O Grande Pecado do Vaticano

Aqui vamos nós outra vez! A cada tantos anos, aparentemente, uma nova controvérsia surge quando o Papa João Paulo II atua para conferir santidade à outra figura histórica manchada pelo anti-semitismo.

Aparentemente indiferente aos efeitos que tais atos podem ter sobre o já tenso estado das relações católico-judaicas, o Vaticano segue adiante e celebra estes duvidosos modelos de conduta, ignorando o fato de que a sua piedade estava deturpada pelo preconceito.

O último homenageado de Roma é uma freira alemã do século XIX chamada Anna Katerina Emmerick, que alegava ter tido uma série de visões sobre a morte de Jesus. No início deste mês o papa decidiu beatificá-la, a última etapa antes de conceder a santidade.

Dizem que as visões de Emmerick, compiladas num livro por um destacado autor alemão, influenciaram fortemente o roteiro do filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson.

Até mesmo uma breve olhada nas palavras de Emmerick nos revela uma pessoa saturada de hostilidade para com os judeus. Por toda a parte ela se refere aos “judeus cruéis” e “judeus perversos,” generalizando, “Compaixão era, realmente, um sentimento desconhecido nos seus corações cruéis.”

Numa biografia datada de 1976, o Rev. C. E. Schmoeger escreveu que Emmerick descreveu uma visão de uma “velha judia chamada Meyr,” que teria admitido “que os judeus no nosso país e em qualquer outro lugar , estrangulam crianças cristãs e usam o seus sangue para todo o tipo de práticas diabólicas.”

Numa época em que o anti-semitismo está em crescimento através de todo o globo, é aterrador que o Vaticano sequer considere prestar tributo a tal tipo de indivíduos. Quaisquer que possam ter sido os atos de bondade de Emmerick, ódio e santidade dificilmente parecem ser uma combinação apropriada.

Esta não é a primeira vez que João Paulo II elevou um anti-semita ao panteão católico nos últimos anos.

Em outubro de 2002 ele canonizou a Josemaria Escriva de Balaguer, um sacerdote espanhol que fundou a Opus Dei, um grupo católico, em 1928. Escriva teve pouco amor pelos judeus, um sacerdote inglês afirmou que ele até mesmo defendia Adolf Hitler, alegando que o líder nazista tinha sido “tratado indevidamente” porque “ele jamais poderia ter matado seis milhões de judeus. Poderia ter sido no máximo quatro milhões.”

Outro caso foi o da beatificação de Pio IX em setembro de 2000, indivíduo este que esteve em 1858, por trás do seqüestro de Edgardo Mortara, um menino judeu-italiano de 6 anos de idade tirado de seus pais e batizado à força.

Como pontífice, Pio IX insistiu em confinar os judeus de Roma no gueto, ou no “buraco” deles, como ele costumava dizer zombando; ele foi o último papa a fazer tal coisa. Além disso, ele proibiu os judeus de possuir propriedades, ensinar em escolas e até mesmo de receber tratamento médico e, chamava-os de “cães”.

É ISTO o que constitue um “santo”? Outros agraciados com o reconhecimento de João Paulo incluem a Maximilian Kolbe, que foi canonizado.

Kolbe, um sacerdote polonês e editor de uma revista antes da 1a. Guerra Mundial, promoveu os Protocolos dos Sábios do Sião, uma falsificação da Rússia czarista a qual alega a existência de uma conspiração judaica para dominar o mundo. Kolbe insistia que os Protocolos eram verdadeiros e dizia que eles foram escritos por uma “facção judaica cruel, astuta e pouco conhecida” que tinha sido “seduzida pelo Satã.”

Em outubro de 1998, outro indivíduo polêmico, Alojzjie Stepinac, foi beatificado pelo papa. Stepinac, que foi arcebispo de Zagreb nos anos 40, era um aliado do regime fantoche pro-nazista da Croácia conhecido como Ustashe. Regime este que massacrou judeus e sérvios.

Adicionando insulto à injúria, foi a insistência de João Paulo na época, para canonizar a Edith Stein, uma judia convertida ao Catolicismo que morreu em Auschwitz. Em maio de 1987, em homília, o papa chegou ao cúmulo de igualar Stein com a bíblica Ester, como se uma comparação legítima possa ser feita entre alguém que deserta a fé de seus ancestrais e a heroína da festa de Purim, que ajudou a salvar o seu povo.

Óbviamente, a Igreja Católica é livre para tomar suas próprias decisões em relação a quem ela quer honrar com a santidade. Mas quando isto afeta o Povo Judeu, os judeus podem e devem falar.

Afinal de contas, nos últimos 2.000 anos temos sofrido terrivelmente nas mãos de Cruzadas, Inquisições, difamações, conversões forçadas, massacres e pogroms, todos inspirados pela Igreja. Através da sua história, a Igreja Católica tem repetidamente cometido o grave pecado de propagar o anti-semitismo, muitas vezes com resultados fatais.

É precisamente por estes terríveis antecedentes que o Vaticano tem uma responsabilidade especial para considerar o impacto de suas ações sobre os judeus.

Para ser justo, João Paulo II tem tomado uma série de importantes passos para melhorar as relações católico-judaicas, desde visitar a Grande Sinagoga de Roma em 1986 a estabelecer relações diplomáticas entre o Vaticano e o Estado Judeu, bem como reunir-se com os dois rabinos chefes de Israel no início deste ano.

Mas isto não minimiza a gravedade das suas ações quando concede a santidade para um anti-semita após outro.

Óbviamente, nenhum dos indivíduos envolvidos foi honrado pelo papa por causa do seu anti-semitismo e sim apesar dele. Mesmo assim, a mensagem mandada aos católicos e a outros ao redor do mundo é ainda desanimadora, necessariamente significando que o velho preconceito contra os judeus não é inteiramente inaceitável.

Pois se uma pessoa pode atingir a santidade mesmo tendo odiado, ou até mesmo perseguido o povo judeu, então quão mal o anti-semitismo pode realmente ser?

Se católicos e judeus algum dia terão êxito em construir uma nova relação baseada no respeito, é incumbência deste papa e de seus sucessores, parar de glorificar aqueles que apoiam a intolerância e o ódio.