O Ungido

Comentários sobre a porção semanal da Torá – Ki Tissá
Óleo 1

O Óleo de Unção

A porção de Ki Tissá (Êxodo 30:11 – 34:35) inclui muitos temas, todos muito interessantes, e, entre estes está, certamente o mais famoso, a história do Bezerro de Ouro. Mas a Parashá também apresenta outros temas menos conhecidos, dos quais convêm ter um conhecimento mais extenso.

Entre estes temas está a questão do Óleo de Unção. No capítulo 30, versículos 22-33, a Torá descreve o método de preparação deste óleo, no qual vários outros ingredientes eram misturados com o óleo, tais como a canela, a mirra e etc.

A preparação era muito difícil uma vez que os ingredientes deveriam ser cozidos sem queimar o óleo, por isso o Talmud oferece várias possibilidades de como cozinhá-los, como, por exemplo, na água retirando logo em seguida e, então, adicionando o óleo, mantendo a água com óleo sobre o fogo lento até que a água se evaporar, deixando apenas o óleo impregnado às essências.

Este óleo estava destinado – como está escrito na Torá – a ungir: o Tabernáculo, cada uma de suas peças, e os sacerdotes (Cohanim) que serviriam nele. No capítulo 40 do livro de Shemot (Êxodo), e, em seguida, no capítulo 8 do livro Vaicrá (Levítico) está a descrição da unção dos Cohanim. A maneira de untá-los, que não aparece na Torá Escrita, mas sim, somente, na Torá Oral, era feita na forma da letra grega χ (“chi”), tal como uma lâmina, a frente dos Cohanim. O Salmo 133 menciona de maneira indireta a unção de Aharon, descrevendo as gotas de óleo que desciam pela sua barba, e explicam nossos sábios que, milagrosamente, ficaram como duas pérolas brilhantes no final de sua barba e cada vez que se banhavaestas se escondiam nas profundezas de sua barba e voltavam a sair quando se secava.

Portanto, o capítulo 4 do livro Vaicrá, trata do Sacerdote Ungido, que ao cometer um erro deveria oferecer um sacrifício especial “Chatat”.
Ungido

É hora de dizer que a palavra hebraica para “ungido” é מָשִׁיחַ (“Mashiach”), que os gregos transcreveram como “Messias”. A tradução grega de “ungido” é χριστός, transcrito ao português como “cristo”.

A Torá em nossa Parashá (Shemot 30: 32-33) estritamente proíbe usar o óleo da unção para qualquer uso profano, sob pena de “Caret” (remoção do Povo). E nossos sábios ensinam que este óleo foi mantido no Templo para servir mais tarde para ungir o Rei David, uma vez que seu papel sociopolítico estava intimamente ligado com o espiritual, nível este que o Rei Saul não alcançou. Em teoria, um novo rei da mesma dinastia não precisaria ser ungido, e deveria ser feito somente no caso de haver alguma disputa sobre a sucessão do reinado, como aconteceu com o Rei Shlomo, que teve seu reinado contestado por Adoniyá.

A razão básica está na profecia de Yaakov, no Livro de Bereshit (Gênesis 49:10), quando é afirmado que a haste permanecerá na tribo de Yehudá. Saul era da tribo de Biniamim, e reinou somente pois havia uma necessidade temporária do povo. Contudo, o reinado ‘pertence’ à tribo de Yehudá, e quando chegou o momento de David reinar, este então foi ungido pelo profeta Samuel. Isso não impede a David de, enquanto vivia Shaul e mesmo depois de sua morte, referir-se ao Rei Saul – repetindo uma e outra vez – como “Messias”, o “Ungido do Senhor” (veja Shmuel 1, 24: 6;26, 11; 26:23. Shmuel 2, 1:14, e outros mais).
Seres Humanos

Tanto no caso de David quanto de Saul, se trata de seres humanos que não alcançaram o nível de profetas, embora tenham chegado muito perto. O livro dos Salmos não é profético, mas sim, ‘inspirado’ pela “Ruach-Hacódesh” (Espírito de Santidade), um grau abaixo da profecia. E assim também os livros do Rei Shlomo e o resto dos livros de Ketuvim, que formam a terceira parte do Tanach (acrônimo de Torá, Neviim e Ketuvim).

Portanto, devemos entender que o conceito de “ungido” e “Messias” não significa em nenhum momento que este tenha atingido o grau de profecia. Se as citações acima não foram suficientes, mencionemos um versículo do profeta Yeshayáhu (Isaías 45:1), onde está escrito: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita…”. Este personagem, Ciro, era o rei que estava destinado por D’us para permitir o retorno do povo de Israel à sua terra natal depois de setenta anos de exílio. Mas este tampouco era um profeta ou dotava de qualquer dom ou milagres sobrenaturais.

Assim, em todos as citações do Tanach em que esta palavra aparece, esta deve ser entendida como o “rei ungido”, seja através do óleo da unção, ou, através de outro modo.
O Falso Rei

Como então os cristãos interpretaram este conceito de uma maneira tão diferente? Certamente começa com a suposição de que o judeu de Nazaré do qual deificaram tornou-se o “Rei dos Judeus”, como dizem que escreveram, em tom de escárnio, INRI: “Iesvs Nazarenvs Rex Ivdaeorvm” quando, na verdade, nunca foi rei. Não somente pois não assumiu nem a coroa e nem o trono, mas também porque não possuía um reinado, um território nacional, instituições nacionais, e etc. Não é suficiente a declaração de seus seguidores, que tentaram assim como o fizeram muitos outros aspirantes a coroa ao longo da história, e em diferentes países, que, por maior a quantidade de seguidores que possuíam, por nunca haverem consolidado um reinado não podem ser considerados ‘reis’. O próprio Rei David, apesar de ter sido ungido pelo profeta Samuel, continuo se referindo ao Rei Saul como “Messias do Senhor”, sendo que ele era o único que governava o país. Somente quando consolidou seu reinado, é que foi capaz de usar este atributo, em alguns Salmos, ao se referir a si próprio (por exemplo, 89:39, e em outros sete lugares).

Logo em seguida, os cristãos agregaram a sua crença que este tal nazareno era “filho de deus” e profeta, apesar de a profecia ter sido extinguida cerca de quatro anos antes do início do Segundo Templo. Em relação a ser “filho de deus”, isto diz respeito, na verdade, a um verso no livro de Shemot (Êxodo 4:22), que afirma que todo o povo de Israel é filho de D’us, os filhos primogênitos, e este nazareno como judeu, poderia ser assim considerado assim como o resto dos judeus. Os pagãos entenderam a sua própria maneira, como Aquiles que era filho da deusa Tétis, e outros muitos heróis gregos e romanos que acreditavam ser filhos de diferentes deuses, e assim, o nazareno foi também considerado o filho do D’us dos judeus.
Forças Sobrenaturais

Houve também, ao longo da história do Povo de Israel, muitas pessoas que fizeram ‘milagres’. O milagre é o resultado de uma conexão especial com forças sobrenaturais, que pode ser positiva, divina, ou negativa, resultado do pecado. A Torá proíbe a prática de uma série de magias e feitiçarias com as quais é possível alcançar um resultado ‘milagroso’, mas proibido. Quem está conectado com o Criador pode acessar um nível sobrenatural e, consequentemente, suas ações também serão sobrenaturais. Isso, como dissemos, ocorreu muitas vezes no Povo de Israel com pessoas que não necessariamente eram profetas, pois temos conhecimento de que ainda na época do final do Segundo Templo, os sábios praticavam tais milagres como ressuscitar mortos, mas não por isso eram considerados profetas.
A Introdução de Maimônides

O grande sábio Maimônides de Córdoba, no seu prefácio ao capítulo ‘Chelek’ do tratado de Sanhedrin, resume o tema do “Messias” a quem seguimos esperando, com estas palavras:

” A era do “Messias” acontecerá quando Israel recuperar o seu reinado e voltar para a Terra de Israel, e o rei será muito poderoso, e o palácio será em Sion, e irá tornar-se muito famoso e conhecido em todo o mundo, muito mais do que o Rei Shlomo, e todos farão as pazes com ele, e todas as nações o servirão por sua grande justiça e as maravilhas que irá fazer, e todos aqueles que se opõem a ele serão destruídos pelo Criador e entregues em sua mão. E todos os versos apontam para o seu sucesso e nosso sucesso com ele. Mas isso não significa que mudará algo no mundo, uma vez que tudo seguirá as mesmas leis naturais que temos agora, apenas que, o reino (independência) voltará a Israel, e assim os nossos sábios dizem: “não há diferença entre os nossos tempos e o tempo messiânico a não ser o jugo das nações” – (que não será sob o jugo dos outros). E nesta era messiânica existirá ricos e pobres, fortes e fracos, mas a economia será mais acessível, e com pouco trabalho se alcançará muito, e, nesse sentido afirmaram que “no futuro, a Terra de Israel produzirá pão e seda”, sendo que as pessoas dirão quando encontrar algo pronto e preparado “ele encontrou o pão cozido e a comida pronta”, mas ainda haverá trabalho, já que os ‘estrangeiros serão seus agricultores e seus viticultores’, para que as pessoas entendam que continuará existindo o plantio e a colheita. Por isso, o Sábio repreendeu a seu aluno que não entendeu o exemplo e levou-o ao pé da letra, e respondeu de acordo com a sua capacidade intelectual, mas sua resposta não foi completa, e sim “respondeu ao tolo segundo a sua estupidez”.”

“E a grande vantagem deste momento será o descanso do trabalho para as nações, que nos impede de cumprir os mandamentos, e a sabedoria irá aumentar, como foi dito “e a terra se preencherá de sabedoria”, e, eventualmente, terminarão a guerras, como foi dito “uma nação não levantará a espada sobre a outra”, e poderemos nos complementar para alcançar o Mundo Vindouro. E este Messias morrerá e então reinará seu filho depois dele, e depois seu neto, como consta na profecia “não descansará e nem morrerá antes de garantir a justiça na terra” e seu reinado irá durar muito tempo, e a vida das pessoas também durará mais, porque quando não há mais preocupações e dores, a vida é mais longa, e assim não será estranho que esta durará milhares de anos…”

Como vemos, tudo isso está longe das falsas crenças cristãs e é muito importante conhecer o assunto mais profundamente e não se deixar enganar por palavras e citações de alguns versos cujo significado real desconhecem, e interpretam da maneira que quere.

Já estamos muito próximos da época de Mashiach, observando como a sabedoria tem se difundido por toda a terra e como a vida tem se tornado mais fácil, embora a fase de reconhecer Israel e a nossa sabedoria ainda esteja um pouco distante do ideal, mas isso também poderá mudar de um dia para o outro, como já aconteceu antes e depois da Guerra dos Seis Dias. Continuamos, portanto, à espera da vinda do verdadeiro Messias, de acordo as instruções do Maimônides, que pode acontecer a qualquer momento.

Sopa Fria

Se você perguntar a alguém saindo da igreja num domingo: “Você acredita em D’us?” a pessoa ficará chocada. “Que espécie de pergunta é essa? É claro que acredito!” Se você perguntar: “Você se considera religioso?” qual será a resposta? “Certamente. É por isso que estou aqui!”

Se você for a uma mesquita numa sexta-feira e perguntar a qualquer pessoa lá: “Você acredita em D’us?” qual será a resposta? “Com toda a certeza.”

“Você se considera religioso?” “Bem, é óbvio.”

Isso é normal. Essas conversas fazem sentido.

Agora vá a uma sinagoga em Yom Kipur. Pergunte ao judeu sentado na sinagoga em Yom Kipur, jejuando: “Você acredita em D’us?”

Você não vai conseguir uma resposta direta. “Hum, depende do que você quer dizer com “D’us”. Isso se ele for do tipo filosófico. Caso contrário ele simplesmente dirá: “O que eu sou? Um rabino? Não sei.”

Então pergunte: “Você se considera religioso?” Você já perguntou a um judeu americano se ele é religioso? Eles começam a rir. E garantem a você que são tudo, menos religiosos.

“Está brincando? Sabe o que eu como no café da manhã?”

Então cada um deles vai dizer: “Tive um avô, pelo lado da minha mãe, que era um homem religioso… Mas eu…?”

Então você faz aquela que parece uma pergunta lógica. “Então por que está aqui?”

Por algum motivo, este judeu, que não acredita em D’us e é muito não-religioso, olhará para você como se você fosse louco e dirá: “O que quer dizer? É Yom Kipur!”

Isso não é normal.

Vamos analisar por um momento. O que este judeu na verdade está dizendo?

Você perguntou se ele acredita em D’us e ele disse “Não”. Ou “Quando eu era mais jovem, costumava acreditar.” Ou então: “Quando ficar mais velho, começarei a acreditar.”

“Então você não acredita em D’us?”

“Não.”
“Você é religioso?”
“De maneira alguma.”
“Então por que está aqui?”
“Porque é Yom Kipur!”

O que ele está dizendo é: “Por que estou aqui? Porque D’us deseja que um judeu esteja na sinagoga em Yom Kipur. Então onde mais eu poderia estar?”

Então você diz: “Mas você não acredita em D’us.”

Ele diz; “E daí?” e ele não entende o seu problema.

Ele está dizendo: “Hoje é Yom Kipur mesmo que eu não tenha um calendário. Esta é uma sinagoga mesmo que eu não goste dela. Sou um judeu mesmo que não seja religioso, e D’us é D’us mesmo quando eu não acredito nele. Então qual é o seu problema?”

Ora, isso pode ser desconsiderado, e infelizmente muitos de nós o desconsideramos, como pura hipocrisia. Dizemos: “Você não acredita em D’us e não é religioso – não vá à sinagoga. Não venha aqui apenas para mostrar o quanto é judeu.”

O Rebe de Lubavitch tinha uma abordagem diferente. Esta insanidade é que nos torna judeus. É isso que mostra como somos especiais em nosso relacionamento com D’us. Isso se chama verdade. Não se trata de mim. Não quero ser religioso. Não quero acreditar em D’us. Não quero ouvir falar disso. Mas Ele me quer aqui, portanto aqui estou.

O mesmo acontece em Pêssach. Todo judeu se senta para um Sêder. Pergunte ao judeu médio num Sêder: “Você acredita em D’us?” Resposta: “Deixe-me em paz”. Mais uma pergunta: “Você é religioso?” Ele engasga com a matsá, rindo. “Então você está celebrando o Êxodo do Egito há 3.300 anos?” Resposta: “A história não é para mim…” As perguntas seguem… “Então por que está aqui?” seguido de “Onde eu deveria estar? É Pêssach!” É isso que é tão magnífico sobre o judeu.images (1)

Se Mashiach chegar agora, e quiser julgar, o que ele vai encontrar? Sopa fria?

Agora vamos colocar tudo no contexto. Há mais três mil e trezentos anos D’us nos perguntou se queríamos casar com Ele. Tivemos uma cerimônia de casamento extraordinária, com fabulosos efeitos especiais – fomos prometidos. Após o casamento Ele disse: “Tenho algumas coisas que gostaria que você cuidasse para Mim, por favor… Voltarei logo.” Ele não foi mais visto desde então. Durante mais de três mil e trezentos anos. Ele tem enviado mensageiros, mensagens, cartões postais… você sabe, escrevendo nos muros… mas não ouvimos uma palavra Dele durante todo esse tempo.

Imagine, um casal se casa, e o homem diz à esposa: “Você faria alguma coisa para eu comer, por favor? Volto logo.” Ela começa a preparar. O sujeito volta 3.300 anos depois, entra em casa, vai até a mesa, direto para a sua cadeira favorita, senta-se e saboreia a sopa que está sobre a mesa. A sopa está fria.

Qual será sua reação?

Se ele for um homem sábio, não reclamará. Em vez disso vai pensar que é um milagre a casa ainda estar ali, que sua mesa e cadeira favorita ainda estejam ali. Ficará encantado ao ver uma tigela de sopa à sua frente. A sopa está fria? Bem, sim, após 3.300 anos, a sopa pode esfriar.

Agora estamos esperando Mashiach. O Rebe apresentou essa noção radical de que Mashiach está para chegar agora. O que a torna tão radical? Significa que ele vai chegar sem um aviso de duas semanas. Sempre pensamos que haveria algum aviso, para que pudéssemos nos recompor antes que ele venha. Mashiach, chegando agora? Mas agora eu não estou pronto. Não quero ser julgado da maneira que sou. Preciso de um pouco de antecedência. Um pouco mais de tempo…

Se Mashiach chegar agora, e quiser julgar, o que ele vai encontrar? Sopa fria?

Se Mashiach vier agora, diz o Rebe, ele encontrará um povo judeu incrivelmente saudável. Após 3.300 anos estamos preocupados em sermos judeus, o que significa que estamos preocupados com o nosso relacionamento com D’us.

Sim, se Mashiach chegar hoje, ele encontrará nossa sopa fria. Sofremos com a ansiedade da separação. Sofremos de uma perda de conexão com nossos ancestrais. Sofremos de uma perda de conexão até mesmo com nossa família próxima. A sopa está fria. A sopa está muito fria. Mas de quem é a culpa? E quem recebe o crédito pelo fato de que há sopa, afinal?

Somos um milagre. Tudo que precisamos é entrar nele. Nós somos a cura. Não apenas para nós mesmos, mas também para o mundo inteiro. Através de nós a cura é holística, é natural, é orgânica. Nosso relacionamento com D’us é orgânico. Não é uma religião que praticamos – trata-se de nós, quem nós somos, é isso que somos.

Portanto o Rebe nos diz que a maneira de ir é direto para D’us. Pule todos os passos, pule a Cabalá, vá direto até D’us e fique em contato com o seu objetivo. O objetivo não é cabalístico. O objetivo é pessoal. D’us precisa que você cumpra uma mitsvá. Ele enviou você a este mundo para ser quem você é, porque somente você pode fazer este tipo de mitsvá. Sim, as mitsvot são as mesmas para todos nós. Mas quando você a cumpre, é diferente, porque é holística. É com suas emoções, com seus problemas passados, com sua origem familiar, com seu conhecimento e com sua ignorância. Tudo que vem junto torna a sua mitsvá holisticamente única.

Portanto, que Mashiach venha agora e nos encontre aqui com nossa sopa fria, porque não temos nada para nos envergonhar. Somos realmente incríveis. Quando D’us decidiu casar conosco, Ele sabia que estava realmente fazendo um bom negócio.