O mais novo emissário da Shavei Israel para os Bnei Anussim Italianos compartilha a história de sua própria jornada ao judaísmo e à Israel

Rabbi-Pinchas-sm-221x300Quando o avô do Rabino Pinchas (Pierpaolo) Punturello morreu em Nápoles, Itália, seu pai, de família católica, cobriu todos os espelhos da casa aonde os visitantes vinham prestar suas homenagens. O Rabino Punturello era muito jovem na época e não prestou muita atenção a este fato. Mas tal ato – um costume de luto especificamente judeu – foi o primeiro indício sutil de que poderiam possuir raízes judaicas escondidas na família.

Anos mais tarde, porém, o rabino Punturello começou a encontrar evidências judaicas em todos os lugares. Pesquisando mais a fundo o lado do seu pai, ele descobriu que o nome de família da mãe de seu pai, “Mussumechi”, remonta há mais de 500 anos, aos tempos da Inquisição no sul da Itália, listado como judeu em livros de registro da Inquisição. O nome, na verdade, deriva do hebraico Mish-mish para “damasco”.

Além disso, grande parte da família havia deixado a Itália e agora estava morando em Nova York, onde o rabino Punturello descobriu que cerca de 25 por cento deles eram casados com judeus. Quando ele perguntou ao seus primos que moravam lá o por quê disso, estes apenas podiam apontar para a semelhança na importância que a “família” tinha para ambos os povos, italianos e judeus. Mas o rabino Punturello sabia que tinha algo mais.

E assim começou a notável jornada de um jovem que acabaria se convertendo formalmente ao judaísmo, se mudaria para Jerusalém para estudar e se tornar um rabino, e agora, volta para o sul da Itália para servir como rabino e emissário em prol de outros Bnei Anussim – judeus cujos antepassados foram convertidos à força ao catolicismo nos séculos 15 e 16 e que alguns historiadores referem-se a este pelo termo depreciativo ‘Marranos’ – de sua terra natal.

Entretanto, não foi o lado de seu pai que lhe deu o empurrão final em seu despertar judaico. A mãe do Rabino Punturello também tinha raízes judaicas – e estas não eram tão escondidas. Sua mãe sabia sobre seu passado, mas raramente falava disso abertamente em casa. Mas quando o rabino Punturello visitou em sua adolescência o cemitério judaico em Nápoles, ele ficou chocado ao descobrir que estava cheio de lápides com o nome “Russo” – nome de sua mãe antes de se casar.

Convencido, então, de sua herança, o rabino Punturello retornou formalmente ao judaísmo quando tinha 18 anos. Estudou com o Rabino Giuseppe Laras, presidente da Assembleia de Rabinos Italianos e chefe do Tribunal Rabínico do norte da Itália. Ele também recebeu seu bacharelado e mestrado em História e Ciências Políticas em um programa conjunto das universidades “L’Orientale” de Nápoles e Paris. E foi, posteriormente, nomeado para servir como “Rabino” de Nápoles. Mas não tinha realmente recebido a Smicha – “ordenação rabínica”.

“Há uma tradição na Itália,” o Rabino Punturello explica, “de que a smicha é dividida em duas partes: o Maskil (ou educador) e o Chacham (o “sábio”).” Pode-se ser Maskil – um primeiro nível “rabínico” – na Itália, enquanto ainda estuda para se tornar um Chacham, que foi o que ele fez. De 2004-2010, foi o “rabino chefe” de Nápoles, uma cidade com cerca de 250 judeus. “É a última comunidade judaica ‘oficial’ do sul da Itália”, acrescenta. “Assim todos os judeus da Sicília pertencem a esta comunidade”.

Quando chegou o momento de avançar para a segunda parte de seu título rabínico, o rabino Laras então enviou o Rabino Punturello, com 35 anos, casado e com quatro filhos pequenos, a Jerusalém para estudar no prestigiado “Beit Midrash Sefaradi” na Cidade Velha e depois a Yeshivat HaMivtar sob os auspícios do Rabino Shlomo Riskin, uma das principais vozes do mundo da Ortodoxia Moderna. O rabino Laras também colocou o jovem Punturello em contato com o diretor educacional da Shavei Israel, o Rabino Eliyahu Birnbaum, que também dirige um programa para treinar rabinos para o serviço no exterior. Foi um encaixe perfeito. Dois anos mais tarde, o rabino Punturello tinha plena Smicha “internacional”.

Mas durante estes dois anos em Israel, algo mudou. Depois de passar quase toda a sua vida na Itália, comprometido com as comunidades judaicas de lá, o rabino Punturello descobriu que ele tinha se apaixonado por Israel. E que queria construir sua casa na Terra Santa.

Como, tão frequentemente acontece, descobrir e seguir uma paixão pode levar a oportunidades inesperadas. A Shavei Israel e a União das Comunidades Judaicas Italianas (UCEI), a organização oficial da comunidade judaica italiana, estavam ansiosos para colocar o enérgico e simpático Punturello para trabalhar e uma posição foi criada que, se encaixava perfeitamente com o jovem rabino como uma Kipá de crochê (cobertura na cabeça ou solidéu).

O plano era que, ele continuaria vivendo em Israel, aonde seus filhos já frequentavam a escola e estavam a caminho de se tornar israelenses completos, enquanto viajaria para a Itália de 10 dias a duas semanas por mês, para trabalhar com os Bnei Anussim – a própria comunidade do Rabino Punturello que conhecia bem. Ele é o primeiro rabino nomeado para trabalhar especificamente com os Bnei Anussim do sul da Itália e da Sicília.

Durante suas duas semanas em Israel, ele ensina judaísmo em um novo programa em italiano para Bnei Anussim criado pelo Instituto de Conversão e Retorno Machon Miriam em Jerusalém da Shavei Israel, e oferece, também, aulas on-line através da parceria da Shavei Israel com a WebYeshiva.

O trabalho começou em março e o Rabi Punturello já foi para a Itália várias vezes. Ele tem alguns planos ambiciosos. A prioridade em sua lista é organizar um Shabaton – um seminário de fim de semana para os Bnei Anussim do sul da Itália – duas vezes por mês. Estes ‘Shabatonim’ irão se deslocar para as pequenas comunidades aonde os Bnei Anussim vivem, muitas vezes em locais muito isolados e com nomes que soam exóticos: Puglia, Palermo, Campania, Calabria.

A variedade de Bnei Anussim que o Rabbi Punturello já conheceu é inspiradora. “Há pessoas que possuem famílias, solteiros querendo começar as suas, pessoas que começaram a estudar 5, 10 anos atrás, pessoas que não sabem nada”, explica ele. “A idéia é fazer parte de cada família que vive lá, de qualquer ponto de vista cultural judaico que estão vindo”.

A principal comunidade judaica italiana nem sempre foi acolhedora com os Bnei Anussim, na verdade, estes muitas vezes os olhavam com desconfiança. É por isso que o mais recente Shabbaton que o Rabino Punturello participou foi tão notável – era um seminário para toda a comunidade judaica italiana, organizado pela UCEI, com a participação de cerca de 400 pessoas. Mas este ano, pela primeira vez, os Bnei Anussim foram convidados a participar também.

Quantos Bnei Anussim existem no sul da Itália e na Sicília, hoje? O Rabino Punturello diz que é muito cedo para dizer. “Recebo e-mails todos os dias de novas pessoas”, diz ele. Na Calábria, há cerca de 100 pessoas que já iniciaram o processo de conversão. Outros 60 Bnei Anussim estão estudando em Palermo. O Rabino Birnbaum da Shavei Israel acrescenta que “com certeza estamos falando de milhares de pessoas”.

O Sul da Itália deve muito de sua história judaica a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, quando muitos dos que fugiram buscaram refúgio na região. Muitos destes, judeus proeminentes como Don Isaac Abarbanel, o grande estudioso da Torá e comentarista bíblico, que também serviu como ministro das Finanças para o rei espanhol Fernando, junto com sua família. Mas quando os monarcas espanhóis capturaram a região em 1510, uma série de novas perseguições começou na Itália, que incluiu conversões forçadas e expulsões.

A Inquisição ficou ativa na região por séculos e queimou marranos e conversos até 1700 e, possivelmente até mais tarde. Mas os Bnei Anussim da área agarraram-se a sua identidade judaica, passando seuas tradições de uma geração para a seguinte e, hoje, seus descendentes estão começando a voltar.

O Rabino Punturello tem uma agenda dupla para as comunidades com as quais ele é responsável. “Por um lado, vou ensiná-los a trabalhar com a sua identidade judaica”, explica ele. “Mas, por outro lado, quero ajudá-los a construir comunidades auto-sustentáveis. Não quero ser o único professor ou o único Chazan (cantor) lá. O objetivo é fazer com que as comunidades judaicas se tornem independentes em todo o sul da Itália”.

As mídias sociais irão, é claro, desempenhar um importante papel. A Shavei Israel criou um novo site, um newsletter e a página do Facebook em italiano que o próprio Rabino Punturello está gerenciando. “O número de ‘curtidas’ na nossa página do Facebook deu um salto de 50 por cento em apenas dois dias depois de termos anunciado isto”, diz ele. Como observamos anteriormente, o rabino Punturello também fornece aulas “virtuais” através do site da WebYeshiva. Alguns dos mais jovens Bnei Anussim mostraram interesse em fazer Alyah para Israel, iniciativa que o rabino Punturello estará apoiando.

Ele vai ter alguma ajuda. No papel de organização patrocinadora, a UCEI planeja enviar rabinos de Roma para ensinar e liderar orações durante alguns dos ‘Shabbatonim’. “Mas eu sou o rabino responsável por todo o projeto da Shavei Israel”, diz o rabino Punturello. Sua formação ampla, incluindo os estudos não-judaicos acadêmicos, as muitas línguas (ele fala italiano, hebraico, Inglês, Francês e Espanhol), e seu trabalho ocasional como jornalista na imprensa italiana, o torna particularmente apropriado.

“Voltar para casa depois de 500 anos não é fácil, mas é maravilhoso”, diz ele com orgulho. Ele terá bastante trabalho pela frente. Mas com certeza é um trabalho que, literalmente, nasceu para cumprir.

 

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