Parashat Mishpatim

O monoteísmo ético.

«E estas são as leis que lhes darás. Quando comprares um escravo hebreu, servirá para ti seis anos, e no sétimo ano sairá em liberdade gratuitamente» (Êxodo, 21, 1-3)

Esta parashá, que inclui numerosas leis e mitzvot da religião judaica, aparece imediatamente depois dos Dez Mandamentos. Depois da entrega dos Dez Mandamentos no Monte Sinai, o povo poderia ter considerado que estes continham a totalidade das suas obrigações religiosas e morais. A parashá Mishpatim vem ensinar-nos que, para sermos pessoas morais, não é suficiente cumprir os Dez Mandamentos. Também não é suficiente cumpri-los para executar todas as obrigações religiosas judaicas.

Os Dez Mandamentos, a parashá Mishpatim e todas as mitzvot foram entregues ao povo somente depois da sua saída do Egito. Se o povo de Israel tivesse recebido a Torá antes da saída do Egito, isso teria sido contra o plano divino, já que o objetivo da Torá coincide com o da liberdade. O objetivo da liberdade é ajudar o Homem a atingir um alto nível de moralidade de forma autónoma. A Torá é a “receita” do Eterno para que, através dela, o Homem alcance o seu propósito, tornando-se deste modo merecedor da sua imagem e semelhança divinas.

A parashá Mishpatim apresenta-nos uma série de leis relacionadas com as relações entre o homem e o seu próximo, entre o homem e a sociedade e entre o homem e De’s, que, em conjunto, formam a base da religião judaica.

Não existe no Tanach um conceito teórico, abstrato, capaz de definir em que consiste a moralidade. Ao contrário da conceção grega da moralidade, que se contenta em definir quais são as características desejáveis para o homem de bem – valentia, compaixão e justiça – o judaísmo exige que cada pessoa leve a cabo certas ações que são consideradas próprias de uma conduta moral e não se conforma com uma descrição em termos gerais.

O conjunto de leis que constitui a Halachá (Lei Judaica) trata da moral social, da moral económica, da moral pessoal, da moral sexual, etc. Não existe nenhum aspeto a vida humana que não esteja presente na lei judaica.

A Halachá é a ponte entre a Torá e a conceção moral da realidade. A Halachá é a aplicação da Torá à realidade concreta, em permanente mudança.

Para o judaismo existe uma inter-relação profunda entre a religião e a moral.

O Talmude ensina-nos acerca da relação ideal que deve existir entre a religião e a moral: «Aprendemos do versículo “E amarás o Eterno teu De’s”. Como deve o Homem amar De’s? Estudar Torá, Mishná, aproximar-se aos estudiosos para beber os ensinamentos do Talmude e relacionar-se corretamente com os outros seres vivos. Que dizem então os homens? Bem-aventurado o seu pai, que lhe ensinou Torá! Bem-aventurado o seu mestre, que lhe ensinou Torá! Pobres das criaturas que não estudaram Torá! Olhem o quanto é agradável e justo o comportamento de fulano, que estudou Torá. É sobre este homem que diz o versículo: “Tu és meu servo, Israel, em quem me glorificarei.” Porém quem estuda Torá e Mishná e se aproxima dos estudiosos mas o seu modo de se relacionar com os outros é indecente, que dizem os homens dele? Pobre fulano, que estudou Torá! Infeliz o seu pai, que lhe ensinou Torá. Infeliz o seu mestre, que lhe ensinou Torá. Quão corruptas são as ações de fulano que estudou Torá!»

Os aspetos morais no judaísmo devem refletir-se em tudo o que diz respeito a situações sociais, económicos e políticos, e, em geral, a todos os aspetos da vida humana.

O estudo é necessário mas não é suficiente. O estudo pode comprometer o Homem com certos esquemas de ideias e pensamentos, mas o judeu deve estar comprometido também no seu comportamento ético, social e religioso.

O estudo não deve permanecer apenas no nível filosófico, mas sim transformar-se em realidade. O estudo deve acompanhar o indivíduo criando uma ligação entre ele, a sua herança cultural e religiosa, e as suas atitudes.

O sistema de leis morais no judaísmo não exige o afastamento da vida ativa., nem proíbe o Homem de desfrutar dos prazeres do mundo material, como acontece em outras religiões.

O judaísmo aceita o Homem e o mundo tal como são e, portanto, as suas exigências morais e religiosas adaptam-se à realidade.

Para dar um exemplo acerca da conceção moral da Halachá, vamos referir-nos à primeira mitzvá que aparece nesta parashá: a relação com o escravo judeu e com o não-judeu. A Halachá propunha-se eliminar completamente a instituição de escravidão. Só se podia escravizar um judeu se este tivesse roubado, ou se fosse tão pobre que não conseguisse pagar as suas dívidas. O dono do escravo não só tinha que responder às necessidades materiais do escravo como também às da família do escravo. A Halachá determina que o escravo pode libertar-se assim que tiver dinheiro para o fazer, para voltar para o seio da sua família. Durante os anos de escravidão, o dono não pode sujeitá-lo a trabalhos pesados ou exigir-lhe que efetue tarefas desnecessárias. O dono é obrigado a proporcionar ao escravo e respetiva família alimento e condições e vida similares às que ele próprio tem. A Torá assegurava deste modo não só o ideal de liberdade como também os valores próprios da família judia.

O sistema legal judaico que determinou o estilo de vida religioso e a moral é aplicável em todo o tempo e lugar, em todos os sistemas sociais, económicos e culturais, em todas as condições tecnológicas e em todas as circunstâncias políticas. É possível aplicar a Halachá tanto numa sociedade homogénea, que tem uma moldura religiosa, como na sociedade moderna e industrializada, científica e tecnológica. Foi possível aplicar a Halachá tanto na diáspora, onde se aplicava na esfera privada, ou dentro do Estado Judaico, onde tem que lidar com os novos problemas que surgem a nível coletivo.

O judaísmo autêntico baseia-se na Halachá, mas só enquanto esta relacionar a Torá com as exigências da realidade.

Uma das principais conclusões deste sistema halachico-moral é que o monoteísmo tem um significado mais profundo de representar a fé num De’s único. O monoteísmo bíblico é o monoteísmo ético. No judaísmo, a religião monoteísta, a relação entre o Homem e De’s está baseada no nosso comportamento ético, nas nossas ações. A ética transforma-se assim na primeira ponte que nos comunica com De’s. O monoteísmo expressa-se através de um contacto de um homem com De’s, e esse contacto pode manifestar-se num contacto ético com De’s.

One thought on “Parashat Mishpatim

  • February 14, 2018 at 3:28 pm
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    Boker tov!
    Todah rabah!
    Marcos A Ferreira

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