Não está no céu

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Nitzavim/Vayelech

Uma Religião Difícil

É algo que todos percebem desde o primeiro momento que conhecem o judaísmo: não se trata de uma religião fácil de seguir. São muitos detalhes, muitos comandos, muitas demandas. Você não tem permissão para trabalhar ou viajar no sábado, não se pode comer uma enorme gama de alimentos saborosos e populares, tanto homens quanto mulheres devem vestir-se modestamente, feriados judaicos não coincidem com o calendário local e etc, etc, etc…

Bom, há muitos judeus que se abstêm de algumas responsabilidades do judaísmo e deixam de cumprir rigorosamente todas ou algumas das leis e costumes, para, desta maneira, não se desligar dos prazeres ou, das necessidades, do mundo moderno. Porém, todos aqueles que estudaram ou que conhecem minimamente o assunto, quando deixam de cumprir corretamente algumas das orientações da Torá e de seus sábios, ficam com um sentimento interior de que está faltando alguma coisa, sentimento esse, que nem sempre são capazes de explicar. Não estou buscando criticar ninguém, (afinal, quem sou eu para criticar, tendo minhas próprias falhas?) apenas estou descrevendo um grupo amplo e diversificado de judeus.

De outro lado, estão aqueles que realmente se sobrecarregam com o cumprimento de todos os mandamentos e seus muitos detalhes mas que nunca estão satisfeitos consigo mesmos (mesmo com aqueles que o rodeiam) e desesperadamente buscam mais e mais detalhes desconhecidos para tapar os buracos deste espesso muro que constroem.

O Parecer da Torá

Entre esses dois grupos de judeus, qual que você acha que vai de acordo com a opinião da Torá?

Nossa Parasha traz alguns versos que dizem “não está coberto e nem está longe”, “Não está no céu, para que você diga: ‘Quem subirá ao céu, para trazer-nos e fazer-nos ouvir’?” “Nem do outro lado do mar, para que você diga: ‘Quem atravessará o mar e nos trará para que sejamos capazes de ouvi-la e cumpri-la?'” e então, “Pois está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para cumpri-la”(Deuteronômio 31:11-14).

Na verdade estes versículos estão dizendo que, se necessário, deve-se ascender ao céu ou atravessar o mar para poder estudar a Torá, pois sem esta, estaríamos perdidos, pois não teríamos as condições necessárias para o bom cumprimento da vida. Quando entendemos seu valor, todas as dificuldades se tornam, poucas e sem importância.

Ou talvez deveríamos tomar nosso tempo para aprender corretamente uma ciência estrangeira e estranha que nos dê grande benefício.

Acontece que esta ciência não é nem estranha para nós e nem longíqua. Ela está registrada tanto em nossas bocas quanto em nossos corações. Na nossa boca, pois todo mundo conhece os conceitos de “Amor do Criador” e “Amor ao Próximo”, que são os dois grandes pilares que formam a base de toda a Torá. Como disse Hillel, o ancião, a todos os prosélitos que vieram se juntar ao Povo de Israel (e, foi copiado pelo cristianismo, anos mais tarde). Também esta gravada em nossos corações, pois quando nos afastamos do cumprimento dos mandamentos, o nosso coração protesta e nos deixa sozinhos, nos enviando sonhos e ilusões, até voltarmos ao bom caminho.

Desesperados de Nós Mesmos

Isso ocorre porque o Criador nos impôs estas condições em nosso DNA, em nossa personalidade, e, embora não sejamos conscientes, temos um fardo que nos impede de viver em verdadeira tranquilidade. Podemos tentar contornar a guarda por um tempo, podemos tentar afogar esses sentimentos que surgem nas profundezas de nosso coração, mas se o fizermos entraremos em uma situação mais lamentável ainda, em que significa que temos perdido a esperança em nós mesmos, nossas possibilidades e capacidades. Mas enquanto exista algo de bom em nós, o Criador não nos deixará que nos percamos.

Em que consiste, então, o problema? Simplesmente em descobrir essas qualidades em nós mesmos, nestes termos. A ciência tem sido capaz de descobrir muitas condições das quais, ao segui-las, se torna mais propício gozar de uma boa saúde, como: não negligenciar o corpo, alimentação e exercícios adequados e etc. Mas não há necessidade de se estressar com exercícios contínuos e pesados, ou cálculos compulsivos de calorias por grama de carboidrato ou de gordura que comemos.

O Corpo Saudável

O corpo em boas condições é capaz de reconhecer suas necessidades sozinho. O problema é que não estamos em boas condições. Desde o primeiro momento de nossas vidas, somos rodeados de condições falsas, como, por exemplo, ao devorarmos alimentos que não são necessários. Que nem mesmo comida são. Nos acostumamos a passar horas intermináveis ​​sentados no escritório, usando dois ou três músculos e negligenciando todos os outros. Nos esquecemos de sorrir, pular, sonhar. Todos sabemos que vivemos mal, que devemos buscar outra coisa, mas estamos com preguiça de encontrar a solução. E assim, esperamos que os cientistas descubram a verdadeira fórmula que nos permita recuperar a saúde perdida.

O mesmo se aplica para a nossa saúde espiritual. Esta é inata em nós, enquanto não a destruímos. Mas esquecemos dela há séculos, através de repetidos descuidos, ao desconsiderar ou, pelo menos, subestimar tais condições.

613

Nossos Sábios nos dizem que há 613 mandamentos na Torá, subdivididos em 248 positivos, que correspondem ao número de membros e órgãos de nosso próprio corpo, ev365 negativos, que representam os 365 dias do calendário solar. Desta maneira, entendemos que cada membro e cada dia tem a sua própria condição de nos levar a nossa satisfação pessoal.

E então fugirmos de nós mesmos ao pensar que se tratam de imposições estrangeiras e estranhas de um D´us cruel ou inflexível, sem compreender que são as condições de nossa própria condição humana, que nos levam a nossa realização.

Não está no céu

‘Não está no céu’ tornou-se um provérbio em hebraico moderno para designar missões, tais como parar de fumar, ou qualquer outra que, à primeira vista, parecem impossíveis, mas ao implementá-las se percebe que não eram tão graves. A Torá nos diz que os mandamentos de D´us não são uma punição e nem são uma imposição estrangeira, se trata da nossa vida, as condições de nossa própria existência. Que grande tolice deperdiçá-las! Que grande erro subestimá-las,inventando-nos desculpas!

As vésperas do Dia do Julgamento, Rosh Hashanah, revisamos sobre o verdadeiro valor dos mandamentos da Torá e tomamos um primeiro passo para pôr em dia o cumprimento adequado, sem estresse, sem perder a boa vontade e a perseverança.

Shana Tova! (Um Bom Ano!)