Minha vida e esperança na Shavei Israel

Meu nome é Paulo Roberto da Silva. Tenho 40 anos de idade e sou da cidade de Belém, Estado do Pará, Brasil, onde desde 1981 freqüento uma das sinagogas da comunidade judaica, Sinagoga Eshel Abraham, de rito sefaradita.

Sou nascido numa família oficialmente católica, embora fosse uma família não-religiosa e avessa à maioria das tradições cristãs.

Apesar de ter nascido em família católica desde criança convivia com famílias judias, e adquiri amizade com crianças judias, já que nesse período morava no bairro de Campinas, bairro que na época concentrava grande parte da colônia judaica local bem como a referida sinagoga. Em face disto não é de se estranhar que meus amigos de infância fossem todos judeus, e que a maioria de meus vizinhos também o fossem, inclusive o então rabino da comunidade, Rabino Abraham Hamú Z”L, que mantinha inclusive uma relação de vizinhança muito cordial e amistosa com a minha família.

Meus avós, nesse tempo, compravam carne do açougue israelita que localizava-se a menos de cem metros de nossa casa, e que muito embora o valor da carne fosse mais elevado, eles davam preferência dadas as qualidades sanitárias serem melhores que a dos açougues comuns.

Apesar de ter apenas amigos judeus na infância posso afirmar com exatidão que em nada eles me influenciaram em termos religiosos, uma vez que não discutíamos e nem conversávamos sobre religião, muito menos sobre judaísmo.

Quando completei onze anos de idade, muito a contragosto dos meus avós, fui matriculado numa escola católica pelos meus tios, por se tratar de uma das melhores escolas da cidade e porque eles pensavam em me dar uma boa educação.

Dentre as disciplinas do colégio havia a de Ensino Religioso, e à medida que eu participava das aulas começou a surgir uma curiosidade natural sobre o povo judeu, ao passo que os dogmas do catolicismo não estavam me despertando nenhum interesse.

Ao longo das aulas de Ensino Religioso, fomos instruídos da necessidade de confirmar nossa fé cristã através da Primeira Comunhão, e que para isso seria necessário apresentar a certidão de batismo. Nesse ponto já surgia o primeiro paradoxo, como eu poderia confirmar fidelidade a uma fé que eu não dava crédito e não me despertava interesse? Era uma grande mentira isso tudo.

Ao comunicar aos meus avós as exigências do colégio, fiquei então ciente de que não havia recebido sacramentos quando criança, portanto não teria que confirmar nenhuma fé. Isso foi um grande alívio para mim. Não ter feito o batismo católico não era de todo uma surpresa, já que meus avós eram avessos à fé cristã e nada me foi passado. Inclusive quando do falecimento de meu avô materno uma das providências feitas foi a de retirar todos os símbolos e paramentos cristãs do velório, tais como cruzes, mortalha, velas e incensário.

Uma vez que eu não iria confirmar votos cristãs no colégio fui então dispensado das aulas religiosas, no entanto, mesmo com a dispensa continuei a ler as histórias sobre o povo judeu contidas na Bíblia, o que me encantava cada vez mais.

A medida que o tempo avançava menos me encontrava na fé cristã e menos ainda conseguia considerar validade divina em seus dogmas, principalmente porque percebia muitas divergências com os escritos contidos na Bíblia.

Em 1981, então com treze anos de idade, movido cada vez mais pelo fascínio e encanto das histórias bíblicas, e pela curiosidade natural sobre o povo judeu, onde eu tentava entender o que era a perseguição e discriminação que tantos falavam, pedi aos meus vizinhos se eu poderia conhecer a sinagoga que eles freqüentavam.

Fui atendido sem problemas no meu pedido, e assim na primeira noite de Pessach de 1981 visitei pela primeira vez a Sinagoga Eshel Abraham. Na Sinagoga fui bem recebido, tanto pelos meus amigos quando pelos demais freqüentadores.

Nessa visita quem ficou surpreso foi o Rabino Hamú, que uma vez recobrado do susto convidou-se para sentar ao seu lado e me explicou resumidamente alguns detalhes sobre aquela festa, seu significado, importância e tradições.

Fiquei encantado com a liturgia, era diferente de tudo que já havia visto. Os Cânticos eram numa cadência alegre, as pessoas participavam ativamente do serviço religioso, e podia-se perceber a magia da fé pairando no ambiente, a Shechiná brilhava no olhar das pessoas. Enfim, tudo me encantou de imediato.

Após o Arvit fui convidado para o Seder na casa de meus vizinhos, os quais me explicaram mais detalhadamente sobre o que era tal festa, suas tradições e costumes, reforçando assim aquilo que o rabino há havia me explicado.

A partir daquele Pessach tornei-me um freqüentador assíduo da Sinagoga, e também passei a estudar com mais intensidade, dedicação e fervor sobre as tradições, doutrinas, dogmas e histórias da fé judaica, bem como sobre a cultura e história do povo judeu.

Com o tempo, passei a conhecer melhor a importância da Torah para o povo judeu e para a humanidade, suas contribuições aos diversos sistemas legislativos mundiais, bem como a influência que suas Mitsvot exerceram sobre os ideais e regras de justiça ao longo dos séculos e países por onde o povo judeu se disseminou.

Além de procurar estudar as Parashiot da Torah, também procurei me dedicar a estudar as datas festivas hebraicas e sua importância para a cultura e tradição judaica, bem como seu significado, desde as datas mais alegres como Rosh Hashaná, Pessach, Shavuot, Sucot, Tu Bishvat, como as tristes ou reflexivas tais como Tishá B’Av, Iamin Noraim e Iom Kipur.

Desta forma, crescia cada vez mais um sentimento puro e sincero de amor e respeito pelo judaísmo, onde a fé judaica me completava cada vez mais, de uma maneira diferente e inovadora em relação ao que sentia pelo cristianismo, o qual não me despertava interesse algum.

Em 1982, me conscientizei da necessidade de aprender pelo menos o essencial do hebraico para que pudesse acompanhar as Tefilot, as quais eram dirigidas em Sidurim e Machzorim escritos no hebraico litúrgico.

Assim, com a chegada de um more designado pelo Beit Chabad para atender a comunidade tentei dialogar para que este me ensinasse, porém, fui informado que não poderia receber aulas, uma vez que não possuía origem judaica. De início fiquei abatido com tal situação, pois a recusa mostrava-se puramente discriminatória. Entretanto, mesmo amargurado não desisti de meus objetivos.

Ao verificar alguns Sidurim da Sinagoga, encontrei alguns que eram escritos em hebraico com transliteração. Com esse Sidur identifiquei cada fonema e letra do alfabeto hebraico, memorizei as letras e comecei a treinar a leitura, até que chegasse o momento que eu pudesse acompanhar a leitura no Sidur ou no Machzor durante as Tefilot. Completados dezessete anos eu já me sentia em condições de fé e convicção a comparecer perante um Bet Din e tentar dissuadir os Dayanim a aceitar meu pedido de conversão ao judaísmo.

Minha meta era estar perante um Bet Din ortodoxo, com autoridade válida perante a Halachá e que fosse habilitado a fornecer a Teudah apropriada para esse caso. Porém a realidade brasileira era totalmente confrontante com a Halachá, principalmente quanto às exigências talmúdicas e do Shulchan Aruch de Rabi Yossef Caro, uma vez que aqui no país em tais processos eram cobrados valores altos, que variavam entre 5000 e 10000 dólares, valores estes extremamente elevados, principalmente para um estudante provindo de uma família humilde.

Diante dessa realidade, achei melhor estudar e me definir numa carreira profissional, para então voltar a buscar um processo oficial de conversão ao judaísmo.

E assim foi, cursei uma universidade, graduei-me e pós-graduei-me, nunca abandonei meu desígnio, continuando a comparecer à Sinagoga, apesar de uma freqüência menor, já que tive que ocupar-me muito mais com os estudos profissionais. Hoje sou graduado em Ciências Biológicas e pós-graduado em Agronomia.

E 2006 tomei ciência dos trabalhos da Shavei Israel em Portugal e no nordeste brasileiro, em referência aos Bnei Anussim, constatei tratar-se de uma instituição séria que exerce um importante trabalho principalmente no nordeste do país.

Como forma de tentar encontrar alguma razão específica para esse trabalho e também para entender minhas origens, tratei de realizar um estudo genealógico de minha família pelo lado materno.

Tudo o que consegui descobrir foi que minha tataravô materna Ana de Oliveira, era nascida na cidade de Quixeramobim, interior do Ceará, nordeste brasileiro, e que esta cidade foi a única do Ceará a sofrer visitação dos oficiais do Santo Ofício da Inquisição durante o século XVIII, quando percorreram algumas localidades interioranas do nordeste em busca de cristãos-novos judaizantes, e que essa região pode ter sido um dos redutos do esconderijo dos descendentes de Mosheh de Oliveira, um dos fundadores da Sinagoga Kahal Zur Israel, Primeira Sinagoga das Américas, que funcionou na cidade de Recife, Pernambuco, no século XVII.

No entanto, essas informações são de pouca relevância, a medida que não se tem como verificar toda a árvore genealógica de minha origem materna, uma vez que os dados obtidos em cemitério, a cerca de Ana de Oliveira, contam ter sido ela filha de Domingos de Sá Cruz e mãe desconhecida, inviabilizando assim, uma pesquisa genealógica mais precisa e consistente.

No que se refere a costumes “marranos” na família, tudo que pude verificar foram alguns como não consumir carne com sangue ou mal-passada, não consumir leite com carne, acendimento de velas ao pôr-do-sol, além de inversão dos sobrenomes nas mulheres casadas, para prevalecer o sobrenome materno. Porém, por serem costumes já disseminados pela região não se tem como determinar a verdadeira origem da família.

Independente dos dados genealógicos ou da pesquisa dos costumes familiares, tudo que posso afirmar é que são verdadeiras e convictas tanto minha vontade, quanto meu desejo de assumir uma vida verdadeiramente judaica e direcionada pela Torah e Talmud, onde creio plenamente na Unicidade de D-us e nos 13 princípios da fé judaica, como prescreveu Maimônides, e tendo como meta única e sincera a de servir a Hashem de coração e verdade cumprindo suas 613 Mitsvot e santificando o Shabat.

Sendo assim, venho pedir sua atenção no sentido a ajudar-me num possível processo de conversão ao judaísmo, auxiliando-me a participar de seus programas de estudo e direcionando-me para instituições religiosas ou autoridades rabínicas que possam me instruir de forma correta e dentro dos padrões da Halachá.

2 thoughts on “Minha vida e esperança na Shavei Israel

  • May 9, 2016 at 3:26 pm
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    Oi Paulo Roberto, também sou de Belém do Pará, e gostaria de saber se existe aqui alguma comunidade Bnei anussim.

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    • September 15, 2016 at 12:34 am
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      Oi…Desculpa a demora…Não sabia que minha história havia sido publicada neste site.
      Esse testemunho apresentei à Shavei Israel em 2007…e somente hoje ao buscar na internet se poderia ser localizado o mesmo é que deparei-me com sua publicação.
      Em resposta à sua pergunta, não tenho como responder-lhe, em face que desde maio/2011 não resido mais em Belém. Atualmente estou residindo em Piracicaba, interior de São Paulo, onde trabalho como professor de ensino fundamental e médio. Porém, já indo transferir-me para o interior de Minas Gerais, onde irei futuramente prestar seleção à programa de doutorado.
      Mas é bom você saber, que mesmo que tal grupo exista não tem nenhum apoio ou intercâmbio com o Centro Israelita do Pará, que representa a comunidade judaica no Estado.
      Caso você queira uma aproximação para discutirmos e estudarmos judaísmo escreva para meu email.
      hazyel.sefarad@hotmail.com

      Paulo Roberto Oliveira

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