Parasha da Semana – Toldot

Parasha da Semana – Toldot

Parasha Toldot

Por: Rav Reuven Tradburks

Esta é a parashá da vida de Yitzchak e Rivka. Rivka tem gémeos, Esav e Yaakov. Yaakov compra a primogenitura de Esav. Yitzchak vai para Guerar num período de fome, é instruído a não deixar a terra, cava os poços que Avraham cavou e renova o pacto com Avimelech. Yitzchak é idoso, planeia dar a bênção a Esav, mas é enganado por Yaakov. Esav quer matar Yaakov. Yaakov viaja para Padan Aram para não casar com uma mulher de Canaã.

1ª Aliá (25: 19-26: 6) Yitzchak tinha 40 anos quando casou com Rivka. Ele ora por ela, pois ela é estéril. Rivka está preocupada com a sua gravidez, foi-lhe dito que tem duas nações no seu ventre e dá à luz quando Yitzchak tem 60 anos. Yitzchak ama Esav, Rivka ama Yaakov. Yaakov compra o direito de primogenitura de Esav por um tacho de sopa de lentilhas. Yitzchak viaja para Gerar num período de fome. D’us diz-lhe para não ir para o Egito, mas para habitar na terra, pois esta foi-lhe prometida.

Esta é a parashá da sucessão. Yitzchak agora assumiu o lugar de Avraham, Rivka assumiu o de Sarah. E já nasceu a próxima geração. Mas Rivka fica a saber que tem duas nações no seu ventre. Esta revelação que lhe foi feita é crucial para a compreensão da história posterior, de Yaakov a roubar a bênção destinada a Esav.

Quando lemos as histórias da Torá, ficamos em clara desvantagem. Porque já sabemos como acaba a história. Afinal, lemos a Torá todos os anos e já conhecemos essas histórias muito bem. Mas é extremamente importante lermos as histórias como se fossem em tempo real, como se não soubéssemos o fim. Rivka sabe que os seus dois filhos são duas nações. Mas isso é tudo o que ela sabe. O que significa isso? Isso significa, como dizemos coloquialmente, «Tel Aviv e Jerusalém são 2 países»? Bem, na verdade não. Mas são como 2 países. É isso que duas nações significa? Rivka realmente não tem duas nações no seu útero; tem dois 2 exemplos muito diferentes, mas ambos são judeus. E assim, tanto Esav quanto Yaakov farão parte do povo judeu, só que serão tipos de judeus muito diferentes. Ou significa literalmente duas nações? Um dos seus filhos ficará dentro do povo judeu e o outro ficará fora. E se ela tivesse que escolher um para estar dentro, bem, ela ama Yaakov – pois ela vê nele o herdeiro de Yitzchak. Ele vai entrar. Esav vai sair.

E Yaakov, o filho que ela ama – bem, ela também lhe deve ter contado este segredo. Se eu estou dentro e Esav fica de fora, então tenho um problema. Porque Esav é o primogênito. Então Yaakov compra a primogenitura de Esav, garantindo que o plano Divino se materialize.

2ª Aliá (26: 7-12) Yitzchak e Rivka estão em Guerar. Ele diz que ela é sua irmã. Avimelech percebe que ela é sua esposa e desafia Yitzchak. Avimelech instrui todos a não lhe tocarem. Yitzchak semeia naquele ano e o rendimento da colheita é de 100 vezes mais (meah shearim).
Yitzchak, seguindo os passos de Avraham, domina a Parasha. Casou casou com uma mulher que viajou de Padan Aram para a terra de Israel, assim como Sarah. Ela é estéril, como Sarah o era. Ele vai para Geurar num período de fome, como Avraham fez. Ele diz que ela é sua irmã, como Avraham fez.

Mas com diferenças cruciais. Yitzchak semeia colheitas durante a fome. E obtém um rendimento 100 vezes maior. Avraham nunca fez isso. Ele é instruído a não deixar a terra de Israel. Avraham partiu quando foi para o Egito num período de fome. E Yitzchak recebe uma instrução dupla para não deixar a terra: habita na terra (sh’chon b’aretz) e vive na terra (gur b’aretz), instruções que Avraham nunca recebeu.

Novamente, temos que nos colocar em tempo real. Yitzchak coça a cabeça – porque não devo deixar a terra? E o que significa esta ordem duplicada – habitar e viver na Terra?

Yitzchak segue os passos de Avraham com uma variação. Ele está a tomar medidas ativas para construir a infraestrutura de uma nação. Ele presume que vai morar na terra porque a promessa do povo judeu de colonizar esta terra está a cumprir-se no seu tempo. Mas, para construir uma nação, é preciso começar a semear – os pastores não são construtores de nações. Os agricultores é que são. Ele semeia. E o que pensaria o leitor se semeasse uma colheita num período de fome e obtivesse uma produção 100 vezes maior? D’us está comigo. A construção da minha nação  está a ser recompensada pelos Céus. É hora de dar mais passos para construir a nação.

3ª Aliá (26: 13-22) Yitzchak prospera muito, com muitos rebanhos. Cava os poços que Avraham cavou, mas que foram tapados pelos filisteus. Avimelech diz-lhe para se afastar. Ele cava mais poços de Avraham. Finalmente, quando cava poços que não são contestados, declara que está a ser frutífero.

Todos os poços terminam bem. Foram 5 escavações de poços bem-sucedidas. Por um lado, Yitzchak está a seguir os passos de Avraham, cavando novamente os seus poços. Mas, ao contrário de Avraham, ele fá-lo para a agricultura. O pastor está a fazer a transição para a agricultura, pois a construção da nação exige a agricultura. Esses poços são para o bem-estar da iminente nação judaica. E o povo de Guerar está «em cima» dele – eles sentem o cheiro de um adversário com a intenção de tomar as suas terras. Por isso se opõem aos poços.

4ª Aliá (26: 23-29) Yitzchak viaja para Beersheva. D’us diz-lhe para não temer, pois Ele está com ele, como estava com Avraham. Yitzchak constrói um altar e invoca o nome de D’us. Avimelech vem renovar o pacto, mas, se lhe for causado qualquer dano, o pacto será cancelado.

Yitzchak vai para Beersheva, como Avraham fez. D’us diz-lhe para não temer, como disse a Avraham para não temer. Avimelech faz um pacto com ele, como fez com Avraham. Essas são histórias de Avraham, repetidas agora por Yitzchak. Mas agora Avimelech tem medo de que Yitzchak o ataque. Ele sente que Yizchak está a preparar uma nação – às custas de Avimelech.

5ª Aliá (26: 30-27: 27) Esav casa aos 40 anos e toma esposas cananéias, para consternação de Yitzchak e Rivka. Yitzchak é idoso. Instrui Esav a trazer carne de veado acabada de caçar, após o qual o abençoará. Rivka interfere e instrui Yaakov a imitar Esav. Yitzchak suspeita, mas o disfarce de Yaakov é convincente.

Essa história do engano levanta muitas questões. O que estava Yitzchak a pensar ao escolher abençoar Esav? E o que estava Rivka a pensar, ao frustrar as intenções de Ytzchak?

Novamente, sabemos o resultado. Mas vamos pôr-nos no lugar de Yitzchak. Ele está a preparar-se para a construção iminente da nação. Semeou. Cavou poços de água. Ele está a olhar para o futuro. A construção da nação não requer apenas crescimento económico. Requer uma liderança militar cuidadosa.

Yitzchak acha que os seus dois filhos vão liderar a próxima geração do povo judeu. Não há razão para pensar o contrário; são gémeos, ambos nascidos da mesma mãe. E são líderes complementares: Yaakov é o líder atencioso. Mas o poder militar não é com ele. É com Esav. Um ótimo par. Assim como Avimelech tem Phicol, o seu general, Yaakov terá Esav como seu general.

Yitzchak não pretende abençoar apenas um filho, mas ambos. Ele pretende abençoar Esav em assuntos mundanos, a força de Esav. Para complementar Yaakov, não para o substituir.

Rivka vê tudo de forma diferente. Porque ela recebeu essa mensagem quando estava grávida – duas nações, não uma. E se o povo judeu vai ser um dos meus dois filhos, não vai ser Esav.

6ª Aliá (27: 28-28: 4) Yitzchak dá a bênção a Yaakov. Esav chega logo depois. Quando o engano é descoberto, Esav fica furioso, com a intenção de matar Yaakov. Rivka insta Yitzchak a enviar Yaakov a Padan Aram para encontrar uma esposa – e salvar a vida.

A bênção, destinada a Esav, é para ter uma bênção agrícola dos Céus. E poder. Na mente de Ytzchak, o povo judeu terá que ter sucesso económico, bem como destreza militar. E essa é a bênção para Esav – um parceiro perfeito para Yaakov, o líder atencioso.

No entanto, Yaakov recebe a bênção em vez de Esav. Rivka segue os passos de Sarah: Sarah baniu Yishmael e D’us disse a Avraham para a ouvir. Rivka, à sua maneira, bane Esav. E Yitzchak sabe que no fim ela está certa; que apenas um dos seus filhos herdará a aliança, o outro não.

7ª Aliá (28: 5-9) Esav vê que as mulheres cananeias que tomou são mal vistas. Casa com a filha de Yishmael.

Esav casa aos 40 anos, como Yitzchak. Toma uma filha de Yishmael, como Yizchak casou com uma familiar. Mas não basta seguir os passos – também é necessário seguir a palavra. Ao tentar seguir os mesmos passos, ele simplesmente não entende que precisa seguir também a mesma palavra. Como tal, ele não será a próxima geração do povo judeu.

 

Rav Reuven Tradburks é o Diretor do Machon Milton, o curso de preparação para a conversão em inglês, uma parceria do Rabbinical Council of America (RCA) e da Shavei Israel. Rav Tradburks também é Diretor Regional para Israel da RCA. Antes da sua aliá, Rav Tradburks trabalhou durante 10 anos como Diretor do Tribunal de Conversão do Vaad Harabonim de Toronto, e foi rabino comunitário em Toronto e nos Estados Unidos.

Parasha da Semana – Chaiei Sara

Parasha da Semana – Chaiei Sara

Parasha Chayei Sarah

Por: Rav Reuven Tradburks

A nossa Parasha é a transição de Avraham e Sara para Yitzchak e Rivka; Sarah morre no início da parashá, Avraham no final. Avraham compra Maarat Hamachpela, onde Sarah é enterrada. Avraham instrui o seu servo a viajar para a terra de Avraham para trazer uma esposa para Yitzchak. Ao chegar, o servo pede a D’us que lhe mostre a pessoa certa, aquela que lhe dará de beber, a ele e aos seus animais. Rivka aparece, faz o que ele esperava. Ele conta a história à família dela. Eles concordam que ela é a pessoa certa. Ytzchak cumprimenta-os à sua chegada e casa com Rivka. São mencionados os outros filhos de Avraham. Avraham morre. São mencionados os descendentes de Yishmael.

1ª Aliá (23: 1-16). Sarah morre aos 127 anos em Kiryat Arba, Chevron. Avraham precisa de comprar um lugar para enterrá-la. Ele é tratado com nobreza e respeito. O povo quer dar-lhe um terreno, enquanto ele insiste em comprá-lo. Ele tem sucesso na compra de Maarat Hamachpela.

Avraham  claramente conquistou o respeito e a admiração do povo. Ele, por sua vez, trata o povo com grande respeito, curvando-se duas vezes. As promessas feitas a Avraham, de fama, fortuna e família, foram todas cumpridas. Yitzchak nasceu, Avraham é um homem de grande destaque, as pessoas chamam-lhe «príncipe de D’us», e  é rico. Mas, e a promessa de que ele teria a terra de Israel? Ele não tem nem mesmo uma campa. Fama, fortuna e família? sim; pés assentes na terra? não.

2ª Aliá (23: 17-24: 9) Sara é enterrada. Avraham pede ao chefe dos seus criados que jure não deixar Yitzchak casar com uma cananeia. Em vez disso, «vai à minha terra, à minha terra natal» para encontrar uma esposa para Yitzchak. Não leves Yitzchak para lá. Se ela se recusar a vir, fizeste tudo o que podias.

Sim, Avraham dirige-se ao chefe dos criados. Embora comumente nos refiramos a ele como Eliezer, o seu nome não aparece nesta história. Ele não é a única pessoa anónima a influenciar profundamente a história do povo judeu. O seu lugar está a par do homem que José encontra no seu caminho quando vai ver os seus irmãos, o homem que o conduz na direção deles. Ambos sem nome. Como para perguntar: será ele que está a encontrar uma esposa para Yitzchak, ou será Ele que está a encontrar uma esposa para Yitzchak? Muitos mensageiros usa Ele.

E por que Avraham insiste tanto em enviar o seu servo «para a minha terra, o meu local de nascimento»? Não podemos deixar de ouvir um eco de Lech Lecha – «da tua terra, do teu local de nascimento» – como foi dito a Avraham. Pode ser que Avraham esteja a procurar uma mulher para liderar a nova geração do povo judeu que seguirá os seus passos. Literalmente. Ele está à procura de uma mulher que siga os passos de Sarah. Sarah, não apenas Avraham, também deixou a sua terra, o seu local de nascimento, a casa da sua família, para viajar para a terra de Israel. Esta nova geração será liderada por uma mulher que também deixará a sua terra, o seu local de nascimento e a casa dos seus pais.

Seguir estes passos animará a vida de Yitzchak e Rivka. Ytzchak fará muitas das coisas que Avraham fez – cavar poços, ir para Gerar. Rivka seguirá os passos de Sarah: Sarah mandou Yishmael embora, Rivka fará com que Esaú seja mandado embora do povo judeu.

3ª Aliá (24: 10-26) O servo chega à cidade de Nachor. Ele pede um sinal a D’us; a mulher que me der de beber, a mim e aos meus camelos, será a pessoa certa. Rivka aparece e faz exatamente isso. Ela diz-lhe que é da família de Nachor. E há comida para os camelos e espaço para ele ficar. O homem curva-se perante D’us.

Rivka não vai apenas seguir os passos de Sarah, deixando a sua casa para ir para a Terra de Israel. Ela também segue os passos da bondade. Na história da generosidade de Avraham e Sarah para com os 3 homens no início de Vayera, há 2 «ratz» (corre) e 2 «maher» (rápido). Rivka tem 2 «maher» e 1 «ratz» aqui, e depois outro quando corre para casa. E Avraham ofereceu aos seus convidados «um pouco de água». Também aqui o servo pede «um pouco de água». Não tenho certeza de que tirar água para 10 camelos seria chamado de «um pouco» – mas nem um pio de objeção por parte de Rivka. Ela é uma mulher de generosidade positiva e magnânima, tal como a família de Avraham.

4ª Aliá (24: 27-52) Rivka corre para contar à mãe. O seu irmão Lavan cumprimenta o homem e dá-lhe as boas-vindas. Mas antes de comer, o homem insiste em relatar o que acabou de acontecer. Ele relata que é servo de Avraham. E que Avraham foi abençoado. E a promessa de trazer uma esposa para Yitzchak, da sua família. E do seu acordo com D’us. E que se a mulher fizesse o que ele disse, ele veria isso como um sinal. E a sua reverência a D’us. Termina perguntando se Rivka se deve juntar a ele. Eles respondem que sim; ele curva-se a D’us.

É divertido ler finais felizes. Até mais do que uma vez. Os comentários abordam o detalhe com que a Torá repete a história, desta vez contada pelo servo. Eles exploram a história em busca de lições.

Mas uma lição que salta à vista é o facto de mencionarem D’us. Este servo fala muito de D’us. Mas não é apenas o servo; Lavan e Betuel respondem «isto veio de D’us», «ela irá, como D’us disse». Falar sobre D’us não parece estranho para eles. Talvez este seja o efeito persistente da influência de Avraham; mesmo depois de todos esses anos longe da família, a influência da sua crença em D’us ainda persiste. E o servo, a linguagem do chefe dos criados é uma linguagem profundamente religiosa – ele certamente foi muito influenciado pelo chamamento de Avraham em nome de D’us.

5ª Aliá (24: 53-67) O servo está pronto para partir. Quando a mãe e o irmão de Rivka pedem um pouco mais de tempo, o servo pressiona-os. Eles perguntam a Rivka o desejo dela; Ela vai. Eles abençoam-na. Após a sua chegada ao Negev, Yitzchak está a vir de Beer L’chai Roi. Ele vê os camelos; ela vê-o. Yitzchak é informado de tudo o que ocorreu. Ytzchak e Rivka casam.

Com a missão de encontrar uma esposa para Yitzchak tendo sido bem-sucedida, alguém está em falta neste retorno: Avraham. Eles viajam diretamente para Yitzchak. Rivka e ele casam. E Avraham não é ouvido novamente. Uma verdadeira passagem de testemunho.

Porque é necessário dizer-nos que Yitzchak estava em Beer L’chai Roi? Na verdade, ele volta para lá e reside lá após a morte de Avraham. Porquê? Esse é o lugar onde Yishmael foi salvo da quase morte depois de ser banido por Sarah. Talvez Yitzchak se arrependa do banimento de Yishmael e queira fazer as pazes com o seu irmão. Veremos que ele faz o mesmo mais tarde com os seus próprios filhos; parece querer que Yaakov e Esav continuem o seu legado. Os homens parecem querer a reconciliação; as mulheres vêem a necessidade de serem definitivas. Sarah bane Yishmael. Rivka bane Esav. No entanto, Avraham está relutante em mandar Yishmael embora e Yitzchak busca a reconciliação com Yishmael e procura abençoar Esav. As mulheres prevalecem. A Torá está do lado das mulheres. Yitzchak e não Yishmael, Yaakov e não Esav são os patriarcas, os detentores do legado de Abraham.

6ª Aliá (25: 1-11) Avraham casa com Keturah; eles têm 6 filhos. Tudo o que Avraham tem vai para Yitzchak; os outros filhos são enviados para o leste com presentes. Avraham morre aos 175 anos; ele é enterrado por Yitzchak e Yishmael em Maarat Hamachpelah. Yitzchak é abençoado por D’us. Ele mora em Beer L’chai Roi.

A transição de Avraham para Yitzchak está completa. Embora D’us tenha sido um parceiro silencioso nesta parashá, aqui Ele completa a transferência de gerações – Ele abençoa Yitzchak. O povo judeu será Yitzchak e não Yishmael.

7ª Aliá (25: 12-18) São enumeradas as gerações de Yishmael. Yishmael morre. Os seus descendentes moram desde o Egito à Assíria.

A história de Yishmael é breve. Tem uma descendência vasta e poderosa. A brevidade é para enfatizar que a Torá não está tão interessada na história do poder quanto na história da aliança de D’us com o povo judeu. E isso será narrado longamente.

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Rav Reuven Tradburks é o Diretor do Machon Milton, o curso de preparação para a conversão em inglês, uma parceria do Rabbinical Council of America (RCA) e da Shavei Israel. Rav Tradburks também é Diretor Regional para Israel da RCA. Antes da sua aliá, Rav Tradburks trabalhou durante 10 anos como Diretor do Tribunal de Conversão do Vaad Harabonim de Toronto, e foi rabino comunitário em Toronto e nos Estados Unidos.

Parasha da Semana – Vaierá

Parasha da Semana – Vaierá

Por: Rav Reuven Tradburks

As amadas histórias sobre a vida de Avraham encontram-se na nossa Parsha.  Avraham acolhe os anjos que vieram contar-lhe sobre a futura gravidez de Sara. De’s conta a Avraham sobre a destruição iminente de Sodoma; Avraham pede por eles. A cidade de Sodoma é destruída, Lot é salvo. As nações de  Moav  e Amon nascem de Lot e das suas filhas.  Avraham acampa em Gerar. Sarah dá à luz a Yitzchak. Hagar e  Yishmael  são mandados embora. Avraham faz um pacto com  Avimelech. A parashá acaba com a história dramática da Akeidat  Yitzchak, a quase morte de Yitzchak às mãos de Avraham.

1a Aliá (18:1-14).  De’s aparece a Avraham. Três homens são calorosamente recebidos por Avraham com uma hospitalidade extraordinária. Anunciam-lhe que pela mesma altura do ano seguinte Sara terá um filho.  Sara ouve isto da tenda e ri-se, pois a sua capacidade de ter filhos já é coisa do passado. De’s refuta: Há algo que seja demasiado para De’s? – Nesta altura do próximo ano terás tido um filho.

Esta história é um precioso olhar para dentro do lar de Avraham e Sara. Todos participam na boa ação: Avraham, Sara, os  jovens ajudantes. E a palavra «corre» ou «depressa» aparece quatro vezes em seis versículos. É uma receção enérgica, com entusiasmo.  A pronta hospitalidade de Avraham  tornam-se o paradigma de chesed para o povo judeu.

Sara ri-se da notícia de que vai ter um filho.  É repreendida por isso.  Mas Avraham riu-se da mesma notícia no final da parsha da semana passada, e não foi repreendido.  Rashi  comenta: O riso vem em 2 formas.  Simcha, riso feliz.  E escárnio.  Avraham riu: «Olha só, eu com 99 anos e ela com 90 – vamos ter um filho!»  Sarah escarneceu: «O quê?  Eu aos 90 e ele aos 99?  Não me parece.»

Sara não deixa de ter razão. É realista.  Avraham, sonhador.  A história judaica vai precisar dos sonhadores e dos realistas. Os Avot tendem a ser sonhadores; as  Imahot, as mulheres, realistas.

2ª  Aliá (18:15-33).  Os homens partem para Sodoma. De’s convence-Se de que não pode ocultar de Avraham, o exemplo da justiça, o seu plano para destruir Sodoma.  Avraham desafia-O: Como pode destruir os justos  junto com os maus?  E como pode destruir o lugar se há pessoas justas presentes? Avraham insiste no seu ponto de vista.

A generosidade de Avraham continua, embora aqui seja expressa de maneira bem diferente. Ele recusa-se a permitir a destruição de Sodoma sem contestação. E o seu argumento muda. O primeiro argumento é: porquê o mesmo destino para justos e ímpios? Se destruíres a cidade, então o mesmo destino aguarda os justos e os perversos. Um D’us justo não puniria os bons. Mas depois ele muda. Não castigues apenas os ímpios, poupando os justos; salva a cidade toda, ímpios e justos. Avraham está a implorar pela vida dos ímpios.

Avraham tem grande generosidade de espírito. O Juiz de todos pode julgar os ímpios; o meu papel é ser generoso. Anteriormente, ele tinha resgatado Lot e todo o povo de Sodoma que tinha sido levado cativo nas guerras dos 4 Reis e 5 Reis; esse mesmo povo que também já tinha sido descrito como perverso. Mais adiante, na nossa parashá, ele fica descontente com Sarah por ela querer mandar Yishmael embora, apesar de o seu comportamento não ser do agrado de Sarah. Isto também é a sua generosidade de espírito.

Seríamos verdadeiros aprendizes de Avraham se deixássemos o julgamento dos nossos semelhantes para Ele e, em vez disso, fôssemos generosos.

  Aliá (10:1-20).  Os homens viajam até Sodoma.  Lot insiste com eles para ficarem com ele.  Os homens da cidade opõem-se à presença destes forasteiros.   Tornam-se violentos.  Os  visitantes  dizem a Lot que Sodoma deve ser destruída e que deve partir rapidamente.  Os seus genros recusam-se.  O dia amanhece e  Lot, a mulher e as filhas  deixam Sodoma, tendo recebido a ordem de não olharem para trás.

Lot é o familiar mais próximo de Avraham.  Parece seguir os passos de Avraham.  Dá as boas-vindas aos estranhos, dá-lhes  um lugar em sua casa, serve-lhes comida.   Uma história paralela à bondade de Avraham.   Mas a  lição não reside nas semelhanças, e sim nas diferenças.  Lot está a viver em Sodoma. E isso faz toda a diferença.

Esta história é o início do tema que vai dominar o resto do livro de Génesis: Quem, da família de Avraham, está dentro?  E quem está fora?  A família de Avraham herdará o pacto do povo judeu– Mas quem, na sua família? No fim de contas, o parente mais próximo de Avraham é Lot. Com o nascimento iminente de Yitzchak, a questão de saber quem herdará a terra de Israel torna-se urgente.  Será toda a comitiva de Avraham?  Lot,  Yishmael, Yitzchak?  Será que a generosidade do espírito de Avraham se estende à  promessa da Terra – quererá ele incluir a sua família alargada?

Bem, podemos ver uma pessoa que não vai fazer parte da história judaica: Lot. Lot fica excluído dessa possibilidade devido à sua associação a Sodoma.

4a  Aliá (19:21-21:4) Lot recebe a ordem de fugir de Sodoma.  As cidades de Sodoma e  Gomorra  (Amorra em hebraico) estão destruídas.  A mulher de Lot olha para trás e transforma-se numa coluna de sal. Avraham olha desde as colinas e vê a destruição.  Lot foge para as colinas.  As duas filhas de Lot embriagam-no  com vinho e engravidam dele, pensando que são as únicas pessoas que restam no mundo.  Chamam aos seus filhos  Moav  e Amon.   Avraham vai a  Gerar,  Avimelech recebe a ordem de De’s de não tocar em Sara.  Avimelech confronta Avraham sobre o porquê de lhe ter ocultado a identidade de Sara.  Avraham  responde:  Eu vi que não há aqui temor a De’s.  De’s cumpre o que prometeu a Sara. Sara dá à luz Yitzchak.  Avraham circuncida-o como De’s mandou.

Há muita «visão»: Lot não deve olhar para trás, enquanto Avraham está a olhar para a planície.  As filhas vêem-se como Noé e a família – os únicos sobreviventes.  Avraham vê que não há temor a De’s

Lot não viu, nem  levou a sério o facto de viver entre os pecadores.  O que Lot não viu à sua  volta,  Avraham percebeu imediatamente em  Gerar; não há aqui temor a De’s.

A história com as filhas de Lot é uma ironia amarga, como Rav Hershel Schachter gosta de salientar: Elas pensaram  mesmo  que, de todas as pessoas do mundo, elas eram as mais justas para serem salvas? Não há mais ninguém no mundo a não ser eles? A sério?  E Avraham?  Como se sentiram no dia seguinte quando desceram a rua e viram tudo cheio de pessoas?

5a  Aliá  (21:5-21).  Yitzchak cresce e é desmamado.  Sara vê  Yishmael a brincar com Yitzchak.  Ela diz a Avraham para expulsar este rapaz, pois ele não herdará juntamente com Yitzchak.  Isto incomoda Avraham, mas De’s diz-lhe para ouvir  Sara.  Avraham acorda cedo, manda embora Hagar e  Yishmael. Eles vão para o deserto de  Beersheva.  A água acaba.  Hagar não suporta ver a morte do seu filho, e chora.  Um anjo chama-a.  Os seus olhos são abertos, vê um poço e dá água a  Yishmael.

A próxima geração do povo judeu já nasceu.  Quem fará  parte do pacto? Lot está de fora, mas ele não é filho de Avraham; é sobrinho.  Sara diz a Avraham que  Yishmael, embora filho de Avraham, não é a próxima geração do povo judeu. A expulsão  de Yishmael é uma história paralela à Akeida  que estamos prestes a ler. Em ambas as histórias Avraham levanta-se cedo, há uma criança anda com o pai / mãe, a vida da criança fica em perigo, um anjo chama, o pai / mãe vê o que não viu antes, a criança é salva. Histórias semelhantes ensinam que De’s se importa e salva quem está em perigo.  Mas as semelhanças são apenas semelhanças – não é a mesma coisa.   Yishmael  não será igual a Yitzchak na próxima geração do povo judeu.

6a  Aliá (21:22-34).   Avimelech  inicia um pacto com Avraham em  Beersheva.  Eles dão ao lugar o nome de Beersheva, da palavra «jurar».  Avraham invoca o nome de De’s em  Beersheva.

A fama de Avraham provocou um pacto. Mas porque Avmelech faria um pacto assim? Parece que não é só Avraham que é famoso; as promessas divinas da herança também o são. As pessoas ouviram falar deles, e acreditam neles e respeitam-nos. Por isso, preferem estar do lado de Avraham.

7a  Aliá (22:1-24).   Akeidat  Yitzchak, o sacrifício de Isaac. É dito a Avraham para pegar em Yitzchak e oferecê-lo como oferenda.  No  caminho, Yitzchak questiona Avraham.  Chegam à montanha.  No último momento, o anjo chama Avraham.  Avraham provou a sua lealdade à ordem de De’s.  Ele vê um carneiro preso num arbusto e oferece-o no lugar de Yitzchak.  Regressam a  BeerSheva.

A história mais dramática da Torá.  Uma história de  absoluta lealdade à ordem divina, mas também de  pathos e ironia.  O homem da generosidade, que suplicou pelas vidas dos perversos de Sodoma, está agora pronto para tirar a vida do seu próprio filho.  Aquele que desafiou a injustiça da destruição iminente de Sodoma, agora não tem voz.  E o mais óbvio – aquele que esperou pacientemente durante 25 anos pela promessa de um filho – e de um futuro – agora está pronto para destruir tudo.

Uma história que  pode ser pensada e estudada durante uma vida inteira.  Talvez, um elemento da história diga respeito às promessas. As promessas a Avraham de fama, família e fortuna foram concedidas por De’s.  E a promessa de a sua família herdar a Terra de Israel pode agora tomar forma. Mas não pense que a aproximação de De’s ao Homem e ao povo judeu não terá a sua complexidade, os seus sacrifícios, os seus mistérios ao tentarmos entender as maneiras inefáveis de De’s. Está a ser criada uma ligação íntima, do amor de De’s pelo  povo judeu,  e estamos a ficar cada vez mais próximos dEle, mas Ele permanece opaco, inescrutável, misterioso, fora do nosso alcance. Vivemos simultaneamente em intimidade com o Divino por um lado, e, por outro, com uma grande distância.

Parasha da Semana – Noach

Parasha da Semana – Noach

Por: Rav Reuven Tradburks

A Parashat Noach descreve a destruição do mundo através do Dilúvio, Noé e a sua família, a história da Torre de Babel e a apresentação da família de Avraham.

As primeiras duas parshiots da nossa Torá, Breishit e Noach, são essencialmente histórias paralelas da Criação, ou, mais precisamente, uma Criação e uma Recriação.  No entanto, as lições a aprender não estão no paralelismo, mas sim nas diferenças.  O que é diferente nesta Recriação? O que comunica De’s a Noé que não comunicou a Adão?

1ª  aliá  (6:9-22).  Noé é justo, enquanto o mundo está cheio de maldade. Noé foi instruído a construir uma arca, pois apesar de De’s ir destruir todos os seres vivos, Ele estabelece um pacto com Noé para salvá-lo. Noé, a sua família, dois exemplares de cada animal e alimentos devem ser levados para a Arca. A aliá termina com «Noé fez tudo o que De’s ordenou».

O mundo será destruído com água.  A Torá descreve, no segundo versículo da Torá, que a primeira coisa a existir no mundo foi água: «O espírito de De’s pairava sobre as águas». Se quiser indicar que o mundo está a ser reiniciado, que está a recomeçar, cubra-o com água, como estava «Ao princípio».

Há uma descrição detalhada sobre as dimensões da Arca, enquanto que não há quase nenhuma descrição do mal que o Homem está a praticar, que está a causar a destruição do mundo. A Torá está mais interessada na Recriação do que na história do fracasso do Homem. O título da história do Dilúvio não é a destruição do mundo, mas sim a Recriação do mundo.

2ª  aliá  (7:1-16).  Noé é novamente descrito como justo. Traz sete exemplares de cada animal puro, dois dos impuros, e todos os pássaros para a Arca. Noé tinha 600 anos e levou a sua família para a Arca. A água das nascentes das profundezas foi libertada e os depósitos de água superiores foram abertos. Todos entraram na Arca, como De’s tinha ordenado a Noé.

Ambas as aliot começam com a bondade de Noé e terminam com ele a fazer o que De’s mandou.  Numa palavra, fica definida a bondade.

A água inunda o mundo por baixo e por cima.  Já vimos água por baixo e por cima antes: na Criação, 1:6, De’s separa entre as águas de cima e as de baixo e faz os céus entre elas. Lá Ele separou as águas; aqui está a libertar toda a água, invertendo a Criação.

3ª aliá  (7:17-8:14).  O Dilúvio cobre a terra.  Todos os seres vivos morrem, exceto Noé e tudo o que está na Arca. De’s lembra-se de Noé. As águas baixam. A Arca repousa no Monte Ararat. Noé solta o corvo. Depois Noé envia a pomba para ver se a água já baixou o suficiente para a terra ser habitável. Ela regressa porque não encontra lugar para descansar. Após sete dias, é enviada de novo e regressa com um ramo de oliveira. Da terceira vez que é enviada, não volta.  Noé retira a cobertura e vê que há terra seca.

Há muitos detalhes de água e tempo.  A água que sobre, a água que desce, quantos dias choveu, quantos dias demorou para a água baixar. Isto contrasta com a criação inicial do mundo. Na Criação, cada coisa criada surgiu imediatamente, cada dia claramente definido. E depois de seis dias, a Criação cessou. Nesta Recriação, cobrir o mundo com água foi um processo demorado, e a descida da água também. Porquê?

Esta é a parte mais crucial da história.  O mundo não foi destruído – quero dizer, não voltou a «tohu v’vohu»  – «informe e  vazio». De’s não olhou para o mal no mundo (Homem e animais) e destruiu-o. Ele podia ter escolhido destruir o mundo inteiramente e começar de novo com outros seis dias de Criação. Mas não o fez. «Recriou» o mundo existente – salvando Noé, salvando o mundo, cobrindo-o lentamente com a água que existia.

A história da Torá é o amor e o compromisso de De’s para com o Homem e com o mundo que Ele criou. Ele salva o mundo.  Ele salva Noé. Mas mesmo antes disto: Adão e Eva pecaram e foram punidos, mas não destruídos. Caim matou Abel, o pecado mais flagrante, e é punido; mas não é morto. De’s está comprometido com este mundo e está comprometido com a humanidade. Ele destrói o mundo naturalmente, mas preserva-o, cobrindo-o lentamente com água e aguardando que a água desça. Este processo comunica o Seu compromisso com o Seu mundo e com a humanidade.

ª aliá  (8:15-9:7).  De’s diz a Noé que deixe a Arca com a sua família e com os animais, abençoando os animais para se apoderarem da terra. Noé ofereceu sacrifícios num altar. De’s comprometeu-se a nunca mais amaldiçoar terra e os animais por causa do Homem, nem as constelações. De’s abençoa Noé e a família para serem frutíferos e se multiplicarem. Podem comer animais, mas não podem matar uma pessoa.

Os ecos da Criação continuam.  Noé e os animais recebem as mesmas bênçãos feitas aos animais e ao Homem na Criação, para serem fecundos e se multiplicarem. Noé é o novo Adão.  Mas com uma diferença dramática: De’s promete que nunca mais haverá uma destruição geral da terra, dos animais ou das estações do ano.  Isto não foi prometido na Criação.

A noção de De’s a prometer algo é chocante. De’s a fazer promessas ao Homem? A sério? Ele a fazer-nos promessas a nós? Será que apesar de todo o mal horrível que o Homem é capaz de perpetrar, e perpetrou, na história da humanidade, apesar de todo o mal, Ele garante que o mundo nunca vai merecer ser destruído? Deve ser que a humanidade, tal e qual da maneira como foi criada, capaz do mal mas capaz também do bem, é tão preciosa para De’s que Ele se compromete connosco, independentemente dos nossos fracassos. Como tal, a história da Torá é uma história de amor; o amor e o compromisso de De’s para com a humanidade, tal como ela é.

5ºaliá (9:8-17). De’s diz a Noé e à sua família que está a fazer um pacto com todos os seres vivos de que o mundo nunca mais será destruído por um Dilúvio. O arco-íris é um sinal deste pacto entre nós. Verei o arco-íris e lembrar-Me-ei deste pacto eterno.

A palavra «brit», «pacto», aparece sete vezes neste parágrafo de nove versículos.  Estamos tão familiarizados com o arco-íris depois da história do Dilúvio que o seu significado simples passa despercebido. De’s está a comprometer-se com o mundo.  E, como se para garantir que Ele próprio não se esquecerá, coloca um sinal, um lembrete da Sua promessa.

Este arco-íris é uma história de amor. Noé deve ter ficado atónito, a perguntar-se: «Ele está a falar comigo? O que fiz eu para ser merecedor disto? O Dono do Universo, que acabou de inundar o mundo inteiro devido aos fracassos do Homem, está a comprometer-Se comigo?  E a selar esse compromisso com um arco-íris, para não Se esquecer?»

A história da Criação coroou o Homem de majestade: criado à imagem de De’s. A história da Recriação do Dilúvio é uma história de amor: o amor de De’s pelo homem; o compromisso que Ele tem com o Homem.  E, apesar de os pactos terem sempre duas partes, cada uma delas comprometendo-se em algo para com a outra, neste pacto nada é exigido ao Homem.  Só Ele se compromete connosco.

6ª aliá  (9:18-10:32).  Noé planta uma vinha, fica embriagado e deita-se descoberto na tenda. Cham olha para Noé; os outros filhos cobrem-no sem olhar. Cham é amaldiçoado, Shem é abençoado, a Yefet é dada beleza. São listados os numerosos descendentes de Noé, diferentes em geografia e na linguagem.

Noé parece seguir os passos agrícolas de Adão: Adão foi colocado no Jardim do Éden, Noé planta uma vinha. Mas o declínio do novo Homem não tarda muito. As gerações de Noé são descritas como diferentes, separadas em nações, em línguas e regiões geográficas diferentes. Isto dá origem a Nimrod, o guerreiro – as diferenças e as separações por grupos dão azo, naturalmente, à competição.

7ª aliá  (11:1-32).  A Torre de Babel, uma tentativa de unir a humanidade, resulta numa dispersão e proliferação de línguas. A genealogia dos descendentes de Noé continua até a família de Avraham ser apresentada; essa família que viaja até à terra de Israel.

A história da Torre de Babel começa como um desejo de unidade, e termina com as pessoas sendo espalhadas por todo o mundo.  O desejo de unidade parece ser uma coisa boa. No entanto, a unidade implica muitas vezes unir-se sob as minhas ordens, coagindo todos a serem como eu. A história mundial é a história dos impérios, procurando fazer do mundo um lugar melhor, sendo como eu. O tema da dispersão, do exílio, que começou com Adão a ser exilado do Jardim do Éden e Caim a ser exilado para vaguear pelo mundo, tem o seu próximo episódio com a dispersão, o exílio dos construtores da Torre de Babel.

Esta dispersão e exílio das duas primeiras parshiot da Torá será revertida com o apelo a Avraham para vir para terra de Israel.

 

Parasha da Semana – Bereshit

Parasha da Semana – Bereshit

Por: Rav Reuven Tradburks

A última Parasha da Torá cobre menos de um dia – a primeira Parasha da Torá abrange 1000 anos.

A parshat Breishit cobre a Criação, Adão e Eva no Jardim do Éden, o assassinato por  Caim do seu irmão Abel, as gerações que concluem com Noé e a destruição iminente de todos, exceto Noé e a sua família.

1ª Aliá, (cap. 1: 1-2: 3): o mundo foi criado em seis dias: luz, céus, terra entre os mares, vegetação, sol, lua e estrelas, aves e peixes, animais. E, finalmente, o Homem. O Homem é abençoado em ser fecundo e se multiplicar, subjugar o mundo e dominar os animais. O mundo foi completado e a Criação cessou no 7º dia.

A Criação é uma progressão, uma progressão evolutiva, do menos sofisticado ao mais sofisticado. Começa com a terra inanimada, água, céus, e depois enche-se de vegetação, depois de seres como peixes e aves, e depois animais terrestres. E, finalmente, o Homem.

Estamos já muito familiarizados com a expressão de que o Homem foi criado à imagem e semelhança de De’s, mas, no entanto, esta expressão continua, nas palavras do rabino Sacks, «radical». «Radical naquele tempo e radical hoje».  O Homem, criado à imagem de De’s? É uma expressão chocante. Mas depois de ultrapassarmos o choque, é uma coisa fantástica. Como se dissesse que De’s está a criar um parceiro, uma sombra dEle Próprio. O Homem não é simplesmente um macaco mais sofisticado, um babuíno mais desenvolvido. É verdade que o Homem partilha características com os animais, mas a diferença é abismal: à imagem de De’s. O Homem é majestoso.

É por isso que incluimos o Shabat na história da Criação. Ele pára; nós começamos. Nós começamos onde Ele pára. Ao parar, Ele passou o comando ao Homem. Este é um princípio crucial do judaísmo: no sexto dia De’s disse ao Homem: «Agora és tu. Domina o mundo e subjuga-o.». E depois, para o comprovar, Ele descansou no sétimo dia, como se dissesse: «Estou a falar a sério: és meu parceiro. Substitui-me.».

O Midrash mostra esse ponto – o parágrafo de V’yachulu termina com «laasot». Não termina como todos os outros 6 dias – e foi noite e foi manhã, o sétimo dia. Diz que D’us parou de fazer. Ele parou de fazer – agora é a tua vez de fazer.

A visão que a Torá tem do Homem é nobre, majestosa, poderosa, à imagem de De’s.

2ª Aliá, (Cap. 2: 4-20). Um relato mais detalhado da Criação do Homem. D’us cria o Homem do pó da terra e sopra em suas narinas o sopro da vida. Ele é colocado no Jardim do Éden, cheio de belas árvores, para cultivá-lo. De’s ordena-lhe que não coma da árvore do conhecimento, ou da vida. E declara que não é bom para o homem ficar só; Vou fazer-lhe uma parceira.

A linguagem do capítulo 2 está em notável contraste com a do capítulo 1. Esta criação do Homem é mais um romance do que um livro de ciências. Personalidade, moralidade, humildade, emoção. O capítulo 1 é a criação da humanidade – o capítulo 2 é a criação de uma pessoa. Adão é criado a partir da adama, da terra, um começo bastante humilde. Ele foi criado sozinho. Isso não é bom. Ele recebe um mandamento. Existe o bem e o mal. Ele deve cuidar do jardim, não governá-lo. Os animais são-lhe trazidos para ele os nomear.

Este é o início da compreensão do Homem de quem ele é e quem ele não é. Ele foi criado à imagem de D’us, encarregado de ser um parceiro de D’us. Mas ele não é o próprio D’us. Ele deve governar o mundo, como Ele governa. Ele deve nomear os animais, como D’us nomeou o dia, a noite, os céus e os mares. Como Ele é um Criador, o homem deve ser um criador – um criador de vida através dos filhos, um criador de vegetação através do jardim. Por outro lado, não é bom que ele esteja só – pois há apenas Um que está só. D’us é o Comandante, ele, o comandado. O Homem deve ser semelhante a D’us: ser criativo, dar nomes às coisas, assumir o seu lugar como guardião do mundo. Mas até onde vai ele e até onde vai Ele é o tema da 3ª aliá.

3ª Aliá. (2: 20-3: 21) A mulher é criada. A serpente convence Eva de que se ela comer do fruto proibido, será como D’us, conhecendo o bem e o mal. Ela e Adão comem da fruta, seus olhos são abertos e cobrem-se com folhas de figueira. Eles escondem-se de D’us, que desafia a sua desobediência. Todos são punidos – a serpente rastejará, a mulher dará à luz filhos com dor e o cultivo da terra pelo homem será feito com suor.

E difícil encontrar no Tanach uma história mais rica em simbolismo. Uma serpente falante, a sedução da beleza, a arrogância, o fracasso, esconder-se de D’us, culpa, consequências. Muitas e variadas são as lições a serem tiradas desta história

O Homem, criado à imagem de D’us, deve aspirar à sua vocação elevada, embora se lembre de que ele é apenas a imagem, não o próprio D’us. A serpente convenceu Eva, e depois ela convenceu Adão, de que o Homem pode ser o determinante do bem e do mal. Que, como D’us concede ao homem a liderança neste mundo, Ele também concede ao homem o papel de legislador do bem e do mal. Nisso eles erraram. E D’us responde fazendo-os recuar um pouco nas suas atividades mais criativas, como se dissesse: Enquanto vocês são criadores, Eu continuo a ser o Criador. Eva, quando criares e tiveres filhos, o momento criativo por excelência da humanidade, será com trabalho, uma lembrança das tuas origens terrenas. E tu, homem, quando trabalhares a terra, será com suor. Há apenas Um que cria com a pronúncia de uma palavra, com facilidade. Ele é «O» Criador, tu és «um criador». Ele é o Comandante do bem e do mal, enquanto que tu és o comandado.

4ª Aliá. (3:22 ​​- 4:18). O Homem é exilado do Jardim do Éden. Nascem Caim e Abel. Eles trazem oferendas a D’us – As de Abel são aceites, as de Caim não. Caim mata Abel. «Sou eu o guardião do meu irmão?». Caim foi condenado a vagar pela terra.

O pecado traz o exílio. O pecado de Adão traz o exílio do Jardim do Éden. O pecado de Caim traz peregrinação e falta de um lar. 4:16 explica o exílio: Caim deixou de andar com D’us. Isso introduz um conceito básico das relações entre o Homem e D’us: O desfavor divino em relação ao Homem resulta em distância. Adão mandado embora do Jardim. Caim expulso de estar diante de D’us. Mais tarde, a torre de Babel trará dispersão. Somente Avraham reverterá isso e viajará não para longe, mas em direção a um lugar específico.

5ª Aliá. (4:19 – 4:22). Lemech e as suas esposas Ada e Tzila têm filhos. Um é o iniciador da pecuária, outro da música de cordas e instrumentos de sopro, e outro do fabrico de cobre e ferro.

Uma aliá curiosamente curta. A humanidade avança maravilhosamente no domínio criativo do mundo: o domínio dos animais, a expressão artística criativa da música e a produtividade avançada do cobre e do ferro. Mas, apesar de o homem dever dominar o mundo, a brevidade da menção serve para destacar que muito mais importante é o domínio de si mesmo. A Torá está muito mais interessada no comportamento ético do homem e no seu relacionamento com D’us do que no seu domínio do ferro e na expressão criativa da sua música. O homem é muito bom a dominar o mundo; vamos ver se também é bom a dominar-se a si próprio.

6ª Aliá, (4:23 – 5:24). As gerações de Adão a Noé.

Enos é descrito (4:26) como começando a profanar o nome de D’us. Rashi explica que foram atribuídas qualidades Divinas a pessoas e coisas. O início da idolatria. É errado considerar Avraham como o primeiro monoteísta. D’us falou com Adão e Eva, Caim e Abel trouxeram oferendas, Ele falou com Caim e Noé será instruído por D’us. O Homem afastou-se de D’us, falhou no seu comportamento e distanciou-se. Avraham não é o primeiro monoteísta; ele é o primeiro a ser abraçado e puxado para perto de Si por D’us. A humanidade primitiva é afastada; Avraham é puxado para perto.

7ª Aliá (5:25 – 6: 8) Aparece Noé. D’us está desapontado com o Homem, a sua expectativa de vida foi reduzida para 120 anos. D’us planeja destruir o Homem, os animais, os pássaros. Noé encontra graça em Seus olhos.

A parashá vai da Criação à destruição iminente. Embora não estejam registadas, a humanidade tem mitsvot. D’us tem expectativas da humanidade e essas expectativas não foram cumpridas. Embora desapontado, Ele não destruirá a humanidade, mas começará de novo com Noé.