Parasha Ree

Seja você mesmo!

As ofertas que deveriam ser levadas ao Templo de Jerusalém nas festas de peregrinação ensinam-nos a importância de preservarmos a nossa autenticidade.

A Parasha desta semana fala-nos com grande alegria sobre as três festas de peregrinação do calendário judaico:

Três vezes no ano todos os homens aparecerão diante do Eterno, teu De’s, no lugar que ele escolher: na festa do pão ázimo (Pesach), na festa das semanas (Shavuot) e na festa das cabanas (Sucot). Mas não se apresentará diante do Eterno vazio (sem nada). Cada um com a oferta da sua mão, segundo a bênção que o Eterno, teu De’s, te tiver dado.

Devarim 16:16 e 17

A pressão social para que todos vivamos da mesma forma, para que consumamos os mesmos produtos, é uma força muito grande nas nossas vidas. As culturas procuram de todas as formas impor uniformidade na maneira como vemos o mundo, no nosso comportamento, até mesmo na nossa maneira de pensar. Se por um lado falam em individualismo, por outro, nos meios de comunicação, os filmes impõem-nos um estilo de vida único. Isso leva-nos a questionarmo-nos: quão difícil é sermos nós mesmos?

A Torá apresenta-nos três descrições fascinantes das nossas ofertas:
1) não devemos aparecer de mãos vazias
2) devemos dar de acordo com a possibilidade das nossas mãos
3) a nossa oferta deve ser de acordo com a bênção que De’s nos deu.

O que nos dizem estes três requisitos sobre o nosso lugar na sociedade, o lugar da nossa personalidade e para a nossa autenticidade no mundo de De’s?

Superficialmente, estes três requisitos são paralelos, reiterando que é nosso dever dar com alegria e oferecer de acordo com nossos recursos. Como disse o nosso sábio Saadia Gaon (Babilónia, século X), cada pessoa deve oferecer «o que a sua mão pode pagar, de acordo com o que De’s lhe deu em graça.» Da mesma forma, o Talmud insiste em limitar as contribuições para a caridade: «Se alguém deseja gastar generosamente, não deve gastar mais do que um quinto da sua renda»

O significado literal da Torá tenta regular as nossas ofertas voluntárias, para que estas sejam efetuadas com total alegria e dentro das nossas capacidades financeiras. Este não é um detalhe menor, se imaginarmos como seriam diferentes as celebrações de bnei mitzvah, casamentos e outras festas, se fossem realizados de acordo com estes princípios de modéstia.

Mas, num sentido mais profundo, esses três requisitos podem ser vistos como três níveis, em que cada um acrescenta um novo significado que torna os outros dois mais extensos e complementares.

Durante as nossas festas, nas quais queremos mostrar a nossa alegria, não devemos vir de mãos vazias. Quando celebramos na presença de De’s, não devemos pensar apenas na nossa alegria pessoal. Celebrar no sentido mais completo e profundo é unir os nossos triunfos particulares para ajudar a reparar o mundo de De’s. Isto significa aproveitar uma festa para alimentar os famintos, ou juntar um encontro familiar a uma causa comunitária, transformando assim os momentos de celebração familiar em ocasiões para curar feridas e reparar erros da nossa sociedade. Desta forma mostramos a verdadeira gratidão, quando conectamos as nossas smachot à tzdaka, as nossas festas com a justiça.

A segunda qualificação bíblica é que a oferta que trazemos deve ser «segundo o nosso próprio dom, da nossa própria mão», ou seja, duas pessoas não trarão o mesmo. Cada um vai doar de acordo com seus talentos e preferências especiais, algo que demonstre quem é: um ser único e intransferível. Este dom deve ser, nas palavras do Talmud (Gittin 59) «de acordo com a sua própria inteligência, conhecimento e possibilidades»

A terceira qualidade é que a oferta deve ser «de acordo com a bênção de De’s». Aqui podemos ver a Torá a afirmar que a individualidade humana é um reflexo do amor divino e um presente do Eterno. A grandeza divina reflete-se, não numa uniformidade que nos paralisa e anestesia, mas sim, precisamente, numa diversidade espetacular do caráter humano, dos nossos interesses e talentos. Como afirma a Mishná, «Uma única pessoa (Adão) foi criada para proclamar a grandeza do Santo, Bendito seja Ele, porque quando as pessoas cunham moedas diferentes do mesmo selo, todas as moedas são iguais. Mas o Santo, Bendito seja Ele, carimbou cada ser humano com o selo do primeiro homem, mas não há dois descendentes iguais. É por isso que cada um deve dizer: “o mundo foi criado para mim”.»

Saber que De’s quer que sejamos quem somos – únicos, especiais e diferentes – pode dar-nos uma ferramenta muito necessária para combater o consumismo e os hábitos que a sociedade quer impor-nos. Não ousemos aparecer diante de De’s de mãos vazias, não ousemos viver de acordo com o que a sociedade quer impor-nos; o que trazemos deve refletir o nosso ser na sua autenticidade, a nossa vida deve refletir as nossas personalidades únicas e autênticas que são a expressão das bênçãos que De’s nos deu e também não nos esqueçamos, desta forma, de abençoar a vida dos outros.

Este texto é baseado nos ensinamentos do Rabino Bradley Shavit Artson.

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