Parashá da Semana – Devarim

Parashá da Semana – Devarim

Parshat Devarim

Pelo rabino Reuven Tradburks

O livro de Devarim é o discurso de Moshe na última semana da sua vida.  Um discurso bastante longo, a melhor parte de 28 capítulos.  Tem muito a dizer. Ele não entrará na terra de Israel.  O povo judeu sim.  Transferiu a liderança com sucesso: o sucessor de Aharon é Elazar, o sucessor de Moshe é Joshua.  Já vimos antes outras palavras de despedida:  Yaakov, em Parshat Vayechi, recriminou os filhos.  Mas não durante 28 capítulos.  Yaakov fê-lo num capítulo de 33 versos.  O nome em português para este livro é Deuteronómio; o Midrash chama-lhe Mishneh Torah.  Ambos significam «2» – a segunda versão da Torá, ou a repetição da Torá.  Mas estes nomes são enganadores.  Moshe não revê  toda a Torá.  Ele relata apenas algumas histórias, revendo com o povo alguns dos episódios que aconteceram anteriormente na Torá.  Mas deixa de fora muito mais do que o que repete.  Não menciona nada do livro de Bereshit.  Nem qualquer história do Egito; nada sobre a escravatura.  Ou sobre as pragas.  Ou sobre a divisão do Mar. Ou sobre as instruções para o Mishkan.  Ou sobre a maior parte do livro de Vayikra relativamente à Tuma, Tahara e às Oferendas. Portanto, não é uma revisão da Torá; é uma revisão de algumas partes, de histórias e leis selecionadas da Torá.  Somos obrigados a perguntar porque escolheu Moshe estas histórias que encontramos aqui, e não outras. E a ordem não é de todo a de como ocorreram; Moshe muda a ordem.   Onde é que ele quer chegar?  O que está a motivar Moshe?  E, como último ponto de introdução: a linguagem de Devarim é diferente.  É emocional.  Há muita preocupação, apreensão, medo.  Preocupação com o fracasso, desafios que não serão cumpridos, nos quais o povo fracassará.  Há amor:  amor de De’s por nós e amor nosso por Ele.  Muito zelo e paixão; muitas figuras de estilo enfáticas.  Moshe, neste discurso de partida, está a partilhar muito de si mesmo, de uma forma muito reveladora, ao povo de quem se separará muito em breve.

 

1a aliá (Devarim 1:1-10) Moshe narrou os eventos da viagem, a viagem de 11 dias de Chorev a Kadesh Barnea.   No 1º de Adar, no ano 40, Moshe relatou ao povo tudo o que De’s lhe tinha instruído sobre eles.  Isto foi depois das derrotas de Sichon e Og, nas margens do Jordão.  Ele relatou: De’s instruiu-nos a deixar o Sinai e a tomar a terra de Israel, a terra prometida aos nossos antepassados.  E eu disse: este povo é agora tão numeroso que não posso suportá-lo sozinho.

Demorou 40 anos para fazer uma viagem de 11 dias.  Isso não é uma quilometragem lá muito boa. Moshe começa as suas palavras de despedida com uma descrição da viagem à terra de Israel. Não com a história do Êxodo.  Nem mesmo com a história da entrega da Torá.  A sua ênfase  é a viagem à terra.  O povo está prestes a entrar na terra; estão preocupados com isso.  Moshe vai ao encontro deles onde eles estão, abordando as suas preocupações imediatas.   Ele já vai chegar à parte sobre os sinais, sobre a crença religiosa e sobre os desafios religiosos.  Mas primeiro vamos tratar do assunto em questão:  entrar na terra.

 

2ª aliá (1:11-21) Vamos escolher pessoas sábias para liderar o povo. Concordaram que era boa ideia. Líderes sábios foram nomeados sobre milhares, centenas, e dezenas, e também foram nomeados oficiais de aplicação da lei. Encarreguei os juízes dizendo: Ouvi e governai de forma justa, sem preconceitos.  Dei-vos instruções sobre todas as coisas que deveis fazer.  Viajámos pelo deserto até ao Monte dos Emori, Kadesh Barnea.  Chegados lá disse:  Vamos sem medo e conquistemos a terra.

É curioso que a primeira história que Moshe sente necessidade de contar seja a nomeação dos vários juízes dos tribunais, do superior e do de primeira instância.  Afinal, isto não parece ter nada a ver com a marcha para a terra.  Na verdade, há outras histórias que ocorrem como parte da marcha, como as queixas por água, que são simplesmente ignoradas. Porquê mencionar a nomeação de juízes?  Talvez Moshe esteja a abordar a preocupação calada do povo: Como é que vamos conseguir ter sucesso sem a liderança de Moshe?  Não venceremos nas batalhas sem ele. A subtileza de Moshe equilibra a sua condição de indispensável.  Não posso fazer tudo.  Não conseguia fazer tudo na altura. Precisei de ajuda desde o início.  E agora também.  Eu sou dispensável.

 

3a Aliá (1:22-38) Vieram a mim para eu enviar espiões para explorar a terra.  Achei uma boa ideia escolher os líderes das tribos para essa tarefa.  Eles viajaram até lá e voltaram com frutos da terra exclamando: A terra que De’s nos dá é boa. Mas recusastes-vos a ir e revoltastes-vos contra De’s dizendo: Estes homens prejudicaram a nossa determinação, falando-nos dos gigantes e das cidades fortificadas.  Insisti que De’s travaria a batalha, como fez até agora.  Mas não confiastes em De’s, que vos tem guiado com nuvens e fogo.  Foi-vos dito que todos os que não acreditaram que podiam entrar na terra, não entrariam na terra.  E a mim também me foi dito que não entraria; Yeshoshua vai liderar o povo para entrar na terra.

Moshe está a criar uma ligação com o povo: Pedi-vos juízes e achastes que a minha ideia era boa.  Pedistes-me espiões e achei a vossa ideia boa.  As diferenças na forma como Moshe relata esta famosa história dos espiões e a forma como a própria Torá a descreveu é um tema rico para análise.  Uma das inúmeras diferenças é o papel dos espiões nesta narrativa: está em falta.  Pouco se diz sobre os espiões.  Em Bamidbar, parece que o relatório desfavorável deles despoletou uma cascata de medo.  Aqui, Moshe coloca a culpa no povo: causada pelo relatório dos espiões, mas claramente centrada no povo.  Talvez Moshe esteja deliberadamente a mudar a ênfase dos líderes para os seguidores.  Precisam de bons líderes, mas também precisam de ser bons seguidores.  A culpa de todos os fracassos nacionais não pode ser atribuída sempre aos líderes.  As pessoas também têm de assumir plena responsabilidade pelas suas decisões.  E aqui, a decisão do povo foi revoltar-se contra De’s.

 

4a aliá (1:39-2:1) Ao saber que não entraríeis na terra, arrependestes-vos do vosso pecado.  Deixa-nos ir para a terra.  Mas fostes avisados de que De’s não estaria convosco nisto, e os Emori afugentaram-vos como abelhas até à região de Seir.  Habitámos em Kadesh e Har Seir por muito tempo.

 

Um princípio fundacional na jornada nacional judaica é seguir o nosso De’s. O Homem tem muito que fazer quando a instrução divina está ausente.  Mas quando Ele nos disser para não irmos para a terra, não prevaleceremos.

 

5a aliá (2:2-30) Chegou a hora de viajar para o norte.  Não confronteis os descendentes do vosso irmão Esav que residem em Seir.  Contornai a sua terra; pagai pela comida e pela água que precisardes deles.  Além disso, não confronteis Moav, porque é a herança legítima dos descendentes de Lot.  Passando a terra de Moav, é Amon; não confronteis Amon, pois também é a herança legítima dos descendentes de Lot.  A região a norte do Arnon é a terra de Sichon e Og; estas terras são as que vos dei.   Propus a Sichon passar pela sua terra, mas ele recusou; De’s o tornou teimoso para que pudéssemos conquistar a sua terra.

O povo judeu não está sozinho no mundo.  Temos parentes.  E devemos ter consideração por esses parentes.  O irmão de Yaakov, Esav, instalou-se em Seir.  Ele merece respeito fraterno e, portanto, deixai-o em paz.  Moav e Amon são nações de Lot, sobrinho de Avraham.  Deixai-os em paz também; São vossos parentes.  Os irmãos, mesmo quando seguem caminhos completamente diferentes, continuam a ser irmãos.

 

6ª aliá (2:31-3:14) De’s disse-nos para tomarmos as terras de Sichon na guerra.  As terras foram conquistadas até ao Gilad.  Og confrontou-nos na região em direção ao Bashan e também foi conquistado.  As suas terras foram dadas a Reuven, Gad e à metade da tribo de Menashe.

Estes confrontos com Sichon e Og são as últimas histórias do livro de Bamidbar, não há muito tempo.  Moshe relata estas histórias logo no início do seu longo discurso, embora, se estivesse a rever a nossa história cronologicamente, tivesse de esperar 25 capítulos.  Fá-lo para começar o seu discurso com histórias de sucesso e encorajamento.  Ele vai querer avisar as pessoas, admoestá-las, contar-lhes sobre os seus futuros fracassos, mas isso pode esperar.  Começa com sentimentos positivos.

 

7a aliá (3:15-22) As terras a leste do Jordão, incluindo o Gilad e as terras desde o Kineret até ao Mar Morto foram habitadas por Reuven, Gad e metade da tribo de Menashe.  Instruí estas tribos a juntarem-se à batalha pela terra de Israel e regressarem depois às suas terras.

Este é um pedaço de terra muito grande:  a parte do lado leste do Jordão, do Mar Morto até lá acima ao Hermon, foi conquistada e será habitada pelo povo judeu.   Estas primeiras vitórias e a repetição de Moshe das suas histórias permite-lhe iniciar as suas longas instruções ao povo de uma forma positiva e  otimista. Vão conseguir e conquistarão a terra.

Parashá da Semana – Devarim

Shabat Chazon – Onde e como

Na haftarah que lemos semanalmente na beit hakneset, há uma relação temática com a parashá.

Neste Shabat, a parashá inicia o livro de Devarim, ou Deuteronómio; é um Shabat especial chamado Shabat Chazon (Shabat da Visão), porque lemos a visão profética na qual Isaías anuncia a destruição do Templo. Este texto prepara-nos para o jejum de Tisha BeAv, no qual recordamos o desaparecimento dos dois templos, cuja ausência mudou drasticamente a vida judaica.

A profunda relação entre a parashá de Dvarim, a Haftarah de Chazon e Tisha Beav é simbolizada pela palavra Eichá, que aparece nos dois textos e é, além disso, o nome da Megilah que lemos no dia mais triste do calendário judaico. Eichá significa «Como?» Como ficou a cidade? Como é possível que eu continue só?,  Moisés se pergunta. Como a cidade se tornou prostituta?, Isaías se pergunta.

Esta pergunta é formada pelas mesmas letras que formam a pergunta que o Altíssimo fez a Adão e Eva no jardim do Éden depois de eles terem comido o fruto proibido: Aieka? «Onde estás?» A questão existencial que inicia o relato bíblico torna-se «Como isso pôde acontecer?»

Esta semana marcamos mais um aniversário do infeliz dia em que uma bomba terrorista destruiu a AMIA em Buenos Aires. É um crime que continua impune. Como isso pôde acontecer? Como puderam acontecer todos os eventos fatídicos que a nossa memória lembra como fogo e destruição, no jejum de Tisha Beav? Onde estava a humanidade nesses momentos? Onde? Como? Essas são as perguntas que surgem do texto e devem nos guiar como um imperativo categórico, para que nossa ética e moral continuem sendo as mesmas de há milhares de anos. Essas perguntas direcionam o caminho da memória. Elie Wiesel escreveu que o povo judeu desempenha um papel na humanidade; é como o alarme que soa quando o trem corre o risco de descarrilar. A nossa existência faz sentido como um alerta para a humanidade de todas as injustiças que ocorrem, e é com esta convicção profunda que devemos entrar no jejum de 9 de Av.

Edith Blaustein

Parashat Haazinu

O objetivo do cântico de Haazinu – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O objetivo deste cântico que De’s ordena a Moisés escrever é advertir o povo acerca do mal que lhe acontecerá no caso de se assimilar à cultura idólatra dos povos de Canaã, até ao ponto em que chegará a esquecer-se de De’s, que foi Quem formou o povo de Israel.

De’s adverte-os de que, no caso de O abandonarem, então Ele retirará deles a Sua providência divina, o que fará com que fiquem expostos às catástrofes naturais e às maldades dos demais povos.

No entanto, há uma esperança e um consolo: o povo, finalmente, entenderá que só a De’s deve servir. De’s impedirá que todo o povo de Israel seja aniquilado, para que o Seu Santo Nome não seja profanado. Vingar-se-á dos inimigos de Israel e expiará os pecados do Seu povo.

Contrariamente aos historiadores e a muitos dos líderes laicos do povo de Israel, que defendem que o povo de Israel se conduz do mesmo modo que os outros povos e que lhe ocorrem as mesmas coisas que a qualquer povo, a Torá sublinha de forma clara que não é assim.

O povo de Israel é o único povo que foi formado pelo próprio De’s, tal como diz o versículo: Ele é teu pai, teu fazedor e formador.

É o único povo a quem De’s dirige e instrui através de mandamentos justos, tanto para o indivíduo como para a sociedade em geral. Não são só leis para manter o equilíbrio e a paz social, mas sim também pautas e normas de comportamento para vida privada de cada indivíduo, que o ajudam a elevar-se e a evitar tornar-se depravado indo atrás dos prazeres e apetites materiais. Também os afasta de falsas ideias e cultos nocivos. Como diz: Encontrando-se no deserto numa terra desolada, trouxe-o ao redor (do monte Sinai) e instruiu-o.

É o único povo que é conduzido por De’s, seja em forma geral ou em forma particular, pois conta com a providência divina. É o que diz o versículo: Cuida-o como à menina dos Seus olhos. Tal como a águia que desperta a sua ninhada, voa sobre os seus filhotes, estende as suas asas, toma-os e leva-os sobre as suas asas.

Ele é o Senhor e dono do mundo, e é Ele que nos entregou a terra de Israel, e que nos expulsará dela por causa das nossas transgressões. Quando fez herdar a cada povo o seu território… E decretou as fronteiras das nações…

Destes pontos podemos deduzir que o povo de Israel não é igual aos demais povos:

  • Não foi o povo que se formou a si próprio nem surgiu de motu próprio; foi De’s que o constituiu.
  • Não é o povo que compõe as suas próprias leis e mandamentos de acordo com o seu próprio parecer, é De’s que lhes fornece um sistema de leis elevado, justo e equilibrado.
  • O povo não é dono da terra; toda ela pertence a De’s, e Ele entrega-a quem Ele considera justo.
  • Não é o povo que forja o seu destino; é De’s quem o salva e redime dos seus inimigos ou desgraças.

O objetivo destes versículos é De’s testemunhar de antemão tudo o que vai acontecer se abandonarem De’s, e adverti-los que não pensem que as desgraças que lhes acontecem são coisas naturais, tal como acontece com os demais povos. Estes versículos são um convite à reflexão, à observação da História e ao recordar dos tempos passados. De onde vêm? Quem os formou? E quem os guiou? Observar tudo o que De’s fez por eles e a maneira tão mal-agradecida na qual se comportaram com Ele.

Então verão que De’s é quem os conduz e quem vela pelo seu bem, e dessa maneira retornarão a Ele e o servirão. Então De’s voltará a eles, os salvará e lhes fornecerá a Sua proteção e manutenção com abundância, paz e harmonia.

Parashat Vaielech

Mitzvat Hakehel – Reunir todo o povo de Israel – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Texto a analisar: Devarim 31:9-13

O primeiro que notamos é que quando diz esta Torá, não se refere a toda a Torá, pois a Torá ainda não estava acabada; faltavam acontecimentos que ainda não tinham sido escritos. É por isso que, mais à frente, 31:24-26 diz: E foi quando acabou de escrever as palavras desta Torá no livro, até que o completou (…) Tomai este livro da Torá e colocai-o o na arca do pacto do Eterno. Nesse versículo vê-se claramente que somente aí se completou a escrita da Torá. Portanto, o nosso versículo da parashá de Hakehel (E escreveu Moisés esta Torá), não se refere a toda a Torá.

O livro Devarim pode dividir-se da seguinte maneira: as três primeiras parashiot (Devarim, Vaetchanan e Ekev) tratam dos temas fundamentais do judaísmo, os que têm a ver com a fé em De’s e com as boas qualidades.

Depois, as próximas três (Ree, Shoftim e Ki Tetzé) são parashiot de mitzvot específicas.

A três seguintes (Ki Tavó, Netzavim e Vaielech) fazem finca-pé na importância de nos mantermos firmes e fiéis ao pacto.

As duas últimas (Haazinu e VeZot Habrachá) são as últimas palavras de Moisés, ditas em forma poética.

A expressão esta Torá já foi mencionada antes, na parashá Ki Tavó, e, tal como dissemos, essa parashá faz parte das parashiot que se referem a nos mantermos fiéis à Torá. Portanto, a nossa parashá não faz alusão aos cinco livros da Torá, mas sim àquelas partes da Torá que sublinham o facto de sermos fiéis ao Pacto.

E era precisamente isto que o rei tinha que ler. As partes do livro de Devarim que falam da importância de cumprir a Torá e manter o Pacto.

Por outras palavras: deve escrever todos os parágrafos que advertem sobre os benefícios e consequências do cumprimento dos preceitos (sem entrar nos detalhes dos preceitos), quer dizer, as bênçãos e as maldições e todos os parágrafos que nos incitam ao cumprimento de toda a Torá.

O motivo pelo qual é entregue aos cohanim e aos sábios, é porque os cohanim eram quem ensinava a Torá ao povo, e por isso era importante que tivessem estes parágrafos à mão para poder ensiná-los a toda a gente.

E é a isto que faz alusão quando diz que se devia ler a cada sete anos, pois a Torá deve sempre ser lida e estudada, e não só os cohanim e os sábios, mas sim todo o povo.

Portanto, vê-se claramente que a intenção deste preceito não é estudá-la e aprendê-la, mas sim renovar o Pacto entre o povo e De’s, lendo-a a cada sete anos.

O povo fez um Pacto com De’s no monte Sinai, e depois renovou-o aos quarenta anos em Arvot Moav. Se prestarmos atenção, veremos que nessas duas ocasiões são utilizadas as mesmas palavras mencionadas agora.

A cada sete anos, quando a ideia do Pacto consertado com De’s se vai esquecendo na consciência do povo, Moisés diz-lhes que é necessário renová-lo. É por isso que isto foi dito logo depois de Moisés ter reunido o povo inteiro para renovar o Pacto.

O que Moisés fez foi juntar todo o povo e renovar o Pacto, e agora diz-lhes que isso deve ser feito cada sete anos. É por isso que têm que vir todos: homens, mulheres e crianças, tal como aconteceu no monte Sinai.

É precisamente isto o que diz Rambam em Hilchot Chaguigá 3:1-3: É um preceito reunir todo Israel, homens, mulheres e crianças, ao finalizar o ano sabático, quando sobem ao santuário. Devem ler-se aos seus ouvidos parashiot que incentivem ao cumprimento dos preceitos e que os fortaleçam na religião verdadeira. Parashiot cujo objetivo é o cumprimento geral das mitzvot.

Quando se reunia e se lia tudo isso? No final do sétimo ano sabático, depois do primeiro dia da festa de Sucot, lia-se a Torá. E era o rei quem devia lê-la no pátio do Templo. O que é que o rei lia? Lia desde o princípio do livro de Devarim até à primeira parte do Shemá; depois saltava até à segunda parte do Shemá e depois saltava até às bênçãos e às maldições. (Acaba aqui a citação de Rambam em Hilchot Chaguigá).

O motivo pelo qual se lia exatamente estes parágrafos é porque neles vê-se claramente o incentivo para cumprir todos os preceitos.

Tal como quando um indivíduo quer juntar-se ao povo de Israel, o que se faz é explicar-lhe os princípios básicos do judaísmo, a existência de De’s, a Sua unicidade, que opera a justiça, etc. E sobre estes temas diz Rambam que nos devemos estender e abundar em detalhes, e depois ensinam-se de forma breve o resto dos preceitos. Com isto, é suficiente para entrar no Pacto.

É isto mesmo que se deve fazer a cada sete anos.

Porquê os sábios estipularam que era precisamente o rei quem devia ler esta Torá diante de todo o povo no fim dos sete anos? De onde aprenderam isto, se a Torá não disse nada ao respeito?

Se observarmos o parágrafo anterior ao nosso, ele fala-nos justamente de que Yehoshua seria quem faria entrar o povo de Israel na terra. E ele era precisamente o líder político do povo, aquele que exercia o cargo de rei.

É por isso que aprenderam que o rei é que devia ler tudo isto aos ouvidos do povo e renovar o Pacto com De’s. E porque o rei é o líder deles, é ele que tem a autoridade para comprometer e obrigar a todos a cumprir o Pacto, já que todo o povo o teme e obedece às suas palavras. Este é o motivo pelo qual deve ser lido pelo rei. Para além disso, desta maneira o Pacto ganha uma conotação muito mais solene e séria.

Porquê deve ser feito a cada sete anos? Porquê no ano sabático? Justamente depois do ano sabático, quando estão tranquilos, não estão atarefados com os trabalhos do campo e as dívidas foram perdoadas, então é quando têm a mente tranquila para poder pensar em tudo isto.

Mais um ponto a ter em conta é que precisamente agora as pessoas começavam novamente a se dedicar aos seus trabalhos. Por isso, antes de iniciarem os seus afazeres de rotina, a Torá ordena este ritual, para que o povo tenha o Pacto bem presente nas suas mentes. Tal como o fizeram no deserto com Moisés, onde reafirmaram o Pacto antes de entrar na terra, para não terem medo de tudo o que iam ter que enfrentar, assim também, a cada sete anos, repetem isto, para terem força e poderem enfrentar tudo aquilo com que se terão que deparar nos próximos anos de trabalho, e para a sua confiança e fé em De’s não se debilitarem.

Liam-se estes parágrafos no fim do ano sabático, antes de começar tudo novamente; desta maneira vão aprender que não devem temer nada, que o único caminho e a única fórmula para triunfar é fazer a vontade de De’s.

No momento em que vai começar a vida diária e a rotina, é quando é necessária uma dose extra de fé e temor a De’s para não tropeçar.

É por isso que se fazia em Sucot, pois nesta festa consciencializamo-nos de que tudo depende de De’s e não só de nós. Em Sucot recordamos que fomos atrás de De’s por caminhos inóspitos e Ele nos conduziu pelo deserto e fez com que nada nos faltasse.

Está escrito: Reunirás o povo, homens, mulheres, crianças e os estrangeiros que estejam nas tuas cidades, para que escutem e para que aprendam e temam o Eterno vosso De’s e cumpram todas as palavras desta Torá.

Porquê está escrito para que escutem e para que aprendam? Deveria ter dito para que escutem e aprendam.

O comentarista Or HaChaim diz que o motivo pelo qual se repete a palavra para duas vezes é porque se dirige tanto ao homem como à mulher. A maneira em que a mulher capta algo é geralmente diferente da maneira do homem: A mulher vivencia-o, recorda-o, e fá-lo. O homem, pelo contrário, é mais analítico: estuda-o, e aí é que se convence e se compromete.

O objetivo a que se deve chegar é temer a De’s, e isso vai levar-nos a cumprir todas as palavras desta Torá e cumprir os seus preceitos. É por isso que se repete duas vezes a palavra para, pois refere-se à internalização, seja da maneira feita pela mulher ou pelo homem. (Por experiência ou analiticamente).

Então, qual é o objetivo: Temer a De’s ou cumprir a Torá? Na realidade, os dois são o objetivo. Que o cumprimento dos preceitos seja com temor a De’s, com um profundo respeito reverencial. Que não seja um ato reflexo e automático, sem pensar no que faz ou onde isso o conduzirá.

O facto de ser o rei quem lhes lê tudo isto ajuda a gerar temor no povo.

O motivo pelo qual as crianças pequenas também devem estar presentes, apesar de ainda não entenderem, é para adquirirem temor a De’s. Não é para aprenderem os preceitos, pois, como dissemos, ainda não têm raciocínio; o objetivo é que, ao ver todo o povo e o rei a ler a palavra de De’s, eles adquiram uma tal experiência que fique gravada na sua memória e nunca seja esquecida.

Estas palavras voltam a repetir-se outra vez na Torá, e é precisamente no sopé do Monte Sinai. Ali diz: Cuida-te muito de não esqueceres o que viste com os teus olhos, e que não se afaste do teu coração todos os dias da tua vida. E ensinarás aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos, o dia em que estiveste perante De’s no monte Chorev quando De’s disse: – Reúne-Me o povo e faz-lhe ouvir as Minhas palavras, que lhe ensinarão a temer-Me todos os dias que vivam sobre a terra e os seus filhos o aprenderão.

Não se trata só de recordar e renovar o Pacto. É algo que vai mais além; trata-se de reviver o Pacto. Não é algo meramente intelectual, mas também um acontecimento emocional; vivenciar o Pacto com De’s como se fôssemos nós que estamos de pé no monte Sinai aceitando os mandamentos de De’s.

Este é o motivo pelo qual não se fazia todos os anos em Sucot, pois seria algo muito rotineiro. Mas ao fazê-lo a cada sete anos, passa a ser algo mais especial. Como, por exemplo, quando se faz Bircat Hachamá (a bênção quando começa um novo ciclo solar), que ocorre uma vez a cada muitos anos. Apesar de ser somente uma bênção rabínica, é realizada do mesmo modo, com muita emoção e entusiasmo, porque é algo que ocorre a cada muitos anos.

Uma vez a cada sete anos a Torá fazia-nos reviver todo este evento para que, com alta emoção e no meio de todo o povo, o Pacto e o temor reverencial a De’s ficassem gravados no mais profundo do nosso ser.

É por isso que se fazia no santuário, pois o tabernáculo (como já explicámos) era como se fosse um monte Sinai portátil.

Rambam, em Hilchot Chaguigá 3:4 diz: Antes de o rei ler no sétimo ano, tocavam-se as trombetas em toda Jerusalém para reunir todo o povo e construia-se uma grande plataforma no santuário e o rei lia dali para que todos o escutassem e todo o povo se reunia ao redor dessa plataforma.

De aqui vemos que as trombetas fazem-nos recordar o som do Shofar no monte Sinai. As pessoas ao redor da plataforma recordam-nos todo o povo a rodear o monte Sinai para escutar a voz do Eterno.

Continua Rambam dizendo: Cada um deve ver-se a si mesmo como se estivesse a receber nesse momento a Torá e está a ouvi-la da boca de De’s.

O número sete é muito recorrente em todo este parágrafo, pois tem em total sete versículos, 140 palavras (20 × 7); sete vezes aparece o nome de De’s; deve ler-se no sétimo dia da festa de Sucot; essa festa cai no sétimo mês, e fazia-se a cada sete anos.

Tudo isto nos faz recordar quando saíram do Egito, e que ao fim de sete semanas (7 × 7) estiveram no sopé do Monte Sinai para fazer o Pacto com De’s.

O acontecimento do monte Sinai não foi chamado «Dia do Sinai» ou algo do género, mas sim precisamente: Yom HaKahal, e este preceito da nossa parashá chama-se precisamente a mitzvá Hakehel.

O dia em que todo o povo (Kahal) esteve frente a De’s, com temor reverencial, para se transformar no povo de De’s.

Parashat Nitzavim

A Teshuvá, o arrependimento– retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Analizaremos o capítulo 30, versículos 1 a 10.

Aparentemente, o texto é muito repetitivo.

No versículo 1-2 D’us diz-nos: Então porás no teu coração (recapacitarás) e retornarás ao Eterno teu D’us, mas o que é que devemos pôr nosso coração? Se prestarmos atenção, esta mesma frase  (veHashevota el levavecha) volta repetir-se outra vez na Torá, em Deuteronómio 6:39, que nos diz que devemos recordar o que aconteceu no Egito e no monte Sinai, onde aprendemos que D’us é único e não há nada fora deEle, e “porás isso no teu coração”. Quer dizer, o que é que devemos pôr no nosso coração? Que D’us é único e não há nada fora dEle. Abandonar a idolatria.

Como vão atingir esta ideia, quer dizer, saber que não há outro fora de D’us? Isto atinge-se ao verem o que lhes vai acontecer quando abandonarem D’us; ao se cumprirem todas as maldições acerca das quais a Torá já tinha advertido, entenderão que não aconteceram por acaso, e então vão reconhecer D’us e assumir que não há nada fora dEle e que serviram deuses pagãos em vão.

Logo no versículo 2 diz-nos que devemos voltar ao Eterno nosso D’us escutar a Sua voz. O primeiro ponto, o de voltar a D’us, refere-se a abandonar o paganismo ou o ateísmo e voltar a reconhecer que existe um D’us único, e logo ouvir o que é que D’us nos ordena fazer. Ainda não estamos na parte prática, nas ações; trata-se de determinação, de vontade, apesar de ainda não se ter feito nada. E assim deve ser: primeiro é a vontade, a fidelidade e determinação, e depois as ações.

Os versículos 3, 4 e 5 dizem-nos que D’us vai tornar a nós, vai apiedar-se de nós, vai amar-nos e vai reunir-nos de entre as terras dos demais povos, vai levar-nos à terra de Israel e vai abençoar-nos.

Como o povo volta a D’us, então D’us vai recompensá-los da mesma maneira. Ele torna a eles. Temos que reconhecer que o facto de D’us se voltar a nós, depois do povo de Israel ter violado o Seu pacto, não é um dado adquirido mas sim um ato de bondade e misericórdia por parte de D’us. Mas também devemos notar, através do versículo, que não se trata meramente de voltar a D’us, mas sim de o devermos fazer com todo o coração e com toda a alma.

O versículo 6 diz-nos que D’us vai circuncidar o nosso coração e o dos nossos filhos para que possamos amar D’us com todo o nosso ser. Este é um nível superior aos anteriores, é o de servir a D’us com amor, com todo o coração e com todo o ser, e essa é a verdadeira vida. Aqui não só nos fala de nós, mas também dos nossos filhos, quer dizer que é algo mais firme, não é um arrebato impulsivo de arrependimento, mas sim algo constante, que continuará, não só nas nossas vidas mas também na dos nossos filhos.

No versículo 7, D’us responde igualmente num nível superior. Agora não só nos abençoa mas também diz que todas as maldições se vão virar contra os nossos inimigos. Porque eles nos odeiam enquanto que nós estamos com D’us, amamos D’us e o que queremos é fazer a Sua vontade e apegar-nos a Ele, então todo aquele que seja nosso inimigo, na realidade está a ser inimigo de D’us, pois nós só queremos andar no Seu caminho, e se isso os incomodar ou nos odiarem, então D’us ocupar-se-á deles, porque, na realidade, não se estão a revoltar contra nós mas sim contra Ele.

No versículo 8, para além de voltarmos a D’us e ouvirmos a Sua voz, a Torá fala-nos pela primeira vez de que vamos cumprir todos os preceitos. Isto vem sublinhar que, apesar de na diáspora se poderem cumprir os preceitos, é só na terra de Israel que se podem cumprir todos os preceitos, porque muitos deles dependem da terra de Israel.

No versículo 9, depois de chegarmos a esse nível de cumprir todos os preceitos com amor, se, além disso, buscarmos a D’us com todo nosso ser, D’us responder-nos-á, tal como respondeu aos patriarcas, pois agora nós estamos  a agir como eles agiram, então D’us trata-nos tal como os tratou e cuidou deles.

O versículo 10 é um resumo do nível superior mencionado no versículo nove. E então, quando estivermos nesse nível, vamos entender toda a Torá de uma forma mais profunda e superior.

Desta maneira, chegamos ao nível mais alto:

  1. Perfeição intelectual (com o pensamento)
  2. Um sentimento profundo e sincero para com D’us (vontade e sentimento) e
  3. Perfeição nos nossos atos (ações)