Os judeus de Kaifeng – uma entrevista com Michael Freund

05/12/2012

Judeu de Kaifeng no Kotel Hamaaravi em JerusalémEsta nova era da internet e do YouTube, diversas vezes traz itens interessantes que nos chamam a atenção, muitos dos quais nos deixam querendo saber mais sobre o assunto. E assim foi para mim, depois de assistir a um vídeo sobre a chegada de sete jovens judeus de Kaifeng, China, que retornaram para a terra natal de seus ancestrais, Israel. Eles foram calorosamente recebidos no Aeroporto Ben-Gurion por quatro mulheres de Kaifeng, que já tinham vindo para Israel em 2006 com o objetivo de viver como judeus na terra de seus antepassados.

Meu desejo de saber mais sobre os judeus de Kaifeng me colocou em contato com a organização Shavei Israel e com seu fundador e diretor, Michael Freund.

Michael fez aliá para Israel em 1995 e atuou como Vice-Diretor de Comunicação e Planejamento Político no Gabinete do então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Foi quando uma carta sincera chegou a sua mesa de um dos Bnei Menashe, na Índia, que afirmava ser descendente de uma tribo perdida de Israel, e isso o colocou em contato com os membros de sua comunidade. Ele sentiu a sinceridade e o desejo de fazer parte de Israel vindo daquela comunidade, e isso o levou para a pesquisa que incutiu nele uma determinação. Ajudar não só os Bnei Menashe, mas também muitos outros que possuem ramificações genéticas do povo judeu nos distintos lugares que chegaram como resultado de nossa turbulenta história.

Michael dedicou-se a um novo caminho na vida, e se jogou na estrada em 1999, para fazer contato e aprender mais sobre, essa parte perdida do povo. Queria também saber se poderia ajudá-los a redescobrir as raízes e a encontrar seus caminhos de volta para a Terra de Israel. Assim a Shavei Israel foi criada e, sua ampla agenda, trouxe Michael para Kaifeng.

Mais de mil anos atrás, comerciantes judeus viajavam a Rota da Seda e alguns se instalaram na cidade de Pien Liang (agora Kaifeng) com a bênção do imperador. Em 1163 d.e.c, o crescimento do comércio trouxe a região judeus suficientes para construírem uma sinagoga. Ao longo dos oito séculos seguintes, a comunidade prosperou, e no século 17 atingiu o seu auge. Mas, então, começou o declínio causado por casamentos, guerras, pobreza e no século 19, o último rabino morreu. Repetitivas inundações atingiram a cidade, devastando lentamente a sinagoga até ser finalmente destruída.

Hoje, cerca de 1.000 pessoas se identificam como descendentes da comunidade judaica, e eles ainda guardam e nutrem algumas tradições que herdaram através dos séculos, abstendo-se de comer carne de porco ou de misturar leite com carne. Simplesmente, também  passando contos de sua antiga herança de geração em geração e os porquês de suas crenças. Os nomes judeus foram alterados ao longo dos anos, principalmente durante a dinastia Ming, em que o imperador considerou os sobrenomes confusos na grafia hebraica e mudou para os chineses, tais como Jin, Shi, Li e Gao.

Com a ascensão da China como potência econômica e a queda do comunismo, o país se desenvolveu e se modernizou, aumentando também o turismo. Locais históricos foram descobertos e desenvolvidos, incluindo os restos da sinagoga de Kafeing  recuperando ainda alguns artefatos do passado. Tais mudanças políticas e sociais, provocou os jovens chineses e forneceu mais acesso à informação através da Internet.

Em 2005, Michael chegou a Kaifeng e na véspera do Shabat realizou uma confraternização que reuniu mais de 80 participantes. Enquanto conversava com eles, ele escutou sobre suas reverências pela ascendência e o senso de dever de recuperar e renovar essa herança. Quatro jovens expressaram seu desejo de vir a Israel e cumprir este dever, e em janeiro do ano seguinte, a Shavei Israel trouxe-os a Jerusalém para aprender sobre a religião dos seus antepassados e para serem aceitos plenamente como judeus praticantes. Um ano depois, eles foram reconhecidos como sendo totalmente convertidos pelo Beth Din. Michael fala da devoção completa destes ao judaísmo. Ele conta como uma mulher chamada Jin, quando perguntada qual nome judeu que queria adotar, respondeu: “Yecholya.” Seguiu-se um silêncio já que ninguém nunca tinha ouvido falar deste nome antes. E ao perguntar a ela onde tinha ouvido o nome, esta respondeu: “Na Bíblia”.

“Onde na Bíblia?”

“É o nome da mãe de um dos reis de Israel.”

Ela, então, pegou um exemplar da Bíblia e mostrou o verso. Questionada sobre o por que de querer este nome, ela disse: “Meu pai me disse que nós somos descendentes do povo de Israel e que voltaríamos porque este era o desejo de Deus, e agora eu voltei, então ‘Deus pode’ – que é o nome que eu quero.”

Após a cerimônia, o grupo saiu com Michael para comer um sushi kosher e se lançaram em uma discussão acalorada em chinês sobre em que ordem as bênçãos deveriam ser ditas.

Duas das mulheres atuam hoje como guias turísticos em Jerusalém para muitos turistas chineses que agora vêm para a Terra Santa com maior frequência.

Outra permissão foi concedida a Shavei Israel para trazer um outro grupo, de sete jovens, em outubro de 2009. Um deles, chamado agora Yaacov Wang, espera continuar os seus estudos para se tornar um rabino – o primeiro rabino chinês em 200 anos – e, em seguida, retornar à Kaifeng para trazer outros descendentes de Israel para mais perto de suas raízes. Os outros também estão completando seus estudos de conversão e estão vivendo perto de Jerusalém. Como Michael diz: “Os descendentes judeus de Kaifeng estão chegando para nós, ansiando voltar ao nosso povo. Nós não devemos virar as costas para eles. Nós somos uma nação com muitas caras e nós devemos isso a eles – e para nós mesmos – ajudá-los a fazer a longa viagem para casa “.

Este artigo foi publicado na Revista ESRA, que visa agir “como um companheiro informativo e divertido, orientando a vida em Israel.”