Parashat Ki Tavo

Servir a D’us com alegria – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O tema de servir a D’us com alegria aparece na Torá seis vezes. Em todos os casos refere-se a situações nas quais estamos perante D’us, por exemplo Vaikrá 33:40: E alegrar-vos-eis perante o Eterno vosso D’us durante os sete dias. Devarim 12:7 diz: E comereis aí, perante o Eterno, vosso D’us, e vos alegrareis com toda a obra das vossas mãos, vós e a vossa família… Devarim 27: E te alegrarás diante do Eterno vosso D’us.

Vemos que a obrigação de nos alegrarmos ordena-se nas festas, produto de toda a abundância que D’us nos dá, e isso deve ser feito no santuário perante D’us.

Outro lugar onde nos é ordenado estarmos contentes é nas bênçãos do monte Eval e Guerizim. Fora destes casos não existe nenhum versículo que nos ordene estarmos contentes a todo o momento.

Na nossa parashá, Devarim 28:45-47 diz: Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens, por isso servirás os teus inimigos que o Eterno mandará contra ti.

As perguntas que nos surgem são:

  • Porque nos envia um castigo tão grave por não servir a D’us com alegria?
  • Por acaso alguma vez nos foi ordenado servir a D’us com alegria em todo o momento?
  • Por acaso é possível que um indivíduo, apesar de servir a D’us, seja castigado porque não o fez com alegria?
  • Aprende-se deste versículo que devemos estar alegres a todo momento?

Rambam, em Hilchot Iom Tov capítulo 6 diz: Tanto durante os sete dias de Sucot e de Pesach como no resto das festividades, é proibido pronunciar discursos fúnebres e jejuar. É dever do ser humano estar alegre e com o coração contente nesses dias. Tanto ele como os seus filhos, a sua esposa e os seus netos, e quem estiver com ele, tal como está escrito: Alegrar-te-ás na tua festaAssim, oferece-se por exemplo guloseimas às crianças, o marido oferece joias e roupas à mulher de acordo com o seu poder de compra, e os homens comem carne e bebem vinho, pois não há verdadeira alegria sem carne e vinho.

De aqui vemos claramente a obrigação de estarmos alegres nos dias festivos. No entanto, o próprio Rambam mais à frente diz: Quando um homem bebe, come e se alegra nas festas, não deve exagerar a beber vinho, nem se entregar à libertinagem, nem à gargalhada desmedida, pensando erradamente que quanto mais se entregar a tudo isto melhor estará a cumprir o preceito de se alegrar. Pois a embriaguez, a gargalhada desmedida e a libertinagem não são chamados regozijo, mas sim tolice e falta de bom senso. E não é isso o que nos foi ordenado, mas sim uma alegria onde existe regozijo pelo serviço divino, tal como está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens.» Disto se aprende que apenas se deve servir a D’us com alegria. E não é possível servi-Lo estando com atitudes vulgares ou desavergonhadas, ou estando embriagado.

Deste último parágrafo, Rambam não está necessariamente a legislar que se deve estar contente a todo o momento, mas sim que, nos momentos em que se deve servir a D’us, devemos estar num estado de regozijo que permita o serviço divino, não no estado de insensatez.

Mais adiante, Rambam volta a referir-se a este tema, em Hilchot Sucá VeLulav capítulo 8:15, e diz: A alegria que uma pessoa obtém ao cumprir os preceitos e amar a D’us, que os ditou, é uma maneira sublime de servir a D’us. Quem se abstiver deste regozijo merece castigo, pois está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com o coração contente.» Aquele que, mergulhado na sua arrogância, insiste em preservar o seu porte e a sua seriedade, considera-se um pecador e um tonto. A isto se referiu o rei Salomão ao dizer, em Provérbios: «Diante do Rei não te engrandeças.» Por outro lado, aquele que renuncia à sua honra perante D’us e não age de forma pedante, nem se honra a si próprio, esse é o indivíduo honorável, e de alta estima, que serve a D’us com amor, tal como disse David, rei de Israel, a Mical, que o recriminou por dançar diante da multidão, diante da arca de D’us. Samuel 26: 22: «Tornar-me-ei mais insignificante do que isso, humilhando-me muito mais.» Não há grandeza nem honra verdadeira se não aquela que se atinge regozijando-nos perante o Eterno.

Aqui Rambam não diz que é uma ordem servir a D’us com alegria; diz que é uma maneira sublime de servir a D’us. Outro ponto que se aprende com este parágrafo é que quem se abstiver deste regozijo merece castigo, pois está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com o coração contente.»

O motivo pelo qual merece um castigo é porque coloca a sua própria honra antes da de D’us. Quer dizer, por guardar o seu decoro e a sua postura, prefere não se alegrar perante D’us.

Existe outro texto no qual Rambam volta mencionar este tema, e é em Hilchot Teshuva: A Torá assegura-nos que, se a cumprirmos com alegria e bem predispostos e estudarmos sempre a sua sabedoria, então D’us preservar-nos-á de todos os impedimentos que nos impossibilitariam de a cumprir, tais como doenças, guerras… Por outro lado, a Torá adverte-nos que, se a abandonarmos de propósito para nos ocuparmos das vaidades deste mundo, o Juiz Verdadeiro privar-nos-á de todos os prazeres deste mundo…

Neste parágrafo, Rambam sublinha que quem serve a D’us com alegria será recompensado. No entanto, não diz que é uma obrigação servi-Lo com alegria. Por outro lado, diz que quem abandonar a Torá e   for atrás das vaidades deste mundo será castigado. Temos que ter atenção, pois não diz que será castigado quem não O servir com alegria.

Em conclusão: Em todos os textos onde Rambam analisa este ponto, vemos que não diz que é uma obrigação servir a D’us com alegria. Diz que quem assim o fizer é digno de louvor, mas em lado nenhum diz que é uma obrigação.

Mas, apesar de tudo isto, o versículo é categórico e proclama que receberão um castigo grave pelo facto de não terem servido a D’us com regozijo. No entanto, é impossível supor que a Torá imponha um castigo sem antes nos ter advertido ou dado uma ordem a esse respeito. O que temos que analisar é onde a Torá nos ordenou servi-Lo com alegria. Talvez não tenha utilizado estas mesmas palavras, mas referiu-se a isso.

Há comentaristas que dizem que o versículo que estamos a analisar deve ser entendido da seguinte maneira: «Porque não serviste a D’us quando gozavas de todo o bem estar, quando estavas em alegria, então perderás tudo isso». Quer dizer, devido ao facto de estares a usufruir dos prazeres deste mundo, e de teres tudo para servir a D’us, abandonaste-O e não O serviste, então mereces castigo.

É similar ao que disse Rambam: A Torá adverte-nos que, se a abandonarmos de propósito para nos ocuparmos das vaidades deste mundo, o Juiz Verdadeiro privar-nos-á de todos os prazeres deste mundo. A diferença é que Rambam diz que tudo isto acontece no caso de ser feito de propósito, enquanto os demais comentaristas defendem que isto será assim mesmo que seja feito sem querer, quer dizer, por estar mergulhado na alegria, esqueceu-se de D’us.

De acordo com estes comentaristas, o versículo, em vez de se ler:

Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens,

Deve ler-se:

Porque não serviste a D’us quando estavas com alegria e com o coração contente quando tinhas abundância de bens.

Talvez exista a possibilidade de que a Torá nos tenha sim advertido para servirmos a D’us com alegria.

Em Devarim 10:12: Servir ao Eterno, teu D’us, com todo o teu «lev» (coração) e com toda a tua «nefesh» (alma)

Em Devarim 11, o segundo parágrafo do Shemá, também diz: Para servi-Lo com todo «levavchem» (o vosso coração), e com toda «nafshechem» (a vossa alma).

EmDevarim 26: E cuidareis e cumprireis os mandamentos, com todo o teu «lev» (coração), e com toda a tua «nefesh» (alma)

Em Devarim 30 diz: Escutarás as Suas palavras (…) com todo o teu «lev» (coração) e com toda a tua «nefesh» (alma)

De todos estes versículos, podemos ver que, na realidade, a Torá diz-nos sim como servir a D’us: Com todo o «lev» (coração), e com toda a «nefesh» (alma). Por tanto, poderíamos concluir que quando diz: Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente, isto é sinónimo de: Com todo o teu «lev» (coração), e com toda a tua «nefesh» (alma)

Parasha Ki Tetze

E eliminarás o mal do meio de ti – retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe.

Na Torá, este termo aparece 11 vezes, todas no livro de Deuteronómio.

  1. A primeira vez é com o filho rebelde 
  2. Depois com uma mulher que se prostitui estando comprometida e quando ainda vive na casa do seu pai
  3. A terceira vez é o caso de um homem que comete adultério com uma mulher casada
  4. A quarta, quando uma mulher comprometida se deixa violar e não faz nada para o impedir.
  5. A quinta é quando sequestram alguém e o vendem como escravo.
  6. Na parashá Ree aparece este termo quando se refere a um falso profeta
  7. Na parashá Shoftim é utilizada esta palavra para se referir a um idolatra
  8. Outra quando desobedece ao máximo tribunal de justiça
  9. Também sobre aquele que mata e vai buscar resguardo numa cidade de refugio
  10. É utilizado novamente quando as testemunhas conspiram para inventar uma acusação falsa contra outro indivíduo 
  11. Por último quando se encontra o cadáver de alguém no caminho e não se sabe quem o matou

Todos os casos que a Torá define como mal têm a ver com idolatria, transgressões sexuais graves, adultério e assassinato. 

O resto dos casos:

Aquele que não ouve os pais

Aquele que não ouve os sábios

Aquele que se revolta contra o tribunal de justiça

Falso testemunho 

O sequestrador 

Na realidade podemos notar que cada um destes casos está relacionado com os Dez Mandamentos.

É por isso que a Torá faz tanto finca-pé em eliminar este mal; pois vai contra as coisas pelas quais estabelecemos um pacto com De’s.

Assim, vemos que o assassinato, o adultério e o roubo/ sequestro estão literalmente proibidos nos Dez Mandamentos. Também a idolatria, o filho rebelde que não respeita os pais e os falsos testemunhos.

Este é o motivo pelo qual a Torá insiste tanto nestes temas e exige que sejam extirpados do acampamento.

O que vem fortalecer ainda mais esta ideia é o facto de, em Deut. 12:11 dizer: Por quanto ele te afasta do Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão. Porque se alonga tanto este versículo? Teria sido suficiente dizer apenas: Por quanto ele te afasta do Eterno. Vemos que se alonga de propósito, utilizando as mesmas palavras usadas no primeiro e segundo mandamentos: Eu Sou o Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão.

De acordo com a concepção da Torá, o mal não é só aquilo que perjudica a sociedade, mas sim também aquelas coisas que não prejudicam os outros, mas que a Torá considera igualmente graves, como por exemplo relações sexuais proibidas tidas de mútuo acordo.

Porquê no livro de Deuteronómio aparecem todas estas coisas?

Porque é o livro que mais nos fala e sublinha o pacto com De’s, e aquilo que mais representa este pacto são os Dez Mandamentos; é por isso que aqui se alonga e nos faz notar a gravidade destes temas.

Parashat Shoftim

Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Analisemos o episódio em que Israel vai pedir para ter um rei. Para isso, devemos ler no livro de Samuel 1, capítulo 8, versículos 4 a 7: E ocorreu que se reuniram todos os anciãos de Israel e vieram a Samuel em Ramá e disseram-lhe: — Eis que tu envelheceste e os teus filhos não andam nos teus caminhos. Portanto, põe sobre nós um rei que nos julgue, como os demais povos. — E foi mau aos olhos de Samuel quando disseram: «Dá-nos um rei que nos julgue.» E implorou Samuel a De’s, e disse o Eterno a Samuel: Faz tudo o que o povo te pediu, pois não é a ti que desprezaram, mas sim a Mim que desprezaram para Eu reinar sobre eles.

Em primeiro lugar, devemos saber que um rei é algo louvável. Vemos isto quando De’s abençoa Abraão e Jacob e diz-lhes que deles sairão reis. Portanto, se De’s lhes assegura que sairão reis de entre os seus filhos quando lhes promete uma grande descendência, então isto é sinal de que se trata de algo bom.

Em segundo lugar, se colocar um rei é um preceito da Torá, então tem que ser algo bom; a Torá não pode ordenar que façam algo mau.

Então porque Samuel se zanga tanto? Porque é mau a seus olhos que o povo peça um rei? Ao fim e ao cabo, estão a fazer o que a Torá disse…

Pedir um rei quando não há um (um líder), isso é algo bom e positivo, mas pedir um rei quando já existe alguém que cobre essas funções (neste caso Samuel), isso é algo mau. Esta é a razão pela qual Samuel se zanga.

É por isso que De’s diz a Samuel que não se zangue, pois não é a ele que desprezaram, mas sim a De’s, que reinava sobre eles através do seu profeta Samuel (como acontecia com Moisés)

Aparentemente, o texto que aparece em Samuel é quase literalmente igual ao da Torá. Eles estão a pedir tal e qual como a Torá disse: Quando tiveres chegado à terra que o Senhor vos dá, e a tiverdes em possessão, e habitardes nela e disserdes: «Porei para mim um rei como todas as nações que estão ao meu redor», pôr, porás, sobre ti por rei, aquele que o Senhor teu De’s escolher.

Aparentemente, isto é exatamente o que o povo pediu a Samuel: Eis que tu envelheceste e os teus filhos não andam nos teus caminhos. Por isso, põe sobre nós um rei que nos julgue como os demais povos.

Se nos detivermos a analisar, veremos que há uma palavra a mais, que é o que faz mudar radicalmente a intenção que o povo tem ao pedir um rei. Quando vão falar com Samuel, apesar de pedirem ter um rei e de utilizarem as mesmas palavras mencionadas na Torá, desta vez acrescentam uma palavra: Para que nos julgue como as demais nações. E se prestarmos atenção, veremos que o versículo diz que o que incomodou Samuel foi: E foi mau aos olhos de Samuel quando disseram: «Dá-nos um rei que nos julgue

O povo queria um tipo de governo laico, que os julgasse de acordo com um sistema de leis criado pelo seu rei, como o resto dos povos, e não de acordo com as leis da Torá.

Quer dizer, eles queriam ser como os demais povos. O motivo pelo qual eles pedem um rei não é porque faltava um líder que fizesse justiça e ordem no povo, pois já tinham alguém que cumpria essa função. O motivo deles era ter um sistema governamental como os demais povos. Não gostam do sistema da Torá; eles preferem trocar o reinado e estatutos de De’s pelo reinado e ordens de um ser humano.

Ao desprezar as leis da Torá, estão a desprezar a De’s, e é isso que De’s diz a Samuel. Não foi a liderança de Samuel que eles repudiaram, mas sim os estatutos de De’s.

De’s aceita que eles coloquem um rei, pois, como vimos na Torá, é um preceito, mas o que não tolerará nem permitirá é que esse rei os guie segundo regras e leis diferentes da Torá.

O motivo pelo qual não se tinha designado um rei até àquele momento é porque, durante todo o tempo dos profetas ou dos juizes, eles exerciam esse cargo e portanto não tinha cabimento pedir um rei. No momento em que não houvesse um juiz ou um profeta, então aí o povo deveria pedir um rei que os conduzisse, sempre pelos caminhos que De’s lhes designou. 

Parashat Ekev

Parashat Ekev

Ser ou Ter – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

  • O que é a Tefilá (Oração)?
  • É a expressão dos meus sentimentos para com De’s?
  • Então porque tem horários e textos fixos? Deveria ser completamente espontânea, quando eu precisasse e com as minhas próprias palavras.

Para entender a essência da Tefilá, devemos saber que, para o judaísmo, a fé não é um sentimento espontâneo, nem uma questão de acreditar ou não acreditar.

A fé é a força, a disciplina e o caminho para descobrir De’s. Uma arte que cada um deve desenvolver segundo o seu potencial espiritual.

A Tefilá é o instrumento da fé que nos desperta da rotina e nos faz ver a manifestação Divina nas coisas naturais.

A natureza é um conjunto de milagres, de manifestações de De’s que sucedem periodicamente.

Por acaso a aurora e o crepúsculo deixam de ser um milagre só porque se repetem diariamente?

O judeu entende que não, e todos os dias, de manhã e à noite, abençoa e reconhece a intervenção divina no nascer e no pôr do sol, observando nestes fenómenos naturais a perfeita harmonia que Ele impõe no Seu universo.

A prática constante destes exercícios capacita o judeu para descobrir De’s nas coisas de todos os dias.

Certa vez, o neto de Rabi Baruch estava a brincar às escondidas com outro menino. Escondeu-se e permaneceu no seu esconderijo durante um longo tempo, acreditando que o seu amigo procuraria por ele.

Por fim saiu e comprovou que o seu amigo se tinha ido embora sem ter procurado por ele, de modo que se tinha escondido em vão. Então correu para o escritório do seu avô e, entre lágrimas, queixou-se do seu amigo.

Depois de ouvir a história, Rabi Baruch rompeu em pranto e disse: – Também De’s diz Eu oculto-Me, e não há quem Me procure.

De’s esconde-se à espera que O descubramos, que O admitamos na nossa vida.

E quando percebemos que Ele se oculta, já O começamos a descobrir.

Mas para isso precisamos de poder dispor de tempo diariamente para poder meditar neste assunto. Infelizmente, a rotina louca na qual vivemos não nos deixa tempo para o que é verdadeiramente importante. O nosso trabalho ou a necessidade de sustento às vezes impede-nos de nos podermos dedicar àquilo que é mais importante.

Ser ou ter. O grande dilema. Dedico-me ao meu enriquecimento interior ou ao meu enriquecimento material? Somos valorizados pelo que somos ou pelo que temos?

Uma vez, um famoso rabino que vivia muito modestamente recebeu na sua casa a visita de uma das pessoas mais ricas da Europa, que se encontrava de passagem por essa cidade. O rabino era um erudito de renome, e a sua sabedoria era tão conhecida, que o milionário não quis deixar de aproveitar a oportunidade de o conhecer. Ao entrar na casa do rabino, ficou muito surpreendido ao ver que se tratava de apenas um cómodo, bastante escuro e com poucos móveis. Depois de conversar com o rabino e de se deleitar com a sua sabedoria, não pôde deixar de lhe perguntar: –  Rabino, o senhor é um dos maiores eruditos da nossa época. Porque vive de uma maneira tão precária? Porque não se muda para uma casa melhor, mais bonita, mas de acordo com aquilo que o senhor merece? – O rabino preferiu evitar responder naquele momento, mas prometeu responder no próximo encontro, que seria no quarto de hotel onde o rico visitante estava a hospedado.

Passados poucos dias, o ilustre rabino apresenta-se no hotel, e o rico convida-o a entrar no seu quarto. Aquele quarto, como todos os daquela época e naquela pequena cidade, era um quarto pequeno, com uma cama e um armário, sem casa de banho privativa. O rabino franziu o sobrolho e, espantado, perguntou ao milionário: – Diga-me, bom homem, como uma pessoa como o senhor pode viver num lugar tão precário como este? O senhor fala de mim, mas eu, para além da cama e do armário, tenho mesa e cadeiras, e para além disso, tenho casa de banho privativa… – A resposta daquele homem tão importante não se fez esperar:

– Rabino, acho estranha a sua pergunta. O senhor bem sabe que eu me encontro de passagem por este lugar. Não me incomoda hospedar-me num quarto assim durante a minha curta estadia por aqui. – O rabino sorriu e respondeu:

– Eu sabia que uma pessoa inteligente como o senhor iria estar de acordo comigo. Eu penso exatamente como o senhor, e é por isso que vivo onde vivo. Eu também estou de passagem por este mundo, que é apenas um corredor para o mundo verdadeiro. É por isso que não quero dedicar todas as minhas forças e o meu dinheiro a um lugar onde estou de passagem.

Depois de um tempo, o rabino encontrava-se de visita à cidade onde vivia aquele abastado homem, que, com muito gosto, o convidou a conhecer a sua casa. Ao entrar no magnífico palácio, o rabino deteve-se a observar as grandes obras de arte e os maravilhosos detalhes decorativos tão valiosos, mas, de repente, voltou-se para o seu anfitrião e ficou a olhar atentamente para ele, como se nada existisse ao seu redor. O milionário olhou para ele e disse: – Que se passa, Rabino? Viu algo de que não gostou? Então o senhor não me ensinou que tudo isto não é importante, e que estamos de passagem pela vida? – O rabino respondeu:

– Continuo a pensar o mesmo. Não mudei o meu ponto de vista. Só que, ao entrar na sua mansão, eram tantas as coisas belas para observar, que deixei de lhe prestar atenção a si, ao que o senhor é, e dediquei-me a prestar atenção ao que o senhor tem. Quando reparei nisso, pensei que deve ser muito triste convidar alguém, e o convidado, em vez de prestar atenção ao seu anfitrião, se dedicar àquilo que este tem. Por isso interrompi essa postura tonta e dediquei-me ao senhor, como se nada mais existisse. Mas quando as pessoas vêm visitar-me à minha humilde casa, não tenho dúvidas de que o fazem porque é a mim que valorizam. Na minha casa não há nada para ver, mas quando vêm visitar o senhor no seu palácio, é realmente a si que querem visitar? É a si que desejam ver? Ou às suas posses?

O ser humano não transcende na vida pelo cargo ao qual chegou na sua passagem pelo mundo. O Homem não se realiza como tal por acumular mais riquezas ou nobreza. Devemos dedicar tempo e esforço ao nosso enriquecimento inteletual, ao nosso crescimento espiritual, pois é isso o que verdadeiramente perdura.

Assim como o corpinho de um bebé é pequeno e precisa de cuidados e de alimentação, a alma, ao vir ao mundo, também é pequena e precisa de cuidados e alimento. O bebé é alimentado com leite, depois purés de legumes e depois carnes, mas a alma não se alimenta de sanduíches nem de batatas fritas. Se não alimentarmos o bebé, ele não crescerá, ficará doente e morrerá. Do mesmo modo, se não alimentarmos a alma, ela não cresce, não se desenvolve, fica doente e morre.

Como alimentamos a alma? A alma alimenta-se das mitzvot (preceitos). Ao cumprirmo-las, não só a alimentamos e a fazemos crescer, como conseguimos transcender na vida. A alma é o que fica quando o corpo se vai.

Para expressar isto numa fórmula matemática poderíamos afirmar: Alma = Eu – O meu corpo.

Mas se nunca nos dedicarmos ao cuidado ou nutrição da nossa alma, então, muito antes do corpo morrer, a alma que estava dentro dele já terá morrido. A alma não é um ser que vive incondicionalmente. A alma também morre, desaparece. Por isso devemos cuidá-la, dedicar-lhe tempo. Não é necessário que seja todo o tempo das nossas vidas, mas pelo menos que seja um pouco…

É melhor viver de um modo mais simples do ponto de vista material, reduzindo um pouco mais os luxos, para poder dedicar mais tempo à parte espiritual. Por tanto, tenhamos um momento diariamente para a nossa alma, preocupemo-nos por crescer todos os dias, assistindo a algum curso de judaísmo, meia hora por dia. Diminuamos um pouco a nossa dedicação àquilo que é material e enchamos a nossa alma de conteúdo, tal como diz o ditado «Não há pobre mais pobre do que o pobre em sabedoria e conhecimento».

Parashat Vaetchanán

Parashat Vaetchanán

Objetivo do discurso de Moisés – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Esta parashá fala de muitos temas e é difícil estabelecer a relação entre eles. Qual é o fio condutor?

1º Parágrafo:

Servir a De’s. Não fazer figuras ou imagens de De’s. Não se trata de acreditar noutros deuses; refere-se a não dar formas ou imagens físicas a De’s, mesmo que o façam sem maldade e apenas por engano. Por isso devem recordar o momento em estiveram no monte Sinai, pois lá não viram imagem alguma.

2º Parágrafo:

Aqui diz-nos o que é que lhes sucederá se agirem contra De’s e fizerem idolatria. Faz alusão a um futuro quando se esquecerem de De’s e forem contra Ele, atrás de ídolos, abandonando-O. É por isso que lhes volta a repetir os Dez Mandamentos; para lhes recordar que só o Senhor é De’s. Não há outro fora dEle. Para que o indivíduo possa retornar do seu mau caminho, primeiro deve analisar a sua história e chegar a esta conclusão: Existe a possibilidade de voltar ao bom caminho. Uma vez que esta premissa estiver clara, então cuidará dos mandamentos de De’s.

3º Parágrafo:

Fala-nos acerca das cidades de refúgio. Entre os povos de Canaã, a vida não era muito valorizada. Vemos isto quando Abraão temia que Avimelech o matasse para ficar com a sua esposa, Sara. Agora que vão entrar na terra de Canaã, não devem adquirir essa má qualidade. É por isso que Moisés sublinha a importância de salvar a vida e fazer o que estiver nas nossas mãos para não ser derramado sangue inocente.

4º Parágrafo:

Até agora não lhes tinha dito quais eram os chukim e mishpatim. (No 1º parágrafo diz shemá el haChukim; agora diz shemá et haChukim.). Tinha falado em forma geral, agora fala de forma mais específica. A partir de agora vai especificar os preceitos. Moisés dá testemunho de que esteve entre eles e De’s no monte Sinai: Acreditastes em mim para eu ser intermediário entre De’s e vós. E comprometestes-vos a cumprir os preceitos, que são o vosso próprio bem.

5º Parágrafo:

Os Dez Mandamentos.

6º Parágrafo:

Moisés diz que se constituiu o intermediário entre o povo e De’s. Apesar de os Dez Mandamentos terem sido ouvidos pelo povo mais de perto, o resto dos preceitos e chukim também foram dados por De’s por intermédio de Moisés.

7º Parágrafo:

O Shemá Israel. Fala-nos de conhecer De’s, da unicidade de De’s de amar De’s com tudo o que possuímos. No parágrafo anterior falou-nos do básico e do que devemos fazer, mas agora diz-nos o principal, o resumo de toda a Torá.

8º Parágrafo:

Com todo o bem que há na Terra, não devemos esquecer-nos de De’s. Quando podem começar os problemas? Historicamente, o povo de Israel afasta-se de De’s e dos Seus preceitos quando está bem e não lhe falta nada.

9º Parágrafo:

Fazer o correto aos olhos de De’s para que a vida lhes corra bem. Outro motivo que os pode desviar é não fazer o correto perante De’s, quando são desconfiados e pedem provas da existência de Deus.

10º parágrafo:

Quando nos perguntarem para que são os preceitos, devemos responder que são para o nosso bem. É por isso que se deve explicar o sentido dos preceitos, o que há por trás dos preceitos, pois se estes se transformarem em algo técnico e ritual, sem haver entendimento da sua sabedoria, transformam-se numa carga e são desprezados.

11º parágrafo:

Não se assimilar aos povos da terra, mas sim destruí-los. Devem ser fiéis a De’s, pois estabelecemos um pacto com Ele e jurámos-Lhe fidelidade. O perigo é a assimilação. No que diz respeito aos povos idólatras, se eles não desejarem abandonar os deuses pagãos, então a solução dada é destruí-los. Por outro lado, recordar e ser fiéis ao pacto com De’s, pois são o povo escolhido.

Em resumo: Fala-nos das coisas que são importantes, que perigos esperam o povo de Israel e como os evitar.