Parashá da Semana – Bamidbar

Parashá da Semana – Bamidbar

Bamidbar

Por: Rav Reuven Tradburks

1ª aliá (Bamidbar 1:1-19) Em Rosh Chodesh Iyar do segundo ano desde que deixaram o Egito, Moshe e Aharon devem fazer um censo de todos os homens com idade superior a 20 anos. Os líderes de cada tribo devem ajudar. Esses líderes são nomeados. Moshe, Aharon e os líderes reúnem as pessoas que estabelecem a que tribo pertence cada pessoa.

Sefer Bamidbar é a marcha para a Terra de Israel. Verdadeiramente a marcha para a Terra Prometida. A promessa da terra foi feita a Avraham. E a Yitzchak. E a Yaakov. E a Moshe, na sarça ardente. Moshe foi informado na sarça ardente de que D’us redimiria o povo do Egito graças à promessa que Ele fez. Para lhes dar a terra de Israel. Esse tem sido o objetivo desde o tempo de Avraham.

Mas viver na terra tem um contexto. Devem colonizar a terra. Mas com uma conexão íntima Comigo. Eu, diz D’us, habitarei no Mikdash. Aproximar-te-ás de mim. E colonizarás esta Terra, a minha Terra, próxima a Mim. O Sefer Vayikra expôs este contexto de santidade e proximidade com D’us.

Agora é hora de acontecer. E a mudança do plano do idílico, do teórico, para o mundo real dos seres humanos é muito complicada. Nós sabemos o final da história – mas neste ponto estamos apenas a um ano do Egito e a prepararmo-nos para entrar na terra. Bamidbar é o alvorecer da marcha para a terra.

2ª aliá (1:20-54) É apresentado o censo, por tribo, de todos os homens com mais de 20 anos, a idade do serviço militar. Tribo de Reuven: 46.500. Shimon: 59.300. Gad: 46.500. Yehuda: 74.600. Yissachar: 54.400. Zevulun: 57.400. Efraim: 40.500. Menashe: 32.200. Binyamin: 35.400. Dan: 62.700. Aser: 41.500. Naftali: 53.400. O total deste censo feito por Moshe e Aharon e os 12 líderes das tribos foi de 603.550. No entanto, a tribo de Levi não está incluída. Eles devem proteger o Mishkan: acampar ao redor do Mishkan, transportá-lo, desmontá-lo e montá-lo. As tribos acampam em grupos diferentes, enquanto os Leviim acampam ao redor do Mishkan.

Esta é a parasha dos contadores [contabilistas]. Muitos números. Embora houvesse 12 filhos de Yaakov, Levi não faz parte deste censo. Então ficam 11 tribos. Não há tribo de Yosef: os seus 2 filhos, Efraim e Menashe, tomam o seu lugar ao lado dos seus tios como tribos completas. Portanto, são 12 tribos, mesmo sem Levi.

Este livro chama-se Bamidbar, «no deserto», mas em inglês [e em português] chama-se Números. Bastante adequado. Mas eu gosto da denominação do Talmud: Pekudim, que pode ser traduzido como Números ou, como no hebraico moderno, Pakid, uma pessoa com um trabalho designado. A contagem e os números são uma preparação para a marcha para Israel. Todos têm um papel a desempenhar. Mas os contadores [contabilistas] perceberão que as tribos variam significativamente em tamanho. Todos começaram ao mesmo tempo, como filhos de Yaakov. Esta é uma dica para o tema proeminente das diferenças. As tribos são diferentes: no nome, no tamanho, e, como veremos mais tarde, no acampamento. Apesar de marcharem para o mesmo destino, o povo judeu desfrutará sempre da variedade. Gerenciar a variedade é um dos temas deste livro.

3ª aliá (2:1-34) As tribos devem acampar de uma maneira designada. Para cada uma das tribos é dado o nome do seu Nasi, o número da sua tribo e o seu lugar na formação. No lado leste, à frente, estão Yehuda, Yissachar e Zevulun. O seu número, no total, é 186.400. No lado sul estão Reuven, Shimon e Gad. O seu número total é 151.450. O Ohel Moed, cercado por Levi, acampa e viaja no meio. No lado oeste estão Efraim, Menashe e Binyamin. O seu número total é 108.100. No lado norte estão Dan, Asher e Naftali. O seu número total é 157.600. A contagem total dos homens em idade militar é 603.550 sem a tribo de Levi.

O povo viaja e acampa com o Mishkan no meio. Fisica e metaforicamente. Viajamos pela nossa história com D’us no meio de nós. A descrição detalhada de onde cada tribo acampava transmite a sensação clara de um acampamento militar. Regimentado. Especificado. Detalhado. Organizado. Mas um exército para que propósito? Para combater os inimigos previstos na terra de Israel? Ou para ser o exército de Hashem? Um exército de combate? Ou um povo com D’us no seu meio? Ou ambos?

4ª aliá (3:1-13) Os nomes dos filhos de Aharon eram Nadav, Avihu, Elazar e Itamar. Nadav e Itamar morreram sem filhos. Elazar e Itamar servem como Cohanim com Aharon. Os Leviim devem servir Aharon. Os Leviim são responsáveis ​​pelo Mishkan: apoiar os Cohanim e o povo, facilitar o funcionamento do Mishkan. Os Leviim tomarão o lugar do primogénito, que se tornou consagrado a mim quando foi salvo no Egito.

Existem 2 grupos mencionados aqui: Cohanim e Leviim. É dada a linhagem dos Cohanim. Só não ocupa muito espaço. Porque os Cohanim são Aharon e os seus filhos. Mas ele só tem 2. Então toda a linhagem dos Cohanim é de 3 pessoas. Os Leviim, por outro lado, são uma tribo inteira, descendentes de Levi, filho de Yaakov. A sua linhagem, bastante extensa, é dada na próxima aliá.

5ª aliá (3:14-39) Conta a tribo de Levi por famílias, a partir da idade de 1 mês: as famílias de Gérson, Kehat e Merari, filhos de Levi. São listados os filhos de Gershon, Kehat e Merari. A família de Gershon, da idade de um mês para cima, é de 7.500. Eles acampam a oeste do Mishkan. A sua tarefa era transportar e ser responsável pelas cortinas e coberturas. Kehat era de 8.600, acampando ao sul. Eles eram responsáveis ​​pelos utensílios: Aron, Menorá, Mesa, altares. Merari contava com 6.200, acampando ao norte. Era responsável pela estrutura do Mishkan: paredes, suportes e vigas. O total da tribo de Levi é 22.000. Na parte da frente, a leste do Mishkan, acampavam Moshe, Aharon e as suas famílias.

O acampamento ao redor do Mishkan tinha 2 camadas. Os Leviim estavam próximos, em 3 dos 4 lados do Mishkan. O 4º lado, principal, tinha Moshe e Aharon. Todas as 12 tribos estavam mais afastadas em todos os 4 lados.

Os 3 filhos de Levi eram grupos familiares; Gérson, Kehat e Merari. Eles tinham total responsabilidade pelo Mishkan. As suas tarefas estavam divididas em categorias. Gérson, têxteis. Kehat, móveis. Merari, edifício. Gershon cuidava das cortinas e das cobertas. Kehat dos objetos principais mais importantes do Mishkan. E Merari da estrutura da construção.

6ª aliá (3:40-51) Conta todos os primogénitos de idade igual ou superior a um mês. Os Leviim devem substituir os primogénitos. Havia 273 primogênitos a mais que Leviim; estes foram resgatados.

A aliá anterior, continuando aqui, assume que os primogénitos serão servidores públicos dedicados porque foram poupados na praga dos primogénitos. Este é um tema de reciprocidade: De’s diz: Eu salvei-te, tu serves-Me. A chuva de bênçãos sobre nós exige reciprocidade – ficamos em dívida para com D’us. A noção de que os primogénitos serão servidores públicos é muito apelativa: cada lar infunde-se no serviço público através do primogénito, dedicado ao trabalho sagrado. Mas, por mais atraente que seja, isto não é implementado. Os primogénitos são trocados pelos Leviim. Talvez porque seria um fardo injusto. As famílias pobres contam com o seu primogénito para trabalhar, para ser o primeiro a contribuir para o bem-estar da família. A substituição do primogénito pelos Leviim reconhece a desigualdade que inevitavelmente resultaria se fosse exigido que o primogénito de cada família tivesse que deixar a sua casa para se dedicar ao serviço público.

7ª aliá (4:1-20) Toma de Kehat, todos os homens de 30 a 50 anos para fazer o trabalho do santo dos santos. Mas, como Kehat devia carregar os utensílios do Mishkan, Aharon e os seus filhos cobriam cada recipiente, para evitar que Kehat os tocasse. O Aron era coberto por: o Parochet (cortina), depois o couro, depois o revestimento techelet. A Shulchan: techelet, depois os utensílios extras, depois o tecido vermelho, depois a pele de tachash. Menorá: techelet, depois tachash. Altar de incenso: techelet, depois tachash. Altar externo: tecido roxo, depois tachash. Desta forma, não cairá nenhuma calamidade sobre Kehat ao transportar os objetos sagrados.

Existem 3 contagens diferentes, por idade. Faz-se uma contagem por tribos para contar todos os homens acima dos 20 anos, para o serviço militar. Dos Leviim foram contadas todas as pessoas do sexo masculino, acima da idade de 1 mês, pois eles assumem o status de Levi praticamente desde o nascimento. E aqui, os Leviim que vão realmente fazer o serviço público são os que têm de 30 a 50 anos. Embora o seu serviço na nossa parashá seja transportar o Mishkan, o seu serviço no Templo será o de músicos. Mais tarde, a Torá vai dizer que os Leviim começam o serviço público aos 25 anos. O Talmud resolve isso: são necessários 5 anos de treino, dos 25 aos 30 anos. Então eles podem tocar instrumentos musicais no Templo ou cantar. Cinco anos de formação musical; a música do Templo deve ter sido bastante sofisticada.

Parasha da Semana – Bamidbar

A família e a escola se preparam para receber a Torá

Gostaria de compartilhar convosco a visão do Prof. Shalom Rosenberg, diretor do Departamento de Filosofia Judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém, sobre o que é o judaísmo no século XXI. Este filósofo considera que o judaísmo hoje é constituído por um triângulo em cujas pontas há três palavras em hebraico: uma delas é a palavra Emuná, fé, a segunda é Mitzva, que é uma palavra intraduzível, semelhante ao conceito de boa ação, e o terceiro é Tikva, esperança.

Essas três palavras descrevem todo o modelo de educação e a razão da vida, baseada no fato de sermos criaturas tridimensionais.

Em cada geração, descobrimos que o triângulo está em oposição a outros três conceitos:
A fé está em luta com a dúvida.
A mitzva está em luta com a tentação.
A esperança está em luta com o desespero.

Toda vida humana é uma luta nessas três frentes. Inicialmente, dizemos à criança que lute contra a tentação: não aceite doces de estranhos, é uma primeira luta da criança. e todos sabemos que é uma luta até a velhice, quando não podemos comer o pedaço de bolo que queremos comer. É uma luta entre o que devemos fazer, o dever, e a tentação.

O tempo passa, o jovem chega à universidade e é aí que a luta entre fé e dúvida aparece, a luta entre o que faz sentido no mundo e o que não faz sentido; nessa luta o povo judeu perde muitos dos melhores membros.

Por fim, a mais importante das lutas é uma luta que sempre nos acompanha, entre esperança e desespero. Quando nos deparamos com o fato de uma pessoa que aparentemente tinha tudo, cometer suicídio, percebemos o que significa essa luta.

Toda a educação se baseia no fato de dar poder à pessoa: poder de resistir a ataques, inimigos externos, e também de combater a tristeza, contra os problemas internos que ela possa ter em si mesma.

Acreditamos que fé, ações e esperança são os valores que nossos jovens devem receber.

A linguagem dos arquétipos não tem idioma. Na escola, pode ensinar-se uma língua como o hebraico, o que não se pode dar são aquelas imagens que a criança judia vê em casa, por exemplo, quando sua mãe acende as velas na véspera de Shabat, quando o pai faz kidush, ou quando se comemora um chag. Essa é uma linguagem que é muito mais importante do que as línguas articuladas que temos, são arquétipos, algo que afeta muito profundamente dentro do nosso inconsciente. Não podemos sequer pensar, ter a audácia de acreditar que é possível que a escola substitua a família. Erich Fromm disse que a missão mais importante da mãe é levar a criança a Eretz Israel, à terra que mana leite e mel. Quer dizer, dar-lhe o gosto pela vida, o amor pela vida, e é algo que não pode ser feito de forma alguma através de outra pessoa. Essa possibilidade de arquétipos faz parte da educação que só pode ser ensinada em casa. Há problemas na família e precisamos aprender que talvez a escola precise tentar resolver alguns desses problemas.

A Torá nos diz: E não somente convosco faço esta aliança […], mas com quem está aqui connosco hoje diante do Senhor nosso De’s, e também com quem não está aqui hoje (Deuteronômio 29: 13 e 14). Estávamos todos no Sinai. A entrega da Torá foi direcionada aos ouvidos de cada um de nós. Cada um de nós deve considerar-se como um destinatário direto da dádiva constituída pelas histórias, leis e experiências da Torá. Imaginem-se lá no Sinai. São jovens, carregam um bebê ao colo ou são uma anciã no final de seus dias? Foram diretos do trabalho, com a calça manchada de tinta, ou com o terno que usam no escritório?

Queremos que as crianças sintam que também estavam no Sinai, para que possam se apropriar da Torá, das histórias e das leis.

A experiência teatral de Moisés descendo a montanha até alcançar as crianças que estão em baixo, esperando por ele, é maravilhosa, sempre que a compreensão duradoura do que exatamente Moisés está trazendo da montanha esteja inserida na experiência geral dos pequenos. A crença fundamental de que cada um de nós esteve no Sinai é um dos pilares da identidade judaica. Toda vez que uma história da Torá é compartilhada, ou uma mitzva é cumprida, ou um valor judaico é identificado e tecido na estrutura geral da vida, estamos cumprindo a missão.

Mais uma vez, tudo pode ser expresso na frase «isto é o que Moisés trouxe da montanha para você». Todos sabemos o modo básico de pensar de uma criança pequena: o meu é meu e o seu também é meu… Podemos aplicar esta teoria à Torá. Esta história é sua. De’s deu-a a você no Monte Sinai. Para você, para você e para você.

Se, como pais, conversarmos com nossos filhos sobre as mitzvot, mesmo que seja para as questionar, os nossos filhos se apropriarão da Torá e começarão a sentir que estavam no Sinai. Então, quando Shavuot vier e recriarmos o facto de estarmos no Sinai, as crianças poderão dizer: «É claro que eu estava no Sinai. Todas essas histórias já são minhas»

Edith Blaustein

Parashat Matot-Masei

Parashat Matot-Masei

As viagens pelo deserto – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Sabemos que a Torá não é um livro de História nem de Geografia, então, para quê nos relata tão detalhadamente cada uma das viagens e paragens feitas pelos israelitas durante a sua travessia pelo deserto?

Que podemos aprender de tudo isso?

Na realidade, o facto de a Torá nos relatar todas e cada uma das paragens não é um mero capricho mas sim algo de muita importância.

Em primeiro lugar, vemos que a Torá nos relata com muita precisão cada paragem onde chegavam. Isto dá-nos uma prova sobre a veracidade da Torá, pois são citados lugares verdadeiros e conhecidos onde os filhos de Israel acamparam.

Em segundo lugar, podemos ver que durante os quarenta anos, a maior parte do tempo estiveram assentados, acampando em locais fixos. Não andaram a caminhar durante os quarenta anos.

O terceiro ponto é para nos demonstrar outra das maravilhas que De’s fez pelo povo de Israel, pois não só os tirou do Egito e dividiu as águas do Mar Vermelho, como também os conduziu pelo deserto, grande e terrível, durante quarenta anos, fazendo-os chegar a lugares bons. Não iam à deriva.

O quarto ponto é para nos ensinar que De’s cumpriu a promessa que fez aos nossos patriarcas, que enviou o Seu emissário para os tirar da terra do Egito e para os conduzir à Terra Prometida.

O quinto ponto é que tudo foi feito de acordo com a vontade de De’s, não foram andando errantes pelo caminho; por ordem de De’s acampavam e por ordem de De’s viajavam.

O sexto ponto é vermos que era De’s quem os fazia chegar a cada lugar, não chegavam a um lugar por acaso; foi De’s quem quis que chegassem a cada um desses lugares, mesmo àqueles onde não havia água para beber, e fê-lo para pôr o povo à prova e ensinar-lhes uma lição importante para aprender.

Por último, para demonstrar quão grande é o amor e a fidelidade do povo de Israel para com De’s, em palavras do profeta: Recordo a mercê dos teus pais, e o amor da tua mocidade, quando foste atrás de mim pelo deserto, terra que não se semeia.

Parashat Pinchas

Parashat Pinchas

A escolha de Yehoshua – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Yehoshua pertencia à tribo de Efraim. A primeira vez que a Torá menciona Yehoshua é no contexto da guerra contra Amalec, logo após a saída do Egito. Vemos que se trata de uma pessoa ágil na luta, que é valente e que merece a confiança de Moisés e do povo. Por isso foi colocado à frente do exército contra Amalec.

Moisés, por ordem de De’s, abençoá-lo-á, para que ele tenha força e valentia. Assim está relatado no primeiro capítulo do livro de Yehoshua.

É forte e valente.

Teve sucesso em todas as guerras e os povos temeram-no, tal como De’s tinha predito. 

De onde provêm a força e a valentia de Yehoshua?

Na primeira guerra contra Amalec, a Torá relata-nos que quando Moisés levantava as suas mãos para o céu, triunfava Israel. Quer dizer que Yehoshua recebe uma influência espiritual do céu. A figura de Moisés é muito influente nele. Também cumpriu a sua missão até ao fim: matou todos os amalequitas que saíram ao seu encontro. Não fez como Saul, que deixou o rei vivo. Yehoshua é um enviado fiel que cumpre a sua missão até ao fim.

Quando Moisés sobe ao monte, Yehoshua sobe com ele até determinado ponto, depois fica ali à espera que Moisés regresse. Tem uma fidelidade e uma proximidade muito grandes a Moisés.

Era tal o apego de Yehoshua a Moisés, que se desliga de todos durante 40 dias, até ao ponto em que, quando Moisés voltou e se escutaram as vozes vindas do acampamento, Yehoshua se preocupa, e pensa que o povo está a ser atacado. Inquieta-se e preocupa-se pelo povo. Não pensa mal deles; o seu primeiro pensamento é que o povo está em perigo.

Outro detalhe que a Torá nos mostra é que Yehoshua não se separava de tenda de Moisés. Era como se fosse o seu guardião, como os Cohanim que cuidam do santuário.

Depois, De’s diz a Moisés: Yehoshua, aquele que está de pé diante de ti… Quer dizer, está sempre a servir Moisés e não se afasta dele.

Mais à frente vai dizer: Yehoshua, o servo de Moisés. E noutra passagem, diz ainda: Yehoshua, que serve Moisés desde a sua mocidade.

De onde vem este apego tão grande a Moisés?

Quando alguém se apega muito a outra pessoa é porque gosta muito dela e a tem em alta estima. Até ao ponto de Yehoshua zelar por Moisés, e quando os dois sábios que tinham sido selecionados para estar perante Moisés ficam e profetizam no acampamento, diz a Moisés que os aprisione. Assim como Pinchas zela por De’s, Yehoshua zela por Moisés.

O apego e vontade de servir Moisés chega ao ponto de que a Torá não nos diz que ele fosse casado ou que tivesse filhos, pelo menos durante o tempo em que Moisés foi vivo.

A Torá conta-nos que Moisés lhe mudou o nome, de Hoshea para Yehoshua, da mesma maneira que um pai escolhe o nome para o seu filho. Hoshea quer dizer «que salva». Yehoshua quer dizer «que De’s salva». Moisés ama Yehoshua como a um filho.

Yehoshua sempre viveu à sombra de Moisés. Não tem mal nenhum ser o segundo. Tal como diz o rei Salomão, é melhor ser cauda de leão do que cabeça de lobo. Não sempre aquilo que é novo e inovador é o que é importante; manter e continuar também é um grande objetivo.

Mas Yehoshua não é só uma sombra de Moisés. Vemo-lo a agir por iniciativa própria, por exemplo no caso dos espiões, quando, ao ouvi-los, rasga as suas vestes. Isto demonstra-nos que tem critério próprio, não vai atrás da maioria, não se deixa levar.

Para além disso, não fica calado; congrega todo o povo em torno de Moisés e fala-lhes palavras de valentia e de fé em De’s. Arrisca-se, e, apesar de o povo o querer linchar, ainda assim continua a falar.

Aí mesmo, De’s declara que ninguém entrará na terra de Israel, à exceção de Caleb e Yehoshua, pois eles foram fiéis a De’s. Quer dizer, não é que o faça por Moisés; o que Yehoshua tem na sua mente e o que o conduz é De’s, e como Moisés é o servo fiel de De’s, então, Yehoshua apega-se a ele.

Em Devarim 31:3 diz: O Senhor teu De’s irá diante de ti. Ele aniquilará os povos que estão diante de ti e os herdarás. Yehoshua, ele passará diante de ti, tal como De’s o disse. Vemos que, por um lado, a Torá diz-nos que Deus irá diante do povo, e, seguidamente, diz que Yehoshua irá diante deles, quer dizer, Yehoshua é o servo fiel de De’s, que faz exatamente o que De’s lhe ordena; é como se De’s o estivesse Ele próprio a fazer.

Yehoshua tem um grau de proximidade e providência divina muito altos, pois De’s assegura-lhe: Eu estarei contigo, tal como estive com Moisés.

Tal como com Moisés, De’s divide as águas do Mar Vermelho para o povo passar por terra seca. Também com Yehoshua, De’s divide o rio Jordão para o povo passar. Mais ainda, vemos no livro Yehoshua, 10, que De’s acede ao pedido de Yehoshua, quando este Lhe pede que o sol e a lua se detenham até que acabem a batalha. De’s faz por ele um milagre de tal magnitude que o sol e a lua se detêm.

Talvez o famoso sonho de Yossef, no qual ele vê que o sol e a lua se prostram diante dele, se cristaliza com Yehoshua, que é descendente de Yossef, pois Yehoshua ordenou que o sol e a lua se detivessem no céu e eles obedeceram como se fossem seus servos.

Tal como Moisés, em Yehoshua 24, ele foi chamado Servo de Deus. Mais ainda, é-nos dito que todo o povo de Israel serviu a De’s todos os dias de Yehoshua (nem com Moisés o povo chegou a esse nível, pois o próprio Moisés disse Até hoje não estão com De’s)

Como corolário de tudo isto, a virtude e a qualidade mais alta a que Yehoshua chega é que atinge o grau de profecia. Este é o nível mais elevado que o ser humano pode alcançar.

Este grau de profecia era um nível muito alto, pois, numa oportunidade, De’s fala-lhe com o mesmo nível de profecia de Moisés, Diber, enquanto que com o resto dos profetas utiliza-se sempre o termo Vaiomer.

O livro de Yehoshua diz-nos que De’s fala com Yehoshua catorze vezes.

Este é o significado de Um homem dotado de espírito, tal como diz o versículo 34:9: Yehoshua estava cheio de espírito de sabedoria. Quer dizer, era tão sábio que chegou a esse nível tão alto. Yehoshua sabia que De’s é o mais elevado, o mais verdadeiro e o único a que vale a pena apegar-se. Aquele que estava mais apegado e que mais sabia acerca de De’s era Moisés. Portanto, ele decide não se afastar de Moisés, para assim poder aprender e saber mais acerca da divindade.

É por tudo isto que Deus escolhe Yehoshua. Não se trata de algo gratuito, mas sim de que Yehoshua realmente era o indivíduo mais digno de suceder a Moisés. Não porque estava fisicamente próximo dele ou porque era o seu servidor, ou por favoritismo, mas sim porque Yehoshua, graças ao seu esforço, era o mais digno para ocupar esse posto.

Era um líder valente, fiel a De’s, com os objetivos bem claros e imbuído do espírito de De’s.

Parashat Balak

Parashat Balak

A força de uma maldição  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Vemos que Bilam está muito interessado em amaldiçoar o povo de Israel.

De’s impede-lho, mas, apesar disso, Bilam continua a tentar e a insistir, até ao ponto de que, seja consciente ou inconscientemente, parece-lhe entender que De’s lhe ordena ir.

O que é óbvio é que nada pode suceder sem que De’s assim o queira. Portanto, se De’s não quer amaldiçoar o povo de Israel, por mais que apareçam mil pseudoprofetas, bruxos, ou as pessoas mais importantes a tentar amaldiçoá-lo, não vão ter sucesso nem vão modificar a vontade de De’s. Não existe nenhuma força física, cósmica ou mística que possa limitar ou influenciar De’s.

Então a pergunta que surge é: Porque De’s interfere para impedir Bilam de amaldiçoar, se de todas as maneiras essa maldição não vai ter nenhum efeito?

De’s não quer que Bilam amaldiçoe o povo, não porque isso possa ter algum efeito, mas sim pelos seguintes motivos:

1) De’s ama o povo de Israel, tal como um pai ama os seus filhos. Assim como um pai não gosta que ninguém amaldiçoe o seu filho, nem sequer uma pessoa ordinária da rua, do mesmo modo, De’s também não quer que ninguém amaldiçoe Israel, não porque essa maldição possa ter algum efeito, mas sim porque Ele ama o Seu filho e não quer que ninguém fale mal dele.

2) A estratégia de Balac era amaldiçoar o povo e assim poder atacá-los e ganhar-lhes. Se De’s permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, isso iria ocasionar que Balac e o seu povo se entusiasmassem, tomassem coragem e saíssem em guerra contra Israel. Por um lado, De’s não quer que ninguém lute contra Israel, e, por outro, também não quer que o povo de Israel lute contra Moav, pois são os descendentes de Abraão, e se Balac atacasse Israel, Israel ver-se-ia obrigado a defender-se e iria ter que aniquilar Balac e Moav. Portanto, De’s impede isto desde o princípio.

3) Outro motivo é que, se permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, talvez este ficasse a saber e pudesse decair na sua autoestima e acreditar que já estava amaldiçoado, o que não seria conveniente logo antes de começar a conquista da terra de Israel. Neste momento mais do que nunca, o povo de Israel deve ter a confiança e a autoestima em alta.

Em resumo: 1. Não quer que ninguém fale mal de Israel. 2. Quer evitar uma guerra desnecessária e 3. Não quer que a autoestima de Israel seja prejudicada.

O motivo pelo qual De’s permite a Bilam ir, é para Balac escutar que não são amaldiçoados mas sim o contrário, são abençoados. Isto vai desanimá-lo e ele não vai querer sair para a guerra contra Israel.

Por outro lado, o motivo pelo qual o deixa ir é para demonstrar a todo o mundo que não se pode mudar a vontade de De’s. Nem sequer Bilam, com toda a grandeza que os povos lhe conferiam, e com todos os atributos do que ele mesmo se vangloriava, pode interceder para mencionar nem uma só palavra contra o que De’s decretou.

Isto fica mais satiricamente marcado quando o próprio Bilam, que está a caminho para ir amaldicoar o povo, ao zangar-se com o seu burro porque este se afasta do caminho, lhe diz que se tivesse ali uma espada o mataria imediatamente. O que é sarcástico é que, por um lado, ele pensa que pode destruir um povo inteiro com a força das suas palavras, mas para matar um burro precisa de uma espada e não pode matar com a sua palavra…

A lição é clara: O que De’s diz ou faz é absoluto, e não importa o que façam ou digam os demais povos ou bruxos. Devemos depositar a nossa confiança em De’s e saber que o que Ele diz é o que sucederá, e não prestar atenção a nenhum tipo de feitiçarias, bruxarias, o conjuras.