Parashat Vaikrá

O sentido do sacrifício.

«E chamou Moisés o Eterno e falou-lhe desde o Tabernáculo dizendo-lhe: “Diz aos filhos de Israel: Quando algum de vós quiser dar uma oferta de gado ao Eterno, dá-la-á de gado bovino ou de gado ovino… E apoiará a mão na cabeça do animal, que lhe será aceite para expiação. E degolará o vitelo diante do Eterno e os sacerdotes, filhos de Aarão, oferecerão o sangue, que aspergirão em volta do altar que está junto à entrada do Tabernáculo”.» (Levítico, 1, 1-6)

Começamos a leitura do livro de Levítio (Vaikrá), o terceiro do Pentateuco. O livro de Levítico transporta-nos a um mundo novo: o dos sacrifícios, tema principal, que aparece de forma explícita e detalhada ao longo do livro.

O livro de Génesis conduziu-nos pelos passos da história do povo judeu e o livro de Êxodo fez-nos conhecer os acontecimentos fundamentais do povo: a dispersão e a redenção. Daqui para a frente entramos na vivência judaica, no lar judaico em todos os seus detalhes. Nos livros de Génesis e de Êxodo estávamos no campo da História. Em Levítico entramos no campo da lei e dos preceitos.

A Torá não fundamenta a necessidade dos sacrifícios e por isso há abundantes interpretações posteriores. Variados investigadores e intérpretes judeus tentaram compreender qual era o objetivo dos sacrifícios, e por quê a Torá ordenou efetuá-los.

Apesar do afastamento real e espiritual do Homem moderno no que diz respeito aos sacrifícios, devemos estudar e compreender o significado deste preceito, que durante muitas gerações teve uma importância central na vida do povo de Israel.

O primeiro sacrifício de que temos conhecimento é o de Caim e Abel. Quando Caim e Abel ofereciam os seus sacrifícios não estavam a cumprir um mandamento, mas sim a obedecer a uma necessidade interior: a de se dirigir a um ente transcendental durante a vida. O primeiro sacrifício não é efetuado para purgar um pecado, simbolizando que o sacrifício é uma necessidade psicológica e religiosa do Homem e não uma necessidade de De’s.

Apesar do facto de os primeiros sacrifícios efetuados no mundo se basearem nesta necessidade natural e, por tanto, serem levados a cabo da maneira que cada pessoa achava adequado, a Torá considerou necessário regulamentar a forma em que os sacrifícios devem ser realizados, para guiar o Homem na sua vida religiosa.

Pareceria que o sacrifício está relacionado com três elementos: a entrega, a representação simbólica e a aproximação. O primeiro elemento em todo o sacrifício é a entrega, a renúncia a algo que está na posse do Homem para fazer entrega disso ao Criador. A Torá não diferencia entre tipos diferentes de entrega: “Um dá pouco e outro dá muito; o importante é que o seu coração aspire ao céu.” Na realidade, o tipo de sacrifício não tem importância; o que importa é o esforço que a pessoa realiza para renunciar a uma parte daquilo que possui. Por isso às vezes tem mais valor o pequeno sacrifício de um homem pobre, que se esforça por renunciar ao que possui para dar uma oferenda, do que o grande sacrifício do homem rico.

As oferendas educavam o espírito e o coração do homem. O korbán concedido a De’s exigia, primordialmente, a vontade do Homem. O que interessa não é se a oferenda é maior ou menor, mas sim a intenção pura que o homem tinha ao oferecê-la a De’s

A segunda abordagem que encontramos no sacrifício é a representação simbólica, já que o sacrifício representa um sacrifício pessoal, ou na verdade é feito no seu lugar. O Homem deve considerar, ao levar a cabo um sacrifício, que ele próprio deveria estar no altar do sacrifício. Isto significa que não é o sacrifício oferecido que expia a culpa, mas sim o coração do Homem que o oferece e a sua decisão de não voltar a pecar. O efeito psicológico que se espera da cerimónia do sacrifício e o simbolismo relacionado com o mesmo, é despertar o arrependimento do pecador e a sua consequente reforma moral e espiritual.

A aproximação expressa-se na execução do sacrifício como ato religioso, cujo propósito é a aproximação e a união com De’s. A religião caracteriza-se pela aproximação ao objeto religioso e não só pela fé. Em todas as religiões existem a aproximação e o afastamento. De’s está perto do Homem, do ponto de vista subjetivo e pessoal, e está longe do ponto de vista objetivo. O objetivo do sacrifício é a criação de uma experiência religiosa, uma experiência de aproximação.

A palavra hebraica para designar um sacrifício ou uma oferenda é “korbán”, que vem da raiz hebraica “karav”, que significa “aproximar”. Assim, “korbán” pode se interpretado como aquilo que é aproximado ou aquilo que aproxima.

Com o korbán, elevam-se até De’s os quatro elementos da natureza: A espécie animal, que consiste no sacrifício propriamente dito, a espécie mineral, que era o sal que acompanhava o korbán, a vegetal, que era a farinha e o vinho que se oferecia a De’s, e, por último, a racional, que era o próprio homem que trazia o korbán.

Tudo indicava a elevação, a aproximação dos elementos da criação Divina em direção a De’s.

O sacrifício é um símbolo da aproximação entre De’s e Israel. Simboliza o reconhecimento de que De’s é o Senhor de todo o mundo e devemos agradecer-lhe a Ele por tudo o que possuímos.

Uma das explicações mais conhecidas acerca da razão dos sacrifícios é que eles representam a luta da Torá contra o paganismo. Maimónides assegura que a Torá não mudou a forma exterior do sacrifício, mas sim a atitude interior. Em vez de sacrifícios realizados a vários deuses, os sacrifícios são realizados a um De’s único, e limitou-se também o lugar onde os sacrifícios podem ser levados a cabo: só é possível fazê-lo no Templo, anulando então o paganismo e o costume de realizar sacrifícios em altares espalhados por todo o território.

É assim que o livro de Vaikrá transforma radicalmente o rito pagão do sacrifício de animais e utiliza este ritual para confrontar o ser humano com a violenta contradição que existe entre o seu apetite por carne animal e a designação feita por De’s da vida como algo sagrado. O sacrifício de animais, que no passado tinha dado ocasião para as pessoas darem rédea solta a impulsos de magia, sadismo e gula, transforma-se num rito de expiação cumprido por sacerdotes do Templo.

É evidente que a opinião de Rambam despertou diversas reações entre diferentes intérpretes que não estão de acordo com a ideia de o único objetivo dos sacrifícios ser a luta contra o paganismo, sem outro motivo importante.

Os sacrifícios representam um problema moral para muitos judeus dos nossos dias. Hoje em dia, quando o Homem tenta aproximar-se cada vez mais da natureza, e existem diversas associações de defesa dos animais, surge a pergunta acerca da renovação da cerimónia dos sacrifícios, em cujo caso não está claro como seriam recebidos entre o povo.

Apesar das dificuldades que possam surgir, é necessário sublinhar que os sacrifícios constituem um dos preceitos fundamentais da Torá, e, por isso, estão incluídos nas aspirações do povo judeu no que diz respeito à redenção e ao Terceiro Templo.

O Rav Kuk defendeu que enquanto o povo judeu não sinta necessidade de renovar a cerimónia dos sacrifícios, estes não se tornarão realidade. Só quando o povo compreender a importância e a centralidade deste ato, voltará o sacrifício a ser um dos costumes do povo judeu, como já foi na antiguidade.

One thought on “Parashat Vaikrá

  • March 15, 2018 at 9:28 pm
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    Numa opinião pessoal, e de leigo, creio que prevalecerá a ideia (aliás sancionada por vários Profetas) de que os sacrifícios mais agradáveis ao Eterno são os dos nossos defeitos e más inclinações. No jejum, por exemplo, o homem sacrifica o seu próprio sangue e a sua gordura, enquanto medita e se depura espiritualmente. O Judaísmo, que adora o Eterno, o D-us transcendente e indefinível, seguirá decerto essa via, menos material e mais espiritual. Mas os sábios desta geração terão decerto todos os factores em conta quando decidirem.

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