Parasha da Semana – Bechukotai

Parasha da Semana – Bechukotai

Por: Rav Reuven Tradburks

A Parshat Bechukotai é a última no livro de Vayikra. A primeira metade da Parasha é a gloriosa, embora muito breve descrição das bênçãos que serão recebidas se cumprirmos as mitsvot. Mas depois a Torá volta-se para a descrição arrepiante do exílio, desolação e sofrimento que advirão se houver falta de lealdade às Mitzvot. Bênçãos: 10 versículos. Maldições: 32 versículos.

Esta parashá é sempre lida antes de Shavuot. Mas não no Shabat imediatamente antes de Shavuot. 2 Shabbatot antes (este ano, em Israel, teremos 2 parshiot depois de Bechukotai até Shavuot). A seriedade das maldições pode motivar-nos a renovar a nossa aceitação da Torá, mas esta é uma parashá muito dura. Motiva-nos pelo medo. Queremos entrar em Yom Tov com medo? Eu acho que não. Então, entre a dureza de Bechukotai e a doçura do Yom Tov de Shavuot, há uma semana no meio, com uma parasha mais benigna intercalada.

1ª aliá a (Vayikra 26:3-5) ) Se forem leais às Mitzvot, dar-vos-tei tal abundância que a colheita se estenderá até a época de plantio. Ficarão satisfeitos e seguros na vossa terra. A Parashat Bechukotai é a conclusão do livro de Kedusha, Vayikra. Nós, na época moderna, precisamos especialmente desta parasha. Fomos abençoados com uma explosão de informação. E essa informação pode levar rapidamente a uma visão mecanicista da vida: que
tudo é causa e efeito. Trabalha duro e terás sucesso. Estuda muito e conseguirás. Come bem e faz exercício e viverás muitos anos. Esta parashá introduz uma das crenças judaicas centrais, e que é um tanto radical. As colheitas vão crescer bem enquanto cumprires as mitsvot. Não vivemos em 2 mundos: o físico e o espiritual. Vivemos num só mundo: o mundo do físico e do espiritual entrelaçados. O nosso sucesso físico na terra de Israel está inextricavelmente ligado à nossa fidelidade em cumprir às mitsvot.

Este tema dominará o resto da Torá, pois, com a conclusão do livro de Vayikra, passamos à marcha em direção à terra de Israel. O resto da Torá descreverá essa marcha e as mitsvot relevantes para a construção da sociedade judaica na terra de Israel. Mas ao longo de todo o percurso este tema estará sempre presente: que o destino de toda a iniciativa na terra de Israel está ligado ao nosso cumprimento das mitsvot.

2ª aliá (26:6-9) Dar-te-ei paz e não terás medo. Cinco de vós perseguirão 100; 100 perseguirão 10.000. Far-te-ei frutificar, far-te-ei multiplicar e guardarei a Minha aliança contigo.

Sereis abençoados com um poder militar enorme – um pequeno grupo poderá perseguir 20 ou 100 vezes o seu número. E, num eco da Criação, a promessa de que serás frutífero e te multiplicarás. Na Criação, D’us ordenou que o Homem fosse frutífero e se multiplicasse. E aqui está a prometer que seremos frutíferos e nos multiplicaremos. Como se dissesse: a lealdade às mitsvot trará um mundo exatamente como ele deveria ser.

3ª aliá (26:10-46) E Eu estarei no meio de vós; Eu, o teu De’s, tu, o Meu povo. Tirar-te-ei os jugos e caminharás orgulhosamente. Mas se não cumprires as Minhas mitzvoth, Eu também não te prestarei atenção. Ficarás sujeito à doença, aos inimigos, à seca. Se persistires em ignorar-Me, Eu também persistirei em ignorar-te, deixando-te vulnerável à guerra, à peste, à fome. Os vossos lugares sagrados serão conquistados, as vossas cidades destruídas; sereis espalhados pelo mundo. Então a terra terá o resto da sua Shmita. Entrarás em pânico no teu exílio, com medo de uma folha ao vento. Admitirás as tuas falhas; Lembrar-Me-ei das minhas promessas. Mesmo na tua dispersão, não permitirei que sejas destruído.

A brevidade deste nosso texto exige que deixemos de fora muitas das arrepiantes previsões de calamidade, para nos focarmos num só aspeto: O fracasso em estar à altura das exigências deste lugar sagrado traz desolação e exílio. A desolação da terra de Israel sem o povo judeu é lendária. A terra que emana leite e mel esteve estéril e seca durante dois mil anos. Arrepiante. Além disso, a diáspora judaica, a história judaica está prevista aqui; quem precisa de uma descrição do seu cumprimento? O sofrimento judaico no exílio foi tomado por outras religiões como um sinal da rejeição do judeu. O regresso à terra de Israel, tão inesperado, tão sem precedentes e tão dinâmico, é uma forte refutação disso. Se o exílio foi devido ao descontentamento divino com a nossa atitude desprezível para com Ele, o regresso à terra só pode significar o prazer divino em nos ter por perto. E uma tarefa para nós: nunca sermos indiferentes para com Ele, mas sim envolvermo-nos, procurarmos, aproximarmo-nos. O nosso sucesso na terra depende disso. Que tempos privilegiados estes, que nós, os indignos, temos o privilégio de estar a viver . E como temos de ser vigilantes para não voltarmos a ser indiferentes para com Ele na Sua terra.

4ª aliá (27:1-15) Quando fizeres um voto do teu valor para De’s, há valores definidos para diferentes idades e situações. Este valor é dado ao Mikdash. Se prometeres um animal, está dado e não pode ser trocado. Uma promessa de uma casa pode ser dada ou redimida.

Seguindo a secção arrepiante das maldições, o livro de Vayikra termina com um capítulo completo de leis de votos. A generosidade inspira contribuições para o Mikdash. É uma coisa boa. O centro religioso do povo judeu precisa de contribuições. Mas porque será que esta parte aparece a seguir às bênçãos e maldições? Eu diria que a melhor maneira de acabar o livro de Kedusha seria com as bênçãos e maldições, não com com as regras aparentemente mundanas das contribuições para o Templo.

Todo o livro de Vayikra se concentrou em Kedushá; que nossas vidas sejam elevadas, santificadas. Podemos pensar que esta parte elevada das nossas vidas, a parte das nossas vidas em que nos esforçamos para nos aproximar do Divino, é uma parte boa, desejável, maravilhosa – mas é uma parte extra. Se eu viver a minha vida não fazendo mal a ninguém e não violando as mitzvot, então terei vivido uma boa vida. Então a Torá apresenta-nos as bênçãos e as maldições. Não, não. A Santidade não é uma sobremesa. Não é em extra. É a essência da vida de um judeu. Devemos viver vidas santificadas. E o nosso sucesso na terra depende disso. A falta de de fidelidade às mitzvot trará consequências terríveis, incluindo exílio e destruição.

Mas, para este livro não terminar com uma nota dura, terminamos, não com maldições, mas com generosidade.

5ª aliá (27:16-21) Se um campo é prometido, é válido até ao yovel ser calculado. Esse valor é dado ao Mikdash para resgatar o campo. Se não for redimido, fica com o Mikdash mesmo depois de Yovel. Os bens que se tornam propriedade do Mikdash não podem ser resgatados.

6ª aliá (27:22-28)) Um campo que não é tua herança pode ser dedicado ao Mikdash; é dado o seu valor. O primogénito de um animal já é sagrado, por isso não o prometas ao Mikdash.

7ª aliá (27:29-34) O Maaser das propriedades é sagrado; pode ser redimido, e acrescenta-se um quinto ao seu valor. O Maaser de animais é sagrado; não pode ser redimido.

O livro de Vayikra, o livro da abordagem do Homem a De’s, termina com um equilíbrio sóbrio. Enquanto nos aproximamos de De’s, dedicamos as nossas vidas a Ele, nos aproximamos dEle, e Ele de nós, a Torá protege-nos de ir longe demais, de alienarmos os nossos bens, de nos livrarmos das nossas casas e de nos tornarmos escravos do Templo, dando o nosso melhor ao Mikdash. O nosso desafio é sermos sagrados nas nossas casas e nos nossos campos enquanto tentamos alcançar o Divino.

Esta seção final de votos também faz parte da mudança em direção ao livro de Bamidbar. Estamos em marcha para a terra. A seção de votos é uma introdução a isso. Já não estamos focados na santidade mas sim na construção da nação. A vida comunitária de que desfrutaremos na terra de Israel será edificada na base da generosidade. Eu não vivo apenas para mim mesmo; faço parte do povo judeu. As necessidades dos outros são as minhas. As contribuições para o Mikdash são uma expressão da minha parte na construção da nossa nação. E essa construção será a preocupação do resto da Torá.