O Simbolismo das Vestimentas

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Tetzavê

 

A Torá dedica mais de quarenta versículos a descrição das vestimentas ordenadas a Moshe para prover como “vestimentas sagradas” aos sacerdotes. Em nossa parashá lemos uma descrição detalhada de tais vestimentas e dos materiais a serem usados para sua confecção. O aparato dos sacerdotes no Templo é descrito com o maior cuidado. As vestimentas eram suntuosas, segundo diz o versículo: “para sua dignidade e esplendor” Por que eram tão importantes as roupas do Sumo Sacerdote?

Geralmente, o judaísmo não se preocupa com os aspectos externos tais como a vestimenta, concentrando-se em vez disso, na qualidade espiritual da vida. O que existe de comum entre as “vestimentas sagradas” e a “dignidade e esplendor?” A Torá se relaciona com a vestimenta dos sacerdotes e com as vestimentas em geral, de uma maneira peculiar. O interesse na vestimenta não está relacionado com sua funcionalidade, no tocante a proteção do frio e assuntos similares, mas sim em seu aspecto ético.

É possível interpretar a necessidade de dotar aos sacerdotes de vestimentas suntuosas partindo de dois pontos de vista: pessoal e público. O aspecto pessoal se refere à influência clara e poderosa que exercem as vestimentas sobre quem as veste. As vestimentas suntuosas, por exemplo, servem de constante recordação para os sacerdotes acerca de seu rol e da santidade que este reveste,  criando assim uma atmosfera especial em seu trabalho. No plano público, o aspecto e o caráter exterior criam um efeito psicológico positivo em quem presencia as cerimônias. O ser humano é sensível ao atrativo do aspecto exterior das coisas, que determina, a grande modo, sua atitude em relação a esses rituais. Aqui a beleza é percebida como elemento legítimo que influencia sobre o espírito e o põe a serviço de D-us. Ou seja, o cuidado no aspecto exterior com respeito à vestimenta, constitui um meio natural para exercer uma influência espiritual positiva sobre o próprio sacerdote que, por sua vez, refletirá sobre o povo que o rodeia e o assiste no pleno exercício de suas funções no Templo.

A vestimenta está relacionada na Bíblia com os primeiros elementos da cultura humana, quando “se abriram os olhos” de Adão e Eva depois que provaram o fruto proibido da árvore do conhecimento e começaram a envergonhar-se de sua nudez (Gênesis 2:25).

A primeira tarefa realizada por D-us para dar inicio a cultura humana não foi a construção de casas nem de instrumentos de trabalho, e sim: “e fez o Eterno para o homem e sua mulher túnicas para cobrirem-se e os vestiu” (Gênesis 3:31). A primeira aparição ativa de D-us para o ser humano – seja homem ou mulher  – é, por tanto, na qualidade de alfaiate!

O Criador colocou o homem no centro do universo, e o entregou em suas mãos. Recomendou-lhe conquistar todo o mundo, chegando inclusive até a lua. O homem explorou o longo caminho para a civilização e construiu o mundo com suas próprias mãos. Descobriu o fogo, inventou a roda, aprendeu a utilizar o ferro, e descobriu o átomo, criou o satélite e o computador. A vestimenta, entretanto, não foi produto de sua criação. Segundo a Bíblia, nem sequer sentiu necessidade de vestir-se. A roupa não era necessária para sua comodidade material, nem compreendeu sua importância espiritual. Segundo a concepção Divina, a vestimenta não cumpre apenas uma função material, mas sim, constitui a essência da cultura. Não consiste somente na proteção contra o frio e não é apenas um adorno. É o símbolo exterior da humanidade e é essencial para a sociedade humana. A vestimenta, em si, constitui um símbolo de honra para o homem e é a sua essência, assim como a nudez é a essência do animal.

De acordo com a concepção judaica, a vestimenta é o que transforma o homem em sacerdote e santifica ao mundo. Permite que o homem tenha uma vida refinada, outorgando-lhe um significado que ultrapassa a mera satisfação das necessidades materiais básicas. Por isso, exige-se do sacerdote que se apresente para cumprir com suas obrigações no Templo, vestindo as roupas suntuosas que lhe foram outorgadas por D-us. D-us é quem fez a roupa do primeiro homem e quem determina a roupa dos sacerdotes. Também a vestimenta, portanto, pertence ao campo da responsabilidade de D-us no mundo.