O Assassinato de uma Sonhadora

Karen-Yemima-Mosquera-terror-victim-10.2014-300x300Um terrorista árabe assassinou a Karen Yemima Mosquera, uma convertida proveniente do Equador, mas não conseguiu destruir todos os seus sonhos.

Por Sara Yoheved Rigler

Karen Mosquera, que nasceu em uma família cristã, no Equador, tinha 17 anos quando sua pesquisa genealógica revelou que o lado de sua mãe era descendente de “conversos”, judeus espanhóis que haviam se convertido ao cristianismo no século XV, durante a Inquisição.

“Ela nunca aceitou os ensinamentos da igreja”, diz Yael Barros, uma brasileira, a melhor amiga de Karen no programa de estudos judaicos da Cidade Velha de Jerusalém. Yael está sentada em seu quarto, ao lado da cama que costumava ser de Karen, até ser assassinada em um ataque terrorista em uma das estações de trem em Jerusalém. Um terrorista árabe acelerou com seu carro em alta velocidade em direção a uma multidão de pedestres, matando um bebê de três meses de idade e ferindo gravemente Karen de 22 anos de idade.

downloadEla lutou contra o anjo da morte por quatro dias.

“Qualquer outra pessoa teria morrido com o impacto”, atesta Sabrina, uma prima de Karen que a viu com seus terríveis ferimentos na UTI do hospital. “Mas Karen Yemima esteve extremamente determinada. Ela lutou contra o anjo da morte por quatro dias”. No domingo 26 de outubro, Karen sucumbiu aos ferimentos, e naquela mesma noite foi enterrada no Monte das Oliveiras.

“Karen Yemima não sentia que os ensinamentos da Igreja eram verdadeiros”, diz a amiga Yael. “Ela me disse que quando começou a estudar a Torá e as Mitsvot, tudo começou a fazer sentido para ela. E estava muito feliz por poder estudar a Torá, como nunca esteve antes em sua vida.”

Converter-se ao judaísmo no Equador é um processo extremamente árduo. Não há tribunais de conversão e há muito poucos de estudos judaicos, especialmente em sua cidade natal, Guayaquil. Mas Karen sempre sonhou em ir para Israel.

Como era uma jovem muito inteligente, aos 18 anos, recebeu uma bolsa de estudos integral para a Universidade de Guayaquil, e, embora passasse o dia estudando psicologia, ela permanecia acordada durante a maior parte da noite estudando o Judaísmo, pela Internet. Através de uma amiga judia, Karen conheceu, on-line, o Rabino israelense, Gabriel Geiber, que também falava espanhol. Profundamente impressionado com o interesse intenso que Karen possuía, o Rabino Geiber começou a lhe ensinar através do computador. Karen começou a cumprir as Mitsvot, rezar as orações judaicas, fazer as bênçãos sobre os alimentos e vestir-se modestamente.

Sua mãe e sua irmã mais nova seguiram o exemplo. Como muitos descendentes de cristãos-novos, a mãe de Karen, Cecilia Rosa, observava alguns costumes que só mais tarde descobriu que eram judaicos. Por exemplo, Cecilia Rosa cobriu os espelhos da casa, quando um familiar faleceu, e de acordo com um antigo costume sefardita, quando cortava as unhas ou o cabelo, os queimava ao invés de descartá-los no lixo.

Às vezes, Cecilia Rosa acordava no meio da noite e Karen estava estudando Torá. Em uma ocasião ela a ouviu rogando a D’us: “Leve-me para Israel! Este é o meu país! É aí que eu vou me casar e ter filhos, e é aí que eu vou morrer e ser enterrada”.

Há cerca de um ano e meio, Cecilia Rosa sonhou duas vezes que sua filha Karen viajava para Israel. Em seus sonhos, ela viu um avião com a palavra “Israel” estampado na lateral e Karen puxando uma mala de rodinhas em direção ao avião. Com grande emoção, contou a Karen sobre seu sonho e acrescentou: “Eu quero lhe comprar roupas recatadas o suficiente para você usar em Israel.”

Esse foi o estímulo que Karen precisava. Apesar de estar inscrita em seu terceiro ano da faculdade, Karen disse: “Mãe, eu estou indo agora cancelar minha inscrição na faculdade e viajar para Israel.” Logo depois conseguiu chegar em Jerusalém, aonde o Rav Geiber conseguiu um alojamento e a oportunidade de ela estudar na instituição Machon Roni, localizada na Cidade Velha de Jerusalém. Como sua melhor amiga Yael lembra com admiração: “Ela era tão corajosa. Deixou tudo, sua família, seus estudos e chegou, sozinha, até aqui”.

Yemima-MosqueraAs portas do céu estão abertas

Durante um ano, Karen estudou o Judaísmo enquanto trabalhava limpando casas. Dessa forma pode economizar dinheiro para trazer sua família para Israel, que era outro de seus sonhos. E, de fato, sua família realmente viajou para Israel, mas em uma viagem que não seria paga pela poupança de Karen, mas pelo Ministério de Relações Exteriores de Israel, que ajuda as famílias das vítimas do terrorismo a estarem presentes no funeral de seus entes queridos.

Cinco meses atrás, Karen se converteu, oficialmente, ao judaísmo, adotando o nome hebraico de, Yemima. Como Yael explica: “Quando uma pessoa entra no Mikve, as portas do céu se abrem. Karen Yemima naquele dia voltou tão animada ao quarto, ‘Agora eu posso pedir o que quiser! As portas do céu estão abertas!’. Era uma jovem tão alegre.”

Naquele dia, Karen Yemima publicou, orgulhosa, em sua página do Facebook: “Obrigado Hashem pelo dia em que vim para Israel! Pude ver um dos meus sonhos se tornar realidade. E eu espero estar aqui por muito tempo. Espero que minha família possa compartilhar comigo essa nova vida. Obrigado Hashem por nunca me deixar sozinha e seguir me dando forças a cada dia”.

“Karen Yemima era um exemplo para as outras meninas”, atesta Yael. Lembra de um dia em que o de estudantes caminhava junto pelo centro de Jerusalém. Tinhamos comprado sucos para tomar e enquanto corriamos para pegar o ônibus, as outras meninas murmuraram a bênção sobre o suco, antes de beber. Karen Yemima foi a única que parou no meio da calçada, fechou os olhos e deu graças a D’us com dedicação integral.”

Quando Karen Yemima e Yael tinham uma tarde livre, geralmente davam um passeio pela Cidade Velha de Jerusalém em direção ao Monte Sião. Lá elas se sentavam e observavam a paisagem: o antigo cemitério judeu no Monte das Oliveiras, onde estão enterrados inúmeros sábios judeus. Um dia, Karen Yemima exclamou: “Yael, quero morar aqui, casar aqui, ter meus filhos aqui. E eu quero morrer aqui. E eu sei que é impossível, mas podemos sonhar, certo? Meu sonho é ser enterrada no Monte das Oliveiras, porque quando o Messias vier, eu vou ser a primeiro a levantar-se para ir ao Templo Sagrado. Você pode imaginar o que seria isso?”.

Na quarta-feira 22 de outubro, Karen Yemima terminou seu serviço em uma casa e dirigia-se a uma aula de Torá. Ela desceu do trem na estação de trem de Givat HaTachmoshet e, inesperadamente, Abdel-Rahman Shaloudi, 21, que recentemente havia deixado uma prisão israelense onde havia cumprido pena por acusações de terrorismo, lançou seu carro contra uma multidão de passageiros do trem. Atropelou Karen Yemima, deixando-a gravemente ferida, matou um bebê de três meses e feriu muitas pessoas.

O terrorista destruiu o sonho de Karen Yemima de se casar e ter filhos, mas lamentavelmente seu sonho de morrer em Israel e ser enterrada no Monte das Oliveiras se tornou realidade nesta semana.

Retirado e traduzido do site Aishlatino.com

Kidush Hashem

 

Em memória das almas santas e puras do

Rabino Ehud Fogel e sua esposa Ruth

e dos filhos Yoav, Elad e Hadassa

Assassinados em Itamar

לזכרם לעילוי נשמתם של הקדושים והטהורים

הרב אהוד פוגל הי”ד ורעיתו רות הי”ד

וילדיהם יואב, אלעד והדס הי”ד

שנטבחו באיתמר יע”א

 

“Porquanto te ordeno hoje que ames a Adonai teu D’us, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Adonai teu D’us te abençoe na terra a qual entras a possuir.”

(Devarim 30:16).

Um dos textos áureos da sagrada Torá nos orienta a amar a D’us e que no seguimento de suas leis viveremos e multiplicaremos. Mas, quando vemos que se ocorre justamente o contrário? Quando em lugar de viver morremos em nome de D’us, o que seria isso? Existiria alguma mitzvá (mandamento) de morrer em nome de D’us e da Torá?

Recentemente, no dia 11 de março 2011 (6 de Adar b), uma família foi vitimada por atentado no assentamento Itamar no centro norte de Israel. Cinco integrantes da família Fogel morreram a golpes de faca por terroristas palestinos. Não que houvera um motivo aparente, se é que há algum motivo que justifique a barbárie, apenas morreram por serem judeus. Tampouco é a primeira vez na história que judeus são executados por diferanças étnicas. Progrom, inquisição e shoá já fazem parte de nosso calendário nos dias de memória de suas vítimas, de forma que tais atos já se tornaram parte da rotina do povo judeu. Todo aquele que entrega sua vida em defesa da fé e do povo judeu ou morre em atentados e progroms santificam o Nome de D’us, mitzvá shel kidush Hashem.

Rambam, Rabi Moshe ben-Maimon, trás em seu livro Mishnê Torá, nas leis básicas da Torá, capítulo 5 lei 1, que toda a casa de Israel deve santificar o nome de D’us e não profaná-lo, com está escrito: “E não profanareis o meu Santo Nome, para que Eu seja santificado no meio dos filhos de Israel. Eu sou o D-us que vos santifico” (Vaicrá22:32). Como pode ser que alguém ao mesmo tempo pode cumprir esses dois mandamentos de não profanar e de santificar o nome de D’us? O cumprimento de mandamentos (shabat, kashrut, taharat mishpacha, etc.) é uma forma de santificação do Nome Divino. O Não cumprimento destes é uma forma de profanação. Assim, um mandamento positivo santifica o nome de D’us e um mandamento negativo profana, chas vehalila (D-us nos livre). Contudo há uma situação em que o cumprimento do mandamento de Kidush Hashem não depende do cumprimento de outro.

Explica Rambam: no caso em que se levanta um não judeu para forçá-lo a infringir qualquer dos mandamentos da Torá, ou caso contrário, tal judeu deverá infringir o mandamento e preservar sua vida, como está escrito: “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Eterno” (18:5). E se preferiu neste caso sacrificar sua vida terá que prestar contas com D’us.

A alma de todo judeu é uma ferramenta de santificação do nome de D’us. O fato de somente existir faz de cada um cornetas que anunciam Sua majestade, o qual é feito por meio do cumprimento de mitzvot. Portanto, devemos sempre preservar nossas vidas para que tais cornetas sigam soando. Por isso os sábios estipularam uma halachá onde proíbe que se coloque em risco a própria vida.

Contudo, há uma situação onde o mandamento toma a posição inversa. Tráz a Guemará (Sanhedrim 72a) que há três mandamentos os quais se está obrigado a deixar-se morrer e não infringir-los, são eles: idolatria, relações sexuais ilícitas e assassinato. Ora, se a Torá nos ensina a viver pelos mandamentos como agora deveríamos morrer por eles? Este é o caso, não raro, singular no judaísmo onde se morre por D’us e esta morte é o nível mais alto de Kidush Hashem.

Como vimos antes a alma de todo judeu é uma ferramenta de santificação. Se esta alma morre já não se pode santificar a D’us, ou seja, cumprir mitzvot. Justamente estes três pecados estão em um nível tão baixo que quem os comete automaticamente mata sua própria alma. Isso porque estes vão em contra a essência da Torá. Divididos em três esferas distintas, cada pecado incorre à aniquilação da vida e ao propósito da Torá.

  • Assassinato por si só expressa a aniquilação da vida. Tirar a vida de alguém, mesmo que para salvar a sua própria, demonstra a desvalorização pelo outro. Afinal, quem disse que sua vida tem mais valor que a do outro ou poderá cumprir mais mitzvot que o outro? “… Para que vivas, e te multipliques…” quem comete assassinato impede em dobro a possibilidade de vida e de multiplicar-se.
  • Relação sexual ilícita é uma forma de morte social. Ir-se contra o modo natural e indicado pela Torá de procriação é impedir que a vida flua como se deve. O impedimento da continuidade da vida é uma forma lenta de se matar uma sociedade. A pureza familiar e chupa (matrimônio) não somente mantém o desenvolvimento do povo judeu mas também o protege, como no caso em que Bilan (Balão) trocou sua maldição por uma bênção ao ver a disposição das tentas de Israel, a qual não permitia que estas tivessem suas portas frente umas às outras.
  • Idolatria expressa a morte espiritual de cada judeu. A razão para que alguém peque e mantenha sua vida é para que siga cumprindo mandamentos. A prática de idolatria torna sem sentido essa expressão. Como poderia alguém ter em mente salvar sua vida para seguir servindo a D’us se o mais importante mandamento e base da toda a Torá (“E amarás o Senhor teu D’us com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com todas as tuas forças” – Devarim 6:8) não o cumpriu? Quando um judeu pratica idolatria ele mata sua própria alma e renega a Torá, como escreve Rambam:

“Todo aquele que pratica avodá zará (idolatria) apostata toda a Torá, todos os profetas e tudo que se decretou desde o princípio até o fim dos tempos, como está escrito: ‘desde o dia que o SENHOR ordenou até as vossas gerações’”

(Leis à idolatria cap.2:4)

Todo aquele que entrega sua vida em nome da Torá, morre em defesa do povo judeu ou é assassinado por sua condição judaica cumpre a mitzvá de Kidush Hashem, e sua recompensa é o mundo vindouro. Além do mais, seu grau é o mais elevado na esfera espiritual “resplandecendo à sombra das asas da Shechiná de D’us” (Melamed Zechut, Rav Aharon R. Charney), como nos ensina chazal (sábios de bendita memória) que “nenhuma criatura pode estar ao seu lado” (Pessachim 50).

Nos ensina a Guemará (Avodá Zará 10) que o mundo vindouro pode ser comprado no decorrer de muitos anos ou em um instante. Kidush Hashem tem como sua recompensa imediata o Olam haba (mundo vindouro). Explica Rav Itzhak Hotner (Medo de Itzhak – Promessas 25:13,14) que o mundo das almas não é suficiente para recompensar quem entregou seu corpo e sua alma, porque aí não existe corpo. Apenas com a ressurreição dos mortos e o então Olam Habá que se pode recompensar pois ai terá corpo e vida; cumprindo a lei de midá negued midá (medida por medida).

Esperamos poder santificar o Nome Divino com nossas vidas e não com nossa morte. Às famílias que tiveram parentes mortos em defesa de Israel, atentados e progroms segue nossos votos de consolo e recordo das memórias das almas santas e puras. Que D’us abençoe e console todas as famílias das vítimas em guerras, atentados e perseguições.