Tomem esta, Inquisidores!

A rainha Isabel da Espanha deve estar dando voltas na sua sepultura.

Após cinco séculos que a déspota espanhola pretendeu apagar todos os vestígios de vida judaica na Península Ibérica, um crescente número de descendentes de suas vítimas está agora emergindo das sombras, buscando reivindicar a sua herança a tanto tempo perdida..

Uma destas pessoas é Nuria Guasch Vidal, cujos ancestrais foram forçados à conversão para o Catolicismo na Espanha. Correndo um grande risco, seus ancestrais preservaram secretamente a sua estimada, ainda que oculta, identidade judaica. Transmitindo-a de geração em geração, clandestinamente desafiando a Inquisição Espanhola e seus sequazes.

Como uma criança, crescendo próximo à Barcelona, Nuria nunca entendeu exatamente porque a sua família não comemorava Natal ou ia à igreja como os seus vizinhos; ou porque em todas as noites de sexta-feira eles arrumavam a mesa de jantar de maneira especial e tocavam o pão no sal antes de comê-lo no início da refeição.

Somente quando o seu avô de oitenta e oito anos de idade, no seu leito de morte, puxou-a a um lado é que Nuria começou aprender a respeito da verdade sobre a sua família e seu passado.

Depois de firmemente instruí-la para não permitir a entrada de nenhum padre no quarto uma vez que ele estivesse morto, o avô de Nuria disse criptamente: “Eu quero que medites sobre a tua herança e penses por ti mesma. Então encontrarás a resposta para todas as perguntas que tens estado perguntando. É teu dever retornar.”

Para Nuria, aquelas palavras tiveram um profundo impacto na sua vida, impulsando-a numa missão de autodescobrimento. Sua pesquisa e persistente indagação com outros familiares deixaram pouca margem a dúvidas: seus ancestrais foram judeus. E se não fosse pela perseguição que tiveram que enfrentar nas mãos da Inquisição, teriam permanecido como tal.

Quem sabe quanto sofrimento e trauma eles foram forçados a enfrentar, vivendo publicamente como católicos mas secretamente como judeus, rodeados por hostilidade, antagonismo e ódio declarado?

Através dos registros da Inquisição, nós sabemos que os seus praticantes usaram uma variedade de métodos covardemente projetados para descobrir e acabar com qualquer cinza judaica na Espanha. Tortura, informantes, denúncias e execuções públicas eram parte do reinado de terror que eles infligiam sobre qualquer suspeito de “reincidência” no Judaísmo.

De acordo com o historiador Cecil Roth, mais de trinta mil judaizantes foram executados pelos fanáticos da Inquisição na Espanha e Portugal, muitos deles queimados vivos numa estaca diante de animadas multidões de espectadores, enquanto que centenas de milhares de outros foram julgados e condenados pelas cortes da Inquisição por seguirem costumes judaicos.

A maioria das pessoas provavelmente não imagina, mas a Inquisição continuou funcionando por séculos, caçando e perseguindo “judeus secretos” em lugares tão distantes como Angola e América do Sul. Foi somente no século XIX que as perseguições foram formalmente  encerradas.

“Desde o início da história, talvez,” escreve Roth na sua obra, História dos Marranos (A History of the Marranos), “ em nenhum lugar na face da terra uma perseguição tão sistemática e tão prolongada tenha sido perpetrada por uma causa tão inocente.”

No domingo passado, contudo, a triste e trágica jornada dos ancestrais de Nuria finalmente chegou a um final feliz. Juntamente com o seu esposo, Nuria apresentou-se perante uma corte rabínica, que formalmente recebeu-os de volta ao povo de Israel.

Nuria estava determinada a trazer de volta à vida aquilo que Fernando e Isabel, os monarcas da Espanha no século XV, quiseram destruir através da Inquisição e da expulsão.

O seu retorno ao Judaísmo foi o auge de uma busca espiritual, que conduziu-os ao estudo com um rabino ortodoxo em Barcelona, que aceitou e recebeu-os  com cordialidade e compreensão.

Lentamente mas com certeza, eles fizeram do Judaísmo o ponto focal de suas vidas, adotando os rituais e o estilo de vida de judeus tradicionais. Eles agora freqüentam regularmente a sinagoga, observam o Shabat e comem comida kasher.

Nuria até mesmo organizou um grupo local de ativistas, que tomou para si a ingrata tarefa  de defender o bom nome de Israel na mídia espanhola local, onde o Estado Judeu é atacado com freqüência e bastante ferocidade, por seus críticos.

Após a corte rabínica aceitá-los, Nuria decidiu tornar-se “Nurit” e Edward tomou o nome de “Itzhak”, inspirado no patriarca bíblico que quase foi sacrificado no altar, sendo salvo no último momento pela intervenção Divina. Edward não poderia ter escolhido um nome mais apropriado.

Quando vi a Nuria no dia seguinte, ela estava no Muro das Lamentações, seus olhos cheios de lágrimas. A primeira coisa que ela fez quando aproximou-se à antiga relíquia do Templo Sagrado, contou ela, foi tocar as suas pedras. Ela então lançou o seu olhar ao céu e falou para o seu avô: “Eu consegui, vô! Eu retornei! Eu sou judia!”

Escutando esta estória, fiquei muito comovido. Que maior testamento poderia haver para a força da alma judaica, para o eterno e inquebrantável espírito da pintele Yid, a centelha judaica que nunca pode ser extinguida?

Através da Espanha e do resto do mundo hispânico, há incalculáveis milhares, possivelmente mais, que ainda carregam esta centelha com eles, desejando com intensidade retornar para o seu povo, voltar para a casa novamente, para a fé e a crença que tão cruelmente foram-lhes arrancadas através dos séculos.

O povo judeu deve isto a eles e a seus ancestrais, reconhecer a angústia e o sofrimento por eles enfrentados e facilitar o seu retorno ao Judaísmo.

Os descendentes dos Anussim (palavra hebraica que significa: “aqueles que foram forçados”) estão lutando com profundas questões de identidade, história e fé. Eles não devem ter que fazê-lo sozinhos.

Especificamente, há uma série de passos que podem e devem ser tomados para ajudá-los, incluindo a publicação de mais material em espanhol sobre tópicos judaicos, a abertura de pequenas e acessíveis bibliotecas judaicas através da Espanha e aumentar a atenção sobre eles entre rabinos e líderes comunitários para assim facilitar a sua reintegração nas comunidades judaicas.

Israel deveria também considerar o estabelecimento de um memorial nacional às vítimas da Inquisição e deveria pressionar o governo espanhol para fazer o mesmo. Esta seria uma medida altamente simbólica, contudo importante. A qual iria tanto educar as futuras gerações sobre o trauma da Inquisição, como conceder às suas vítimas o reconhecimento que tão justamente merecem.

Quando tantos jovens judeus estão abandonando suas raízes, Israel tem agora uma oportunidade de recuperar os inumeráveis irmãos a tanto tempo perdidos. Da Espanha ao Brasil e ao sudoeste dos Estados Unidos, o número de Anussim surgindo abertamente está aumentando rapidamente.

Há chegada a hora de dar-lhes as boas-vindas de volta à casa.