Parasha da Semana – Behaalotecha

Parashat Behalotecha – Por: Rav Reuven Tradburks

Parshat Behalotcha é uma parashá fundamental na Torá, bem como uma das mais ricas. Nela se completa a preparação para marchar para a Terra; lá vamos nós, começa a marcha. É mudança, do sublime ao prático, do ideal ao real, da teoria à prática. Por outras palavras: quem tem o protagonismo são as pessoas, com todos os seus defeitos. Há reclamações, deceções, mesquinhez, disputas, frustrações. É a vida comunitária, ao vivo e a cores. E essa é a sua profundidade. Vejam bem, se tivéssemos de parar a Torá aqui, imaginaríamos a vida judaica como um conto de fadas: D’us promete a Terra, salva-nos da escravidão, dá-nos a Torá, quer habitar no meio de nós, cria um lugar de encontro entre o Homem e D’us, dá-nos dias para nos encontrarmos com Ele e instrui-nos detalhadamente sobre como caminhar na vida com Ele. Lindo. Então olharíamos para as nossas vidas – onde nos sentimos esgotados, distantes, com vidas caóticas – Onde está Ele, onde está a ordem, a coreografia, o Mikdash? Poderíamos sentir que a Torá é um conto de fadas, sobre uma vida com D’us de uma maneira que não conhecemos na realidade. Mas temos Behalotcha e o resto de Bamidbar. Como se D’us dissesse: Eu mostrei-vos o ideal. E conheço muito bem as vossas complexidades. Eu sei que alguns de vós ficareis insatisfeitos, entediados, ciumentos, ressentidos. Céticos, amedrontados, fracos. O Homem é muito, muito complexo. Eu, diz D’us, sei isso perfeitamente: Eu fiz-vos assim. O vosso trabalho como povo é descobrir uma maneira de viver tentando atingir o ideal enquanto vivem toda a complexidade que o Homem tem: todas as diferenças, divisões, lutas, talentos, fraquezas e aspirações. Behalotecha garante-nos que o ideal é aspirar, enquanto o real é administrar.

1ª aliá (Bamidbar 8:1-14) Aharon é instruído a acender a Menorá. São dadas as instruções sobre como os Leviim devem ser purificados e inaugurados através de imersão e ofertas. Ao fazer isso, os Leviim devem ser separados para serem Meus.

Estes são os últimos versículos da preparação comunitária e nacional para ir para a Terra. Os Leviim devem servir os Cohanim.

2ª aliá (8:15-26) Os Leviim devem substituir os primogénitos, que são Meus após a praga dos primogénitos. Os Leviim devem ajudar os Cohanim a manter a santidade do Mikdash. Eles são inaugurados e purificados. Devem servir dos 25 aos 50 anos, mas não devem fazer as oferendas.

Assim como para os Cohanim e para os líderes, a cerimónia de posse transmite aos Leviim que o seu status especial não é um mero privilégio; é serviço ao povo e serviço a D’us. Os sentimentos de direito adquirido ou privilégio são o veneno da vida comunitária; o sentido de prestar serviço, é o antídoto.

3ª aliá (9:1-14) Moshe instrui o povo a fazer o Pessach no primeiro mês do segundo ano. O povo fá-lo, embora alguns não possam, devido à sua impureza, Tuma. Eles perguntam a Moshe por que deveriam ser impedidos de trazer o Pessach devido ao contato com os mortos. Moshe acata o que D’us lhe dirá. Recebe as instruções: todos os que não puderem fazer o Pessach em seu devido tempo, devido a Tuma ou por estarem distantes do Mikdash, podem fazê-lo no segundo mês.

Embora o livro de Bamidbar tenha começado em Rosh Chodesh do 2º mês do 2º ano, temos aqui uma descrição do primeiro Pessach observado após deixar o Egito, que é no dia 14 do 1º mês. Parece estar fora de ordem. E a descrição de todas as oferendas dos líderes em Naso ocorreu nos primeiros dias do 1º mês. Mas a desordem é deliberada, pois quer justapor o início da marcha com a incerteza de Moshe e Pessach. O tema do nosso livro é a marcha para a Terra de Israel. As ofertas dos líderes mostram sua autoperceção: somos servos de D’us, não somos egoístas. Igualmente, a oferenda do Pessach. Somos todos, todos nós, servos de D’us, não somos egoístas. E a pergunta feita a Moshe por aqueles que estão impuros é um prenúncio dramático. Mesmo que esteja tudo perfeitamente encaixado  – o acampamento está montado, o Mishkan no meio, os líderes são altruístas, o povo é dedicado –  prepara-te. Porque às vezes acontecem coisas inesperadas. Todo o planejamento do mundo não pode evitar o inesperado da vida. E esse é o tema poderoso do restante desta parashá, prefigurado pela incerteza de como lidar com os impuros em Pessach. Acontecerão coisas que simplesmente ninguém esperava.

4ª aliá (9:15-10:10) A nuvem descia sobre o Mishkan durante o dia; à noite, aparecia em fogo. Quando se levantava, o povo viajava; quando parava, o povo acampava. Podia permanecer no local por um longo tempo ou apenas durante a noite; alguns dias, ou um mês. O povo acampava e viajava por sinal Divino. Moshe recebeu instruções para fazer 2 trombetas de prata. Quando ambas soavam, o povo deveria reunir-se; quando soava apenas 1, reuniam-se os líderes. Um teruah era o sinal para para partir; tekia para reunir. Em tempo de guerra, toca um teruah; em dias festivos e ocasiões alegres, toca um tekiah.

Esta aliá descreve poeticamente as viagens judaicas: guiadas pelo Divino, e chamadas por trombetas. É a parceria divino-humana. Ele chama, nós chamamos. Somos guiados por D’us mas somos nós que administramos as pessoas. E isso prenuncia tudo o que está por vir; o confuso negócio de gerenciar pessoas.

5ª aliá (10:11-34) No dia 20 do 2º mês a nuvem levantou-se; o povo viajou do deserto do Sinai para o deserto de Paran. O acampamento viajou exatamente como tinha sido instruído; cada tribo na sua posição designada. Moshe pediu ao seu sogro Chovev (Yitro) para viajar com eles, pois a sua visão seria valiosa. Ele não aceitou e voltou para a sua terra. Viajaram por 3 dias.

Começa a marcha para a terra de Israel. E Moshe está bem ciente dos seus desafios. Enquanto ele é único no funcionamento do Divino, o seu sogro Yitro mostrou o quão magistral ele é no funcionamento das pessoas. Ele quer desesperadamente a orientação de Yitro para administrar o inevitável, o inesperado. Embora Moshe conheça os desafios da vida que o aguardam, até ele fica surpreendido com a rapidez com que surgem os desafios das fraquezas humanas.

6ª aliá (10:35-11:29) Moshe orava durante a viagem: D’us, dispersa os Teus inimigos. E durante o descanso: Retorna às miríades. O povo reclamou, irritando D’us e Moshe, um incêndio deflagrou nos limites do acampamento. Chamaram Moshe, Moshe rezou e o fogo apagou-se. Um grupo entre o povo clamou por carne, lembrando-se do peixe e vegetais que comiam livremente no Egito: Estamos ressequidos, apenas com este Maná. D’us e Moshe ficaram zangados. Moshe reclamou: devo andar com eles ao colo como se faz com um bebé? Onde poderei encontrar carne para alimentar todos eles? Não posso suportá-los sozinho. D’us respondeu: reúne 70 anciãos. Eu dar-lhes-ei um pouco do teu espírito e eles ajudar-te-ão. E fornecerei carne. O espírito de D’us fluiu para os 70 anciãos; Eldad e Medad continuaram a profetizar.

Aqui começa o resto do livro de Bamidbar: a mudança do mundo ideal da orientação divina para o mundo real da complexidade humana. A primeira reclamação vem rápido; e nem nos dizem do que estão a reclamar. Porque a vida nunca será satisfatória para todos. A segunda reclamação, a reclamação por carne, é a insatisfação do Maná. É tédio. Desejo de prazer, de cor e variedade. Embora uma distorção óbvia da realidade: será que a vida no Egito era realmente melhor? Era assim tão agradável? D’us proverá a carne. Os anciãos prestarão assistência. Mas, e quanto ao fardo de levar o bebé com o qual Moshe sente que foi injustamente sobrecarregado? Como meu amigo Shmuel Goldin aponta: Moshe, isso chama-se liderança. Atender as pessoas como se fosse uma enfermeira? Esse é o destino do líder. Vais ter que aprender isso sozinho.

7ª aliá (11:30-12:16) Um vento trouxe codornizes, cobrindo a terra. O lugar chamava-se Kivrot Hataava. Miriam e Aharon falaram mal da esposa de Moshe; Moshe era o mais humilde de todas as pessoas. D’us falou com Moshe, Aharon e Miriam, chamando Aharon e Miriam. Falo convosco em sonhos, mas com Moshe não. Com ele Eu falo cara a cara. Miriam ficou leprosa. Moshe rezou pela sua cura.

As reclamações continuam; desta vez de uma fonte inesperada, Aharon e Miriam. Este desafio é breve, mas poderoso. Os desafios, conflitos e divergências que surgem na vida não devem ser vistos apenas como mesquinhez e fraqueza. Mesmo o maior dos grandes de nosso povo pode ter divergências com os nossos líderes. Essa é uma perspetiva crucial em todos os desafios que virão; os seres humanos nunca estarão livres de desacordo ou desafio. Não é apenas desejar carne. Até os mais santos questionam, legitimamente mas aqui incorretamente, o nosso líder mais sagrado.

Leave a Reply

Your email address will not be published.