Os Primeiros na Fila para a Cidadania Portuguesa: Sonhadores Judeus e Caçadores de Fortuna!

Debruçada sobre um monumento em homenagem a milhares de judeus mortos no massacre de 1506 em Lisboa, Danielle Karo (não é seu nome real) sentia um inchaço nos olhos.pasaportes-ciudadanía-del-dúo-11408424-300x199

Para Karo, uma poeta e analista de negócios americano, que é descendente de um dos maiores sábios do judaísmo sefaradita, o massacre não é apenas uma história antiga. É um emblema da perseguição que a motivou solicitar a cidadania portuguesa sob uma lei de 2013 que garante cidadania para os descendentes de judeus sefaraditas, o termo usado para se referir aos judeus que viviam na Península Ibérica.

“Eu acho que esta lei de Portugal é uma coisa bonita”, disse Karo, que pediu para ser identificada por um pseudônimo, pois trabalha, também, em países muçulmanos no Oriente Médio. “Mas quando eu penso na perseguição que a minha família sofreu lá, eu também acredito que é um dever de Portugal.”

Karo é a primeiro de cerca de 300 pessoas que solicitaram a cidadania nos termos da lei, de acordo com as comunidades judaicas do Porto e de Lisboa, que deverá supervisionar os pedidos de naturalização, para o governo. A lei, que entrou em vigor no mês passado, faz de Portugal o segundo país do mundo com uma lei de retorno para os judeus.

Para se qualificar a cidadania, os candidatos devem provar que pertencem a uma comunidade judaica sefaradita ou que possuem uma ascendência sefaradita. Devem, também, fornecer certificados provando que não possuem antecedentes criminais e uma certidão de nascimento autenticada pelo consulado Português, em seu país de residência, entre outros documentos. A lei não exige que os candidatos viajem a Portugal.

Até o momento, as comunidades do Porto e de Lisboa, são as responsáveis por certificar a ascendência sefaradita dos cerca de 200 candidatos. Em Lisboa, a maioria dos candidatos vêm de Israel, de acordo com José Oulman Carp, presidente da comunidade judaica da capital. Em Porto, 55 dos 100 certificados são judeus turcos, de acordo com um relatório de progresso lançado por esta comunidade no dia 31 de março.

Até o momento, as recorrentes não receberam uma resposta.

Karo, uma ávida viajante e ex-aluna da Universidade de Edimburgo, afirma ser descendente de Joseph Karo, um Rabino espanhol do século 16 que foi o autor de um dos principais códigos de lei judaica. Ela admite que além do gesto simbólico em resposta a deportação de seus ancestrais no século 16, um passaporte Português ajudaria com “algumas aplicações práticas”, tais como vistos automáticos de trabalho e estudo em todos os 28 membros da União Europeia.

Ainda assim, Karo insiste que a decisão de aplicar para a cidadania “é movida, principalmente, pelo lado emocional” orgulhosa de sua ascendência sefardita.

“É algo que é parte de mim, por isso apliquei imediatamente”, disse ela.

Políticos portugueses responsáveis pela legislação citaram motivações semelhantes. José Ribeiro e Castro, um político conservador que estava entre os co-autores da lei, disse que pretendia, com a legislação, trabalhar pela reparação tardia da expulsão de centenas de milhares de judeus da Península Ibérica nos séculos 15 e 16.

“Pela minha carreira política, sou muito grato por ter alcançado esta lei”, escreveu Ribeiro e Castro no mês passado em um Op-Ed no jornal “Público”.

Para alguns candidatos, a cidadania portuguesa significa uma oportunidade.

James Harlow, 52 anos, pai de três crianças na Califórnia e dono de uma empresa de tecnologia no Vale do Silício, disse a JTA, que a nacionalidade portuguesa lhe permitiria expandir o seu negócio na Europa. Dois judeus turcos, sócios nos negócios, disseram a JTA que estão considerando aplicar para a cidadania para que possam começar uma empresa de computadores nos Países Baixos.

“Para os jovens judeus turcos, a aquisição da nacionalidade portuguesa é uma questão de conveniência”, disse Cefi Kamhi, um ex-parlamentar turco e uma figura proeminente na minguante comunidade judaica da Turquia.

Como centenas de milhares de judeus sefaraditas, a família de Kamhi fugiu para Portugal, quando a Inquisição começou na Espanha, e teve que fugir novamente quando esta alcançou Portugal. Kamhi já solicitou a cidadania espanhola em um procedimento complicado iniciado na década de 1990, mas nunca foi naturalizado.

“Estou pensando em aplicar para a cidadania portuguesa, embora eu não precise disso por qualquer razão prática”, disse Kamhi. “Seria apenas um bom encerramento.”

No ano passado, o governo espanhol aprovou seu próprio projeto de lei para a naturalização dos judeus sefaraditas, muito mais permissiva que a versão de Portugal, mas a execução foi adiada devido a divergências sobre o procedimento. No próximo mês, a baixa Câmara do Parlamento Espanhol deve votar em uma segunda versão do projeto de lei, que instituiria critérios além daqueles exigidos em Portugal, incluindo a necessidade dos candidatos se submeterem a um teste de língua espanhola.

Assim como seus colegas portugueses, políticos espanhóis dizem que a lei se destina a corrigir um erro histórico. No entanto, como Espanha e Portugal lutam para sair de uma crise econômica que deixou os países com taxas oficiais de desemprego de 23 e 14 por cento, respectivamente, os estados ibéricos também pode ver nesta medida, um incentivo financeiro ao atrair os recém-chegados judeus.

“A Diáspora Sefaradita pode ser vista como uma grande piscina de potencial para beneficiar as economias de Espanha e Portugal, uma vez que a piscina pode atrair visitas, moradores e investimentos”, disse Michael Freund, fundador e presidente da Shavei Israel, uma ONG, sem fins lucrativos, com sede em Jerusalém que trabalha com programas de extensão para os descendentes de judeus sefaraditas.

Freund observou que os funcionários de turismo dos dois países costumam citar o incentivo financeiro abertamente, ao defender a expansão na rede de patrimônios históricos judeo-ibéricos.

Harlow, o requerente da Califórnia, não vê contradição entre os dois.

“Como líder de negócios no Vale do Silício, recebo de braços abertos a oportunidade de trazer capital, empregos e know-how para auxiliar no cultivo da região do Porto”, disse ele. “Talvez incluiria o cultivo de uvas moscatel ou azeitonas, assim como os meus antepassados fizeram mil anos atrás.”

Este artigo foi publicado originalmente no site da JTA.

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