Parashá da Semana – Balak

Parashá da Semana – Balak

Parashat Balak

Pelo rabino Reuven Tradburks

A marcha para a terra de Israel continua.  O povo confrontou Sichon  e  Og com sucesso no lado leste da Jordânia, aproximando-se da terra.  Mas também sofreu a morte de Miriam e  Aharon.  A marcha para a terra é uma marcha de seres humanos que vivem e morrem.  Seres humanos que procuram poder e influência (como Korach), com fraquezas humanas de frustrações e desejo por carne e variedade.  E com a perda de Miriam e  Aharon e a perda de Moshe, é um povo cujos olhos estão a escurecer, cujas ideias ficarão desfocadas.  Numa palavra: um povo a desenvolver cataratas.  E essa é a história de  Balak  e  Bilaam.  É uma história dos limites da perceção humana, onde  Bilaam  procura  a orientação de De’s, obtém-na, mas interpreta-a mal.  Onde os animais falam mais sabiamente que o Homem.  Onde o grande profeta  Bilaam  não pode ver o anjo na sua frente.   Bilaam  é um profeta com  cataratas; visão desfocada.  Isto forma uma imagem poderosa para o povo judeu.    Não vamos mais desfrutar da “aspaklaria  hameira”, a visão sem restrições de Moshe.  Seremos um povo à procura da direção de De’s, mas um povo que às vezes erra em aperceber-se dela, e, mesmo quando se apercebe da direção de De’s, muitas vezes errará em compreendê-la.

 

1ª aliá (Bamidbar  22:2-12)  Balak, rei de  Moav, tem medo do povo judeu; eles são como um touro, destruindo tudo no seu caminho.  Envia mensageiros a  Bilaam, pedindo-lhe que amaldiçoe o povo judeu.   Bilaam  disse que só faria o que De’s o instruísse a fazer. De’s disse-lhe para não ir, pois o povo judeu é abençoado.

Balak acha que, se o povo judeu pôde derrotar os mais fortes dos fortes, Sichon e Og, então, derrotar o povo judeu exigirá mais do que proezas militares.  Ele reconhece que o poder do povo judeu reside no seu espírito.  É este espírito que deve ser perturbado.

Esta história é também uma poderosa lição de autopercpeção.  Os espiões pensavam que as pessoas da terra os viam como gafanhotos.  Aqui,  Balak  descreve o povo judeu como um touro.  A diferença neste é quem está a falar: Somos nós a imaginar o que as pessoas pensam de nós ou são as pessoas a dizer-nos o que realmente pensam de nós?  Os espiões não faziam ideia do que as pessoas da terra pensavam do povo judeu; tudo o que podiam fazer era conjeturar.  O que é que eu acho que as outras pessoas acham sobre mim?  Isso diz muito mais sobre mim do que sobre essas pessoas.  Como se dissesse: Se eu estivesse no teu lugar, pensaria em mim como um gafanhoto.  Porque é isso que eu penso de mim mesmo.  Aqui, Balak diz-nos o que pensa do povo judeu: O touro.  Poderoso.  Formidável.

 

2a  aliá (22:13-20)  Bilaam disse aos mensageiros para regressarem a Balak, já que De’s o instruiu a não se juntar a eles.   Balak  tentou novamente, com maiores dignitários como mensageiros.   Prometeu a Bilaam  uma grande honra.   Bilaam  respondeu que, mesmo a promessa de uma casa cheia de prata e ouro não lhe permitiria ignorar a palavra de De’s. De’s disse: se estes homens querem que te juntes a eles, podes ir, mas dirás só o que Eu te diseer.

Esta história introduz-nos à complexidade da nossa relação com as  nações não judias.    Balak  e  Bilaam  veem um mundo de poderes para além do mundo racional e físico.  Acreditam no poder de amaldiçoar o povo.  E que este poder é dado a pessoas específicas.  E temos de  assumir que  Bilaam  teve sucesso nos seus poderes, pois  Balak  nunca questiona a capacidade de Bilaam.   Além disso,  Bilaam  usufrui da comunicação com De’s.  O povo judeu terá de lutar com o mundo do invisível quando entrar na terra; povos que acreditam em todos os tipos de poderes que irão disputar com o nosso De’s pela nossa atenção.  Há um amplo debate sobre a veracidade dos poderes de Bilaam;  no entanto, a simples leitura da história parece indicar que ele é um profeta, aquele com quem De’s fala e que já anteriormente usou os seus poderes com sucesso.

 

3a aliá (22:21-38)  Bilaam  acordou, selou o seu  burro e juntou-se aos nobres de  Moav.  De’s estava zangado.  Um anjo com uma espada apareceu na frente do burro, por isso ele desviou-se para o lado.  Em seguida, ficou na frente de um caminho estreito; A perna de Bilaam  foi entalada num dos lados.  Em seguida, bloqueou a passagem de um caminho estreito e o burro parou.   Bilaam  bateu no burro.  O burro falou: Porque me bateste?  Não te servi lealmente? Bilaam  viu então o anjo com a sua espada.  O  anjo falou: Não viste o que o burro viu.  Agora vai, mas diz só o que De’s te instruir a dizer.   Bilaam  continuou com os mensageiros de Balak,  enquanto  Balak  veio cumprimentá-lo. Porque não vieste, Bilaam?   Bilaam respondeu que só iria dizer o que De’s mandasse.

O burro falante é uma grande imagem.  Não é o primeiro animal a falar; a serpente no jardim do Éden também falou.  O Rei Salomão é descrito como conhecendo a língua dos animais.  O burro falante é como se dissesse: Há um mundo lá fora do qual tu nem fazes ideia. Vocês, seres humanos, são tão limitados, têm uma perceção tão empobrecida, que até o grande  Bilaam  é embaraçosamente míope.  Esta é uma das lições duradouras desta história: as limitações da nossa perceção do mundo.

 

4a  aliá (22:39-23:12)  Balak  e  Bilaam constroem  7 altares, oferecem oferendas e espiam o povo judeu.  De’s fala com  Bilaam, colocando as Suas palavras na boca dele.   Bilaam  regressa a  Balak  e pronuncia a profecia: Como posso amaldiçoar um povo que não está amaldiçoado? Oh, que o meu fim seja como o deles!   Balak  não está contente; Bilaam  afirma que só diz o que De’s põe na sua boca.

Bilaam e  Balak  acreditam no poder da fala.  Esperam que De’s fique descontente com o povo judeu e os amaldiçoe.  Mas, se Ele ficar descontente, porque é necessário que Bilaam diga isso?  Porque é que a maldição de De’s precisa de uma pessoa para a dizer?  Há uma crença no poder do Homem; que o que o homem diz faz as maldições de De’s acontecerem.   Bilaam  e  Balak  acreditam no poder do Homem.

 

5a  aliá (23:13-26)  Balak  e  Bilaam tentam um local diferente onde apenas uma parte do povo judeu é visível.  Depois de oferecer oferendas em 7 altares, De’s coloca as Suas palavras na boca de Bilaam.    Bilaam  regressa a  Balak  e profetiza: De’s não vê iniquidade em Israel.  Ele é o seu Rei Benevolente. Eles não são feiticeiros; De’s age por eles.  São como leões.   Balak  está novamente descontente; Bilaam  afirma que apenas diz o que De’s o instrui a dizer.

O que esperam eles na escolha de um local diferente?  Talvez  Bilaam  e  Balak  reconheçam que o povo judeu, como um todo, é abençoado.  Mas nem todos os judeus o são.  Temos nódoas.  Quando De’s olha para o todo, vê que o bem supera as fraquezas.  Se conseguirmos que ele olhe para as nódoas, talvez ele ignore tudo o que há de bom.  Oh, se pudéssemos aprender com  Bilaam  e parar de olhar para as nódoas, mas olhássemos para o povo judeu como um todo!

 

6a aliá (23:27-24:13)  Balak  e  Bilaam tentam novamente, de um lugar diferente.   Bilaam  evita a sua feitiçaria e olha para o povo judeu.  Ele profetiza: Como são maravilhosos, os judeus.  São como árvores, jardins regados, poderosos.  De’s redimiu-os; são como leões a descansar.  Aqueles que os abençoam serão abençoados.   Balak  está novamente zangado; Bilaam  afirma que diz o que De’s ordena.

Bilaam olha para o povo judeu e vê a sua beleza.   Balak,  que apenas ouviu falar do povo judeu, viu-os como um touro, comendo tudo à sua vista. Para Bilaam  não é suficiente ouvir; ele olha para o povo e vê-o como árvores, água e jardins.

 

7a  aliá (24:14-25:9) Bilaam profetiza sobre as outras nações: todos falharão em deter Israel, incluindo  Moav, Edom, Amalek,  Keini.  O povo judeu começou a ser seduzido pelas mulheres de  Moav, ligando-se aos seus deuses. Surge Pinchas e mata um homem judeu e uma mulher midianita perante o povo.

Como Balak  entendeu, o poder do povo judeu está na sua relação com De’s.  Apelar à fraqueza humana e fazer com que os homens pequem é uma vulnerabilidade que o povo judeu suportará.  A maldição pode não  funcionar; levá-los a pecar, sim.

Parashat Balak

Parashat Balak

A força de uma maldição  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Vemos que Bilam está muito interessado em amaldiçoar o povo de Israel.

De’s impede-lho, mas, apesar disso, Bilam continua a tentar e a insistir, até ao ponto de que, seja consciente ou inconscientemente, parece-lhe entender que De’s lhe ordena ir.

O que é óbvio é que nada pode suceder sem que De’s assim o queira. Portanto, se De’s não quer amaldiçoar o povo de Israel, por mais que apareçam mil pseudoprofetas, bruxos, ou as pessoas mais importantes a tentar amaldiçoá-lo, não vão ter sucesso nem vão modificar a vontade de De’s. Não existe nenhuma força física, cósmica ou mística que possa limitar ou influenciar De’s.

Então a pergunta que surge é: Porque De’s interfere para impedir Bilam de amaldiçoar, se de todas as maneiras essa maldição não vai ter nenhum efeito?

De’s não quer que Bilam amaldiçoe o povo, não porque isso possa ter algum efeito, mas sim pelos seguintes motivos:

1) De’s ama o povo de Israel, tal como um pai ama os seus filhos. Assim como um pai não gosta que ninguém amaldiçoe o seu filho, nem sequer uma pessoa ordinária da rua, do mesmo modo, De’s também não quer que ninguém amaldiçoe Israel, não porque essa maldição possa ter algum efeito, mas sim porque Ele ama o Seu filho e não quer que ninguém fale mal dele.

2) A estratégia de Balac era amaldiçoar o povo e assim poder atacá-los e ganhar-lhes. Se De’s permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, isso iria ocasionar que Balac e o seu povo se entusiasmassem, tomassem coragem e saíssem em guerra contra Israel. Por um lado, De’s não quer que ninguém lute contra Israel, e, por outro, também não quer que o povo de Israel lute contra Moav, pois são os descendentes de Abraão, e se Balac atacasse Israel, Israel ver-se-ia obrigado a defender-se e iria ter que aniquilar Balac e Moav. Portanto, De’s impede isto desde o princípio.

3) Outro motivo é que, se permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, talvez este ficasse a saber e pudesse decair na sua autoestima e acreditar que já estava amaldiçoado, o que não seria conveniente logo antes de começar a conquista da terra de Israel. Neste momento mais do que nunca, o povo de Israel deve ter a confiança e a autoestima em alta.

Em resumo: 1. Não quer que ninguém fale mal de Israel. 2. Quer evitar uma guerra desnecessária e 3. Não quer que a autoestima de Israel seja prejudicada.

O motivo pelo qual De’s permite a Bilam ir, é para Balac escutar que não são amaldiçoados mas sim o contrário, são abençoados. Isto vai desanimá-lo e ele não vai querer sair para a guerra contra Israel.

Por outro lado, o motivo pelo qual o deixa ir é para demonstrar a todo o mundo que não se pode mudar a vontade de De’s. Nem sequer Bilam, com toda a grandeza que os povos lhe conferiam, e com todos os atributos do que ele mesmo se vangloriava, pode interceder para mencionar nem uma só palavra contra o que De’s decretou.

Isto fica mais satiricamente marcado quando o próprio Bilam, que está a caminho para ir amaldicoar o povo, ao zangar-se com o seu burro porque este se afasta do caminho, lhe diz que se tivesse ali uma espada o mataria imediatamente. O que é sarcástico é que, por um lado, ele pensa que pode destruir um povo inteiro com a força das suas palavras, mas para matar um burro precisa de uma espada e não pode matar com a sua palavra…

A lição é clara: O que De’s diz ou faz é absoluto, e não importa o que façam ou digam os demais povos ou bruxos. Devemos depositar a nossa confiança em De’s e saber que o que Ele diz é o que sucederá, e não prestar atenção a nenhum tipo de feitiçarias, bruxarias, o conjuras.