Quem é o Sábio?

Comentários da Porção Semanal de Yitro

 

MOSHE RABENUimages

Na Parasha de Yitro somos testemunhas de um fenômeno extraordinário.

Por um lado, temos Moshe, que está prestes a receber a Torá das “mãos” do Criador, a Torá, que é a ciência das ciências, a sabedoria das sabedorias, a Torá que possui tudo escrito ou implícito. A mesma Torá, que os anjos do céu não quiseram deixá-la em mãos humanas por sua grande santidade, por seu alto grau de perfeição.

E este é Moshe, que se torna o mestre de todo Israel, a ponto de receber o título de “Rabeinu” = “nosso mestre”, que, se encontra uma montanha obstruindo sua passagem a Lei, a Torá, é capaz de perfurar a montanha. Moshe, eis que, ao chegar Yitro seu sogro, que não pertence ao povo de Israel, está disposto a obter o seu conselho.

JUSTIÇA

Pois eis que chega este senhor, Yitro, que não pertence ao povo de Israel, e se atreve a dar conselhos a Moshe!

E também lhe dá dicas sobre uma das questões mais importantes e básicas de nossas vidas: a Justiça.

Como se a Justiça em Israel tivesse algo a ver com a justiça de outras nações!

Como o próprio Moshe diz ao sogro: “Quando o povo venha a mim para investigar a vontade divina”, como dizendo que a justiça não é apenas para fazer a paz entre litigantes ou para evitar que o caos ocorra na sociedade, é, principalmente, a expressão da própria vontade do Criador sobre os diferentes aspectos da nossa vida.

Justiça em Israel é parte integrante da Torá. Se funde e, por vezes, confunde as noções de: julgamento e Halachá. Aonde, em hebraico, a palavra “Din”, raís da palavra “Dayan”, juiz, serve para se referir tanto a um tribunal, quanto a cada uma das “Halachot”- Leis – da nossa Torá.

JUSTIÇA DAS NAÇÕES

Sabemos, também, que somos proibidos voluntariamente de ir ao tribunal das outras nações, pois seria uma demonstração de desprezo pela nossa Torá, e apenas depois de receber a permissão do Tribunal Rabínico podemos ir aos tribunais “civis” para recuperar o que nos pertence ou para evitar outros problemas, como escreveu o Rei David nos Salmos (147:20): “Ele não fez assim com nenhuma outra nação…das quais não conheceram seus julgamentos”.

Bem, agora podemos entender melhor a singularidade deste conselho que recebeu Moshe de seu sogro, Yitro, que havia sido um sacerdote de idolatria e pertencia a uma cultura completamente diferente, a um povo que, mais tarde, se tornaria um dos grandes inimigos de Israel, precisamente na época dos juízes.

Portanto, devemos entender que isso é algo sublime, muito além de uma simples interpretação.

A SAÍDA DO CAOS

Se passava já mais de dois mil anos desde a criação do homem. Durante todo esse tempo, o homem havia buscado decifrar a resposta ao grande caos do mundo em que vivemos, buscando encontrar um sistema lógico e coerente de governo.

Não significa que já haviam cogitado todas as soluções de todos os cantos remotos da lógica, mas é suficiente para entender que o mundo e a razão estão intimamente ligados e que, através de nosso raciocínio, podemos descobrir e interpretar corretamente o que acontece no mundo e como e por que isso acontece.

A humanidade como tal, chegou ao fim de uma primeira fase e começava uma nova fase, desenvolvendo e aplicando este raciocínio nos mais distintos campos de interesse.

E, portanto, já se torna capaz de criar um sistema social bom o suficiente para governar uma sociedade. E é, de fato, já nos tempos de Avraham, cerca de quatrocentos anos antes, que o famoso Código de Hamurabi aparece como o primeiro sinal de uma legislatura social.

SENSO COMUM

Yitro diz a seu genro Moshe que existem algumas regras básicas de trabalho, que não podem ser transgredidas na implementação de instituições de justiça nacional.

Moshe escuta com atenção, pois sabe que o que a mente humana pode alcançar por si só, não estará especificado na Torá. Como diz o Talmud muitas vezes: “Se é um senso comum, por que eu preciso de um verso?”. Esta expressão significa que as leis da Torá são muito além da razão humana. A razão humana é limitada ao que suas células naturais digam, ao que a sua mente humana pode compreender. Mas também temos um divino, algo sobre-humano, na alma que o Criador “Soprou” dentro de nós. E com isso podemos e devemos chegar muito mais além do que o indicado pelos graus de nível meramente humano. E é isso que a Torá ensina.

Mas a Torá não nega e nem anula quaisquer aspecto humano. Em vez disso, sublimá-los a uma nova perspectiva divina, transformando o judeu em um ‘super-homem’, um ser sobrenatural, como era o próprio Moshe, capaz de passar quarenta dias e quarenta noites, sem comer, beber ou dormir, de ser capaz de conhecer o passado e o futuro, ao saber dominar a natureza humana através de sua alma divina.

O SEGUNDO ANDAR

Para chegar a este nível sobre-humano, precisamos das instruções dos 613 mandamentos da Torá que são subdivididos em milhares de pequenas instruções que iluminam todos os aspectos de nossas vidas, acrescentando as instruções sobre santidade e pureza que foram largamente esquecidas nos últimos dois mil anos, mas que são essenciais para alcançar a meta.

Subir a este novo nível não anula o nível anterior, mas construímos um segundo andar que se baseia no “andar de baixo” e, portanto, o conselho de Yitro foi muito importante e essencial para o nosso progresso. Como o Tratado de Pirque Avot (Ética dos Pais) diz: “Quem é sábio? Aquele que aprende de todos os homens.”