Grupos retornam ao judaísmo

Matéria publicada no Jornal do Commercio (Recife/PE), Cidades, edição de 17/2/2008
Link: http://jc.uol.com.br/jornal/2008/02/17/not_270221.php

 
downloadQuarenta e cinco famílias de Pernambuco e da Paraíba se dedicam aos estudos de filosofia e da lei judaica, para resgatar a prática cultural e religiosa

Trinta famílias de Pernambuco e 15 da Paraíba que descobriram suas origens judaicas se preparam para regressar ao judaísmo, com ajuda da organização Shavei Israel (Retorno a Israel). Elas participam de um curso, duas vezes por semana, na sede da Federação Israelita, na Torre, Zona Oeste do Recife, onde aprendem filosofia e lei judaica, para resgatar a prática cultural e religiosa.

As aulas são conduzidas pelo rabino Eliezer Sabba, representante do Shavei Israel no Brasil. “Não faço conversão, apenas ensino o judaísmo”, esclarece o líder comunitário. Segundo ele, os dois lugares indicados para a conversão são Israel e Estados Unidos da América. “O retorno ao judaísmo exige muito estudo e prática”, diz ele.

Do amanhecer ao anoitecer, a pessoa deve obedecer aos ensinamentos. Isso se refere desde ao modo de se vestir aos alimentos que podem ser ingeridos. “O retorno não é só religioso, o trabalho leva ao resgate de um povo”, afirma Eliezer Sabba. No curso, o grupo estuda a fé judaica, festas, calendário, patriarcas, guerras, conflitos em Israel e o significado do retorno.

Conforme o líder comunitário, a população de origem judaica no Brasil é estimada em 12 milhões de habitantes, distribuídos nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte (os principais), Ceará, Sertão da Bahia e Norte de Minas Gerais. Os primeiros moradores se estabeleceram há 500 anos, fugindo da Inquisição em Portugal e na Espanha, porque não queriam se converter ao cristianismo.

“Muitos fugiram para o Sertão porque era mais fácil manter as práticas judaicas. Embora a Inquisição também tenha chegado ao Brasil, pois há cristãos-novos julgados em Portugal por praticar o judaísmo no Brasil, a perseguição era menor”, comenta o rabino. A busca por trabalho, diz ele, também teria motivado a vinda ao território brasileiro, um País novo.

O reconhecimento de pessoas de origem judaica leva em consideração uma série de fatores. Um deles é o sobrenome de família, geralmente associado a flores, árvores ou ao local onde viviam (Matos e Selva, no interior do Estado, e da Costa, no litoral). “Mas o nome é só uma indicação. Há famílias com esses sobrenomes sem nenhuma ligação com judaísmo”, ressalta Eliezer Sabba.

Bezerra, diz ele, identifica cristão-novo (judeus convertidos à fé cristã). No Sertão do Ceará há o caso de uma família com esse sobrenome cujos casamentos eram feitos só entre primos. “O que eles queriam preservar no Brasil? É assim que a gente vai buscando as origens”, diz o rabino. Outro costume mantido no interior é a forma de enterrar os mortos, vestido numa mortalha e direto na terra.

“Conversei com pessoas que não comiam carne de porco, mas não sabiam explicar o motivo. Outras aprenderam com a família a acender velas toda sexta-feira para o anjo da guarda, sem fazer vinculação com o sábado dos judeus.” De acordo com o líder comunitário, nessa época o judaísmo era mantido em segredo nas famílias. Anjo da guarda era uma forma de disfarce para garantir o costume judeu.

Eliezer Sabba coordena uma comunidade no Orkut para discutir o assunto (Gente da Nação) e pretende, ainda este ano, disponibilizar as aulas de judaísmo pela internet. “Seria ensino a distância, para as pessoas interessadas no retorno ao judaísmo, porque não posso visitar as cidades do interior com freqüência.” Falta providenciar uma filmadora para gravar as aulas.

Em Pernambuco, foram identificadas famílias de origem judaica no Recife, Caruaru, Brejo da Madre de Deus e Vitória de Santo Antão. Da Paraíba, participam do curso famílias de João Pessoa e Campina Grande. Em breve, o rabino visitará o Rio Grande do Norte. Ele atua em Pernambuco há cinco meses.