Quirguistão

A história do assentamento judaico no Quirguistão remonta ao século 6 d.e.c, quando, de acordo com o site BukharianJews.com, evidências arqueológicas descobertas pela Academia de Ciência Quirguiz sugerem que os comerciantes judeus Cázaros começaram a visitar o território do Quirguistão.

Na tradição do Quirguistão, o site explica, o termo dzeet (judeu) é encontrado pela primeira vez no poema épico nacional Quirguiz, “Manas”, que remonta ao século 10 d.e.c, e que provavelmente incorpora tradições anteriores. O Manas menciona várias cidades com comunidades judaicas consideráveis, entre elas Samarcanda, Bukhara e Bagdá, assim como vários lugares do Oriente Médio, incluindo Jerusalém, que é descrito no poema como uma “cidade sagrada para os judeus”.

Uma seção inteira do poema é dedicada aos “tempos do Rei Salomão” (Sulaimandyn Tushunda). Várias lendas populares do Quirguistão referem-se a uma alta montanha de 130 metros, perto da cidade de Osh chamada de “trono do Rei Salomão.” Os judeus locais comparavam a montanha ao Monte Sião.

De acordo com a tradição do Quirguistão, Adão é considerado o pai da costura e tecelagem, Noé – da arquitetura e carpintaria, David – da metalurgia, e Abraão – dos barbeiros. Na região de Suzak no Quirguistão, há uma aldeia chamada Safar – possivelmente uma variante de “Sefarad” – pelos judeus de origem sefardita.

Os judeus chegaram na região do Quirguistão enquanto viajavam ao longo da Grande Rota da Seda. A maior parte, eram comerciantes que falavam e escreviam em aramaico. Em suas memórias, Marco Polo, que passou pelo território do Quirguistão durante sua viagem à China, mencionou várias comunidades judaicas ao longo da Rota da Seda, assim como na China, onde os judeus eram chamados de “pessoas com olhos coloridos”. Judeus nessas áreas foram autorizados a construir sinagogas. Na verdade, de acordo com alguns pesquisadores, durante o século 10, a população judaica era maior do que a dos cristãos!

Nas regiões de Khorezm, Osh, Kokand e Samarcanda tinham comunidades judaicas que eram conhecidas pelo nome de khabr, uma palavra uzbeque possivelmente derivada do “chaver” hebraico (“amigo, colega”). O geógrafo árabe Al-Maqdisi (946-1000) menciona as cidades de Osh, Balasagun, Uzgen, Taraz e outras como possuindo comunidades de akhl-az-zimma (não-muçulmanos, possivelmente a maioria comerciantes judeus medievais).

Há muito mais documentação sobre as comunidades judaicas do século 19 adiante. Segue aqui um resumo, obtido a partir do site BukharianJews.com, bem como da Biblioteca Virtual Judaica.

No início do século 19, havia cerca de 19.000 judeus que viviam na Ásia Central, todos eles de origem sefaradita. Eles foram divididos entre os falantes de um dialeto persa, e os judeus de Bukhara que principalmente falavam um dialeto do Uzbequistão. A maioria dos judeus viviam nos territórios de Khiva, Kokand e Bukharian Khanates, com números pequenos espalhados pelas pequenas comunidades do campo.

A comunidade judaica do Quirguistão em si nunca foi grande, não chegando a passar mais do que 2% da população da região. Esse número foi confirmado pelas autoridades czaristas, em 1896 e, novamente, como resultado de um censo organizado pelos soviéticos em 1926. Em 2001, os judeus representavam apenas 0,03% da população total.

Os primeiros judeus Ashkenazitas começaram a chegar na região após a conquista da Ásia Central pelos russos, alguns deles chegaram com o exército russo. Estes judeus se instalaram principalmente nas cidades do interior do Quirguistão. Na cidade de Osh, os judeus de origem ashkenazita e sefaradita viviam separadamente. Os judeus Ashkenazitas moravam na nova parte “européia” da cidade, juntamente com os russos e os tártaros.

A maioria dos judeus do Quirguistão passou a viver em cidades a partir de que o Império Russo instituiu uma política que proibia os judeus de se estabelecerem em aldeias.

Os judeus sefaraditas mantiveram um estilo de vida semelhante ao de seus vizinhos muçulmanos, mas viviam em comunidades separadas dos habitantes locais uzbeques ou persas. Havia um cemitério judeu separado perto de Osh.

A comunidade judaica de Osh comprou seus tefilin (filactérios) e rolos da Torá de Bukhara. Alguns livros religiosos, principalmente as edições da Torá e do Talmud babilônico com comentários nos dialetos judaicos persa ou uzbeque foram publicados no Quirguistão, no início do século 20.

Até 1915, não havia sinagogas no Quirguistão. As sinagogas mais próximas estavam em Vernyi (hoje Almaty, no Cazaquistão), Tashkent, Samarcanda, e Fergana (agora no Uzbequistão).

Os judeus locais costumavam se reunir para a oração nas casas dos rabinos locais. Os funcionários da Chevra Kadisha (associação funerária) eram enviados do Cazaquistão e Uzbequistão. O único cemitério judaico foi localizado em Osh. Em Bishkek, os judeus tinham sua própria seção no cemitério muçulmano.

Não havia nenhuma educação primária judaica para os judeus no Quirguistão. Alguns judeus sefaraditas enviavam seus filhos para o “chêder” (estudos judaicos extracurriculares) em Samarkand. Os judeus Ashkenazitas em geral mantinham as tradições judaicas somente no seio da família e enviavam seus filhos para instituições russas de ensino.

O censo populacional realizado no Turquistão em 1900 menciona que entre os habitantes da região haviam cerca de 400 judeus em Tashkent, 2.300 judeus em Fergana, 4.560 judeus em Samarcanda, 800 judeus em Osh e 250 em Bishkek.

Após o início da 1 ª Guerra Mundial houve algumas mudanças no status dos judeus no Quirguistão. Mais judeus Ashkenazitas chegaram à região após o início da guerra, entre eles, representantes de diferentes partidos políticos e movimentos que tinham sido exilado para a Ásia Central. Os judeus sefaraditas, por outro lado, foram mobilizados pelos czares para o trabalho duro técnico e manual nas frentes de batalha da 1 ª Guerra Mundial. Muitos judeus fugiram para o Afeganistão.

Em 1916, alguns judeus dos centenas de milhares de refugiados judeus da guerra e prisioneiros de guerra dos exércitos alemães e austro-húngaros foram enviados para o Quirguistão, onde foram obrigados a trabalhar nas minas de carvão, projetos de irrigação, vias ferroviárias e com trabalhos técnicos nas fábricas locais.

Após a Revolução Bolchevique de 1917, novos ativistas políticos chegaram no Quirguistão, muitos eram comunistas com uma origem judaica ou um passado relacionado, posteriormente perseguidos durante os expurgos stalinistas dos anos 1930. Uma rede de escolas técnicas foi criada para criar um “novo tipo” de judeus sefaraditas soviéticos: operários e professores, em vez de lojistas e financistas.

Durante os anos marxistas, os judeus observaram as tradições religiosas em segredo. Para o feriado de Pessach, cada família, costumava assar a matzá em casa. Várias famílias se reuniam e comemoravam os Shabatot e os feriados. A circuncisão também foi praticada clandestinamente, as famílias organizavam uma cerimônia e pagavam um mohel (circuncidador judaico), que era trazido especialmente para o Quirguistão de Tashkent, vizinha do Uzbequistão.

Alexander Volodarsky, um exilado da Bielo-Rússia devido às suas crenças religiosas, tornou-se o líder não oficial da comunidade judaica de Osh. Ele serviu como um Shochet (Abatedor de animais de acordo com as leis da Kashrut) e especialista em Kashrut.

Durante a 2 ª Guerra Mundial, mais de 20 mil judeus que fugiram dos territórios ocidentais da União Soviética ocupados pelos nazistas, foram reassentados nas cidades e aldeias do Quirguistão. A Companhia de Teatro Judaica de Varsóvia foi evacuada para o Quirguistão, e realizaram performances em iídiche, polonês, ucraniano e bielo-russo, antes de retornar à Polônia após a guerra.

Em 1941, uma sinagoga pública foi permitida no Quirguistão pela primeira vez, a ser inaugurada em Bishkek (então conhecida como Frunze). Os judeus compraram um edifício no centro da cidade e Y. Levin, o primeiro rabino, doou um rolo da Torá. Lojas especiais que vendem carne kosher, chalá para o sábado e matzá para o Pessach, abriram perto da sinagoga.

A comunidade religiosa judaica de Bishkek ganhou reconhecimento oficial em 1945. Na época, cerca de 70 judeus visitavam a sinagoga diariamente, enquanto que no Shabat, haviam mais de 200. Durante as festividades, especialmente no Yom Kipur, mais de 2.500 judeus iam à sinagoga.

Na década de 1950, a comunidade judaica de Bishkek foi autorizads a celebrar oficialmente os feriados judaicos como Rosh Hashaná, Yom Kipur, Pessach e Shavuot, mas todas as outras atividades religiosas eram proibidas.

Em 1979, a comunidade tinha diminuído para 6.900, com 5.700 residentes de Bishkek. Em 1989, já haviam encolhido para 5.800. Hoje, existem cerca de 2.500 no país. A imigração para Israel tem sido constante e é a principal causa da diminuição da população judaica do local. De 1989 a 2001, 4.907 judeus fizeram Aliá e, em 1990, pouco antes da independência do Quirguistão em 1991, mais de 1000 emigraram para Israel.

Desde a independência, a comunidade judaica, concentrada em Bishkek, tem-se reconstruído. O Centro Menorah em Bishkek, que é apoiado pelo americano Jewish Joint Distribution Committee (JDC), é o centro da vida judaica. Ele mantém uma escola dominical, um centro de educação Aish HaTorah, um teatro judeu, um grupo de dança e uma biblioteca. Publicam o jornal Ma’ayan e organizam atividades esportivas juvenis no Macabi. O centro também oferece ajuda a pessoas idosas da comunidade.

Após tumultos étnicos que eclodiram no Quirguistão em 2010, 12 judeus emigraram para Israel. Uma vez que Israel não possui uma embaixada no Quirguistão, os judeus deixam o país com a ajuda da comunidade judaica do país vizinho, o Cazaquistão

Informações adicionais sobre os judeus do Quirguistão podem ser encontradas no seguinte link: http://haruth.com/jw/JewsKyrgyzstan.html. E um guia para a comunidade judaica do Quirguistão com informações sobre casas do Chabad, comida kosher e cemitérios, entre outros, podem ser encontrado aqui:http://www.kosherdelight.com/Kyrgyzstan.htm.