Retirar a Máscara

Comentário sobre a porção semanal da Torá de Kedoshim

 

 

A Idolatria

“Não dirijais aos ídolos e deuses de metal não façais, Eu sou O Senhor, teu D’us” (Levítico 19:4)

A proibição de idolatria é repetida várias vezes na Torá e em todo o Tanach, uma vez que antigamente se tratava de uma tentação muito comum – todas as nações a nossa volta possuíam seus ídolos e suas representações brutas da Divindade.

Devemos entender que o contato com o Criador é uma das necessidades básicas do homem, isto pois temos uma alma divina e essa alma sente a necessidade de continuar a se comunicar com o Criador.

O problema é que, ao realizar este contato, podemos ser enganados com mentiras, falsidades, meias-verdades ou podemos deixar de cumprir as condições adequadas para isso.

 

 

O D’us Escondido

Ao criar este mundo no qual vivemos o Criador “se escondeu” por detrás das leis da natureza. Podemos, e devemos aprender a reconhecê-lo através da natureza, mas sem cair no erro de confundir a natureza com o Criador.

Incansavelmente, o homem tenta se conectar com o Criador. Existem conexões fracas, semelhante a dos animais, que possuem uma relação puramente natural, “sensorial”, sem um traço de inteligência que os permita compreender que é necessário atravessar a natureza para alcançar o Criador, e assim, se contentam em fazer da natureza um novo deus, Pachamama, a deusa Gea.

Estes tipos de conexões fracas não satisfazem a parte intelectual humana, que ocasionam em uma ruptura entre o intelecto e os sentidos criados, fazendo com que o homem passe a viver uma vida esquizofrênica distorcida, com os sentidos lhe dizendo uma coisa e o intelecto dizendo outra.

Quando tentam sincronizar entre os dois lados, devem escolher entre negar os sentidos ou negar o intelecto. No primeiro caso, torna-se um agnóstico idealista, e, no segundo, torna-se um fundamentalista com uma “crença” que não entende ou não quer entender.

 

 

Adorar e Venerar

Uma das ramificações da tentativa de conexão com o Divino sem respeitar as condições certas, foi a idolatria. Alguns, na sua simplicidade, acreditam que tal figura tem poderes mágicos, que se trata de um deus com poderes físicos ou espirituais, apesar de que as próprias mãos da pessoa que criaram tal figura. O profeta Yeshayáhu descreve esta situação em vários capítulos, mostrando a inconsistência destas crenças (por exemplo, em Yeshayáhu 44:6-20; 45:20; etc.). Outros, acreditando serem mais inteligentes, entendem que as figuras não têm poderes sobrenaturais, mas somente “representam” os deuses, seja no plural ou singular. Alegam que não “adoram” estas figuras, e que simplesmente, as veneram por representarem a Divindade. É o que dizem os teólogos cristãos e hindus: as figuras são apenas uma representação.

Tudo isso, de acordo com a Torá e o Tanach, nada mais é que pura idolatria. É completamente proibida qualquer representação divina, seja em forma de um elefante azul como fazem os hindus, ou seja, em forma de cruz como fazem os cristãos. Também não são permitidas figuras de “santos” que, novamente, não são “adorados”, mas sim “reverenciados”. Qual é a diferença entre “veneração” – “culto que se venera ao sagrado” e “adoração” – “adoração ou reverência a um ser ou objeto que é considerado divino”? Ambas se tratam de simples camuflagens linguísticas que escondem uma idolatria praticada.

Isso tudo, quando as imagens “representam” o Divino, de acordo com suas falsas opiniões.

 

 

O Reflexo na Matéria

Contudo existe a possibilidade de que a Divindade se reflita na matéria, como a luz que reflete nos objetos. Para que isto ocorra, são necessárias condições extraordinárias, que não podem ser imitadas, nem mesmo determinadas, pelo homem. Por esta razão que os filhos de Israel se prostraram perante a Coluna de Fogo que precedeu o acampamento, ou prostraram-se diante da Arca da Aliança. Também a forma de adoração deve seguir rigorosamente as instruções divinas. Mas quando alguém tentou realizar, por sua própria iniciativa, alguma inovação no serviço divino recebeu uma punição imediatamente, como foi o caso dos dois filhos de Aharon, ou no caso do Rei David no episódio da carruagem que levava a arca, entre outros.

Deste modo, as representações da Divindade são consideradas idolatria, independentemente da boa intenção de quem as fez. Pior, não somente não conseguem alcançar o contato desejado com o Divino, como acabam obtendo o oposto.

O termo em hebraico é ‘Eloche Masechá’ (אלהי מסכה), normalmente traduzido como “deuses de metal (fundido) ”. Mas existe outra possível tradução, uma vez que a palavra “masechá” significa também “máscara” – ou “masach”, que significa “cortina” ou “véu” -, e isso implica que é como se estivessem colocando uma máscara sobre a Face Divina – se fosse possível a comparação – com a intenção de que esta representação se aproxime do conceito da divindade no mundo. Na verdade, o que acontece é que precisamente esta máscara ou esta cortina, oculta e afasta, ainda mais, D’s destes que o procuram, e ocasiona com que caiam em um dos erros mais graves que se possa imaginar.

 

 

Seja Santo

A Parasha começa com o comando “sejam santos”. Isto significa que devemos nos afastar de tudo o que não está diretamente conectado com o Criador, tudo aquilo que bloqueia nosso contato com ele. O bloqueio pode, em primeiro lugar, ser sobre as questões filosóficas, crenças falsas ou mal compreendidas e até mesmo, um culto divino deformado. Mas também, como é possível analisar no contexto da Parashá, em todos os tipos de questões que formam o complexo da identidade humana: as relações sociais e da família; sua conexão com a natureza no trabalho agrícola; ou sua própria perfeição individual.

Ao longo da história da humanidade, ocorreram muitas tentativas de obter o contato desejado, muitas vezes tentando imitar o Culto Divino de Israel, o único que conseguiu. E, portanto, hoje, existem muitos que se sentem enganados e negam que seja possível este contato ou inclusive, negam a existência do Criador.

Mas isso não pode continuar assim por muito tempo. Já estamos muito próximos dos dias finais da época em que não possuímos um templo e um culto divino completo. A humanidade precisa desesperadamente desta conexão e já estão verificando muitas das condições para a sua renovação.

Cada um de nós deve fazer tudo que está a seu poder para realizar sua parte especial neste contexto nacional, tanto na oração quanto no cumprimento em um alto nível intelectual e prático dos mandamentos da Torá, o que só é possível com base em um estudo muito aprofundado de todos os campos da Palavra Divina: a Torá Escrita e a Torá Oral.

3 thoughts on “Retirar a Máscara

  • May 13, 2016 at 4:42 pm
    Permalink

    Gostei muito deste comentário .

    Reply
  • May 14, 2016 at 11:52 pm
    Permalink

    Shavua tov Gostaria que mespondessem porque foram escritos outros livros pos torah, sendo que a torah aconselha a nao acrescentar mais nada a ela, e que o povo deveria estudar e praticar tudo que estava nela? Todah rabah

    Reply
    • May 15, 2016 at 10:19 am
      Permalink

      Shavua tov!
      Todos os livros escritos após a Torá, são somente uma interpretação daquilo que foi escrito na Torá ou que foi transmitido de geração em geração através dos ensinamentos da Torá Oral, que mais tarde também tiveram que ser escritas e ainda mais tarde, tiveram que também estas, serem interpretadas.
      Por este motivo novos livros não discutem com os livros das gerações anteriores e sim, somente, os interpretam de acordo com as necessidades modernas.
      Shalom!

      Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.