HOMENAGEM AO RAV NISSIM KARELITZ

O Rav Nissim Karelitz emitiu um parecer histórico sobre os Chuetas.

De Miquel Segura Aguiló

No passado dia 21 de outubro, o povo de Israel sofreu a perda do importante rabino e posek, Shmaryahu Yosef Nissim Karelitz. Apesar das notícias publicadas pela imprensa internacional, poucas pessoas em Espanha mencionaram o seu desaparecimento. Entre nós, o seu nome deveria ficar inscrito num lugar de honra, porque Karelitz decretou, em julho de 2011, que «Todos os descendentes de conversos de Maiorca (Chuetas) que possam demonstrar que a sua avó materna, antes da segunda guerra mundial, tinha como segundo sobrenome um dos 15 considerados xuetes, devem ser considerados judeus, filhos de Israel

O mencionado rav, dirigente de um dos principais tribunais rabínicos do mundo, enviou a Maiorca uma delegação que, com discrição e silêncio, levou a cabo uma profunda investigação nos âmbitos históricos e genealógicos. O cronista teve o prazer e a honra de o acompanhar nas suas diligências. Poucos meses depois, chegava-nos o seu parecer, hoje conhecido e aceite pela generalidade do mundo judaico. Que o De’s de Abraão tenha acolhido a sua alma, e que a sua memória permaneça.

Leia mais sobre os judeus chuetas:

https://casadosanussim.shavei.org/2016/02/20/o-regresso-dos-chuetas-de-maiorca/
https://casadosanussim.shavei.org/2018/09/06/ha-vida-judaica-em-maiorca/
PERFIS DA SHAVEI ISRAEL: MIQUEL SEGURA AGUILO DE MALLORCA

PERFIS DA SHAVEI ISRAEL: MIQUEL SEGURA AGUILO DE MALLORCA

Continuamos a partilhar convosco as histórias de pessoas sem as quais as atividades da Shavei Israel com a intenção de reconectar judeus e descendentes de judeus às suas raízes não seriam tão eficazes e bem-sucedidas: os nossos representantes e líderes comunitários em todo o mundo. Um deles é Miquel Segura Aguilo de Mallorca, um Chueta que retornou ao judaísmo, jornalista e vice-presidente da Comunidade Judaica das Ilhas Baleares. Além dos seus esforços regulares para fortalecer, apoiar e desenvolver a sua comunidade, Miquel também investiu o seu tempo e o seu conhecimento na preservação da sua herança histórica, tendo publicado um livro emocionante que conta a história dos Chuetas.

A apresentação do livro “Os Chuetas: Uma História Inacabada” aconteceu na semana passada na sinagoga de Palma de Mallorca e atraiu mais de 60 visitantes. A maioria deles sentiu uma conexão pessoal com o assunto: a comunidade de Chuetas manteve as tradições judaicas em segredo por muitos anos e está numa etapa de crescente interesse em estudar a história dos seus antepassados.

O editor notou que a história moderna de Chuetas se divide em duas partes, como se pode ler no livro: a primeira é de 1994 a 2003, quando Miquel conheceu Michael Freund e se familiarizou com as atividades de Shavei, e a segunda é de 2003 até o presente, quando muitas pessoas mencionadas nesta história e o próprio autor iniciaram o seu processo formal de conversão e retornaram ao judaísmo.

Miquel explicou a sua escolha da Shavei Israel como o local da apresentação da seguinte forma: sem uma sinagoga, uma comunidade judaica e judaísmo, nada do que ele descreveu neste livro e nos anteriores faria sentido. Miquel reconhece o papel que a Shavei Israel desempenhou na sua vida e diz que para ele, a organização se tornou a porta para retornar à sua herança e ao seu povo.

Há vida judaica em Maiorca

Inauguração da placa memorial em honra dos 37 descendentes de judeus Chuetas executados pela Inquisição em 1691.

Por Miquel Segura Aguiló

Com o coração já mais sossegado e as emoções mais bem controladas, é a minha vez de comentar o grande evento que teve lugar no passado domingo na praza Gomila, da cidade de Maiorca. Que posso dizer? 30 Anos a lutar por uma mínima reparação, e no dia em que Hashem permite que esta chegue fui invadido por um conjunto esmagador de sensações contraditórias.

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JACOB LOPEZ, Palma de Mallorca,1672

A expulsão dos judeus de Oran

6a00d8349889d469e2014e8842c36e970d-800wiNo ano de 1672, encontramos um importante relato na história dos cripto-judeus de Mallorca, Espanha.

Um Navio chegou no porto de Palma de Mallorca com muitos judeus que fugiam do Norte da África. Fernando Fajardo, o Marquês de Vélez e protegido da rainha Mariana (mãe de Carlos ‘O Enfeitiçado’) tinha decretado a expulsão de 500 judeus que viviam na cidade de Oran, no norte da Argélia moderna, que estavam sob domínio espanhol desde que a cidade foi conquistada pelo Cardeal Cisneros em 1509. Mas, concordando com suas mudanças para a cidade portuária de Livorno, a nordeste da península italiana, que havia sido declarada porto livre em 1590.

Parece que um grande número de judeus já haviam estado em Mallorca, quase trezentos anos antes, após o assalto em Call em agosto de 1391, que causou a conversão forçada de centenas de judeus. Alguns conseguiram escapar, seja durante os motins sangrentos, seja nas semanas e meses que se seguiram e, apesar dos decretos que limitavam sua saída da ilha. Supõe-se que a maior parte chegou a Oran e de lá foram distribuídos entre outras cidades, como Ténès e Mostaghanem, todos na costa oeste da moderna Argélia.
Três anos de prisão

Devido à expulsão, o navio chegou carregado com uma dezena de judeus ao porto de Mallorca. Entre eles estava um jovem de cerca de 16 anos, chamado Jacob Lopez, que esperava encontrar sua noiva na cidade toscana. No momento em que o navio chegou ao Porto Pi, porto onde estavam ancorados os navios estrangeiros, os guardiões da Inquisição encarregados de monitorar a pureza da Espanha subiram no navio. Os judeus foram cuidadosamente examinados e os jovens despertaram as suspeitas dos guardas, sendo presos e permitindo que o navio continuasse seu caminho a Livorno, sem eles.

O menino permaneceu cerca de três anos na prisão, enquanto a Inquisição investigava seus detalhes. Após o envio de mensagens para 14 tribunais inquisitoriais na Península Ibérica, receberam informações de Madrid, sobre uma família Lopez, descendentes de judeus que fugiram em direção a Málaga e de lá para o Norte de África. Supostamente ali haviam abandonado o Cristianismo e teriam abraçado a fé de seus antepassados judeus.

Cruzando informações concluiu-se que Jacob era realmente Alonso Lopez, filho da família, que arriscou sua vida ao voltar para o território espanhol. Na verdade já tinham tentado sair de Oran vários anos antes, com a publicação do decreto de Fajardo, mas ao chegar ao porto de Nice, de onde continuariam a viagem até Livorno foram capturados por piratas e trazidos de volta à terra que habitavam, onde passaram vários meses na prisão, até que foram resgatados, e agora novamente se arriscavam no caminho à Livorno.
Relaxado ao braço secular

O jovem “marrano” não negou as acusações e afirmou que permaneceu fiel a sua fé ancestral. O Inquisitor Pedro de Aliaga apresentou documentos para Inquisitor Maior Rodriguez de Cossio, que assinou sua sentença de morte. Mas a Inquisição, como uma instituição religiosa que era, não queria matar ninguém, de modo que o réu foi considerado “relaxado ao braço secular”, permitindo a sentença.

No dia 12 de janeiro de 1675, multidões se reuniram perto da porta de Jesus, ao norte da cidade de Palma, onde estão hoje, provavelmente, os edifícios do Institut Joan Alcover na Avinguda Alemanha de Palma, ou talvez perto da faculdade Lluís Vives, onde estudei na minha juventude.

Jacob Lopez subiu à fogueira aonde mais uma vez rejeitou a oportunidade de se arrepender de sua apostasia ao cristianismo católico e permaneceu fiel ao judaísmo, para que então, ateassem fogo à estaca e o queimassem vivo.
Exemplo para os Cripto-Judeus

Seu exemplo repercutiu de imediato sobre as famílias dos descendentes de judeus, chamados xuetas, moradores da cidade, que haviam se convertido ao cristianismo três séculos antes. Logo eles se organizaram para exigir, em segredo, só para si, sua lealdade ao judaísmo. No entanto, dois anos depois, foram presos cerca de 270 “judaizantes” e então começaria a odisséia dos Xuetas Maiorquinos, mas isso é outra história!

A Excomunhão dos Mallorquinos em Ténès

A História dos Judeus que escaparam de Mallorca em 1391

 

Tenes
Tenes

A fuga do ano de 1391

A cidade de Ténès está na metade do caminho entre a capital de Oran e a capital Argel, na costa da Argélia, bem “abaixo” da ilha de Ibiza, nas Ilhas Baleares. Há uma pequena praia que divide a costa íngreme aonde lá, foi fundada pelos fenícios, a primeira cidade da região, Cartennas, há cerca de 2.500 anos.

Em 1391, durante um grande massacre e conversões forçadas dos judeus ao cristianismo em Mallorca, muitos fugiram da ilha e se estabeleceram nas cidades do norte da Argélia, Ténès, Konstantin, Beghaïa, etc.

A chegada desses grupos, e suponho que de muitos outros perseguidos na Península Ibérica, causou uma grande perturbação nas comunidades judaicas já existentes no norte da África.A História dos Judeus que escaparam de Mallorca em 1391

Aqui transcrevo uma “resposta” enviada por aquele que foi o rabino de Mallorca, Rabbi Shim’on ben Tsemah Duran, que se instalou na cidade de Argel, à comunidade judaica de Ténès, que protestava contra o “tratamento” com o qual eram recebido os novos imigrantes de Mallorca. Inveja, arrogância, excomunhões: Uma briga completa.

A ‘Resposta’, como a maioria destas cartas legais, está repleta de termos haláchicos, alguns muito complicados, incluindo palavras em grego de fundamentos da legislatura judaica, como “responsa” ou “Sheelot uTshuvot” em hebraico.
A RESPOSTA III, 46

Rashbetz
Rashbetz

Sheelot uTshuvot de RaSHBaTS (Rabino Shim’on Ben Tsemah), Parte III, n º 46.

Te escrivo que, desde que se estabeleceu a comunidade que chegou de Mallorca em sua cidade, divergiram sobre a questão dos pagamentos e impostos para o rei da comunidade original, uma vez que eles pagavam duas moedas de ouro e um oitavo de imposto ao rei cada mês, enquanto que a antiga comunidade pagava três de ouro, já que assim o rei estabeleceu e portanto, assim era o costume.

Inclusive, mesmo depois de o rei ceder a sua parte ao juiz, não adicionava e nem subtraia nada. E agora levantam-se os líderes da “velha” e exigiam que os ‘novos’ paguem o salário proporcional e queriam acrescentar aos ‘novos’ três oitavos e meio, rebaixando-os. E os “novos” não aceitaram, dizendo que “eles não têm nenhuma briga com eles, e que não se preocupam se não com a lei real. E para quem vão reclamar, se o Criador os diferenciou? Nós com o nosso e vocês com os seus.” E quando viram isso, os ‘velhos’ decidiram se separar dos ‘novos’ na alimentação, não comendo a carne abatida por eles, não bebendo seu vinho e nem visitando seus doentes, não circuncidavam seus filhos, e não permaneciam na sinagoga quando estes oravam, e não homenageavam um dos ‘novos’ para que leiam a Torá, e tudo isso sob pena de excomunhão. E agora me pergunto se os ‘velhos’ estão certos em suas reclamações sobre os “novos” e se estes atos são corretos e legais.
RESPOSTA:

Todo mundo sabe que o pagamento de impostos para o rei é um direito real, como está escrito no livro de Esdras (Esdras 4:13), que não se deve ignorar esta lei dos Sábios, e assim está explícito no primeiro capítulo de Baba Batra (Talmud) que tudo que o rei impõe é lei real e é um direito estabelecido, portanto, não se pode mudar nada do que está estabelecido, uma vez que a nossa regra é a de que “a lei do reino é a lei “, conforme determinado no tratado de Nedarim (Talmud) em matéria aduaneira e em Baba Cama (Talmud) sobre a utilização de dinheiro, e em Gittin (Talmud) sobre a questão de documentos judiciais de não-judeus, e em Baba Batra (Talmud) sobre o comércio de mercadorias dentro dos não-judeus. E para quem sabe estas questões está claro que o direito real é lei, e quem toma algo de algum companheiro transgredindo a lei real, realiza um roubo e, portanto, já que o rei impôs para cada comunidade seus aumentos ou recessos, ninguém pode exigir algo do outro, e quem o faz, é um assaltante, D’us nos livre, para que não exista tal coisa em Israel! E mesmo que reclamem dizendo que somos mais importantes do que eles, nada se pode fazer e se o rei deseja favorecer ou prejudicar alguma comunidade, assim o pode fazer com o que você possui.

E a prova é que no Tratado de Baba Batra, Rav Ashe diz que ” o “parataxe”, a cidade contribuirá com ele, que os cidadãos o escondam, mas o “anádeixis”, que D’us o ajude”.

E o Rabeinu Chananael explica que o “parataxe” (παράταξις) é uma pessoa que não tem emprego, e você deve esconde-lo das pessoas dizendo que é um inútil, e assim estará isento de impostos, mas ele deve ajudar os cidadãos de sua comunidade, assim como eles o ajudam. Mas o “anádeixis ‘(ἀνάδειξις) não são os cidadãos que o escondem, mas o próprio rei que deu-lhe uma carta o isentando dos impostos, e este é o significado de “anádeixis” ‘dispensado’ ou ‘leve’. E o Talmud de Jerusalém em Baba Cama diz que do momento que foi fixado os impostos sobre os cidadãos, quem dá mais e quem dá menos, ninguém pode ferir os outros, por exemplo:

“Se você ver que a água transborda da vala do seu amigo e está prestes a entrar em seu campo (e isso ira lhe causar prejuízo), caso ainda não tenha entrado, você pode desviar para não prejudicá-lo” (ou seja, você pode construir uma parede que impeça a entrada de água para o seu campo, apesar de que assim, entrará na de seu vizinho) “, mas se a água já entrou em seu campo, você não pode desvia-la para o campo de seu vizinho.” A partir disso, aprendemos que a partir que já existe a fixação dos encargos para cada um, ninguém tem o direito de transferi-los para o vizinho. E também é dito:

“Antes de aplicar o “Chrys-argyra” pode-se reivindicar que o outro faça o seu trabalho’, mas após ser aplicada a” Chrys-argyra” não se pode mais”.

O “Chrys-argyra” (χρυσ-ἄργυρα) é ‘xícara de prata dourada’, em grego, e significa que, se o rei ordenou impostos sobre taças de ouro e prata e encontrou uma nas mãos de um cidadão, se foi visto antes entrar na cidade, este tem o direito de dizer que ele não é um artesão e dizer quem fez o copo, para se isentar da comissão real. Mas se isso acontece depois que ele entra na cidade e já fixaram a tarifa aos cidadãos não se pode usar essa desculpa, porque a tarifa já foi imposta a toda a cidade. E ele também diz:

“Xeno-Pyrgo” antes de chegar ao Romanos pode-se suborná-los, mas quando já chegou, é proibido.”

O significado é que, quando o rei viaja de um lugar para outro e seus soldados dormem em tendas, quando eles vêm para as cidades, pedindo abrigo para os judeus, são chamados de “xeno-Pyrgo” (‘Xeno’ – ξένω – significa ‘alojamento’ e ‘Pyrgo’ – πύργος – é o ‘regimento’ ou ‘torre’), e antes que os romanos entrem na cidade pode-se suborná-los para que, quando entrem não fiquem em sua casa, mas quando já entraram e pediram acomodação na cidade é proibido os subornar para se isentar, já que vai poupar dinheiro às custas de seus companheiros, porque se não dormem n sua casa, irão para outra casa, pois o descanso destes será nesta cidade.

E tudo isso nos ensina que o que é estabelecido por leis reais sobre os cidadãos da comunidade não deve-se ser alterado para prejudicar os outros.

Assim, tendo em vista, que os antigos habitantes da cidade não podem reclamar que os “novos” se favorecem com seus impostos, os atos de excomunhão são ilegais e têm de ser abolidos, e não quero seguir escrevendo para não ofende-los. E que o Senhor lhes dê a paz!