dizemos coloquialmente, «Tel Aviv e Jerusalém são 2 países.» Bem, na verdade não. Mas são como 2 países. É isso que duas nações significa? Rivka realmente não tem duas nações no seu útero; tem dois 2 exemplos muito diferentes, mas ambos são judeus. E assim, tanto Esav quanto Yaakov farão parte do povo judeu, só que serão tipos de judeus muito diferentes. Ou significa literalmente duas nações? Um dos seus filhos estará dentro do povo judeu e o outro estará fora. E se ela tivesse que escolher um para estar dentro, bem, ela ama Yaakov – pois ela vê nele o herdeiro de Yitzchak. Ele vai entrar. Esav vai sair.

E Yaakov, o filho que ela ama – bem, ela também lhe deve ter contado este segredo. Se eu estou dentro e Esav fica de fora, então tenho um problema. Porque Esav é o primogênito. Então Yaakov compra a primogenitura de Esav. Garantindo que o plano Divino se materialize.

2ª Aliá (26: 7-12) Yitzchak e Rivka estão em Guerar. Ele diz que ela é sua irmã. Avimelech percebe que ela é sua esposa e desafia Yitzchak. Avimelech instrui todos a não lhe tocarem. Yitzchak semeia naquele ano e o rendimento da colheita é de 100 vezes mais (meah shearim).
Yitzchak, seguindo os passos de Avraham, domina a Parasha. Casou casou com uma mulher que viajou de Padan Aram para a terra de Israel, assim como Sarah. Ela é estéril, como Sarah o era. Ele vai para Geurar num período de fome, como Avraham fez. Ele diz que ela é sua irmã, como Avraham fez.

Mas com diferenças cruciais. Yitzchak semeia colheitas durante a fome. E obtém um rendimento 100 vezes maior. Avraham nunca fez isso. Ele é instruído a não deixar a terra de Israel. Avraham partiu quando foi para o Egito num período de fome. E Yitzchak recebe uma instrução dupla para não deixar a terra: habita na terra (sh’chon b’aretz) e vive na terra (gur b’aretz), instruções que Avraham nunca recebeu.

Novamente, temos que nos colocar em tempo real. Yitzchak coça a cabeça – porque não devo deixar a terra? E o que significa esta ordem duplicada – habitar e viver na Terra?

Yitzchak segue os passos de Avraham com uma variação. Ele está a tomar medidas ativas para construir a infraestrutura de uma nação. Ele presume que vai morar na terra porque a promessa do povo judeu de colonizar esta terra está a cumprir-se no seu tempo. Mas, para construir uma nação, é preciso começar a semear – os pastores não são construtores de nações. Os agricultores é que são. Ele semeia. E o que pensaria o leitor se semeasse uma colheita num período de fome e obtivesse uma produção 100 vezes maior? D’us está comigo. A construção da minha nação  está a ser recompensada pelos Céus. É hora de dar mais passos para construir a nação.

3ª Aliá (26: 13-22) Yitzchak prospera muito, com muitos rebanhos. Cava os poços que Avraham cavou, mas que foram tapados pelos filisteus. Avimelech diz-lhe para se afastar. Ele cava mais poços de Avraham. Finalmente, quando cava poços que não são contestados, declara que está a ser frutífero.

Todos os poços terminam bem. Foram 5 escavações de poços bem-sucedidas. Por um lado, Yitzchak está a seguir os passos de Avraham, cavando novamente os seus poços. Mas os poços são cruciais para a agricultura. O pastor está a fazer a transição para a agricultura, pois a construção da nação exige a agricultura. Esses poços são para o bem-estar da iminente nação judaica. E o povo de Guerar está «em cima» dele – eles sentem o cheiro de um adversário com a intenção de tomar as suas terras. Por isso se opõem aos poços.

4ª Aliá (26: 23-29) Yitzchak viaja para Beersheva. D’us diz-lhe para não temer, pois Ele está com ele, como estava com Avraham. Yitzchak constrói um altar e invoca o nome de D’us. Avimelech vem renovar o pacto, mas, se lhe for causado qualquer dano, o pacto será cancelado.
Yitzchak vai para Beersheva, como Avraham fez. D’us diz-lhe para não temer, como disse a Avraham para não temer. Avimelech faz um pacto com ele, como fez com Avraham. Essas são histórias de Avraham, repetidas agora por Yitzchak. Mas agora Avimelech tem medo de que Yitzchak o ataque. Ele sente que Yizchak está a preparar uma nação – às custas de Avimelech.

5ª Aliá (26: 30-27: 27) Esav casa aos 40 anos e toma esposas cananéias, para consternação de Yitzchak e Rivka. Yitzchak é idoso. Instrui Esav a trazer carne de veado acabada de caçar, após o qual o abençoará. Rivka interfere e instrui Yaakov a imitar Esav. Yitzchak suspeita, mas o disfarce de Yaakov é convincente.

Essa história do engano levanta muitas questões. O que estava Yitzchak a pensar ao escolher abençoar Esav? E o que estava Rivka a pensar, ao frustrar as intenções de Ytzchak?

Novamente, sabemos o resultado. Mas vamos pôr-nos no lugar de Yitzchak. Ele está a preparar-se para a construção iminente da nação. Semeou. Cavou poços de água. Ele está a olhar para o futuro. A construção da nação não requer apenas crescimento económico. Requer uma liderança militar cuidadosa.

Yitzchak acha que os seus dois filhos vão liderar a próxima geração do povo judeu. Não há razão para pensar o contrário; são gémeos, ambos nascidos da mesma mãe. E são líderes complementares: Yaakov é o líder atencioso. Mas o poder militar não é com ele. É com Esav. Um ótimo par. Assim como Avimelech tem Phicol, o seu general, Yaakov terá Esav como seu general.

Yitzchak não pretende abençoar apenas um filho, mas ambos. Ele pretende abençoar Esav em assuntos mundanos, a força de Esav. Para complementar Yaakov, não para o substituir.

Rivka vê tudo de forma diferente. Porque ela recebeu essa mensagem quando estava grávida – duas nações, não uma. E se o povo judeu vai ser um dos meus dois filhos, não vai ser Esav.

6ª Aliá (27: 28-28: 4) Yitzchak dá a bênção a Yaakov. Esav chega logo depois. Quando o engano é descoberto, Esav fica furioso, com a intenção de matar Yaakov. Rivka insta Yitzchak a enviar Yaakov a Padan Aram para encontrar uma esposa – e salvar a vida.

A bênção, destinada a Esav, é para ter uma bênção agrícola dos Céus. E poder. Na mente de Ytzchak, o povo judeu terá que ter sucesso económico, bem como destreza militar. E essa é a bênção para Esav – um parceiro perfeito para Yaakov, o líder atencioso.

No entanto, Yaakov recebe a bênção em vez de Esav. Rivka segue os passos de Sarah: Sarah baniu Yishmael e D’us disse a Avraham para a ouvir. Rivka, à sua maneira, bane Esav. E Yitzchak sabe que no fim ela está certa; que apenas um dos seus filhos herdará a aliança, o outro não.

7ª Aliá (28: 5-9) Esav vê que as mulheres cananeias que tomou são mal vistas. Casa com a filha de Yishmael.

Esav casa aos 40 anos, como Yitzchak. Toma uma filha de Yishmael, como Yizchak casou com uma familiar. Mas não basta seguir os passos – também é necessário seguir a palavra. Ao tentar seguir os mesmos passos, ele simplesmente não entende que precisa seguir também a mesma palavra. Como tal, ele não será a próxima geração do povo judeu.

Parashat Toldot

E Rebeca escuta

Extraído do texto de Avirma Golán na Antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

Rebeca, diz o rabino Adin Steinsaltz no seu maravilhoso comentário sobre a figura da segunda matriarca («Rebeca, a ovelha branca da família»), é uma mulher assertiva, que sabe sempre o que faz. Aos olhos de Steinsaltz, Rebeca tem um «poder de visão acima dos sentidos», semelhante ao poder de profecia, conforme descrito por Maimonides.

O homem de fé deve explicar a personalidade de Rebeca da maneira mais positiva possível; caso contrário, as suas ações não seriam compreendidas, uma vez que sua preferência pelo filho mais novo  em detrimento do primogénito e o enorme engano que ela faz ao marido suscitam perguntas difíceis. Quando a base de todas as análises é que Jacob tinha que ser o terceiro patriarca, o grande líder, que o seu nome foi mudado para Israel e que as doze tribos seriam descendência sua, não há problema em apresentar Rebeca como uma grande mulher, como aquela que complementa Isaac nas suas dúvidas e na sua fragilidade.

O rabino Steinsaltz propõe uma descrição que também pode ser aceite pelo leitor não religioso, que tenta interpretar as personagens bíblicas com a luz humana que ele entende. Rebeca, diz Steinsaltz, é o oposto absoluto de Isaac: Ela cresce numa família onde não se pode confiar em ninguém, deve ser ativa e agir sempre à sua maneira. Isaac, que sempre esteve rodeado de pessoas em quem podia confiar, num mundo hierárquico ordenado, não tem consciência do mundo do mal. O próprio Steinsaltz conta a história de Rebecca a partir de um mundo de fé absoluta (onde todos os relacionamentos e as causas são divinos); certamente não está interessado em que esta interpretação não saia destes limites. E, apesar disso, é difícil não relacionar a sua aguçada percepção com figura de Rebeca pequenina, que foge do seu cruel pai, que cai do camelo com um gesto engraçado, que entra com segurança na tenda de Sara e envolve Isaac num grande amor. Esta é a Rebeca que, quando os gémeos pulam dentro dela, não se queixa aos ouvidos do marido, mas dirige-se, com surpreendente coragem, a De’s: E foi procurar De’s. Há comentaristas que dizem que foi perguntar a Abraão, que ele era o intermediário. No entanto, não é uma explicação aceitável, que se vem impôr à surpresa dos homens perante descrição e o grito dela: Se é assim, porquê a mim?

E esta é a Rebeca que sabe muito bem, com uma percepção a roçar a crueldade, que Jacob é, dos seus dois filhos, aquele que está destinado a continuar a descendência. Não apenas porque o ama tanto, mas também pela sua profunda necessidade de influenciar e estabelecer o futuro. Nesse sentido, é Rebeca, e não Isaac, o verdadeiro líder. E com o sentido de missão que ela tem e não pouca megalomania (mesmo na medida necessária para quem se atreve a mudar o curso da História), decide rapidamente, com uma frieza de espírito e uma assertividade que provoca temor e que lhe é característica, trair o marido.

E Rebecca escuta. Isaac, que cinquenta anos antes da sua morte já estava sentado em casa e temia a cada segundo que a morte, tão conhecida por ele, chegasse e o levasse com ela, não conseguia diferenciar o importante do acessório. O seu coração sentía-se atraído pelo filho diferente dele, e  dirigiu-lhe a voz com amor. O cheiro do meu filho é como o cheiro do campo, disse ele ao filho errado. Rebecca ouviu tudo. Não só o que foi dito, mas também o que era necessário dizer e também o que seria dito. Os olhos de Isaac ficaram enevoados. Talvez ele nunca tenha visto com a certeza necessaria a um líder? Mas Rebecca, por outro lado, viu tudo: O passado, o presente e o futuro.

E assim, com uma segurança que congela, ela acalmou o seu filho mimado e confuso. Sobre mim a tua maldição, meu filho, disse ela, e, assim, só ela pagou o preço.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein

Parashat Toldot

Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Conhecendo Rivka

Rivka, mãe de Yaacov e Esav

A primeira vez que a Torá nos fala de Rivka é no fim da parashá Chayei Sarah, 24: 16, onde nos é dito que Rivka era linda, virgem e recatada.

Rivka sai sozinha para pastorear o gado. Tem uma personalidade dominante e sabe o que fazer, o que se torna evidente quando o servo de Abraão lhe pede água e ela oferece-se para dar de beber aos camelos também. Não é preciso que se lhe diga o que fazer; Rivka tem iniciativa própria. Isto não contradiz as leis do recato.

Rivka é rápida e ágil. Para além disso, ao pensar nos camelos, demonstra também a qualidade de ser bondosa e de ter piedade com os animais. Vemos que não se trata de uma bondade simples, mas sim de algo fora do normal. Rivka dá de beber sozinha a dez camelos, o que é uma tarefa árdua. Não se assusta com o trabalho pesado e com o esforço por aquilo que considera correto.

Depois perguntam-lhe se ela quer ir com o servo de Abraão ou não, o que nos demonstra que já em sua casa Rivka era conhecida como alguém que tem poder de decisão, que sabe o que quer e que tem opiniões próprias; não vai atrás dos outros. Talvez isso seja o que a vai ajudar a sair do mundo de idolatria e a abandonar tudo para ir atrás daquilo em que acredita, tal como fez Abraão.

Qualidades em comum com Abraão: Rivka fala pouco e faz muito. Pratica Chessed — bondade. Acolhe os convidados, deixa toda a sua família e a sua terra e vai para a terra de Canaã.

Em resumo: Personalidade forte, decide o que é importante, tem iniciativa e sabedoria prática, sabe desenvencilhar-se sozinha, tem segurança em si própria e autoestima. Quando lhe perguntam se quer ir ou não, responde de forma direta e concisa: “Sim, irei.”

Posteriormente encontra-se com Isaac. Desce do camelo e cobre o rosto. Isto não é mero recato; a torá não obriga a mulher a cobrir o rosto. Para além disso, se o tivesse feito por recato, teria coberto o rosto durante todo o caminho que fez com o servo de Abraão que a foi buscar. Rivka cobriu o rosto para começar uma relação de respeito e romantismo com Isaac.

Com Rivka, a Torá alonga-se para nos mostrar uma relação mais romântica e carinhosa com o seu marido, até ao ponto de nos contar que Isaac estava a brincar com Rivka, coisa que a Torá não faz com o resto das matriarcas.

É a única que viveu à sombra dos três patriarcas: Abraão, Isaac e Yaacov.

Quando a sua gravidez se complica, Rivka recorre a De’s. Alguns comentaristas dizem que rezou, e outros dizem que foi consultar De’s através dos profetas (Abraão ou os filhos de Noé). Mas em ambos casos Rivka recorre a Ele. Tem emuná — fé em De’s.

No que diz respeito à sua relação com os filhos, o amor de Rivka por Yaacov supera o seu amor por Esav, o que talvez se deva ao facto de Rikva ver que Yaacov era fiel ao legado de Abraão e Isaac, enquanto que Esav era um homem comum, que corria atrás do mundo material.

Se prestarmos atenção, notaremos que Rivka não tolera esta maneira de Esav se comportar. Nunca o chama “filho meu” ou “meu filho”, enquanto que chama sempre Yaacov “filho meu”, pois é ele quem segue os ideais com os quais ela se identifica, enquanto que Esav lhe recorda mais a casa de Labão e Betuel, de onde partiu.

No entanto, Rivka não é insensível a Esav, pois sofre muito quando tem conhecimento de que ele tomou esposas canaanitas.

Mas o seu amor por Yaacov faz com que Rivka perca a sua objetividade e leva-a a impelir o seu filho a enganar o seu pai para receber a bênção paterna.

Rivka provém de uma casa de engano e idolatria, o que se verá mais claramente quando Yaacov se hospedar em casa de Labão, irmão de Rivka. Mas apesar de tudo, Rivka sobrepõe-se e consegue mudar todos esses valores. Deixa a casa de Betuel e Labão para ser uma digna mulher da casa de Abraão e Isaac e ser a mãe de Yaacov.