A Perfeição Universal

Pelo Rabino Nissan Ben Avraham
2Uma Sociedade Danificada

No quarto capítulo do tratado de Guitin, o Talmud menciona uma série de Mishnaiot que apresentam um fator em comum: “a perfeição, ou ‘correção’ universal”. Ou seja, diferentes decretos ou leis que foram estabelecidos a fim de melhorar o mundo em que vivemos.

Alguns destes decretos claramente se referem apenas à sociedade judaica, buscando garantir que a sociedade na qual vivemos seja mais confortável, que possamos evitar maiores problemas e etc… É verdade que a Torá, tanto a escrita quanto a oral, apresenta diversas indicações a fim de assegurar uma melhor convivência e, melhor ainda, uma sociedade conectada com o Criador, ao seguir suas instruções. Ainda assim, quando o nível moral da sociedade é danificado, não há escolha, a não ser fazer algumas alterações para garantir que os princípios subjacentes a lei da Torá não sejam alterados.

Na Torá, existem, principalmente, dois âmbitos que são muito diferentes, mas muitas vezes não estão claramente separados: o âmbito universal e o âmbito nacional. Quer dizer, existem leis que não são exclusivas do povo de Israel, como as proibições de: assassinar, roubar e cometer idolatria e a obrigação de honrar o pai e a mãe. Estas leis são para todos os povos do mundo, independentemente da nacionalidade, sexo ou posição social. Formam a base sobre a qual está construído o segundo andar, que é o Povo de Israel.

No “segundo andar” estão as leis especiais direcionadas a todas as pessoas que sejam parte de uma grande tarefa especial, que é chegar mais perto do Criador. São as leis do Templo, em primeiro lugar, mas também muitas outras que assegurem que a humanidade, ou uma parcela significativa dela, esteja disposta a receber o jugo divino. A Presença Divina, cuida primeiramente de Seu povo, dando a vida espiritual que tanto necessita. Mas, também está em todo o mundo e todo o universo.

O Criador impôs condições para que essa presença possa ser visível. Condições físicas e, acima de tudo, morais para cada pessoa, mas também condições materiais para o povo, das quais, a maioria, são relacionadas com a Terra Santa, e, também, condições espirituais. Quando algumas das condições deixa de ser cumprida, isto afeta a relação da Presença Divina com Seu povo e se faz necessário, alguns ‘ajustes’.
Um Capítulo de Correções

A expressão “correção”, ou “perfeição”, é repetida, como dissemos, no capítulo mencionado do Talmud. O primeiro capítulo trata da correção da “carta de rejeição”. Como sabemos, no Judaísmo, há a possibilidade do divórcio, somente, segundo a Torá, se se trata de uma iniciativa do marido, e não da mulher. Na prática, isso foi mudando ao longo dos séculos, mas este é o nosso tema.11

Deste modo, o marido pode preparar uma “carta de rejeição” e entregar a sua esposa, na presença de duas testemunhas, e esta ação é válida como divórcio. Às vezes, o divórcio acontece em condições estranhas, quando, por exemplo, o casal não vive em um mesmo lugar, e é necessário que o marido envie esta carta através de um emissário, que entregue nas mãos de esposa. Enquanto a carta não chegar ao seu destinatário, o divórcio não tem efeito.

Tendo em conta que, quando um casal decide se separar, normalmente significa que as relações entre eles não são as melhores do mundo, pode acontecer que o marido se arrependa, após ter enviado a carta de divórcio com o emissário. Se considera, então, que este divórcio não tem base legal e, portanto, mesmo que a carta chegue nas mãos de sua esposa, este não será válido. Mas a mulher não sabe que seu marido se arrependeu e acreditando que está divorciada, pode decidir casar-se com outro homem. Ao fazê-lo ela está, na verdade, cometendo um adultério e as crianças que, eventualmente, nascerem deste novo casamento, serão considerados bastardos.

Claro, esta é uma situação de desastre moral, e não podemos permitir tal coisa. É o que diz a primeira Mishna do capítulo quatro: “Raban Gamliel estabeleceu que o cancelamento (arrependimento) da função do emissário não possui valor legal, e assim, a esposa ao receber esta carta, estará oficialmente divorciada e poderá casar-se com quem bem entender”. Este foi o primeiro decreto realizado no sentido da “perfeição” (ou “Correção”) Universal. Isso impede que um arrependimento do marido, torne-se uma arma imoral para destruir a vida das mulheres.
A Honra da Viúva

O assunto seguinte sobe estas “correções” está no mesmo capítulo e, refere-se aos direitos dos órfãos e das viúvas. Órfãos podem receber uma herança do falecido pai e, de repente, uma multidão de pessoas pode aparecer cobrando dívidas que, segundo argumentam, o falecido lhes devia. Muitas vezes os órfãos não têm a possibilidade de verificar a veracidade desta afirmação, uma vez que pode ser que o pai já pagou tal dívida e, por alguma razão, o credor não possui o comprovante. Portanto, os credores são forçados a jurar que ainda não receberam o pagamento.

Mas ainda existe um problema com a viúva, que por vezes não é a mãe dos herdeiros. De acordo com o contrato do casamento, esta deve receber uma quantia do dinheiro da herança (a ketubá), destinada a garantir seu bem-estar na nova fase da vida. Entretanto, o Talmud diz que, com base no costume sobre o recato da mulher, esta não poderia aparecer no tribunal para jurar e cobrar sua parte. Mas, por outro lado, existia a possibilidade de que, de alguma forma, poderiam aparecer credores cobrando a Ketubá eu lhe pertencia, apresentando uma possibilidade de perjúrio muito grande. Ou seja, os tribunais evitavam fazer a mulher jurar, mas por causa disso, esta, não poderia recolher o dinheiro que lhe era devido.

Assim, mais uma vez, Raban Gamliel fez um decreto no sentido da “Perfeição Universal”, que permitia a viúva jurar e cobrar sua parte da herança, eliminando as dúvidas que possam surgir sobre a Ketubá, seja parcialmente ou totalmente. Por exemplo, a instruíam fazer votos de não comer legumes mais na vida caso recebesse a totalidade ou parte da Ketubá. Isso evitava que a viúva tivesse que vir ao tribunal e o perigo de estar fazer um falso testemunho por pressão e, além disso, os órfãos também ficavam satisfeitos.

Como podemos ver, o conceito de “Perfeição Universal”, no judaísmo, começa nos pequenos detalhes do dia a dia que fazem a vida neste mundo ser mais fácil e mais agradável. Especialmente quando uma sociedade pode ser danificada e precisa urgentemente de ser corrigida.

A primeira correção deve ser cuidar a sociedade para que se mantenha em um ponto ‘normal’ de convivência social e de direitos e obrigações bem-compreendidos e bem praticados. A partir disso, é necessário alcançar um segundo nível aonde se melhora a sociedade para muito além do que pode ser considerado ‘normal’, como vemos na maioria das legislações escritas na Sagrada Torá. Esta não se satisfaz com um estado de “direito”, mas sim, almeja um padrão muito mais elevado, quase “divino”, como convém a um ser humano, que não é simplesmente um animal, mas que possue uma alma sobrenatural divina.