Parashá da Semana – Shemot

Parashá da Semana – Shemot

Parshat Shemot

Por: Rav Reuven Tradburks

O povo judeu está no Egito. Um novo faraó está preocupado com o tamanho do povo judeu. Ele decreta trabalhos forçados, infanticídio e, em seguida, o afogamento ativo dos bebés do sexo masculino. Moshe nasce e é criado em casa da filha do faraó. Depois de ver os judeus maltratados, foge para Midiã, casa, e estabelece-se lá. Aos 80 anos, Moshe encontra a sarça ardente. D’us ordena-lhe ir ao faraó e exigir, em nome de D’us, a libertação do povo judeu. Moshe, depois de tentar recusar esta missão, vai ao faraó. O faraó aumenta os trabalhos. O povo reclama.

1ª Aliá (1: 1-17) 70 Bnei Yisrael descem ao Egito. Tornam-se excessivamente numerosos, enchendo a terra. Surge um novo faraó que não conhecia Yosef. Receando que os judeus se unissem aos inimigos do Egito, ele procura diminuir a sua quantidade. A um imposto sobre o trabalho seguem-se trabalhos opressores. Em seguida, é ordenado às parteiras que matem os bebés judeus. As parteiras temem a D’us e não obedecem à ordem do faraó.

O livro de Shemot, do Êxodo, é radicalmente diferente de Bereshit. Bereshit era a história de pessoas: Avraham, Yitzchak e Yaakov, Sarah, Rivka, Rachel e Leah. Depois Yosef e os seus irmãos. E, sobreposto à história das pessoas, está o refrão Divino, “Dou-te a terra que prometi a Avraham”. É quase como uma canção com um refrão: cada pessoa é um verso, com o refrão da promessa de D’us sobre a terra a repetir-se. Avraham e sua vida, com a promessa de D’us a repetir-se. Yitzchak e sua família, com a promessa de D’us a repetir-se. Yaakov e depois a história de Yosef, com a promessa de D’us a repetir-se. Em Bereshit, as pessoas estão no centro do palco, com D’us sempre presente, mas de poucas palavras: a repetição da promessa.

Em Shemot, D’us e o homem trocam de lugar. É a história do controlo divino sobre o destino judaico. Ele é o encenador principal, e o povo judeu meros atores no palco. Ele já não não se oculta com repetidas promessas. Ele age, domina, controla, manobra. Inicia, comunica, comanda. Posteriormente, no Sinai, revela-Se.

Mas o Seu aparecimento só aconteceu quando chegámos ao fundo do poço.

O faraó age para enfraquecer o povo judeu. Ações cruéis, incluindo assassinato. As parteiras temem a D’us, recusam-se a matar. Não há menção das ações de D’us. Nós já vimos isso antes. O nome de D’us está ausente da venda de Yosef, tal como aqui. Cair, podemos cair sozinhos. No que toca à crueldade, o ser humano faz um excelente trabalho sozinho. D’us aparece quando chegamos ao fundo.

2ª Aliá (1: 18-2: 10) As parteiras defendem as suas ações perante o faraó. Moshe nasce e é colocado na água, numa cesta. A filha do faraó resgata-o. Miriam providencia para que a mãe de Moshe cuide dele. Ele é devolvido à filha do faraó e é chamado Moshe.

Quando Moshe nasceu, a sua mãe “viu que ele era bom”. E ele foi colocado na água, numa cesta. Esses 2 elementos, água e “era bom”, lembram-nos imediatamente o primeiro dia da Criação. No início, “o espírito de D’us pairava sobre as águas” (Génesis 1: 2). E quando a luz foi criada, “D’us viu a luz e eis que era boa.” Moshe a ser colocado na água e a sua mãe a ver “que ele era bom” poderia ser a maneira de a Torá nos dizer que há uma nova história da Criação a acontecer: com o nascimento de Moshe, um novo mundo amanhece para o povo judeu.

3ª Aliá (2: 11-25) Moshe amadurece. Ele sai para ver as angústias dos seus irmãos. Defende um judeu matando o seu agressor egípcio e, em seguida, salva um judeu de um agressor judeu. Foge para Midiã para salvar a vida, ajuda as filhas de Yitro, é recebido por Yitro, casa-se com Zípora e tem um filho, Gershom, “pois sou um estranho numa terra estranha”. D’us vê o sofrimento dos judeus e lembra-Se da sua aliança com Avraham, Yitchak e Yaakov.

Moshe chama o seu filho Gershom, porque “sou um estranho”. A que terra estranha se refere ele? Ser judeu no Egito? Ou ser egípcio em Midiã? Onde é a verdadeira casa de Moshe?

A história até este ponto é a história de pessoas; D’us ainda não apareceu. Num mundo sem a presença de D’us, existem pessoas boas e pessoas más. O faraó: mau. As parteiras: boas. Os pais de Moshe: corajosos. A filha do faraó: boa. A irmã de Moshe: altruísta. O capataz dos escravos egípcio: cruel. Os judeus a lutar, violentos. Yitro: hospitaleiro.

E Moshe? Sai. Preocupado. Ajuda quem precisa de ajuda. Sente angústia. Um estranho.

D’us aparece. O Seu nome aparece 5 vezes em 3 versículos. Agora tudo muda. Ou talvez não. Será que Ele orquestrou toda a atividade humana até este ponto, ou são simplesmente as pessoas a fazerem o que costumam fazer, algumas sendo boas e outras não? Ou têm sido meros fantoches na Sua Mão?

4ª Aliá (3: 1-15) Moshe e a sarça ardente. Moshe, Moshe, Hineni. D’us fala, Moshe fica intimidado. D’us diz-lhe: Vi o sofrimento do Meu povo. Salvá-los-ei do Egito e trá-los-ei para a terra do leite e do mel. Envio-te para ir ao faraó e ele libertará o meu povo do Egito. Moshe refuta: Quem sou eu para ir ao faraó? E o povo judeu vai perguntar Quem me enviou. D’us diz: Diz-lhes que foi o D’us dos seus antepassados, Avraham, Yitzchak e Yaakov, que te enviou.

Aqui, toda a história da Torá muda. D’us passa de força invisível por trás da ação humana a ditar diretamente a atividade humana. Ele diz a Moshe que tirará o povo judeu do Egito e os trará para a terra de Israel. Até agora, a terra foi prometida ao povo judeu, mas o povo tem vivido apenas com a promessa, não com o seu cumprimento. Eles não viram a Mão de D’us; detectaram-na por trás dos eventos. Como disse Yosef, “D’us trouxe-me ao Egito para salvar a família”. Ele nunca ouviu isso. Ele espreitou por trás da cortina e detectou-o.

Agora a cortina está corrida. Moshe recebe informação detalhada sobre o que acontecerá. Os judeus serão expulsos pelo faraó. A história do Êxodo do Egito é um pilar da crença judaica porque é uma exibição direta e flagrante da Mão de D’us na nossa história. É a Sua mão à vista de todos, não por trás da cortina.

5ª Aliá (3: 16-4: 17) D’us continua: Reúne o povo. Diz-lhes que os levarei para a Terra. Eles ouvirão. Vai ao faraó. Eu sei que ele não te ouvirá. Ferirei os egípcios. Saireis carregados de ouro, prata e roupas, tudo dado pelos egípcios. Moshe ainda está convencido de que as pessoas não vão acreditar nele. D’us dá-lhe sinais: o cajado transforma-se em cobra e depois de novo em cajado, a sua mão fica leprosa e depois volta ao normal. E a água transforma-se em sangue. Moshe contrapõe: Não sou bom orador. D’us diz: Sou Eu que dou a palavra ao Homem. Enviarei Aharon contigo. Ele falará. Leva o teu cajado.

À medida que Moshe ouve mais detalhes e recebe sinais para levar ao povo, vai relutantemente concordando em ser o canal humano para a Mão Divina. Ele percebe que as suas fraquezas humanas são irrelevantes; ele é apenas a marioneta nas mãos de D’us. O Êxodo do Egito não é a história de um grande líder carismático que conduz o seu povo da opressão à liberdade, exibindo o poder da vontade humana perante a injustiça. É a história da Mão Divina a guiar os eventos humanos através de um líder relutante. Esta não é a história de Moshe. É a história do Divino. Moshe relutantemente concorda com o seu papel nela, a mais importante demonstração da Providência Divina na História.

6ª Aliá (4: 18-31) Moshe recebe a bênção de Yitro para retornar ao Egito. D’us diz a Moshe que aqueles que queriam a sua morte já morreram. D’us diz-lhe para dizer ao faraó: D’us diz que Israel é o Seu primeiro filho. Deixa sair o Meu primogénito, pois se não o fizeres, matarei o teu primogénito. Zippora circuncida o seu filho. Aharon cumprimenta Moshe. Eles reúnem o povo. O povo acredita que D’us os redimirá.

D’us diz mais uma coisa a Moshe: Israel é o Meu primogénito. Como se dissesse – “Moshe, esta é uma história de amor. Eu vejo o povo judeu como o Meu amado primogénito. E a recusa do faraó resultará em punição divina.” A nossa ética ocidental fica desconfortável com estes princípios centrais do Judaísmo: a Mão de D’us na História, o amor de D’us pelo povo judeu e o castigo Divino. Como disse Rabi Sacks, z ”l,: Isso era radical nessa época, e continua radical hoje.

7ª Aliá (5: 1-6: 1) Moshe e Aharon aproximam-se do faraó, solicitando uma viagem de 3 dias ao deserto para uma celebração. O faraó recusa-se. Ele aumenta a carga de trabalho. Surge conflito entre os trabalhadores judeus e os supervisores egípcios. Os judeus criticam Moshe por o seu fardo ter aumentado. Moshe queixa-se a D’us. D’us assegura-lhe que, através de uma mão forte, o faraó deixá-los-á sair.

Moshe encontra-se com a desconfortável realidade dos seres humanos. O desdobramento do plano Divino não impede a resistência. As pessoas não abraçam o plano Divino de braços abertos. O homem deambula sem rumo enquanto o plano Divino se desdobra. Mas ele desdobra-se.

Parasha da Semana

Shemot

Pelo rabino Reuven Tradburks.

O povo judeu está no Egito.  Um novo Faraó preocupa-se com o tamanho do povo judeu. São estabelecidos decretos cada vez mais duros de trabalho árduo, infanticídio e, finalmente, afogamento ativo dos bebés do género masculino. Moshe nasceu e cresceu na casa da filha do Faraó. Depois de ver os judeus sendo maltratados, ele foge para Midian,  casa e se instala lá. Aos 80 anos, Moshe encontra o arbusto em chamas. De’s instrui-o a ir ao Faraó e exigir-lhe, em nome de De’s, que liberte o povo judeu.  Moshe, depois de  tentar  recusar esta missão, vai ao Faraó. O Faraó aumenta o peso dos trabalhos sobre os judeus. As pessoas queixam-se.   

1ª Aliá (1:1-17): 70  Bnei  Israel desceram ao Egito. Tornaram-se muito numerosos, enchendo a terra. Um novo rei que não conhecia Yosef subiu ao trono. Com medo que os judeus se juntassem aos inimigos do Egito, procurou enfraquecer o seu número. À aplicação de um imposto sobre o trabalho seguiram-se trabalhos forçados. Depois foi ordenado às parteiras que matassem os bebés judeus. As parteiras temiam a De’s e não seguiram a ordem do Faraó.

O livro de Shemot, do Êxodo, é radicalmente diferente do de Bereshit. Em  Bereshit seguimos a promessa de De’s sobre a dádiva da terra de Israel ao povo judeu. Era a história das  pessoas; Avraham, Yitzchak e Yaakov; Sarah, Rivka, Rachel e Leah. Depois,  Yosef e os seus irmãos. E sobreposta à história das pessoas está o refrão divino: «Dar-vos-ei a terra que prometi a Avraham». É quase como uma canção com um refrão: cada pessoa é um verso, com a promessa de De’s sobre terra sendo repetida como um refrão. Avraham e a sua vida, com a promessa de De’s  repetida. Yitzchak e a sua família, com a promessa de De’s repetida. Yaakov e depois a história de Yosef, com a promessa de De’s repetida. Em Bereshit as pessoas são os protagonistas, com De’s sempre presente,  mas de poucas palavras;  a promessa repetida.

Em Shemot, De’s e o Homem trocam de lugares.  É a história do controlo divino do destino judaico. Ele é o Realizador Principal, e o povo judeu,  mero ator. Já não se esconde com promessas repetidas.  Age, domina, controla, manipula. Inicia, comunica, comanda. Mais tarde, no Sinai, revela-se.

Temos que ler a narrativa perguntando-nos: este é o Homem ou este é De’s? O Homem está a agir por vontade própria, ou está apenas a parecer agir por si próprio, mas dirigido, conscientemente ou não, por De’s? Quando está Ele a guiar e quando não?  Muitas vezes é difícil dizer. 

O Faraó age para enfraquecer o povo judeu. Ações cruéis, incluindo assassinato. As parteiras temem a De’s, se recusem a matar. Não há menção às ações de De’s. Já vimos isto antes.  O nome de De’s está ausente, tanto na venda de Yosef, como aqui. O Homem faz um excelente trabalho de crueldade sozinho. De’s aparece quando chegamos ao fundo.

2ª  Aliá (1:18-2:10): As parteiras defendem as suas ações perante o Faraó. Moshe nasce, e é colocado na água, num cesto.  A filha do Faraó resgata-o. Miriam consegue que seja a mãe de Moshe a amamentá-lo.  Foi devolvido à filha do Faraó e chamado Moshe.

Quando Moshe nasceu, a sua mãe «viu que ele era bom». E foi colocado na água, embora num cesto. Estes dois elementos, água e «viu que era bom», lembram-nos imediatamente o primeiro dia da Criação. No início, «o espírito de De’s pairava sobre as águas» (Gênesis 1:2).  E quando a luz foi criada, «De’s viu a luz, que era boa». Moshe sendo colocado na água e sua mãe  «viu que ele era bom» pode ser a maneira de a Torá dizer que há uma nova história da Criação acontecendo: com o nascimento de Moshe, é criado um novo mundo para o povo judeu.

  Aliá (2:11-25): Moshe amadurece.  Sai para ver os trabalhos dos seus irmãos. Defende um judeu matando o seu agressor egípcio, e depois salva um judeu de um agressor judeu. Foge para Midian. Ajuda as filhas de Yitro, é recebido por Yitro, casa-se com Zipporah, tem um filho chamado Gershom,  «pois eu sou um estranho numa terra estranha». De’s vê o sofrimento dos judeus e lembra-se do seu pacto com Avraham,  Yitchak  e Yaakov.

Moshe dá o nome de Gershom ao seu filho, pelo significado «Sou um estranho».  A que terra estranha se refere?  Ser judeu no Egito?  Ou ser egípcio em Midian? Onde é o verdadeiro lar de Moshe?

A história até agora é a história das pessoas; De’s ainda não apareceu. Num mundo sem a presença de De’s, há pessoas boas e pessoas más. Faraó, mau. Parteiras, boas. Os pais de Moshe, corajosos. A filha do Faraó, boa. A irmã de Moshe, altruísta. Capataz egípcio, cruel. Judeus em luta, violentos. Yitro, acolhedor. 

E Moshe? Sai. Preocupado. Ajuda quem precisa de ajuda. Sente angústia, um estranho.

De’s aparece. O nome dEle aparece 5 vezes em 3 versos. Tudo muda agora. Ou talvez não. Toda a atividade humana até este ponto, foi orquestrada por Ele, ou é simplesmente as pessoas a fazerem o que as pessoas fazem, algumas boas, outras não?

4th  Aliá (3:1-15): Moshe e o arbusto em chamas. «Moshe, Moshe», «Hineni». De’s fala, Moshe encolhe-se. De’s diz-lhe: «Eu vi o sofrimento do meu povo.  Vou salvá-los do Egito e trazê-los para a terra do leite e do mel.  Vou mandar-te ao Faraó e ele vai libertar o meu povo do Egito.» Moshe refuta: «quem sou eu para ir ao Faraó? E o povo judeu vai perguntar quem me mandou. De’s diz: «diz-lhes que quem te enviou foi o De’s dos teus antepassados, Avraham, Yitzchak e Yaakov».

Toda a história da Torá muda aqui. De’s passa, de ser uma força invisível por trás da ação humana, a ditar diretamente a atividade humana. Ele diz a Moshe que vai tirar o povo judeu do Egito e trazê-lo para a terra de Israel. Até agora, o povo tinha a promessa da terra, mas tinha vivido apenas com a promessa, não com o seu cumprimento.  Eles não viram a Mão de De’s, mas sim detetaram-no por trás dos acontecimentos. Como disse Yosef: «De’s trouxe-me para o Egito para salvar a família.» Ele nunca ouviu isto. Ele olhou por trás do véu e detetou-o.

O véu é levantado. É dito a Moshe em detalhe exatamente o que vai acontecer. Os judeus serão enviados pelo Faraó. A história do Êxodo do Egito é um pilar da crença judaica porque é uma exibição flagrante e direta da Mão de De’s na nossa história. É a Sua Mão em plena exibição, não atrás do véu. 

Moshe está relutante porque  não  sabe digerir isto. Isto é diferente de qualquer outro momento, é um momento sui generis, sem precedentes. E, portanto, Moshe está reticente.

5th  Aliá (3:16-4:17): De’s continua: «Reúne o povo. Diz-lhes que os levarei para a Terra. Eles vão escutar. Vai ao Faraó. Sei que não vai me ouvir. Vou castigar os egípcios. Serás carregado de ouro, prata e roupa dos egípcios.» Moshe ainda está convencido de que o povo não vai acreditar nele. De’s dá-lhe sinais: a vara vira serpente e depois volta a virar vara, a mão vira leprosa e depois volta a ficar boa. E água vira sangue. Moshe refuta: «Não sou um bom orador.» De’s diz: «Sou Eu que dou a fala ao Homem. Vou mandar Aharon  contigo. Falará ele. Leva a vara.»

À medida que Moshe ouve mais detalhes e são-lhe dados sinais para trazer ao povo, aceita relutantemente ser o canal humano para a Mão Divina. Percebe que as suas fraquezas humanas são irrelevantes; ele é meramente um fantoche na mão do marionetista. Ah! E terá de lidar com os outros humanos – os judeus, o Faraó, – mas ele já sabe as suas respostas. Moshe embarca na mais importante exibição da Divina Providência da história.

6ª Aliá (4:18-31): Moshe recebe a bênção de Yitro para regressar ao Egito. De’s diz a Moshe que aqueles que queriam a sua morte já morreram. De’s diz-lhe para dizer ao Faraó: «De’s diz: “Israel é o Meu primogénito. Envia o Meu filho, pois, se não o fizeres, matarei o teu primogénito.”». Zippora  circuncida o seu filho. Aharon saúda Moshe. Reúnem o povo. O povo acredita que De’s os vai resgatar.

De’s acrescenta mais uma coisa a Moshe: «Israel é o Meu primogénito.» Como se dissesse: «Moshe, esta é uma história de amor. Vejo o povo judeu como o meu amado primogénito.» E a recusa do Faraó resultará num castigo divino. O nosso  ethos ocidental sente-se desconfortável face a estes princípios centrais do judaísmo: A Mão de De’s na História, o amor de De’s pelo povo judeu, e o castigo divino. Como disse o rabino Sacks,  z”l, «Era radical na altura e é radical hoje».

7ª Aliá (5:1-6:1): Moshe e Aharon dirigem-se ao Faraó, solicitando uma viagem de 3 dias ao deserto para uma celebração. O Faraó recusa. Aumenta a carga de trabalho. Surgem conflitos entre os trabalhadores judeus e os supervisores egípcios. Os judeus criticam Moshe por aumentar o seu fardo. Moshe queixa-se a De’s. De’s assegura-lhe  que, através de uma mão forte, o Faraó vai enviá-los.

Moshe encontra a desconfortável realidade dos seres humanos. O desenrolar do plano divino não impede a resistência. As pessoas  não  abraçam o plano divino de braços abertos. O Homem serpenteia enquanto o plano Divino se desenrola. Mas o plano, com efeito, desenrola-se.

Rav Reuven Tradburks é o Diretor do Machon Milton, o curso de preparação para a conversão em inglês, uma parceria do Rabbinical Council of America (RCA) e da Shavei Israel. Rav Tradburks também é Diretor Regional para Israel da RCA. Antes da sua aliá, Rav Tradburks trabalhou durante 10 anos como Diretor do Tribunal de Conversão do Vaad Harabonim de Toronto, e foi rabino comunitário em Toronto e nos Estados Unidos.

Parashat Shemot

A crise de Moisés

E consentiu Moisés em morar com o homem e ele deu Tsipora, sua filha, para Moisés. E deu à luz um filho e chamou seu nome Guershom, porque disse: «Estrangeiro sou, em terra alheia.» E foi passado muitos dias, e morreu o rei do Egito, e suspiraram os filhos de Israel por causa do trabalho, e gemeram, e subiram os seus clamores a De’s pelo trabalho. E ouviu De’s os seus clamores e lembrou-se De’s da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. E viu De’s os filhos de Israel, e conheceu-os. E Moisés estava a pastar o rebanho de Itró seu sogro, sacerdote de Midián, e levou o rebanho para trás do deserto, e veio a Choreb, monte de De’s. (Êxodo 2:21 a 3:1)

Com estes escassos versículos, a Torá fala-nos sobre a vida adulta de Moisés, a partir do momento em que sai para ver os seus irmãos até que regressa ao Egito, aos oitenta anos de idade.

Várias décadas são sintetizadas nestes três versículos. Todo o desenvolvimento espiritual e a construção do caráter do Moisés adulto são-nos ocultos. Quem é o Moisés que foge do Faraó e que é chamado perante a sarça ardente para libertar a nação de Israel? Quais são as mudanças que lhe ocorrem?

Mas antes de nos determos no conteúdo da Parasha, vamos comparar Moisés com outra grande personalidade: A de Abraão, nosso Patriarca.
Abraão também aparece na cena bíblica já na idade adulta, cheio de glória espiritual, depois de se ter transformado em Abraham Haivri, o hebreu, que vem do outro lado do rio, o escolhido pelo Altíssimo para a fundação do povo de Israel.

Embora pouco saibamos sobre estes dois pró-homens através do relato bíblico, o Midrash, no caso de Abraão, expande o nosso conhecimento, através da narração das suas aventuras em Haran e Ur Kasdim. Mas no caso de Moisés, o Midrash continua a mesma tendência bíblica da ocultação. Por quê?

A resposta está numa diferença básica entre estas duas personalidades, em relação à natureza desse período desconhecido das suas respectivas vidas. No caso de Moisés, a Torá conta-nos a sua vida «desde o berço até ao túmulo»; o silêncio na história ocorre no meio da sua vida. Conhecemos o nascimento do jovem levita, lemos sobre a sua infância no palácio do faraó e acompanhamos as suas ações de perto quando ele é um jovem que simpatiza com o destino dos seus irmãos e depois desaparece, e o texto mergulha num longo silêncio, que não se dissipa até ao seu reaparecimento várias décadas depois.

Este desaparecimento no meio da história é, portanto, parte integrante da própria história. A falta de eventos representa uma lacuna a ter em conta, o que indica o isolamento de Moisés do mundo, e a sua profunda transformação altera o curso da sua vida.

Ele não segue o mesmo caminho que seguira até àquele dia, mas está caminhando numa direção completamente nova: Afastamento e isolamento. O silêncio do texto é uma expressão da vida hermética que Moisés vive durante esses anos.

Uma análise cuidadosa da história revela-nos que o afastamento auto-imposto provém de uma crise. O que a causou e quais foram as suas consequências?

Para responder a isso, precisamos de rever o que aconteceu com Moisés antes da sua partida do Egito e o seu caráter espiritual naquele momento, como aparece no texto.

A Torá fornece-nos dois episódios: Um é o encontro com o homem egípcio que está batendo num escravo judeu, e o segundo é sobre o que aconteceu com Moisés quando viu dois judeus brigando.

Se tivermos que descrever a personalidade de Moisés com base nestes dois relatos, diríamos que é um jovem com alta sensibilidade moral, que não pode tolerar nenhuma expressão de injustiça. Uma profunda chama moral ilumina-o desde as profundezas da sua personalidade quando vê o egípcio atingindo o escravo judeu, e uma grande sensibilidade à injustiça se manifesta quando vê dois membros do povo judeu brigando.

No entanto, há uma qualidade adicional: A sua natureza sensível. Ele deve agir, por isso reage, tentando corrigir a situação: Ataca o egípcio para fazer justiça e repreende os dois judeus pela sua briga.

É importante destacar o contexto em que essas duas ações ocorrem: Até àquele momento Moisés tinha passado a sua vida no palácio do Faraó, sem que nada lhe faltasse. Conseguiu sempre tudo o que queria, não passou nenhuma necessidade, discriminação ou injustiça direcionada a ele ou aos que o rodeavam, até que enfrenta em primeira mão o sofrimento dos seus irmãos. A sua alma nobre e sensível, sem experiência nas turbulências da vida fora do palácio, confronta-o com a realidade obtusa do mundo e leva-o a uma profunda crise. Quando ele vê os dois judeus brigando, reage tentando separá-los, mas apercebe-se da profunda dificuldade de impor a justiça.

Antes dessa exposição à cruel realidade , ele nunca imaginaria uma nação tão oprimida e humilhada nas mãos de inimigos cruéis, por isso assume que é uma nação capaz de fazer tudo o que for necessário para alcançar a liberdade. Mas, ao ver a realidade socioeconómica a que foram resumidos, percebe que eles não têm nem o desejo nem a inclinação de se opor à sua situação amarga. Só encontra apatia e mais injustiça na maneira em que o povo escravizadao por um tirano vê o mundo. Estes seres que vivem em opressão reagem com desdém e zombaria às suas tentativas de impor justiça, o que aumenta em Moisés o sentimento de que nada pode ser feito e de que o que resta é desespero e depressão. Moisés tenta voltar as costas a essa realidade, fugindo para Midian, onde é confundido com um egípcio pelas filhas de Itró.

Passará um longo período até que Moisés consiga matar o seu egípcio interior, para poder se aproximar dos seus irmãos novamente. Das profundezas da sua alma ferida pela deceção, ele escolhe viver uma vida solitária, onde «leva o rebanho para trás do deserto»

E veio a Choreb, monte de De’s: A sua tentativa de isolamento confronta o seu desejo de encontrar De’s.

Não encontramos De’s na sociedade corrupta e agressiva, mas sim no deserto. É aí que Moisés encontra a espiritualidade e a sabedoria, o que lhe permitirá, sob a tutela divina, mudar a dura realidade e ser capaz de redimir os oprimidos. O único objetivo do episódio da sarça ardente é tirá-lo do seu isolamento e devolvê-lo à esfera de ação num nível histórico nacional, que é acompanhado pelo reconhecimento, por parte de Moisés, da transformação do nome de De’s, que lhe revela outra faceta do Altíssimo, Aquela que age no meio da realidade histórica da humanidade e que o acompanhará ao longo de toda a narrativa do livro de Shemot.

Autora: Edith Blaustein

Parashat Shemot

Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Brit Milá

De’s diz a Moisés que todos aqueles que queriam matá-lo já morreram, portanto já se pode encaminhar na direção do Egito. Daqui aprendemos que se De’s não lhe tivesse dito isto, ainda não teria chegado o momento para sair. Mesmo que se trate de salvar todo o povo de Israel, mesmo neste caso, aplica-se a regra “A tua vida está primeiro”.

Antes de sair para o Egito, Moisés tem um grande dilema: levar a família com ele ou não? Todos os comentaristas analisam a intenção de Moisés (que queria que presenciassem a entrega da Torá, ou que queria convencer mais o povo de Israel), mas no que diz respeito ao ato em si, todos estão de acordo em que não esteve bem. O facto de levar a família obrigá-lo-ia a deslocar-se mais lentamente, pois vemos que tem que se ocupar deles: onde dormir, levar mais coisas, etc. Se tivesse ido sozinho poderia ter dormido em qualquer lado, ao ar livre, sob as estrelas, com uma pedra a servir de almofada (como Yaacov) e não perderia tanto tempo, e isto é o que De’s lhe insinua na profecia. Quando lhe diz que veja os sinais, refere-se às dez pragas, quer dizer que lhe está a insinuar que a saída do Egito não vai ser rápida, vai levar tempo, é necessário realizar as dez pragas e tu, Moisés, ainda por cima andas devagar? Para além disso diz-lhe que o faraó não os vai libertar facilmente, e tu ainda te atrasas? Mais ainda, diz-lhe que Israel é o primogénito de De’s. Vemos várias coisas deste conceito:

Não diz que o único filho de De’s é Israel. Todos os povos são filhos de De’s. Todos são criaturas de De’s. A diferença é que Israel é o primeiro que vai proclamar De’s neste mundo, assim como o primogénito é que quem proclama “pai” a um indivíduo. Então está por surgir um povo desta magnitude, e tu demoras em libertá-los?

No que diz respeito ao tema do Brit e ao episódio em que De’s quis matá-lo, este merece uma explicação à parte. Novamente Moisés está perante uma encruzilhada: nasceu o seu filho e ele não sabe se lhe deve fazer o Brit, devido ao atraso que isto implicaria (atrasar a sua viagem ao Egito, já que a viagem é perigosa para o bebé) ou não lhe fazer o Brit e seguir caminho. Das profecias anteriores, Moisés deduziu que tinha que se apressar e não perder tempo. É por isso que decide não lhe fazer o Brit agora, e é então que De’s se zanga. É possível que Moisés tenha adoecido com gravidade (e é a isto que a Torá se refere quando diz que um anjo o quis matar).

Se analisarmos o tema do Brit Milá, quando De’s lho transmite a Abraão, vemos que o Brit consta de duas coisas:

1) Que De’s é o mais importante para nós (Elokenu), quer dizer o tema da Emuná, e

2) O mérito pelo qual adquirirão a terra prometida.

Moisés agora está a ir para o Egito, para junto dos seus irmãos, exatamente para atingir estes dois objetivos, quer dizer, transmitir-lhes a fé em De’s e levá-los para a terra de Israel; precisamente as duas coisas pelas quais se estabeleceu o Brit. E logo ele, o líder, não faz o Brit ao seu filho? É por isso que De’s não lhe deixa passar essa falha.

Por isso Tzipora atira-lhe o sangue do Brit e desse modo Moisés salva-se, tal como na praga dos primogénitos, quando o anjo da morte via o sangue na porta, não matava nessa casa, e tal como diz “De’s passou e viu-os submergidos nos seus sangues” De’s disse: “Em (por) teus sangues viverás”. Diz “sangues” no plural porque se refere ao sangue do Brit e ao do sacrifício de Pesach. (O Midrash diz que Moisés fez o Brit a todo o povo antes de sair), tal como está dito no livro de Yehoshua, que todos os que saíram do Egito tinham o Brit já efetuado.

O objetivo da missão de Moisés não é só libertar o povo fisicamente, mas sim formar um povo baseado nos princípios de fé em De’s e dar-lhes a terra que foi prometida aos patriarcas, que é exatamente o que o Brit Milá insinua.

Da escravidão à liberdade – Parashat Shemot

«E disse o faraó ao seu povo: “Eis que o povo de Israel aumenta cada vez mais e torna-se mais forte que nós. Ajamos, pois, astutamente com ele para impedir que continue a multiplicar-se, não vá acontecer que lute contra nós e consiga sair do país.” Então pôs sobre os hebreus obrigações de tributos e capatazes de trabalhos forçados, obrigando-os a edificar cidades de armazenamento para o faraó… E os egípcios obrigavam os filhos de Israel a servir com todo o rigor, amargurando-lhes a vida com pesados trabalhos de construção, com barro e com tijolos e com duros trabalhos no campo.»  (Êxodo, 1, 8-15)

Enquanto Génesis é o relato da criação do universo e do homem, o livro de Êxodo (Shemot) é o relato fiel da criação de uma nova nação.

Todos os relatos de Génesis posteriores à Criação giram em volta de personagens. No núcleo dos capítulos encontra-se sempre alguma personalidade: Adão, Caim, Noé… os Patriarcas…

Mas em Êxodo, já desde o primeiro capítulo se vislumbra o aparecimento do povo de Israel como uma entidade central. Com efeito, em Êxodo, os nomes e os detalhes dão lugar a uma nova figura: O povo de Israel.

Em Êxodo não há nomes nem individualidades, já que estes cedem o lugar à transcendência do coletivo. A geração dos grandes patriarcas desaparece, e, em seu lugar, surge o conceito de uma nova nação. Read more