Descendentes criptojudaicos estão em contacto, mas ainda há obstáculos

Descendentes criptojudaicos estão em contacto, mas ainda há obstáculos

Por: Sasha Rogelberg

“Shabbat Shalom a Todos” escreveu um membro do grupo do Facebook Sephardic and Crypto-Jewish Research para um público de mais de 400 membros, muitos dos quais vivem no norte do México ou no sudoeste dos Estados Unidos. 

O post aparece por cima de acima de uma consulta para encontrar um livro sobre guardas da marinha espanhola publicado em 1954 em Madrid e por baixo de uma imagem antiga de um manual escolar mostrando uma mulher a ser levada perante a  Inquisição na Cidade do México.

O conteúdo dos posts do grupo é variado, mas todos dizem respeito ao criptojudaísmo, a prática secreta do judaísmo pelos judeus sefarditas em Espanha e suas colónias durante e depois da Inquisição.

Numa época em que os católicos continuam a ser a grande maioria nos países de língua espanhola e na Península Ibérica, os judeus desses países permanecem estigmatizados, embora a Inquisição tenha terminado há séculos. É por isso que esses grupos do Facebook são preciosos para tantas pessoas que estão agora mesmo a descobrir as suas origens sefarditas depois das mesmas lhes terem sido ocultas durante gerações.

Ronit Treatman, da Filadélfia, (na foto) é membro de mais de 25 desses grupos, incluindo Sephardic and Crypto-Jewish Research.

Em 2012, Treatman descobriu a sua própria história através de testes de ADN: Uma descoberta surpresa indicou que alguns membros da família se tinham mudado de Espanha para a Polónia.

“Isso mostrava que parte deles foi forçada a converter-se e teve que ir para o Brasil”, disse Treatman.

“A descoberta de origens judaicas, particularmente de ascendência criptojudaica, tornou-se mais comum agora, com os  testes de DNA mais acessíveis”, disse Treatman. Empresas como a Family Tree DNA podem pesquisar mais especificamente as as raízes sefarditas.

Treatman descreve-se como “o outro lado do espelho”. Enquanto tantos outros membros dos grupos foram educados como católicos e estão agora a tentar aprender mais sobre as suas raízes judaicas, Treatman sempre soube que era judia (o seu pai foi diplomata israelita). 

Ao longo de quase uma década a conhecer pessoas nesses grupos, Treatman tem conseguido ajudar dezenas de pessoas a encontrar textos, recursos e membros da comunidade, e tem reunido descendentes criptojudaicos de volta ao judaísmo.

Os judeus da Filadélfia estão habituados a ajudar descendentes de criptojudeus, também chamados de Conversos, Bnei Anusim ou Marranos,  a palavra espanhola que quer dizer “porco” e que, na opinião de Treatman, é uma terminologia inadequada para o grupo.

A Congregação Mikveh Israel, a sinagoga mais antiga da Filadélfia, foi fundada por judeus espanhóis e portugueses através de uma sinagoga sefardita em Amsterdão.

Na década de 1920, foi a primeira sinagoga sefardita a responder aos pedidos do Comité Português de Marranos, “para que sejam aplicados fundos no retorno ao judaísmo de mais de 14.000 marranos que vivem em Portugal, como cristãos em público e como judeus secretamente, há mais de quatro séculos”, escreveu o líder religioso de Mikveh Israel Leon H. Elmalah numa carta de 31 de outubro de 1926.

O apelo foi feito em parceria com a Comunidade Sefardita de Londres, a Associação Anglo-Judaica e a Aliança Israelita, explicou a carta. A doação feita pela Mikveh Israel seria o equivalente a USD $ 50.000 de hoje, disse o rabino da Mikveh Israel, Albert Gabbai.

“Como somos uma sinagoga espanhola e portuguesa, e traçamos a nossa ascendência até aos judeus que escaparam — porque somos uma congregação que segue essa tradição iniciada por esses judeus, foi natural para nós ajudá-los”, disse Gabbai.

Gabbai visitou a comunidade judaica portuguesa, que agora tem entre 50 e 100 membros, em 2017, décadas depois dela ter recebido uma educação judaica por parte de rabinos israelitas enviados para ensinar os feriados judaicos.

A viagem foi animadora, disse Gabbai, pois conseguiu ver o que a ajuda da Mikveh Israel 90 anos antes  foi capaz de fazer. Mas ainda há na zona preconceitos em torno dos judeus, disse ele.

Na viagem, Gabbai viu um turista numa igreja — erguida no lugar de uma antiga sinagoga — que perguntou o que tinha acontecido com os judeus que deixaram a sinagoga.

“O guia disse: ‘Nós convidámo-los a deixar o país’”, conta Gabbai.

O estigma contínuo reafirma o trabalho de Treatman, disse ela. Também impulsionou o trabalho de um amigo de Treatman, que ela conheceu num evento criptojudaico no Facebook: Keith Chávez, natural de Albuquerque, Novo México, que descobriu que era judeu aos 13 anos.

“A minha bisavó estava a morrer. Ficou acamada por um longo período de tempo antes de falecer, e queria falar comigo, com o meu irmão e com o meu primo”, disse Chávez. “Então convocou-nos juntos e disse: ‘Somos Sefarditos.’ Somos Sefarditos.”

Em retrospetiva, a origem judaica de Chávez fazia sentido para ele, apesar de, durante a infância, ter  frequentado com o pai uma igreja católica. Enquanto a maioria das mulheres católicas do Novo México varria a casa empurrando o lixo para fora da porta, a sua bisavó usava uma pá, já que varrer para fora da porta violava as leis da mezuzá (embora a família nunca tivesse tido mezuzot nas ombreiras das suas portas). Ela insistia em obter e preparar a carne para as refeições do fim de semana de uma maneira que se assemelhava à lei kosher.

A história de Chávez assemelha-se à de muitos outros descendentes de criptojudeus, mas ele ainda se considera diferente. 

Muitas outras pessoas com origens criptojudaicas negaram firmemente as suas origens familiares, dando preferência à sua educação católica. Se quiserem aprender mais sobre judaísmo, poderão enfrentar obstáculos por parte de alguns líderes judeus que não consideram os descendentes de criptojudeus como sendo judeus válidos sem passarem por uma conversão.

Agora professor adjunto de história e antropologia na Universidade do Novo México, Chávez tem ensinado sobre a presença de descendentes de criptojudeus no sudoeste dos EUA e a sua própria Inquisição, que só terminou no século XIX.

Como Treatman, Chávez é administrador de vários  grupos criptojudaicos no Facebook. O Facebook ajudou a mudar a situação dos descendentes de criptojudeus que procuram conectar-se, disse Chávez, embora essas conexões permaneçam menores do que ele queria.

A certa altura, ele ajudou uma mulher finlandesa, que tinha acabado de descobrir a sua ascendência judaica, a conectar-se com um rabino em Helsínquia. Depois o rabino acabou por ajudá-la a fazer o processo de conversão.

“Senti-me muito bem,” disse Chávez. “Porque ela voltou para casa.”

Pode ler Aqui o artigo original em inglês.

Um passado judaico secreto: a jornada multinacional da genealogista Genie Milgrom para descobrir as suas raízes

Um passado judaico secreto: a jornada multinacional da genealogista Genie Milgrom para descobrir as suas raízes

Por: Eve Glover

A genealogista premiada, autora e palestrante Genie Milgrom cresceu como católica, mas a partir dos onze anos sentiu instintivamente que era judia.

Nascida em Havana, Cuba, em 1955, Milgrom frequentou escolas católicas em Cuba e nos Estados Unidos, mas “sentia que algo estava errado… É difícil explicar, mas a maioria das pessoas que vêm desse tipo de raízes [passam por] esse fenómeno”, disse ela à The Jewish Press.

Genie casou com um católico cubano quando era muito jovem e teve dois filhos. Aos 28 anos, no entanto, sentiu-se compelida a mudar de rumo. “Eu simplesmente não posso continuar a fazer isto”, recorda. “Sempre fui uma pessoa espiritual, uma pessoa religiosa, e estava a ter muitos problemas com o dogma da religião católica.”

Nos sete anos seguintes, mudou radicalmente sua vida ao divorciar-se e converter-se ao judaísmo ortodoxo. Ela tinha um pressentimento de que já era judia de nascimento – mas nenhuma prova.

Morando em Miami, Milgrom mergulhou na comunidade judaica, tornando-se presidente da comunidade e tesoureira da sinagoga local Young Israel. Através de seu trabalho na indústria farmacêutica, conheceu o seu segundo marido, Michael, um judeu chassídico asquenazita, e sentiu-se instantaneamente em casa com a família dele.

No dia em que Milgrom casou novamente, a sua avó avisou-a sobre como é perigoso ser judeu – o que Milgrom achava que significava o perigo de a sua alma deixar o catolicismo. Foi só anos depois, após a sua avó morrer em 1993 e Milgrom receber um par de brincos com a Estrela de David, que ela percebeu o verdadeiro significado das palavras da sua avó, e de costumes que a avó lhe ensinara, como certificar-se de que não houvesse sangue nos ovos e varrer para o centro da sala. Tudo começou a fazer sentido.

(Durante a Inquisição Espanhola, soube mais tarde, os cripto-judeus tinham removido as mezuzot das suas portas, mas, num esforço para manter a área da entrada sagrada, não varriam naquela direção.)

Milgrom também encontrou receitas de família que remontam à Inquisição, como costeletas de porco falsas. “O que eles costumavam fazer era fazer essa costeleta de «porco» com rabanadas, e depois, quando estavam a comer, deitavam uma costeleta de porco verdadeira na lareira e o cheiro espalhava-se, de maneira que os empregados, os trabalhadores e os vizinhos pensavam que eles estavam a comer carne de porco”, explicou.

Milgrom decidiu investigar a sua linhagem estrategicamente, empregando a ajuda de Fernando Gonzalez del Campo Roman, um ex-padre espanhol que também é um especialista em genealogia. “Eu não sou o tipo de pessoa que vive num mundo de fantasia”, disse ela. “Estou muito fundamentada, estou muito enraizada e queria alguém que duvidasse do que está à procura. Este senhor é um ex-padre – ele não vai querer que eu seja judia, então vou contratá-lo para encontrar as minhas raízes judaicas”. Gonzalez del Campo Roman conseguiu traçar a linhagem familiar de Milgrom até 1545.

Os registos de batismo que ele obteve diziam Bajo necesidad ao lado dos nomes de todos os bebés da família de Milgrom. Isso significava que eles não foram batizados, supostamente porque estavam demasiado doentes para ir à igreja fazê-lo.

A mãe de Milgrom, que vinha de uma família cubana de elite que pertencia a círculos sociais onde não havia judeus, inicialmente tentou dissuadi-la de investigar muito profundamente, apontando que havia muitas freiras e padres na família – mas isso era comum em cripto-judeus que queriam esconder as crianças judias da perseguição. O último evento consciente da sua mãe antes de ser acometida pela doença de Alzheimer foi acender velas de Shabat e recitar a bracha com ela. Faleceu há várias semanas.

Em 2014, após mais de 10 anos de pesquisa, Milgrom viajou para um beit din em Jerusalém, onde contou ao dayan sobre a sua árvore genealógica e sobre como os seus avós nasceram em Fermoselle, uma pequena aldeia entre Espanha e Portugal, onde os seus antepassados viveram durante 523 anos. Ele sugeriu que ela descobrisse a história judaica de Fermoselle porque, até onde ele sabia, não havia registo de uma comunidade judaica lá.

Enquanto Milgrom viajava com o marido para Portugal, ocorreu-lhe que a sua família devia ter sido presa pela Inquisição portuguesa. Comparou nomes nos arquivos da Inquisição com a sua árvore genealógica, que confirmou que pelo menos 45 parentes do lado materno eram mártires que foram queimados até a morte por se recusarem a converter.se. “Eu estava a ler sobre essas avós, tias, e meninas de 15 anos com essa fé incrível”, recorda, “e disse a mim mesma: ‘Como poderia eu não ser uma mulher de fé, se os meus antepassados foram assim?’”

Assim que chegou a Fermoselle, Milgrom notou símbolos religiosos gravados em muitas paredes de pedra, incluindo casas que ela logo descobriu que tinham sido sinagogas. “Enviei [fotos dos símbolos] para Oxford, Harvard, Notre Dame.” Um arqueólogo disse-lhe que, se ela quisesse descobrir o segredo por trás dos símbolos, deveria olhar para eles quando o sol os atingisse, às 14h, pois essa era uma maneira comum de os cripto-judeus deixarem mensagens.

Um desses símbolos que ela conseguiu ver com mais clareza às 14h, conhecido como criptocruz, era uma cruz com uma âncora dentro de um círculo por baixo dela, sendo a âncora o mesmo símbolo encontrado em antigas moedas israelitas. Milgrom reconheceu este símbolo na entrada dos fundos de uma igreja onde uma mezuzá teria sido colocada.

“Não está escrito em lado nenhum, mas eu sei que eles tocavam na cruz”, explicou. “Fermoselle foi construída sobre uma montanha de rocha, granito… Todas as parede são ásperas ao toque. Quando você chega àquela porta dos fundos da igreja com aquela cruz com a âncora, é macia como manteiga. As pessoas tocaram-na durante gerações… As pessoas tratavam-na como uma mezuzá .”

Milgrom disse a um historiador em Fermoselle que o seu nome de família era Bollico (“pequeno bolo”), que tem origens judaicas. O historiador ofereceu-se para levá-la a uma sinagoga que já tinha sido transformada em residência particular. No dia seguinte, Milgrom viu-se descendo sete degraus que levavam ao porão da casa e, quando viu uma bica enorme que se projetava para fora, percebeu que estava no meio do que antes tinha sido uma micvê .

Mais tarde, um ex-presidente de câmara da vila levou-a para uma sinagoga diferente, onde ela viu os bancos e o lugar onde teria sido colocado o Aron Hakodesh . “Tudo o que estou a fazer é chorar pela história judaica perdida”, disse ela, “e naquele momento, foi quando se tornou minha missão que era isso que eu iria fazer – iria aos quatro cantos do mundo falar sobre isto.”

Enviou provas que descobriu de 22 gerações da sua linhagem para um rabino em Israel, que não aceitou testes de DNA e exigiu que todos os registos fossem documentados em papel. Demorou anos para que alguns dos documentos fossem traduzidos para o hebraico. Finalmente, recebeu uma resposta do rabino. “Recebi uma bela carta a dizer que nasci judia. A carta dizia que D’us me trouxe a este lugar de uma maneira muito indireta, mas que todos os meus ascendentes e descendentes eram judeus. Foi um dia incrível!”

Milgram começou a postar sobre sua ascendência redes sociais em 2010 e ganhou milhares de seguidores, muitas das quais perguntavam a Milgrom como ela descobriu o que descobriu e diziam que gostariam de procurar o seu passado possivelmente judaico também.  Começou a escrever um livro sobre histórias e receitas de cripto-judeus que viveram durante o tempo da Inquisição espanhola. O seu público aguardava ansiosamente o próximo capítulo, que ela postou nas redes sociais enquanto o escrevia, ao mesmo tempo que viajava por todo o mundo para revelar o seu passado.

Milgrom recebeu a Medalha das Quatro Sinagogas Sefarditas em Jerusalém pelas suas descobertas inovadoras sobre a história judaica de Fermoselle. Dois dos seus livros, My 15 Grandmothers e Pyre To Fire, ganharam o prémio International Latino Book Awards.

Hoje, Genie Milgrom faz parte do comité consultivo da Society for Crypto-Judaic Studies of Greater Miami e falou no Knesset, no Parlamento da UE e no AIPAC. Também é diretora para a América Latina do Kulanu.org, onde ensina judaísmo em espanhol e o seu marido ensina em francês.

Nos últimos 10 anos, Milgrom tem trabalhado como genealogista para ajudar as pessoas a encontrar as suas raízes judaicas. Falou num painel com o renomado demógrafo Dr. Sergio Della Pergola, que estimou que existem cerca de 50 milhões de outros descendentes de cripto-judeus de Espanha que ainda não conhecem o seu passado.

“Há uma quantidade impressionante de pessoas que podem mudar a face do povo judeu”, disse Milgrom.

Link para o artigo original em Inglês

Uma história de amor – A identidade de uma família de anussim em Portugal

Uma história de amor – A identidade de uma família de anussim em Portugal

Excerto do artigo original em hebraico do jornal israelita  Makor Rishon

Na zona oeste de Portugal, à sombra da Serra da Estrela, fica a vila portuguesa de Belmonte, o “belo monte”. Em 1492, a vila absorveu muitos dos exilados espanhóis, na sequência da ordem de expulsão decretada pelos reis de Espanha. Os exilados triplicaram o número de judeus em Portugal. 600 famílias judias receberam uma autorização de residência permanente em troca de um alto pagamento, e as outras receberam uma autorização para ficar temporariamente e foram consideradas “servas do rei”.

O casamento de D. Manuel com a filha dos reis de Espanha levou-os a exigir também a expulsão dos judeus de Portugal. D. Manuel recusou: os judeus que tinham permanecido no seu país eram ricos e educados, e tinham laços diplomáticos úteis no mundo das relações comerciais internacionais. Mas Isabel II pressionou o marido e, em 1496, D. Manuel declarou que aqueles que não se convertessem ao cristianismo deveriam deixar o país imediatamente em navios fornecidos pelo governo. Dezenas de milhares de judeus se reuniram numa praça de Lisboa antes da viagem, mas os navios não apareceram. Em vez disso, o chefe da Igreja Central de Lisboa e os seus representantes realizaram no local uma cerimónia de batismo forçado, e foi emitida uma nova ordem, proibindo os judeus de deixarem Portugal.

A conversão massiva forçada dos judeus portugueses ao cristianismo, ao contrário do chamado processo de cristianização voluntária pelo qual os judeus de Espanha passaram, resultou em que a maioria dos judeus portugueses não abraçassem sinceramente o cristianismo, tendo, pelo contrário, organizado sociedades secretas fechadas, dentro das quais mantinham secretamente o seu judaísmo, como anussim. A assimilação dos judeus portugueses na sociedade não foi bem recebida pela população local. A suspeita religiosa e a inveja do sucesso económico e do alto status de muitos judeus no governo e em profissões de prestígio alimentaram o ódio popular. A Igreja Católica pregava contra os “conversos” – os cristãos novos, culpando-os de todos os problemas de Portugal. E quando em 1506 uma praga atingiu Lisboa e o rei fugiu da cidade, a multidão, incitada, massacrou-os. Após o massacre, D. Manuel revogou a proibição de deixar Portugal, mas a maioria dos convertidos já tinham optado por permanecerem cristãos no reino. Houve uma minoria que manteve o seu judaísmo em segredo, apesar do temor da Inquisição que passou a operar em Portugal a partir de 1536 e perseguiu até à morte os convertidos que regressavam ao judaísmo.

Este é o pano de fundo da história da comunidade anussim em Belmonte, descrita no livro de Hannah Toug. No centro do livro estão as mulheres: a avó Gabriela-Sarah, a filha Miriam-Maria e a neta Isabel. Através dos seus olhos, experimentamos o modo especial de vida e pensamento dos anussim de Belmonte, ainda hoje no final do século XX, depois de  a comunidade ter sido descoberta e de ter retornado ao judaísmo, e de ter sido lá estabelecida uma sinagoga com um rabino sefardita-ortodoxo.

link para o artigo original completo em hebraico aqui

A incrível história da sinagoga da Covilhã (Shaarei Kabalah)

Artigo de Jayme Fucs, guia de turismo cultural em Portugal e Israel

Cada vez que pesquiso ou estudo sobre Portugal Judaico, o que mais me impressiona é que sempre encontro uma nova surpresa! Uma nova descoberta! São muitos mistérios e segredos ainda não revelados! Me pergunto: Porque pouco sabemos sobre a história dos Judeus de Portugal? Porque a história dos judeus de Portugal ficou esquecida nos livros de história Judaica? Vou contar para vocês a incrível História de uma comunidade secular na Beira do Interior, no sopé da serra da Estrela [Portugal], de nome Covilhã, que pelo nome dá para entender que a sua origem está vinculada à produção de lã em tempos remotos da sua história.

Sabemos da existência da comunidade judaica da cidade da Covilhã desde o século XII, e ela vai existir até à proibição do judaísmo em Portugal. No século XV era considerada a maior e a mais importante da região da Beira interior. Foi considerada uma das maiores e mais fortes comunidades do País, não somente no desenvolvimento da economia e da ciência mas também pela quantidade de nomes ilustres que marcaram a História de Portugal.

Exemplos de portugueses judeus covilhanenses ligados à epopeia dos Descobrimentos e expansão marítima portuguesa: Mestre José Vizinho, cosmógrafo de D. João II; Rui Faleiro, artífice da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães; Francisco Faleiro, grande cosmógrafo colocado ao serviço de Espanha, autor do Tratado del esphera y del arte del marear; eventualmente, Pêro da Covilhã, explorador e preparador do caminho marítimo para a Índia; e o famoso João Ramalho, primeiro bandeirante no Brasil, de origem judaica covilhanense.

A antiga judiaria da Covilhã ficava localizada dentro das muralhas de proteção da cidade, e hoje em dia está localizada nas atuais Rua das Flores, Rua do Ginásio Clube, Rua da Alegria, Beco da Alegria e Travessa da Alegria. As suas casas eram, como muito comum nas judiarias de Portugal, de dois andares: em cima moravam e em baixo era para os negócios, onde a principal ocupação dos Judeus era o trabalho artesanal e o comércio, designadamente o de lã. Tendo em conta a opinião de muitos pesquisadores, acredita-se que a antiga sinagoga de Covilhã estava situada na atual Rua das Flores. A partir do Sec. XVI, a história dos judeus de Covilhã se torna, como em todo Portugal, uma saga para a sobrevivência de sua cultura e religião, onde milhares de cristãos novos foram acusados de praticas judaizantes e condenados pelos carrascos da Inquisisão. Mas sobreviveram na história, no que conhecemos hoje como o Cripto Judaismo.

No Seculo XX aparece o cristão novo Capitão Artur Carlos de Barros Basto, condecorado com méritos por bravura em defesa de Portugal em 1919. Chega ao Porto e entende a necessidade de criar o movimento de resgate dos cristãos novos que sobreviveram na Historia por quatro séculos. O Capitão Barros Basto tem como seu grande projeto de vida o ajudar os cristãos novos em Portugal a poder retornar ao Judaismo. A sua iniciativa desperta a esperança nos corações de uma quantidade enorme de pessoas que se diziam descendentes dos judeus forçados à conversão no século XV e afirmavam manter ainda, no segredo dos seus lares, algumas práticas e rituais judaicos. Estas pessoas, os cripto judeus, começaram a participar dos serviços religiosos que Barros Basto realizava, a princípio no Porto e depois em várias aldeias e vilas de Trás-os-Montes e das Beiras e chegando à cidade da Covilhã.

Em Covilhã acontece um fato único esquecido na História judaica de Portugal: através da iniciativa do Capitão Barros Basto, no dia 4 de maio de 1929, reuniram-se várias famílias de cristãos novos da cidade da Covilhã, na casa da senhora Amélia Fernandes, cripto-judia, que era uma fiel observante dos ritos judaicos que lhe ensinaram seus pais. Nesse momento histórico, é decidida a fundação de uma sinagoga em Covilhã. Em 30 de outubro de 1929 inauguraram num pequeno local a sinagoga da comunidade Judaica da Covilhã chamada Shaarei Kabalah («As Portas dos Aceites») ou, como eles traduziram, «As Portas da Tradição», onde começaram a participar dos cultos e das reuniões centenas de Cripto-Judeus da Covilhã e da região da Beira. Esse acontecimento foi um renascimento da esperança da possibilidade do retorno de centenas de cristãos novos ao judaismo, mas essas esperanças foram apagadas com a implantação da ditadura em Portugal em 1932. O medo do anti-semitismo e da intolerância religiosa se propagou entre os cripto judeus da Covilhã, assim como em todo o território português. O Capitão Barros Basto, o seu líder, começou a ser conotado como oposição, e não tardou em aparecer o antissemitismo. Barros Basto foi perseguido pelo exército, sendo colocado em locais cada vez mais longe do Porto e das suas atividades em Covilhã , numa tentativa de assim o afastar da Sinagoga e dos projetos que tinha em mente criar. No final, será expulso do exército e a Sinagoga do Porto, que foi criada por iniciativa do Capitão Barros Basto, jamais foi aberta para os cristãos novos. O medo se espalhou entre os cristãos novos de todo Portugal e, como no período da Inquisição, mais uma vez os criptos judeus se trancaram em suas casas, no seu silêncio secular, para ainda poder guardar o segredo e esperar por mais uma oportunidade de estarem seguros para retornar ao judaísmo. A Sinagoga da Covilhã (Shaarei Kabalah) teve que fechar suas portas e, já sem funcionamento, seu prédio foi demolido. Ele se situava nas cercanias da atual igreja de Santiago.

Assim está escrito no Jornal judaico Ha Lapid numero 23, de 30.10.1920:

No Dia 30 de outubro chegou o Capitão Barros Basto, que à tarde fez uma conferência sobre judaísmo na sede da Comunidade Judaica da Covilhã. À noite desse dia foi feita a inauguração da pequena sinagoga, a que o mensageiro do resgate [Barros Basto] deu o nome de Shaarei Kabalah. À entrada da sinagoga foram lançadas flores por cripto judeus presentes.

Até hoje podemos observar uma existência muito forte de nomes das famílias de cristãos novos ainda muito presente nas atuais famílias Covilhanenses, por exemplo: Mendes, Cardoso, Costa, Pereira, Henriques, Cruz, Dias, Baltazar, Vizinho, Gomes, Ramalho, Nunes, Flores, Franco, Vaz, Pinho, Teles, Faleiro, Elias, Mesquita, Oliveira, Ranito, Benjamim etc.

Fontes:

* Comunidades marranas nas Beiras – Maria Antonieta Garcia

* Os judeus da Beira interior: a comuna de Trancoso e a entrada da Inquisição – Maria José Ferro Tavares

* Religião e vida social no espaço urbano: comunidades judaicas na Beira Interior em finais da Idade Média – Isaura Luísa Cabral Miguel

* Rede da judiaria – http://www.redejudiariasportugal.com/…/189-judeus-da…

* Beira interior é o epicentro da rota do judaísmo – Paulo Rolão

* Jornal Ha Lapid – Numero 23 – outubro 1929

Encontro em Belmonte

Na semana passada, o nosso representante em Portugal, Ytzjak de Oliveira, e o empresário de turismo cultural Jaime Fuchs organizaram um importante encontro em Belmonte (Portugal) com o rabino Elisha Salas, que foi durante muitos anos rabino da Shavei Israel em Belmonte.

O objetivo desse encontro foi planear e pensar em conjunto qual a melhor forma de continuar a ajudar os descendentes de Bnei Anussim em Portugal. Estratégias, planos… foi uma verdadeira “tempestade cerebral” de ideias e opiniões! Se tudo correr bem, com a ajuda de De’s, à medida que forem surgindo iniciativas vamos divulgá-las, por isso… mantenham-se atentos!