Parashá da Semana – Vayakel

Por: Rav Reuven Tradburks

As parshiot de Vayakel e Pekudei são uma repetição de Teruma e Tetzaveh. Mas não exatamente. Em Teruma e Tetzaveh foram dadas as instruções para construir o Mishkan e o vestuário dos Cohanim. Na nossa parashá, a ação está feita. Teruma são as instruções; Vayakel é a ação.

A ordem em que tudo é feito difere das instruções que Moshe recebeu. Em Teruma, as partes mais importantes, os utensílios do Mishkan, vieram primeiro. Afinal, o edifício não é tão importante quanto o Aron. Ao fazer a construção, a estrutura vem primeiro, depois o conteúdo.

1ª Aliá (Shmot 35:1-20) Moshe reúne o povo, instruindo as pessoas a não trabalhar no Shabat. Ele apela ao povo para fornecer tudo o que for necessário: metais, têxteis, azeite, especiarias, jóias. Tudo o que De’s ordenou será efetuado por trabalhadores qualificados: o Mishkan, as suas coberturas, o Aron, a Shulchan, a Menorah…. Listando todos os utensílios, a estrutura do Mishkan e o vestuário do Cohen. A Mitzvá do Shabat é repetida antes das instruções para construir o Mishkan. Como se dissesse: estamos a construir um edifício sagrado, mas nem isso substitui o Shabat. Não se trabalha no Shabat. Não é que não saibamos o que é o Shabat. Foi-nos ordenado que guardássemos o Shabat pelo menos 4 vezes anteriormente, sendo esta a 5ª. Recebemos ordens sobre o Shabat I) logo após sair do Egito antes, de chegar ao Monte Sinai como uma das regras do Maná (Shemot 16:22), II) nos Dez Mandamentos, III) em Mishpatim (23:12) para deixar animais, trabalhadores e as próprias pessoas descansarem e se revitalizarem, IV) Ki Tisa (31:12) como sinal da aliança e V) aqui, nada de trabalho e nada de fogo. O Shabat tem diferentes temas. I) O tema do Provedor (Maná): Ele provê em dobro; davka, especificamente no dia em que não se trabalha. II) O tema do Criador: nos Dez Mandamentos – D’us criou o mundo. III) O tema da Consciência Social: não escravizes os teus trabalhadores como os egípcios te escravizaram – sê um bom patrão. IV) O tema da Aliança – O Shabat é uma expressão, um sinal do nosso relacionamento especial. V) O tema do Encontro: O Shabat é um encontro no tempo entre o Homem e D’us, assim como o Mishkan é um encontro no espaço entre o Homem e D’us. O Mishkan não pode ser construído no Shabat: o trabalho no local de encontro espacial não pode ser feito à custa do local de encontro temporal.

2ª Aliá (35:21-29) Em resposta ao apelo de Moshe, o povo contribui generosamente: metais, têxteis, joias, especiarias e azeite.
Muitas vezes há conhecimentos poderosos sobre a natureza humana escondidos em histórias paralelas na Torá. O povo trouxe o seu ouro e outros materiais preciosos com grande generosidade. Lembra-se de alguma vez ter ouvido falar da generosidade do povo em trazer o seu ouro? Já tivemos isso na Torá? Certo. No Bezerro de Ouro. O Homem é capaz de ser um doador generoso para a idolatria num dia, e um doador generoso para D’us no dia seguinte. Esta última generosidade é um tikun para a primeira generosidade.

3ª Aliá (35:30-36:7) Moshe apresenta Betzalel, chamado por De’s, cheio com o espírito de De’s, para ser o artesão chefe. Moshe chamou Betzalel e Aholiav e todos os artesãos, para virem fazer tudo o que De’s ordenou. Eles levaram os materiais para começar o trabalho. Chegaram mais doações no dia seguinte. Moshe anunciou que não eram necessárias mais doações. Os nomes Betzalel e Ohaliav têm um tema em comum: as coberturas. Betzalel significa estar na sombra, na sombra de D’us, coberto por D-us. Ohaliav é de ohel – tenda. A minha tenda, a minha cobertura é Av, o meu Pai celestial. Espere pelo comentário sobre a próxima aliá: as coberturas são um tema central no Mishkan. Por isso, convém que os responsáveis ​​pela confeção das capas tenham nomes que significam cobertura.

4ª Aliá (36:8-19) O trabalho foi feito: a cortina cobre o Mishkan, as cortinas de pele de cabra e a cortina de pele colorida por cima. A primeira coisa a serem feita foram as cortinas. Por cortinas, queremos dizer o tecido longo e as peles que são colocadas sobre as paredes para formar o teto e cobrir as paredes – drapeadas sobre uma parede e estendidas até a outra parede e até o chão. Esta ordem é estranha, mesmo se explicarmos que a ordem do fabrico dos componentes do Mishkan difere das instruções em Teruma – aqui fazemos a construção primeiro, enquanto em Teruma os objetos essenciais vêm primeiro. Mas então, se fazemos primeiro os componentes do edifício, porque não começar pelas paredes e passar aos revestimentos depois? Porquê fazer os revestimentos primeiro e depois as paredes? Porquê esta ordem? O Mishkan é o Homem a encontrar-se com o Divino. Os objetos representam como O captamos: Ele é a Fonte de Luz, ou seja, de sabedoria, simbolizada pela Menorá. Ele é a Fonte do nosso sustento, simbolizado pela Shulchan e pelo pão. Ele é a Fonte da nossa neshama, a nossa força vital e o nosso espírito, simbolizado pelo Incenso. E é Quem nos deu a Torá, simbolizado pelo Aron. Mas enquanto O conhecemos como Provedor de tudo isto, Ele permanece envolto em mistério, velado. O foco nas coberturas e nas cortinas que separam o Santo dos Santos e a área externa, e depois a cortina que separa a área externa do pátio – todo o foco nas coberturas é percetível. Ele comunica uma mensagem poderosa – o nosso encontro com o Divino permanece velado em mistério. Ele permanece oculto, atrás do véu. Assim, os véus e as coberturas são, na verdade, a parte essencial do edifício. E merecem ser construídos primeiro.

5ª Aliá (36:20-37:16) As tábuas para as paredes, o Parochet para pendurar na frente do Santo dos Santos e a Cortina na entrada do Mishkan. Bezalel fez o Aron e a Shulchan.

6ª Aliá (37:17-29) E ele fez a Menorá e o Altar de Incenso. Onde está a música nestas instruções para o Mishkan? Deixe-me explicar: Todos os utensílios aqui descritos são usados no serviço diário. O serviço diário inclui: acender a Menorah, ter pão sobre a mesa, que é comido no Shabbat, a queima do incenso e a oferta de sacrifícios. Os sentidos sensoriais estão cobertos. Menorah: visão e calor. Incenso: cheiro. Pão: sabor. Sacrifícios: tato. Onde está o som? Porque não há nenhuma descrição de instrumentos musicais? O serviço diário tinha música. Os Leviim cantavam a Shir Shel Yom, a canção do dia. Quando a oferenda diária era trazida e o vinho era derramado no altar, havia música, vocal e instrumental. Rambam (Hilchot Klei Hamikdash 3:4) descreve, baseado no Talmud, a orquestra no Mikdash – não menos que 2 harpas, mas não mais do que 6. Flautas: pelo menos 2 e não mais de 12. Metais: pelo menos 2 e não mais que 120. Lira (kinor): não menos que 9, sem limite superior. 1 tambor. Imagino que isto signifique que havia uma pequena orquestra de câmara, que tocava nos dias normais. Mas em Shabbat e certamente nos Chagim, era a grande orquestra que tocava – imaginem 120 trompetes. É um grande som. Porque então, não há instruções para a construção dos instrumentos musicais? Talvez, simplesmente, a música seja diferente. Enquanto a Menorah é iluminada com o mesmo azeite todos os dias, a receita do incenso é a mesma, a receita do pão é a mesma, e os sacrifícios são os mesmos, quando se trata de música, não queremos que seja sempre o mesmo. A Avoda é idêntica diariamente. Porque é De’s dizendo-nos como servi-Lo. Nem demasiado ostensiva, nem demasiado modesta. Quantidades medidas: aproxima-te, mas não à tua maneira; à Minha. Nunca Me conhecerás, por isso vou dizer-te como Me hás-de servir.

Mas a música não é o que Ele quer; é o que nós queremos. Cantar é a nossa aproximação a Ele. É a nossa voz. Faz parte da Avoda – mas é como se Ele dissesse: «sirvam-Me com música, mas a música que vocês escolherem». A nossa voz. Dizemos em Tehilim – Shir Chadash, «cantai uma nova canção». Frescura, variedade. Nunca saberemos como era a música no Mikdash, mas sabemos que havia canções diferentes diariamente. Cada dia tinha um Salmo diferente. Imagino que essas diferentes palavras também tinham melodias diferentes, música diferente tocada pela orquestra para acompanhar as palavras. Que música acompanharia a quarta-feira? Um salmo do duro De’s do julgamento? E a segunda-feira? Quão bela é Jerusalém? Imagino que a segunda-feira fosse em modo Maior, com um ritmo alegre. A quarta-feira, em modo menor, reflexiva, pensativa, em ritmo lento. (isto é, se o compositor da música fosse da Europa Ocidental. A música do Oriente Médio dos tempos antigos não empregava tonalidades maiores e menores como as conhecemos). Enquanto a música era uma mitzvah, e o canto e os instrumentos eram parte do serviço, a Torá deixou a forma, o número e o tipo de instrumentos nas nossas mãos, a nosso critério. Pois a música, embora essencial, é a nossa aproximação a Ele.

7ª Aliá (38:1-20) Ele fez o altar para as oferendas, o lavatório de cobre, as cortinas de renda para pendurar em todo o perímetro do Pátio e o painel para cobrir a entrada. À medida que nos afastamos do Santo dos Santos, os materiais tornam-se menos majestosos e menos grandiosos. Já não ouro, mas cobre. Já não há cortinas extravagantes, coloridas, majestosas, mas sim cortinas brancas.

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Rav Reuven Tradburks é Diretor do Machon Milton, o curso de preparação para a conversão em inglês, uma parceria do Rabbinical Council of America (RCA) e da Shavei Israel. Rav Tradburks também é Diretor Regional para Israel da RCA. Antes da sua aliá, Rav Tradburks trabalhou durante 10 anos como Diretor do Tribunal de Conversão do Vaad Harabonim de Toronto, e foi rabino comunitário em Toronto e nos Estados Unidos.

 

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