Shalom Javier: A alegria do judaísmo

The Jerusalem Post
Não existe nada de extraordinário na maneira tal qual os estudantes do Instituto de Retorno e Conversão Machon Miriam se encontram envolvidos na oração da tarde, a minchá. O mesmo pode-se dizer com respeito a sua modesta maneira de vestir-se, seu humilde comportamento e seu intenso interesse nas lições sobre os costumes judaicos.

De todas as formas, Renana Birnbaum, diretora do Ulpan Machón Miriam, insiste: “Este é um ulpan muito especial”. O que é particular aqui não é algo que se pode ver, mas sim, algo que se pode ouvir, já que tudo lhes é revelado em sua própria língua, o espanhol e o português.

As dezenas de pessoas que se encontram reunidas nas salas de aula do Machon Miriam no Heichal Shlomó, edifício anexo a Grande Sinagoga de Jerusalém, vieram da Costa Rica, Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, Palma de Mallorca, Portugal, Espanha, Bolívia e Peru. Inclusive um casal, disse Birnbaum, veio da longínqua e desafiante selva Amazônica.

Entre eles, encontram-se pessoas como Adriana, católica romana da Colômbia que casou-se com um judeu em Londres e vieram para Israel; Gisela, filha de pai judeu e mãe católica que deixou a Argentina para “encontrar-se, a si mesma”, em Jerusalém. Outros muitos são como Agison e Jerusa, dois Bnei Anussim (descendentes dos judeus ibéricos que foram forçados a se converter ao cristianismo durante a época da inquisição) do Brasil.

Agison conheceu a Jerusa dentro de um ônibus, trocaram-se olhares assim como em telenovelas e como nos desenlaces das mesmas, os dois descobriram ser descendentes de famílias convertidas. O avó de Agison, veio de Portugal e manteve práticas que não eram católicas, e que mais tarde descobriria serem judaicas. Mesmo sendo seu pai católico, a mãe de Jerusa se negava profundamente a ir a Igreja, uma das categóricas regras impostas por sua mãe (avô de Jerusa).

No momento em que se encontraram, Agison e Jerusa sabiam que eram judeus. Ela queria viver abertamente como judia, porém Jerusa ainda tinha dúvida: “me levou dois anos de casada para convencê-lo”, disse Jerusa, enquanto seu esposo sorria timidamente. A decisão não foi simples, foi muito mais fácil decidir do que pô-la em prática.

Em sua cidade haviam judeus, porém os mesmos eram seculares, e portanto não podiam ensinar muita ao casal. Não havia nenhuma sinagoga aonde pudessem rezar em comunidade, então disseram que o melhor a fazer seria seguir a bíblia literalmente.

Mesmo não tendo o privilégio de conhecer a tradição judaica, o casal decidiu improvisar. Para Pessach, removeram todos o chametz de suas casas meticulosamente. Fizeram suco de uva fresca, mataram uma ovelha e sem saber exatamente como, cozinharam suas próprias matzot. Deste mesmo modo, foram ao campo para contar o “ômer”.

Em Sucot, Agison queria juntar para si as quatro espécies, porém não estava seguro quais seriam. Para imergir-se na mikve, Jerusa viajava a uma praia afastada, perto do Rio de Janeiro.

E assim passou o tempo. Passaram-se sete anos até conseguirem livros sobre o judaísmo em português. Eventualmente, aprenderam várias halachot (leis judaicas). Ainda no Brasil o casal ao redor dos 30 anos de idade e seus filhos, se converteram através do Movimento Conservador. Fizeram aliah (imigração) no ano passado, porém não como Agison e Jerusa, mas como Eliahu e Rivká. As mudanças têm sido dramáticas.

Enquanto que no Brasil Eliahu era o dono de um bem sucedido negócio, vendendo material para embalagem, em Israel, hoje em dia, trabalha em manutenção e sua esposa trabalha como baba. “Não viemos aqui para ter uma vida mais luxuosa”, disse, conhecendo a desconfiança com que os israelenses geralmente se referem aos estrangeiros. O casal diz que veio para Israel para vivenciar experiências como seu primeiro Seder de Pessach tradicional, ocorrido em seu apartamento no Centro de Absorção Beit Canadá, no sudeste de Jerusalém. Apesar de serem cidadãos reconhecidos pelo Ministério do Interior como judeus, estão participando de um processo de conversão ortodoxo pois acreditam que este seja o único verdadeiramente válido. “Viemos para encontrar a D-us” disse Eliahu, “e até agora as coisas estão funcionando”.

A Sra. Birnbaum, que também é a tradutora entre nós, ver os seus alunos com orgulho: “aqui temos uma fábrica humana que praticamente não conhece limites”, diz.

O Ulpan se encontra conectado a Shavei Israel, uma organização fundada por Michael Freund, que vem se tornando muito popular nos últimos meses, pela peculiaridade de encontrar, educar e trazer centenas de pessoas de todo o mundo, que tem algum relacionamento com o povo judeu.

Freund, que investigou o tema dos Anussim (também conhecidos pelo termo pejorativo de marranos ou chuetas, ou menos ofensivo, convertidos), influenciou o rabinato a se interessar pela causa, denomina o programa oferecido pelo Machon Miriam “a melhor resposta aos inquisidores”. Porém ambos, Freund e Birnbaum, sabem que os mistérios inerentes a supervivência dos Anussim e a dificuldade econômica encontrada nos países de onde provêm, levam muita gente sem um passado judeu a fazer-se passar por Anussim devido a atrativa proposta econômica que comporta uma conversão.

Ambos dizem ainda, que são prudentes suficientes para eliminar os impostores: “Nós somos muito sensíveis com respeito àqueles que tem raízes judaicas” disse Birnbaum, “ao mesmo tempo, entretanto, temos muito cuidado para não sermos explorados por demandas ilegítimas, que desejam apenas vir a Israel para ter um melhor nível de vida. Eu conheço esta gente, eu mesma sou latina”.

Apesar de ter nascido e ter sido criada em Jerusalém, a Sra. Birnbaum viveu muitos anos no Uruguai, junto com seu esposo o Rabino Eliahu Birnbaum, que desempenhou o ofício de Grande Rabino do país. O pai de Birnbaum, também foi grande Rabino do Uruguai durante vários anos. “Tenho capacidade de confirmar, depois de 10 a 20 minutos de conversa, se uma pessoa está dizendo a verdade sobre estas coisas” disse, falando fluentemente o espanhol. “Entrevistando uma vez uma senhora que gostaria de ingressar no Machon Miriam, ela me disse que apenas queria trazer sua mãe e sua irmã para passar o resto de suas vidas em Israel. É por isso que compreendo o porque das exigências do Ministério do Interior e do Rabinato. Existe um sem fim de pessoas que querem se converter com outras intenções”.

“Ao mesmo tempo”, disse Birnbaum, “posse enxergar como aqueles que são honestos e sinceros se dedicam nas aulas constantemente. Este é um processo difícil. É um ano de vínculo com uma comunidade, vindo duas vezes por semana as aulas, sete horas cada vez… alguém que vem ao ulpan com outras intenções não vai conseguir sobreviver aqui”.

“Mais ainda”, continua Birnbaum, “ a mim pessoalmente não me importa a razão pela qual a pessoa quer se converter. Não importa se vem porque se apaixonou por um judeu ou judia, ou se apaixonou pelo povo judeu, o que me importa é que uma vez que tomaram a decisão de se converter que o façam de maneira sincera”.

O desejo de Gisela, a tímida jovem Argentina de 22 anos, é “encontrar-me a mim mesma, encontrar uma identidade”.

Este tem sido um difícil processo para Gisela, que fez aliah em 2003. Filha de pai judeu e mãe católica, tem enfrentado desde uma tenra idade a pergunta “Quem sou?”. Inicialmente, Gisela freqüentava uma escola pública. Depois, foi enviada para uma escola particular onde estudavam tanto católicos como judeus. Não sentindo-se parte de nenhum dos dois lados, Gisela passou a fazer parte de um grupo de amigos que se denominavam ateístas. Eventualmente, desejando se enturmar Gisela começou a ter aulas de catequismo com os meninos católicos, porém estes não falavam com ela.

Sendo assim, Gisela retornou a escola pública. Ali, algo estranho aconteceu quando sua turma apresentou uma peça de teatro baseada no filme “Mudança de Hábito”, no qual Woopie Goldberg atua de freira.

Este a sido un difícil proceso para Gisela, quien hizo aliá en el 2003. La hija de un padre judío y una madre católica, se ha estado enfrentando desde temprana edad a la pregunta ¿quién soy? En un principio, Gisela asistió a una escuela pública. Luego, fue enviada a una escuela privada a la cual asistían tanto católicos como judíos. No sintiéndose parte de ninguno de los dos bandos, Gisela se hizo de un grupo de amigos los cuales se denominaban ateístas. Eventualmente, con el deseo de “encajar” Gisela comenzó a tomar clases de catequismo con los niños católicos, pero estos no le hablaban.

Por lo tanto, Gisela retornó a la escuela pública. Allí, algo extraño sucedió cuando su clase presentó en teatro la película Cambio de Hábito, en la cual Woopie Goldberg actúa de monja.

“Meu pai me proibiu absolutamente de participar da peça” disse Gisela. “Ele nunca havia se importou muito com respeito ao seu judaísmo, porém de repente, a idéia de ver sua filha vestida de freira o incomodou bastante”.

O incidente também fez com que Gisela refletisse sobre o que o judaísmo significava para ela. Depois de terminar o segundo grau, veio para Israel.

Aqui também não pertence a nenhum grupo em particular. “Quando cresci, tive muitos problemas por ter um sobrenome judaico”, disse, “agora que estou em Israel, sou tratada como não judia. Quando as pessoas escutam que estou fazendo a conversão, começam a testar meu conhecimento judaico. Alguns dizem: vieste a Israel em busca de dinheiro? Aprendi a ser discreta com respeito a meu passado. Assim é mais fácil para mim”.

“Mi padre me prohibió absolutamente ser parte de la misma”, dice Gisela. “El nunca había hecho mucho ruido con respecto a su judaísmo, pero de repente, la idea de ver a su hija vestida de monja lo hizo enfadar”.

El incidente también llevó a Gisela a explorar que es lo que el judaísmo significa para ella. Luego de terminar la secundaria, vino a Israel. Nuevamente, no pertenece a ningún grupo en particular. “Cuando crecí, tuvo muchos problemas por tener apellido judío”, dice. “Ahora que estoy en Israel, soy tratada como no judía. Cuando la gente escucha que estoy realizando la conversión, comienzan a testear mi conocimiento de judaísmo. Algunos dicen ¨¿has venido a Israel en busca de dinero¨?

“He aprendido a ser discreta con respecto a mi pasado. Así es más fácil para mi”.

Gisela, apesar de tudo, está encontrando seu caminho. Trabalha com telemarketing e está estudando para seu exame psicométrico. Tem um namorado, “é religioso”, disse, que a ajuda no processo de conversão.

Mas de uma vez pensou em regressar a Argentina. Seus pais, entretanto, a incentivaram a ficar. “Eles sabem”, ela diz, “que existe algo aqui que preciso”.

A transição de um estrangeiro que fala o espanhol para um imigrante israelense é complicada. A equipe do Machon Miriam tenta fazer esta transição tornar-se a mais espontânea possível.

“Quando alguém me procura”, diz Birnbaum, “eu pergunto: tens uma comunidade? Tens uma família adotiva? Se a resposta é negativa, nós provemos uma. Temos uma rede de profissionais que apóiam e guiam aos estudantes nesta nova vida. Eles, têm conexões com comunidades, rabinos, sinagogas. Nós tentamos assegurar para que os estudantes encontrem um trabalho. Existe muita colaboração e ajuda aqui no Machon Miriam. Existe um foco mais profundo que o simples conhecimento dos relatos bíblicos”.

“Meu enfoque é que a conversão é uma transformação cultural assim como religiosa, portanto os estudantes devem aprender tudo: sobre a sociedade, sobre história, sobre cultura, sobre halachá, sobre fé e sobre dogma. Por isso este processo conta com um extenso programa”.

“Por exemplo, quando caminham pela rua, os estudantes vêem diversas formas de vestir-se dentro das mesmas linhas religiosas, distintos tipos de kipot, distintas formas de cobrir-se o cabelo da mulher. Existem códigos culturais que dever ser compreendidos. Portanto, nós lhes ensinamos a história do povo judeu, literatura hebraica… porém também ensinamos sobre essas diversidades culturais”.

“Todos esses elementos”, disse Birnbaum, “contribuem para o êxito. Quando todos os estudantes do ulpan estão diante da Corte Rabínica de conversão, estão tão bem preparados que 99% deles são aprovados no exame. Posso contar nos dedos, durante todos esses anos, os não aprovados.

A conexão não termina ali, entretanto. Os graduados são bem-vindos, inclusive estimulados a realizar casamentos e celebrações de Bar Mitzvá no Ulpan. O convívio social do Ulpan existe para assegurar que os novos convertidos não fiquem apartados em seu novo ambiente social. “Deves lembrar”, diz Renaná Birnbaum, “que o processo de conversão é difícil inclusive depois da conversão em si. Os convertidos se encontram em um estado de euforia. Toda a sua vida mudou. Porém, para todos em volta não mudou, é aquela mesma pessoa que conheceram anteriormente. O trabalho não cai do céu, assim como não um(a) esposa(o) e amigos. Sempre existe uma queda emocional logo após a conversão. Portanto, sempre tentamos guiá-los através de si mesmos, e mais além. Os convertidos devem acostumar-se com a vida após a conversão. Pode até soar simples demais por um lado, mas e muito mais complicado do que podemos imaginar”.

O curso atual é o nono do Machon Miriam. Entre todos, cerca de 500 estudantes já finalizaram o curso. “O trabalho é árduo e está apenas no começo”, afirma Birnbaum, “temos um curso completo hoje em dia, e tem mais gente esperando para ingressar. Não existe uma só vez, onde as salas de aula não estejam repletas e prestes a explodir”.

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