Parashá da Semana – Devarim

Shabat Chazon – Onde e como

Na haftarah que lemos semanalmente na beit hakneset, há uma relação temática com a parashá.

Neste Shabat, a parashá inicia o livro de Devarim, ou Deuteronómio; é um Shabat especial chamado Shabat Chazon (Shabat da Visão), porque lemos a visão profética na qual Isaías anuncia a destruição do Templo. Este texto prepara-nos para o jejum de Tisha BeAv, no qual recordamos o desaparecimento dos dois templos, cuja ausência mudou drasticamente a vida judaica.

A profunda relação entre a parashá de Dvarim, a Haftarah de Chazon e Tisha Beav é simbolizada pela palavra Eichá, que aparece nos dois textos e é, além disso, o nome da Megilah que lemos no dia mais triste do calendário judaico. Eichá significa «Como?» Como ficou a cidade? Como é possível que eu continue só?,  Moisés se pergunta. Como a cidade se tornou prostituta?, Isaías se pergunta.

Esta pergunta é formada pelas mesmas letras que formam a pergunta que o Altíssimo fez a Adão e Eva no jardim do Éden depois de eles terem comido o fruto proibido: Aieka? «Onde estás?» A questão existencial que inicia o relato bíblico torna-se «Como isso pôde acontecer?»

Esta semana marcamos mais um aniversário do infeliz dia em que uma bomba terrorista destruiu a AMIA em Buenos Aires. É um crime que continua impune. Como isso pôde acontecer? Como puderam acontecer todos os eventos fatídicos que a nossa memória lembra como fogo e destruição, no jejum de Tisha Beav? Onde estava a humanidade nesses momentos? Onde? Como? Essas são as perguntas que surgem do texto e devem nos guiar como um imperativo categórico, para que nossa ética e moral continuem sendo as mesmas de há milhares de anos. Essas perguntas direcionam o caminho da memória. Elie Wiesel escreveu que o povo judeu desempenha um papel na humanidade; é como o alarme que soa quando o trem corre o risco de descarrilar. A nossa existência faz sentido como um alerta para a humanidade de todas as injustiças que ocorrem, e é com esta convicção profunda que devemos entrar no jejum de 9 de Av.

Edith Blaustein

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