Fugindo da Escola

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Behaalotechá

 

Os Perigos no Caminho

O livro de Bamidbar é o livro do caminho. O caminho que o povo de Israel percorre em direção a seu destino, a Terra Prometida. E ao longo de um caminho sempre existem obstáculos, que começam, simplesmente, pelo fato de ter tido que deixar o conforto de um ambiente familiar e se desconectar de ‘casa’. Os caminhos são perigosos. Portanto, devemos estar conscientes de que devemos sa100_4522ber nos preparar adequadamente para lidar com tais perigos.

Desde o início do livro até o décimo capítulo, são apresentados todos estes preparativos, e, assim, tentamos descobrir o significado de cada um dos mandamentos nestes capítulos que nos preparam para este percurso. A porção semanal desta semana, Behaalotecha, descreve os preparativos finais antes do povo sair do Monte Sinai em direção a Terra Santa. Mas também, descreve a queda.

Para que serve?

No entanto, nos perguntamos: Para que todos estes preparativos se, após tão pouco tempo, o povo já sofreu uma dura queda? Poderíamos pensar que o cumprimento de todos estes mandamentos é inútil, que estes, “nos decepcionaram”. Podemos acreditar (D’s nos livre de cometer este terrível erro) que os mandamentos não são divinos e sim uma invenção meramente humana que, nem sempre funciona.

A resposta pode ser que sem as preparações, a queda poderia ter sido muito pior, ou mesmo que, poderiam ter acontecido ainda mais quedas.

Pode ser, também, que a preparação não foi realizada corretamente. Talvez algo estivesse faltando, algum ingrediente sem o qual a preparação não poderia cumprir com seu objetivo de proteger o povo do perigo que teriam que enfrentar.

Dentro de Suas Impurezas

É verdade que o Tabernáculo repousava entre eles, mas podemos dizer que o Tabernáculo estava entre eles “apesar” do estado negativo no qual se encontravam, como o versículo que afirma que o Criador “vive com eles dentro de suas impurezas” (Levítico 16:16), mas isto não é suficiente para salvá-los dos perigos.

Mas como, então, se livrar destas impurezas? Da onde estas vêm?

No processo de aprendizagem de uma pessoa, e, portanto, também do povo, existe uma condição que sugere que enquanto não houver vontade por parte do aluno, tudo o que este aprender, ficará, no melhor dos casos, armazenado em algum lugar do cérebro, mas não formará parte de sua vida.

A vontade, o interesse naquilo que é estudado, é o que permite que, juntamente com outras condições, o conhecimento seja assimilado pela pessoa. O interesse vem de uma compreensão básica de que o conhecimento diante de nós é importante, valioso e é necessário para o nosso futuro. Mas quando não há interesse, quando nos sentimos, com ou sem razão, que este conhecimento não é necessário, ou que nos incomoda, ele será armazenado e esquecido, ou, até mesmo, gravado com erros. E isso o que chamamos de “impurezas”.

Fugindo da Escola

Nossos sábios dizem que o povo de Israel revelou um grande defeito ao se retirar do Monte Sinai. O Talmud (Shabat 116) os compara com um aluno que foge da escola por medo de que lhe exijam mais trabalho. Com isso, estes mostraram que não entenderam a importância dos mandamentos de D´us e que os viam, simplesmente, como imposições externas, das quais não se relacionavam.

Assim é. Custa-nos compreender a importância dos mandamentos, que, somente através destes podemos atingir nossa auto-realização. O Zohar, repetidamente, chama estes mandamentos de ‘conselhos’. Enquanto não sejamos capazes de entender isso, não seremos capazes de digeri-los para poder torná-los parte da nossa personalidade e continuaremos cheio de imperfeições e impurezas. E isto poderá nos levar a acreditar que o cumprimento dos mandamentos é um pouco “decepcionante”.

Apesar de tudo isto, o Criador quer que sempre tenhamos sucesso e nos fornece, uma e outra vez a oportunidade de aprender, de assimilar este conhecimento divino, de limpar todas as nossas impurezas e cumprir seus “conselhos”, corretamente e sem erros.

Um Processo Interno

Ao longo do caminho, quando as falhas se repetem, começamos a desenvolver um processo interior, espiritual, longe dos focos publicitários, no qual começamos a reconhecer que, na verdade, não tínhamos interesse em aprender. Inicia-se uma nova fase de conscientização interna no qual percebemos que necessitamos estes mandamentos, que estes são essenciais, e não têmos escolha, a não ser, buscar entender o quanto estes são uma parte integrante da nossa personalidade, que não podemos realizar-nos sem observá-los.

Custa muito, para nós, reconhecer isto, pois significa uma mudança em nossas atitudes e a necessidade de reiniciar todo um processo, dando um novo significado as nossas vidas. Toda a nossa rotina deverá ser revista, ponto por ponto, reconhecendo os pontos fracos que nos têm levado a cometer estes erros de aprendizagem. Devemos prestar muito mais atenção aos pequenos detalhes que, podem parecer insignificantes, mas que revelam nossa atitude frente aos mandamentos, frente a vontade Divina.

A Presença Divina

Dois versos nesta porção da Torá separam os textos que falam dos preparativos antes da viagem daqueles que falam da viagem em si. Estes dois versos falam sobre a Shechiná, a Presença Divina, que acompanhou os israelitas durante todo o caminho no deserto. Isso, vem nos ensinar que, as vezes, por haver caído muitas vezes, pensamos que não somos dignos da ajuda de D’us, mas isso não é assim. Pelo contrário, o Criador sempre nos ajuda, especialmente nestes tempos de crise, Ele nos fortalece, para que não desabemos na depressão que nos oprime e nos empurra para os momentos mais difícies de nossas vidas.

Infelizmente, hoje não têmos um Tabernáculo ou um Templo no centro de nosso acampamento, mas ainda podemos sentir a Presença Divina, entre nós, a um nível inferior, é claro, mas presença esta que, se manifesta nos pequenos milagres dos quais estamos acostumados, mas também nos milagres mais revelados em ocasiões especiais, testemunhados por aqueles que permanecem perto do Criador, com humildade e sobriedade.

E cada um de nós pode aspirar este contato, como explica o Maimônides, em seu livro Mishne Torá: aqueles que dedicam suas vidas ao estudo da Torá e ao cumprimento dos mandamentos podem alcançar o nível dos levitas e dos sacerdotes que foram chamados de “mensageiros divinos”.

2 thoughts on “Fugindo da Escola

  • June 24, 2016 at 12:49 pm
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    Shalom,muito,muito agradecido,Mazal tob.
    Agradeço a D-us por esta porção,nos traz exatamente o momento que estamos vivendo,de uma forma pessoal(eu e esposa),e realmente vivemos este momento.
    Baruch HaShem.

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  • June 24, 2016 at 1:43 pm
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    Falta-nos um instrutor competente (versado na TORA) em cada cidade com mais de 500.000 habitantes ou pelo menos uma vez em cada mês, repassar ensinamentos, esclarecer dúvidas, orientar a nós povos estrangeiros e parte das perdidas dez tribos do norte de Israel, há mais de 4 mil anos. A maioria das grandes cidades dos estados brasileiros não possuem sinagogas ou outros contatos para nossa orientação. Por isso então os preceitos da TORA não são difundidos.

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