Parashá da Semana – Shmini

Parashá da Semana – Shmini

Parashá Shemini

Pelo rabino Reuven Tradburks

1ª Aliá (Vayikra 9:1-16) No oitavo dia da inauguração de Aharon e dos Cohanim, Moshe reúne o povo. Ele instrui Aharon a oferecer um chatat e uma olah. As pessoas também devem trazer um chatat, olah, shlamim e mincha, porque hoje De’s vai aparecer. Aharon apresenta as suas oferendas. Apresenta as oferendas do povo. As oferendas são trazidas exatamente como foi ordenado.

Este oitavo dia é o momento tão esperado. A presença da De’s vai aparecer no Mishkan. O caminho até este momento levou 7 parshiot: Foram dadas instruções para construir o Mishkan. Depois foi construído. Foram dadas instruções para as vestes dos Cohanim. E foram elaboradas. Foram dadas instruções para instaurar os Cohanim. E, na parasha da semana passada, ficou concluída a cerimónia de instauração de 7 dias. Os preparativos estão completos.

Neste dia, dia 8, Moshe passa a batuta a Aharon. Durante a cerimónia de 7 dias, Moshe desempenhou o papel de Cohen Gadol. Mas hoje não. Hoje, um dia depois da instauração de 7 dias, o Cohen Gadol é Aharon. E os Cohanim iniciam as suas funções.

Moshe diz-lhes que as oferendas que vão trazer hoje vão convidar a presença de De’s.

No final de Sefer Shemot, quando a construção do Mishkan foi concluída, a presença de De’s encheu a construção.

Mas a Sua presença é apenas metade da história. O Mishkan não é um lugar apenas para Ele. É um ponto de encontro: Ele e nós. Ele apareceu após a conclusão do edifício, como se desse o primeiro passo. Como um par de dança. Alguém tem que liderar. Ele é o líder, tal como tem sido em toda a Torá até este ponto. Ele tem sido o líder: Criação, Avraham, Egito, Sinai, Mishkan. Tudo isto é De’s a aproximar-se do Homem.

Até aqui. Moshe diz a Aharon e ao povo: agora, é a nossa vez de ir ao Seu encontro. Aharon foi nomeado como o representante de todo o povo judeu na nossa aproximação a De’s. Ele e os Cohanim agirão como nossos representantes para trazer as oferendas que expressam o nosso desejo de nos aproximarmos dEle.

2ª Aliá (9:17-23) Aharon oferece a mincha e o shlamim. Todos os detalhes são executados tal como foi ordenado. A parte que Aharon deve receber é movida, tal como foi ordenado. Após a conclusão de todas as oferendas, Aharon abençoa o povo e desce das oferendas. Moshe e Aharon entram na Tenda da Reunião, abençoando o povo ao sair. A Glória de De’s aparece ao povo.

Aharon já trouxe todos os tipos de oferendas: chatat, olah, mincha, shlamim. O momento de aproximação do Divino, de resposta à aproximação do Homem, está prestes a ocorrer. Aharon abençoa o povo com a Birkat Cohanim. Bem, chamamos a birkat Cohanim de bênção, mas na verdade é uma oração, uma esperança: Que De’s te abençoe e te guarde. Que Ele faça resplandecer o Seu rosto sobre ti…

Aharon abençoa o povo com a esperança de que o seu desejo de encontrar-se com De’s seja realizado. O Homem pode aproximar-se de De’s e fazer tudo o que é necessário, mas a Sua resposta nunca é ditada por nós. Tudo o que podemos fazer é fazer a nossa parte. E depois esperar pela Sua resposta.

Moshe e Aharon abençoam o povo. Que o deleite de De’s esteja sobre vós. Que a Shechina esteja convosco nos vossos esforços.

O Kavod Hashem, a Glória de De’s, apareceu ao povo. A sua aproximação e as suas orações foram concedidas: um encontro com o Divino. Um momento verdadeiramente sublime de toda a Torá. A aproximação do homem a De’s é respondida com a Sua Presença.

3ª Aliá (9:24-10:11) Um fogo desceu de De’s e consumiu as oferendas no altar. O povo viu, louvou e prostrou-se sobre o rosto. Nadav e Avihu, filhos de Aharon, tomaram incenso, embora não lhes tivesse sido ordenado, e queimaram-no perante De’s. Um incêndio consumiu-os e morreram. Moshe disse a Aharon que era isto que De’s tinha dito: Por Meus escolhidos Me santificarei. Aharon ficou em silêncio. Depois de retirar os corpos, Moshe disse aos outros filhos de Aharon para não cumprirem luto ou deixarem o Mikdash; o povo judeu fará o luto. Moshe ordenou aos Cohanim que não consumissem vinho ao servir no Mikdash, para que pudessem distinguir entre o santo e o profano e ensinar o povo.

As pessoas estão em êxtase com a presença de De’s. Mas o êxtase é despedaçado pela morte de Nadav e Avihu ao trazerem incenso não estipulado.

Há uma grande riqueza de comentários sobre o terrível drama desta história. Êxtase e morte. O fluxo simples da narrativa parece repousar sobre como o Homem deve aproximar-se de De’s. O Mishkan é o lugar de aproximação íntima a De’s, o encontro do Homem com De’s na casa dEle. Mas a aproximação do Homem finito a De’s infinito está repleta de mistérios. E arrogância. Como pode o Homem finito se atrever a pensar que pode aproximar-se do Infinito? É absurdo imaginar que poderíamos saber como atrair o favor divino. Só podemos fazê-lo porque De’s nos disse como fazê-lo. Ele convidou-nos, instruiu-nos sobre como abordá-Lo. E só o fazemos com grande humildade, reconhecendo que estamos a aproximar-nos dEle apenas com o Seu convite.

Tivemos 7 parshiot de instruções detalhadas e do cumprimento detalhado dessas instruções, que culminam neste momento do encontro bem-sucedido entre o Homem e De’s. A intenção destes detalhes é claramente para nos mostrar a nossa inaptidão. Somos incapazes de compreender como abordar De’s. Ele, no entanto, aproxima-se de nós, com instruções detalhadas sobre como abordá-Lo.

É neste contexto, depois de uma longa e alargada narrativa de instruções e cumprimento detalhados, que deve ser visto o desejo espontâneo de Nadav e Avihu de se aproximarem de De’s com o seu incenso não autorizado. Depois de tudo isto, vocês simplesmente decidem saltar, num impulso, levados pelo êxtase, para se aproximarem de De’s? Inacreditável. Chocante.

4ª Aliá (10:12-15) Moshe instrui Aharon e os seus restantes filhos, Elazar e Itamar, a consumirem as partes das oferendas que foram trazidas hoje a que tinham direito. Têm que consumir a matza mincha e a carne do peito em solo sagrado.

Moshe prossegue com o importante dia do aparecimento da glória de De’s, prosseguindo com os detalhes das oferendas.

5ª Aliá (10:16-20) Moshe perguntou sobre a carne do chatat e esta tinha sido queimada, não consumida. Ficou descontente: porque não as consumistes no lugar sagrado como foi ordenado? Aharon respondeu: Num dia como este, em que isto ocorreu, devemos oferecer as oferendas e comê-las? Isso é apropriado aos olhos de De’s? Moshe ouviu e concordou.

Moshe está descontente por as oferendas não terem sido consumidas por Aharon e pelos seus outros filhos. Aharon, chocado com a morte dos seus dois filhos, desafia agora Moshe. O nosso papel como servos divinos elimina os nossos sentimentos humanos de tragédia? Uma pessoa sagrada é angelical, ou é sagrada, mas continua sendo uma pessoa? Não tenho o direito de fazer o meu luto, pelo menos hoje?

Este breve, muito breve, confronto expressa o tema universal do homem santo. Aceitamos a nossa humanidade, as nossas emoções, os nossos desejos, a nossa complexidade, mesmo nos nossos líderes religiosos mais sagrados? Ou esperamos que sejam sobre-humanos, com um comportamento angélico? As religiões do mundo abordam esta questão de forma diferente. Aharon define a visão judaica, aceite por Moshe. A pessoa mais santa que nós temos, o Cohen Gadol, chora a morte dos seus filhos como qualquer outra pessoa. Seja o mais santo que for, ele é também uma pessoa e tem sentimentos. Os homens santos são santos, mas permanecem homens.

6ª Aliá (11:1-32) Dos animais terrestres, podeis comer aqueles com cascos fendidos e que ruminem. Aqueles com apenas um desses sinais não devem ser comidos: o camelo, o hírax, o coelho e o porco. Seres aquáticos que têm barbatanas e escamas podem ser comidos. Aves predadoras não podem ser comidas. Os insetos não podem ser comidos, com exceção de certos gafanhotos. Tocar na carcaça de certos animais mortos torna uma pessoa tameh, impura.

As leis de Kashrut iniciam uma série de leis relacionadas com a singularidade do Homem: um animal, mas com alma. A Torá legisla especificamente as atividades que temos em comum com os animais: alimentação, procriação, doença, morte. E as atividades que nos distinguem dos animais: comportamento social, comunicação, autocontrolo. Ao instruir-nos sobre o que podemos e o que não podemos comer, pegamos numa atividade que partilhamos com os animais (comer), e exercemos o controlo sobre ela. Não somos animais, impulsionados sem limites pela necessidade de comida. Controlamos o que comemos e como o preparamos.

7ª Aliá (11:33-47) O contágio de Tumah pelo contacto com os animais requer imersão numa mikveh. Sede santos porque Eu, De’s, sou santo. Tirei-vos do Egito para serdes o Meu povo e para serdes santos, como Eu o sou. Deveis distinguir entre o puro e o impuro e entre os seres vivos que podem ser comidos e os que não podem.

Fomos instruídos para imitar a santidade de De’s. De que forma vamos imitá-Lo? Na Criação Ele fez uma separação, mavdil. Também nós exercemos uma distinção. Discernimos entre o que consumimos e o que não. O discernimento, o autocontrolo, a estrutura, especialmente naquelas atividades que partilhamos com os animais, são o que nos torna santos, imitando a Sua Santidade.

Parashá da Semana – Tzav

Parashá da Semana – Tzav

Parshat Tzav

Pelo rabino Reuven Tradburks

1ª aliá (Vayikra 6:1-11) São dadas instruções aos Cohanim: enquanto as oferendas devem ser feitas durante o dia, a queima das gorduras e membros pode continuar durante toda a noite. De manhã, o Cohen tomará algumas das cinzas do altar e as colocará ao lado. Este monte de cinzas é removido para fora do Mikdash. Um fogo para as oferendas deve estar constantemente aceso. Quando uma oferenda de farinha de Mincha é trazida, parte é queimada no altar; o restante é comido pelos Cohanim. Não pode ser chametz.

A parshat Vayikra mostra o trabalho do Cohen; em Tzav é o menu do Cohen. Mas antes disso, são apresentados o dia e noite do Templo. O dia judaico começa ao pôr-do-sol; noite e manhã: um dia. Mas não no Templo. O dia no Templo era o oposto; o dia seguido pela noite: um dia. As oferendas são trazidas durante o dia, mas podem ser queimadas durante a noite. Com o amanhecer, começa um novo dia.

As oferendas têm limites. A maior parte das oferendas deve ser queimada e o Cohen deve consumir as suas porções num dia – ou seja, no dia em que são trazidas e na noite que se segue. Algumas têm dois dias. E a oferenda que mais conhecemos (já que somos todos o filho sábio do seder), o Korban Pesach, pode ser comido apenas à noite, e talvez até à meia-noite. À medida que aprendemos as regras das oferendas, percebemos o quão incomum o Korban Pesach é, com respeito a todas as regras.

2ª aliá (6:12-7:10) É trazida uma oferenda especial de Mincha, de farinha, por um Cohen no primeiro dia do seu serviço, por um Cohen Gadol no primeiro dia do seu serviço e diariamente pelo Cohen Gadol. É cozida, depois assada e completamente queimada. Quando é trazido um Chatat, uma oferenda de pecado, ele é consumido pelos Cohanim no Templo. Os utensílios utilizados para cozinhá-lo devem ser kasherizados: um utensílio metálico pode ser colocado na água, mas um de barro deve ser quebrado. Um Asham, oferenda de pecado, também é consumido pelos Cohanim no Templo. Para uma Olah, o Cohen recebe o couro. O Cohen consome oferendas de Mincha assadas.

Quando e onde o Cohen ou o proprietário consomem a oferenda varia de acordo com a oferenda. As oferendas kodesh kodashim – «santo dos santos» são consumidas no próprio templo. Isso inclui a Olah, o Chatat e o Asham. Estas são oferendas trazidas para expressar o desejo de estar mais perto de De’s; o proprietário não consome nada delas, não tira nenhum prazer pessoal delas. Uma Olah é completamente queimada, exceto o couro, que é dado aos Cohanim.

Aqui temos a primeira menção da kasherização de utensílios. Os Cohanim tinham 3 tipos de utensílios: leite, carne e kodshim, utensílios usados para as oferendas. Uma vez expirado o prazo para comer a oferenda, o utensílio torna-se não kosher e deve ser kasherizado. Se for de barro, não pode ser kasherizado – é descartável – chad paami, usa-se apenas uma vez. Não admira que as áreas em que as oferendas eram trazidas sejam tesouros de cerâmica quebrada para os arqueólogos, porque aqueles utensílios de cerâmica eram usados uma vez e nunca mais.

3ª aliá (7:11-38) Quando é trazido um Shlamim, uma oferenda de paz, para agradecer, ele é constituído por 10 pães de mincha de cada um dos 4 tipos diferentes. Um de cada destes 4 tipos é dado ao Cohen. O proprietário consome a oferenda ao longo de 2 dias. Ele não pode estar Tameh, impuro. O sangue e as gorduras oferecidas nunca podem ser comidos. O Cohen recebe o peito e a coxa da oferenda de shlamim.

O Shlamim é uma nova categoria de oferenda. É comido pelo proprietário. Não se restringe ao Templo; pode ser comido em qualquer lugar de Yerushalayim. E o proprietário tem 2 dias para o consumir. A cidade de Jerusalém tinha certamente muitos mikvaot, não só para os Cohanim que iam para o Templo, mas para os celebrantes trazendo os seus shlamim, que tinham que consumir as suas oferendas num estado de Tahara, pureza. E deve ter havido hotéis que tinham supervisão especial Kodshim da OU – utensílios especiais apenas para kodshim, para oferendas cozinhadas. Aqueles que traziam shlamim eram gratos, alegres, pessoas abençoadas por De’s – a cidade de Jerusalém era certamente cheia de sorrisos.

4ª aliá (8:1-13) Moshe recebe instruções para consagrar os Cohanim. Moshe reuniu o povo e os Cohanim, proclamando que o seguinte foi ordenado por De’s. Moshe veste Aharon com as vestes do Cohen Gadol. Com o azeite ungido ele ungiu o Mishkan, o altar, e Aharon. Vestiu os Cohanim com as vestes de Cohen, como ordenado por De’s.

As instruções para a consagração dos Cohanim foram dadas em Parshat Tetzaveh; a consagração ocorre aqui. As últimas 4 aliot desta parsha terminam com a mesma frase: Como De’s ordenou. Talvez isto seja para evitar acusações de favoritismo. Moshe não está a nomear o irmão como Cohen Gadol da maneira como os políticos distribuem empregos pela família e amigos. Moshe recebeu uma ordem para isso.

Esta frase também é uma indicação de algo que vai acontecer. Na próxima parsha, Nadav e Avihu farão algo que não foi ordenado, um claro desvio de toda a lealdade de Moshe e Aharon até aqui.

5ª aliá (8:14-21) Moshe traz as oferendas de consagração. Os Cohanim colocam as mãos no Chatat, a oferenda de pecado. Moshe oferece-o; o sangue é colocado no altar, as gorduras são queimadas, o animal é queimado fora do acampamento. É oferecido o carneiro como Olah; os Cohanim colocam as mãos na cabeça, Moshe faz todos os procedimentos para a oferenda.

Moshe age como Cohen durante toda a cerimónia de consagração. Ele faz o abate, o salpico do sangue e a oferenda das gorduras. Talvez isto seja para sensibilizar Aharon e os Cohanim para «o outro lado» do processo. Passar pela experiência do que é ter alguém a trazer a sua oferenda para si permitir-lhe-á realizar a oferenda com maior sensibilidade. Porque sabem como é estar do outro lado.

6ª aliá (8:22-29) É trazido o segundo carneiro, o carneiro da consagração. Moshe coloca o seu sangue na orelha direita de Aharon, no polegar direito e no dedo grande direito. E faz o mesmo com os Cohanim. Ele oferece o carneiro, salpicando o seu sangue, queimando as gorduras e oferecendo no altar uma de cada uma das matzot trazidas com o carneiro depois de Aharon e os Cohanim o moverem. Moshe moveu o peito, a sua parte na oferenda.

Com esta oferenda, é consagrada a posição de Cohanim oficial do povo judeu. Não há quaisquer outros judeus, tanto quanto sei, que possam traçar tanto a sua linhagem como os Cohanim e Leviim. Um Levi hoje descende de Levi, filho de Yaakov. E um Cohen descende de Aharon, irmão de Moshe. Esse estatuto de Cohen começa neste momento no deserto, um ano após o êxodo do Egito, e continua, ininterrupto, até aos dias de hoje.

7ª aliya (8:30-36): Moshe instrui Aharon a cozinhar a carne da oferenda e a consumi-la, bem como a consumir a matza. Os Cohanim não devem deixar o Mikdash por 7 dias. Este mesmo procedimento deve ser feito quando se obtém expiação. Aharon e os Cohanim fizeram tudo o que De’s ordenou.

A nossa parsha delineou alguns dos benefícios para o Cohen, devidos ao seu serviço sagrado. O apoio ao clero, ou aos trabalhadores espirituais, ou aos líderes rituais, é uma noção universal, que cruza culturas e religiões. Os nossos Cohanim não são diferentes, no que diz respeito ao recebimento de tais benefícios. No entanto, muito mais importante do que o que eles recebem é o que eles não recebem.

Lá atrás, na história de Yosef, é-nos contado como os líderes religiosos eram tratados no Egito. Recebiam apoio público da comida. Tinham terras. Toda a terra do Egito foi tomada pelo Faraó em pagamento por alimentos durante a fome, exceto a terra dos líderes religiosos. As pessoas mais ricas do Egito eram os líderes religiosos. No nosso tempo, a riqueza do Vaticano é vasta.

Os nossos Cohanim, em contraste, não têm terra. Nem os Leviim. Recebem apoio, mas modesto. Este é mais um exemplo da moderação da Torá; apoio aos Cohanim, mas modestamente. O rei receberá instruções semelhantes: benefícios, mas com limites. A liderança é servir a De’s e ao povo, não servir-se a si mesmo. Quando lemos a Torá, temos que reparar não só no que é dito, mas também no que não é dito; que direitos são dados, mas, mais importante, que direitos não são dados. Os Cohanim recebem, mas modestamente.

Parashá da Semana – Vaycra

Parashá da Semana – Vaycra

Parashat Vaicrá, pelo rabino Reuven Tradburks

O tema da parsha são os sacrifícios. Oferendas diferentes serão necessárias em várias circunstâncias posteriormente no livro de Vayikra. Esta parsha descreve as regras dessas ofertas, de modo que quando elas vierem mais tarde, o seu procedimento seja familiar.
A parsha descreve os procedimentos para: Olah, uma oferta totalmente queimada, Shlamim, uma oferta consumida pelos cohanim e pelo proprietário, e Chatat, uma oferta de pecado. No decorrer destes, também é descrita a mincha, a oferta de farinha.

1ª aliá (Vayikra 1:1-13) E Ele chamou Moshe, e De’s falou com ele. Quando uma pessoa traz uma Olah, esta pode ser trazida de gado bovino, ovino ou caprino. Se for de gado bovino, o procedimento é: o proprietário coloca as mãos sobre o animal, o animal é abatido perante De’s, o sangue é salpicado sobre o altar, as gorduras são queimadas e toda a oferta é queimada. Se for ovino ou caprino, é efetuado o mesmo procedimento: abater no mesmo local, salpicar o sangue, oferecer as gorduras e queimar completamente.

As primeiras palavras da parsha desconcertam os comentaristas. Nenhum professor permitiria que um aluno começasse um texto com “E ele chamou Moshe.” Quem é “ele”? Nada aconteceu no livro ainda para que possamos relacionar o “ele”. Porque começar com “E”? A Torá está a referir-se à história anterior. E a continuá-la. No final de Shemot, o Mishkan foi concluído. A nuvem espessa desceu, indicando a presença de De’s. Moshe não podia entrar na área do Mishkan devido à nuvem. De’s agora diz a Moshe para entrar, para lhe ensinar as leis das oferendas.

Esta interação enquadra o livro de Vayikra. Em Shemot, De’s desceu até nós. Deu ordens sobre o Mishkan, como o lugar de encontro connosco. Desceu e encheu o lugar. E agora? Agora é a nossa vez. Ele aproximou-se de nós. Agora, nós aproximamo-nos dEle. Em Shemot, o povo judeu era passivo, aproximado por Ele. Recebemos ordens de construir um ponto de encontro para De’s se encontrar connosco. Agora, em Vayikra, o povo judeu é ativo. Assim, o livro começa como uma continuação do último, só que agora que Ele se aproximou de nós, nós nos aproximamos dEle. E é este o significado dos sacrifícios: o Homem aproximando-se de De’s.

2ª aliá (1:14-2:5) Se a Olah for de aves, o procedimento é semelhante: sangue salpicado, órgãos queimados, e completamente queimado. Se uma nefesh trouxer uma oferta de farinha, o procedimento é: a farinha é misturada com azeite e incenso. O cohen toma uma medida, queima-a no altar. O restante é comido pelos cohanim. A oferta de farinha também pode ser asada ou frita, na forma de uma matza fina com azeite.

A oferta de Olah é voluntária. E cara. É uma escada com vários degraus: Gado bovino, ovino, caprino, aves, farinha. Enquanto o coração pode desejar se aproximar de De’s, o bolso pode resistir-se. Rashi salienta que, ao descrever quem traz a oferta de farinha, a menos cara, a Torá usa a palavra nefesh, como se dissesse que é a alma que leva a pessoa a trazer uma oferenda; para alguns, a oferta de farinha é um sacrifício tão grande como um touro é para outros.

3ª aliá (2:6-16) Ou pode trazer-se uma oferta de farinha frita e macia. Nestes casos, o cohen traz a oferta de mincha ao altar, oferecendo uma medida. O restante é comido pelos cohanim, tratado como santidade de santidades. Nenhuma oferta deste tipo pode ser chametz ou com mel. Apenas a oferta dos primeiros frutos contém chametz e mel. A oferta do Omer é de grãos de cevada nova com casca, secada no fogo e moída, com azeite e incenso.

Como podemos encontrar sentido em sacrifícios? Deixe-me partilhar o seguinte, e, se o leitor me achar culpado de projetar pensamentos modernos sobre o passado distante, admitir-me-ei culpado.

Na vida, experimentamos um leque de sentimentos e emoções. O sucesso traz satisfação; o fracasso, desilusão. Às vezes, sentimo-nos desesperados, derrotados por desafios e incertezas. Ameaças de guerra ou de doença fazem-nos sentir frenéticos. O pecado amplifica a nossa vulnerabilidade, trazendo uma profunda sensação de falta de valor. Outras vezes sentimo-nos exuberantes, abençoados, afortunados. Que o sol brilhou sobre nós. Gratidão, apreço, corações cheios.

A natureza precária da vida no mundo antigo amplificou todos estes sentimentos – tanto da ansiedade da vida e dos seus acontecimentos inesperados, como das alegrias da abundância e do sucesso. E, enquanto o nosso mundo mudou dramaticamente na forma como vivemos, a vida interior do homem permanece praticamente a mesma. Podemos estar ansiosos por coisas diferentes, mas a ansiedade em si é a mesma. E a alegre apreciação salta gerações.

Uma olah é uma oferenda que é completamente queimada. Expressa uma profunda submissão a De’s. É feita em vários contextos: oferendas comunitárias, oferendas individuais obrigatórias e voluntárias. Mas seja qual for o contexto, transmite submissão. Esta é, de facto, uma atitude central da nossa relação com De’s. Pode vir acompanhada de alegria, de culpa, de agradecimento, mas, na base da experiência religiosa, a submissão está sempre presente. Então, quando se faz uma oferenda de olah, esta pode ser uma expressão do mais profundo reconhecimento, mas transmite esse reconhecimento com submissão:  não são as minhas mãos que forjaram o meu sucesso; eu, como judeu, vivo de mão dada com De’s. O meu sucesso exige que eu me dirija a De’s, assim como o meu desespero. Entrego-Lhe a minha vida inteiramente – tanto o meu sucesso como o meu desespero. Esta entrega completa expressa-se na oferta voluntária de uma olah – uma oferta completamente queimada. Como se dissesse: estou nas Tuas mãos.

4ª aliá (3:1-17) A oferta de Shlamim pode ser de gado bovino, caprino ou ovino. O seu procedimento é: o dono coloca as mãos na cabeça do animal, os cohanim pegam o sangue após o abate e salpicam-no no altar, as gorduras são queimadas. Uma lei eterna é que nenhum sangue ou gordura pode ser comido.

O Shlamim é comido em Yerushalayim, não é completamente queimado como a olah.  Como tal, expressa uma parceria entre o Homem e De’s. Tem um tom de celebração. Talvez seja o celebrar do facto de que, até certo ponto, somos submissos a De’s mas ao mesmo tempo também somos Seus parceiros. É a complexidade da experiência humana, combinar a submissão com a parceria.

5ª aliá (4:1-26) Quando uma nefesh peca: se o Cohen peca nas suas atividades oficiais, ele traz um touro como oferenda de pecado. O seu procedimento é: o cohen coloca as mãos na cabeça do animal, o cohen salpica o sangue em direção à cortina do Santo dos Santos e no altar do incenso. As gorduras são queimadas. O touro é queimado fora da área sagrada, onde outras cinzas são depositadas. Se todo o povo comete um pecado, é trazido um touro como oferenda de pecado. O seu procedimento segue o dos Cohen: os anciãos pousam as mãos na cabeça do animal, os cohanim salpicam o sangue em frente do Santo dos Santos e no altar do incenso. As suas gorduras são queimadas e o touro é queimado fora da área sagrada, assim como a oferta de pecado do Cohen. Quando o Governante comete inadvertidamente um pecado, traz uma cabra. Põe as mãos na cabeça da cabra, os cohanim colocam o sangue nos cantos do altar, as gorduras são queimadas.

Esta aliá descreve 3 oferendas de pecado trazidas pelos líderes: o Cohen, o Sanhedrin quando toma uma decisão que o povo segue e que percebem depois que estava errada, e o Rei. Os verdadeiros líderes têm de reconhecer os seus papéis: servem o povo e servem a De’s. A “infalibilidade papal” não é uma noção judaica; aqui assumimos que o Cohen (o líder religioso), o Sanhedrin, (o poder judicial) e o Rei (o líder político), todos pecam. E admitem os seus pecados.

6ª aliá (4:27-5:10) Se uma pessoa peca inadvertidamente, traz uma cabra como oferenda de pecado. Coloca as mãos na cabeça do animal, o sangue é colocado nos cantos do altar, as gorduras são queimadas. Pode trazer uma ovelha; o procedimento é semelhante. A oferenda de pecado de Asham é trazida por: não ter dado testemunho, e isso ter resultado em que se tenha feito um juramento desnecessariamente; ter violado inconscientemente as leis da pureza depois de se ter tornado impuro; ter feito um juramento desnecessariamente. É feita uma confissão. A oferta pode ser de ovelhas ou de cabras. Se o proprietário não puder pagar estes animais, então pode trazer duas aves, uma para olah e outra para oferta de pecado.

As oferendas de pecado são trazidas para pecados inadvertidos. O pecado mancha a relação entre o Homem e De’s. Mas nem todos os pecados contam com o privilégio de uma oferenda que concede a expiação. Pecar exige remorso e mudança de atitude; só o sacrifício não é suficiente.

7ª aliá (5:11-25) E se não puder pagar estas duas aves, então pode trazer uma oferenda de farinha, embora sem azeite nem incenso, uma vez que esta é uma oferta de pecado, um Asham. Uma medida cheia é trazida para o altar; os cohanim consomem o resto. Se uma pessoa usa propriedade santificada, precisa de trazer um carneiro para expiação como Asham. E tem que compensar o fundo sagrado com uma penalidade adicional de 1/5. Se uma pessoa não tem a certeza de um pecado, precisa de trazer um carneiro para expiar como Asham. Se uma pessoa nega uma obrigação financeira e jura falsamente, deve fazer a restituição com um 1/5 adicional e trazer um carneiro para expiar.

Estas oferendas têm que ser levadas para o Mishkan, e, posteriormente, para Templo de Jerusalém. A experiência da grandeza desses lugares geraria humildade. A experiência do sacrifício no lugar sagrado gera uma humildade saudável: conhecer o nosso lugar como seres majestosos, mas humildes na Sua presença.

Parashá da Semana – Behar-Bechukotai

Parashá da Semana – Behar-Bechukotai

Parshat Behar-Bechukotai

Pelo rabino Reuven Tradburks

1ª aliá (Vayikra 25:1-18) Shmita: A Terra de Israel tem o seu Shabbat. Trabalha 6 anos, o 7º é um Shabbat para De’s. O que cresce por si só está disponível para ser usado. Yovel: A 7 ciclos de 7 anos segue-se o Yovel, o 50º ano, o ano do jubileu. É sagrado; proclama liberdade em toda a terra. Os escravos são libertados; a terra retorna ao seu proprietário original. Ao venderes a tua terra, não abuses do comprador, sabendo que a terra te será devolvida no 50º ano. Vende-a de acordo com os anos que o comprador terá até ao Yovel. Manter estas leis permitirá que estejas seguro na terra.

O tema da santidade é novamente expandido. Tivemos santidade no Mikdash, a nossa aproximação a Ele em Sua casa. Tivemos santidade na comida. Santidade nas relações: as permitidas e as proibidas. Santidade no tempo: Shabbat e feriados. Agora somos apresentados à santidade da terra de Israel.

Há dois aspetos da santidade da terra de Israel: primeiro, é a terra dos judeus. Temos leis únicas de bondade na agricultura: deixar parte para os pobres, dar apoio aos Cohanim e aos Leviim. Estas leis só se aplicam na nossa terra, onde construímos a nossa sociedade judaica, única.

E, segundo, a nossa terra é onde De’s nos convidou para estar perto dEle. Estamos mais próximos dEle em Sua casa, o Mikdash. E em Jerusalém, a Sua cidade. Mas a santidade da proximidade com Ele emana de Jerusalém para toda a terra. Assim, a terra é sagrada, tanto por estarmos perto do Rei como por ela ser a nossa única pátria, o lugar onde vivemos de acordo com as nossas leis únicas, refletindo a filosofia judaica.

A Shmita diz-nos que precisamos de perceber que toda a Terra é Sua; a terra tem o seu Shabbat: abstendo-nos de trabalhar no 7º ano, afirmamos que a terra é nossa, mas apenas temporariamente. Somos apenas passageiros nesta terra; ela é Sua. Os escravos são libertados no Yovel, pois somos todos Seus servos.

2ª aliá (25:19-28) Não te preocupes por poderes não ter o suficiente para comer se a terra descansar; Eu vou providenciar. Que a terra não seja vendida permanentemente, pois a terra é Minha, e vós sois apenas passageiros nela. Se alguém ficar necessitado e vender o seu campo, resgata-o. O vendedor também pode resgatá-lo de acordo com os anos restantes até este lhe ser devolvido no Yovel.

Depois de nos apresentar a propriedade limitada na terra de Israel, a Torá muda para as nossas responsabilidades uns com os outros. Quando as pessoas estão em apuros, ajudem-nas. A venda de um campo não pode terminar bem. Significa perder o trabalho. Numa sociedade agrária, o que fará para viver este antigo proprietário de terras? Este é o início de uma espiral descendente. Resgata o seu campo; recupera-o para ele, para que possa ganhar a vida. Isto é como diz o Talmude: a forma mais alta de tzedaka é dar a uma pessoa um trabalho. Redimir o campo é devolver-lhe a vida.

3ª aliá (25:29-38) Uma casa numa cidade também pode ser redimida se for vendida, mas apenas no primeiro ano. Depois disso, a venda é permanente. As casas em cidades abertas são consideradas como campos; podem ser resgatadas e regressam no Yovel. As cidades dos Leviim, mesmo que muradas, podem sempre ser resgatadas e também regressam no Yovel. Quando alguém precisar, ajuda-o. Não cobres juros; dá-lhe vida. Eu sou De’s que te tirou do Egito para te dar esta terra e para ser o teu De’s.

O Talmude salienta que a progressão das histórias que a Torá apresenta aqui é de mal a pior. Uma pessoa que se vê obrigada à venda de um campo devido à pobreza. Depois, a venda de uma casa. Depois, a necessidade de um empréstimo. E na próxima aliá, ser vendido como escravo. A tsedaka mais barata é a primeira: recuperar o campo, evitando todo este colapso.

4ª aliá (25:39-26:9) Se alguém te for vendido como escravo, não o oprimas. Trata-o como um trabalhador. E ele sai em liberdade no ano do Yovel. Porque vós sois meus servos. Escravos comprados às nações circundantes são como propriedade que passa de geração em geração. Se um judeu for vendido a um não-judeu, um parente o redimirá, porque o povo judeu são Meus servos, os Meus servos que redimi do Egito (Bechukotai). E se cumprirdes todas as Minhas mitzvoth, tereis recompensa, paz, sucesso invulgar contra os vossos inimigos. Virar-me-ei para ti, multiplicar-te-ei e cumprirei o Meu pacto contigo.

A Parshat Bechukotai, embora curta, é poderosa. Temos que seguir um livro inteiro de santidade; está muita coisa em jogo. A busca da santidade na terra que é sagrada é um esforço de alto risco. A realização dessa busca traz uma bênção maravilhosa: comida, paz, saúde. Para nós, que gostamos de caminhar neste lugar sagrado, as bênçãos são abundantes. Embora saibamos, pela História, que o oposto também pode ser abundante.

5ª aliá (26:10-46) E Eu estarei no meio de vós; Eu, o teu De’s, tu, o Meu povo. Tirar-te-ei os jugos e caminharás orgulhosamente. Mas se não cumprires as Minhas mitzvoth, Eu também não te prestarei atenção. Ficarás sujeito à doença, aos inimigos, à seca. Se persistires em ignorar-Me, Eu também persistirei em ignorar-te, deixando-te vulnerável à guerra, à peste, à fome. Os vossos lugares sagrados serão conquistados, as vossas cidades destruídas; sereis espalhados pelo mundo. Então a terra terá o resto da sua Shmita. Entrarás em pânico no teu exílio, com medo de uma folha ao vento. Admitirás as tuas falhas; Lembrar-Me-ei das minhas promessas. Mesmo na tua dispersão, não permitirei que sejas destruído.

O fracasso em estar à altura das exigências deste lugar sagrado traz desolação e exílio. A desolação da terra de Israel sem o povo judeu é lendária. Arrepiante. A diáspora judaica, a história judaica está prevista aqui; quem precisa de uma descrição do seu cumprimento? O sofrimento judaico no exílio foi tomado por outras religiões como um sinal da rejeição do judeu. O regresso à terra de Israel, tão inesperado, tão sem precedentes e tão dinâmico, é uma forte refutação disso. Se o exílio foi devido ao descontentamento divino com a nossa atitude desprezível para com Ele, o regresso à terra só pode significar o prazer divino em nos ter por perto. E uma tarefa para nós: nunca sermos indiferentes para com Ele, mas sim envolvermo-nos, procurarmos, aproximarmo-nos. Que tempos privilegiados estes, que nós, os indignos, temos o privilégio de estar a viver . E como temos de ser vigilantes para não voltarmos a ser indiferentes para com Ele na Sua terra.

6ª aliá (27:1-15) Quando fizeres um voto do teu valor para De’s, há valores definidos para diferentes idades e situações. Este valor é dado ao Mikdash. Se prometeres um animal, está dado e não pode ser trocado. Uma promessa de uma casa pode ser dada ou redimida.

Seguindo a secção arrepiante das maldições, o livro de Vayikra termina com um capítulo completo de leis de votos. A generosidade inspira contribuições para o Mikdash. É uma coisa boa. O centro religioso do povo judeu precisa de contribuições. Mas esta secção não trata só do que é dado, mas também do que não é. Quando prometo o meu valor, é minha intenção me tornar monge, desistir da vida para servir o Mikdash? A Torá não apoia isso. Paga em dinheiro; mantém a tua posição na vida. A Torá impõe a interpretação dos votos das pessoas e do seu valor para serem dons monetários, mas não escravos do Templo. E se eu prometer um animal? Está bem, que isso se torne num sacrifício. Mas não tu. Nem qualquer um à tua volta. Uma casa também: a Torá não quer que o Mikdash adquira património imobiliário. As casas são para as pessoas; o Mikdash deve ser esplêndido, grandioso e inspirador. Mas não é para se tornar um vasto império financeiro.

7ª aliá (27:16-34) Se um campo é prometido, é válido até ao yovel ser calculado. Esse valor é dado ao Mikdash para resgatar o campo. Se não for redimido, fica com o Mikdash mesmo depois de Yovel. Os bens que se tornam propriedade do Mikdash não podem ser resgatados.

Os campos são o meio essencial de subsistência. Se quiséssemos que o Mikdash fosse um império financeiro, os campos seriam o sítio certo para começar. Mas o normal na Torá é que a doação de um campo deve ser redimida. Os campos são para as pessoas ganharem a vida; não para o Mikdash.

O livro de Vayikra, o livro da abordagem do Homem a De’s, termina com um equilíbrio sóbrio. Enquanto nos aproximamos de De’s, dedicamos as nossas vidas a Ele, nos aproximamos dEle, e Ele de nós, a Torá protege-nos de ir longe demais, de alienarmos os nossos bens, de nos livrarmos das nossas casas e de nos tornarmos escravos do Templo, dando o nosso melhor ao Mikdash. O nosso desafio é sermos sagrados nas nossas casas e nos nossos campos enquanto tentamos alcançar o Divino.

Parashá da Semana – Emor

Parashá da Semana – Emor

Parashat Emor

Pelo rabino Reuven Tradburks

1ª aliá (Vayikra 21:1-15) Os Cohanim não estão autorizados a entrar em contacto com mortos, exceto se forem da sua família nuclear. Também não podem adotar práticas de luto não judaicas, como rapar a cabeça ou a barba ou fazer cortes no corpo. Porque os Cohanim têm que ser sagrados para De’s, já que são os Seus servidores da linha da frente. Não podem casar com uma divorciada. Deves santificá-los. O Cohen Gadol não deve tornar-se tameh de forma alguma, pois é ungido. Não pode casar com uma divorciada ou uma viúva.

O tema dominante do livro de Vayikra é a kedusha, santidade. Enquanto que o nome em hebraico do livro, Vayikra, é apenas a primeira palavra do livro e diz pouco sobre o seu conteúdo, o nome em português, Levítico, refere-se ao seu conteúdo. É o livro de Levi, que em latim tem a conotação de «padres». É o livro dos Cohanim, a classe sacerdotal.

Mas eu teria dado a esse nome apenas o segundo lugar. O primeiro lugar seria para Sefer Kedusha, o Livro da Santidade. A santidade domina o livro. Santidade na Torá significa diferente. Diferente porque está mais perto do Divino. Quanto mais perto de De’s, mais raro, mais santo. Mas isso tem um preço: a santidade, essa proximidade com De’s, acarreta maiores restrições. Não é de admirar que os Cohanim, aqueles que são encarregados de apresentar as oferendas, a abordagem do Homem ao Divino, tenham regras únicas para a sua conduta pessoal. Mas porque a santidade, a proximidade com De’s, requer mais restrições?

No encontro entre De’s e o Homem, o Homem precisa de ser reticente. Cuidadoso. O fato de o Homem, finito, se aproximar de De’s, infinito, convida à arrogância, ao orgulho, à presunção. Aproximemo-nos suavemente, humildemente. Com cuidado. A mensagem da santidade é que nos aproximemos com cuidado. As muitas regras do Mikdash refletem esta abordagem cuidadosa. E as regras dividem-se no que esperávamos: o quê, onde, quando, quem e como. Descrevemos o Mishkan, o onde. As oferendas, o como. A Tuma, o quem, ou mais precisamente, quem não.

Os Cohanim, que apresentam as oferendas, também têm as suas regras. Há restrições sobre com quem podem casar. Isto enquadra-se perfeitamente nas regras delineadas na semana passada sobre quem pode e quem não pode casar. As primeiras 2 instruções que o Homem recebe no 6º dia da Criação são: ser frutífero e multiplicar-se. E comer vegetação e fruta. Relacionamentos e alimentação. As primeiras 2 instruções delineadas neste livro, que nos moldam a sermos santos são: kashrut e relações proibidas. A santidade existe nos limites da alimentação e das relações. Os Cohanim, que precisam de ser mais escrupulosamente santos, têm as suas próprias regras aqui no que diz respeito às suas relações.

2ª aliá (21:16-22:16) O Cohen que tiver um defeito não pode servir no Mikdash. Isto inclui ser cego, coxo, ter um membro partido, problemas oculares e outros. Pode consumir itens sagrados, mas não realizar o serviço. Um Cohen não pode servir enquanto tameh, porque isto profana o sagrado. Enquanto que um não-Cohen não pode consumir o sagrado (Teruma), aqueles que fazem parte da casa do Cohen podem. A sua filha, antes do casamento, ou depois, se não tiver filhos, faz parte da sua casa, e pode consumir o sagrado. O sagrado é profanado quando consumido por outros.

O Cohen não deve fazer o serviço enquanto tiver certos defeitos. Mas continua a ser Cohen. Ser Cohen é quem ele é. O serviço é o que ele faz. Ele continua a ser Cohen, mesmo que não possa fazer o serviço. Daí que um Cohen com algum defeito possa consumir as oferendas. E consumir Teruma. A Teruma também pode ser consumida por qualquer membro da sua família. Mas só se estiverem num estado de pureza. Hoje, assume-se que todos os Cohanim estão num estado de impureza e, portanto, não podem consumir Teruma. No entanto, podem queimá-la. Se uma pessoa tiver uma oliveira e quiser dar teruma a um verdadeiro Sr. Cohen, então a Sra. Cohen pode usar esse azeite que lhes foi entregue como Teruma para acender as suas velas de shabbat. Com o nosso regresso a Eretz Yisrael, muitas velas de shabbat de Cohanim por todo o país estão sendo acesas com azeite de Teruma.

3ª aliá (22:17-33) Uma oferta animal não pode ter defeito. Isto inclui ser cego, coxo, ter um membro partido, problemas oculares e outros. Isto aplica-se também à oferenda de um não-judeu. Um animal com defeito não é agradável. As oferendas devem ter pelo menos 8 dias de idade. Mãe e filhote não podem ser abatidos no mesmo dia. As oferendas não podem ser comidas após o 2º dia. Não profaneis o Meu nome, mas sim santificai-Me entre vós.

O Cohen precisa de ser imaculado; a oferenda também. Um não-judeu pode trazer uma oferenda ao nosso Mikdash, mas sob as nossas condições, não sob as dele. Deve cumprir o rigor dos nossos padrões de oferendas.

A conclusão desta parte diz que seguir estas regras Me santifica, enquanto oferendas inadequadas Me profanam. Mas neste comentário bastante inócuo está presente a mitzvá de Kiddush Hashem e também o Hillul Hashem. As ações feitas por mim (sim, euzinho!) podem fazer com que o nome de De’s seja profanado, Hillul Hashem, ou santificado, Kiddush Hashem. Embora haja muitos detalhes de Santidade nas oferendas, as nossas ações diárias dão-nos uma oportunidade ainda maior para a Santidade. A Santidade do Nome de De’s paira sobre todas as nossas ações. Que responsabilidade pesada. E que oportunidade maravilhosa.

4ª aliá (23:1-22) Estes são os dias sagrados: 6 dias de trabalho, ao 7º dia é Shabbat. Pesach é no dia 14 do 1º mês; durante 7 dias comereis matza. O primeiro dia é sagrado, tal como o 7º. Não devereis fazer neles nenhuma melacha. A oferta do omer de cevada recém-colhida é trazida no dia seguinte ao primeiro dia sagrado de Pesach. É ela que permite o consumo de cereais novos. Contai 7 semanas completas e no dia 50 trazei uma oferta de trigo novo como chametz assado. Esse dia (Shavuot) será um dia sagrado no qual não será feita nenhuma melacha. Ao fazerdes a vossa colheita, deixai os cantos do terreno e os produtos que tiverem sido deixados cair para os pobres e para os estrangeiros.

Somos apresentados à santidade do tempo. A santidade da proximidade a De’s foi expressa na santidade do espaço, o Mishkan. E através da alimentação e das relações, somos santos. E os Cohanim têm santidade. Agora, o tempo também a tem. O Shabbat e os feriados são encontros com De’s; não só num determinado lugar, mas também num determinado momento. Rav Soloveitchik salientava que temos Kabbalat Shabbat, mas não temos Kabbalat Yom Tov. Porque o encontro muda de anfitrião. Em Yom Tov há uma mitzvah de aliá l’regel, peregrinação. Visitamo-Lo em sua casa. No Shabbat, Ele visita-nos em nossa casa. No Shabbat damos-Lhe as boas-vindas a nossa casa, daí o Kabbalat Shabbat – mais precisamente, damos as boas-vindas à Shechina, Ela. Quando é a nossa vez de receber (ou seja, o Shabbat), damos as boas-vindas ao nosso convidado, a Shechina, a nossa casa, através do Kabbalat Shabbat.

5ª aliá (23:23-32) O primeiro dia do 7º mês (Rosh Hashana) é uma lembrança da truah. Nenhum trabalho será feito. O 10º dia (Yom Kippur) é um dia sagrado para afligirmos as nossas alma, pois é um dia de expiação. Nenhum trabalho será feito. De uma noite até à outra.

Estes dois não são dias de peregrinação. Veremos na Parshat Pinchas que as suas oferendas não são as mesmas que nas 3 regalim. Mas partilham a restrição de trabalho com todos os outros feriados. Quer o encontro seja alegre ou introspetivo, o tempo sagrado é marcado pela restrição de trabalho. O trabalho e a sua realização, embora valiosos, são equilibrados pela pausa nos mesmos. As nossas vidas não devem ser consumidas pelo nosso trabalho; no Shabbat e nos feriados recuperamos o sentido da própria vida, independentemente do trabalho. É o encontro com De’s nesses dias que dá sentido à vida.

6ª aliá (23:33-44) O dia 15 do 7º mês começa a festa de 7 dias de Sukkot. O primeiro dia é sagrado, nenhum trabalho será feito. O 8º dia é sagrado, nenhum trabalho será feito. Estes são os dias sagrados, cada um com as suas oferendas, além das oferendas do Shabbat e as voluntárias. E além disso, no dia 15 do 7º mês, pega num Lulav e num Etrog e alegra-te perante De’s por 7 dias. Habita em Sukkot para que saibas que os judeus habitaram em Sukkot durante o Êxodo.

Depois de todas as festas terem sido delineadas e resumidas, a Torá volta para trás e diz para tomarmos o Lulav por 7 dias e regozijarmo-nos. Parece que o Lulav é a expressão de apreço no final do ciclo de festas que começou em Pesach. Que sorte que temos em desfrutar dos nossos dias especiais. Daí que abanemos o Lulav em Hallel, a oração de apreço pelo nosso ciclo de festas.

7ª aliá (24:1-23) Tragam azeite para uma lâmpada permanente na Menorah, situada fora do Santo dos Santos. Assa 12 pães para serem colocados em 2 grupos de 6 no Shulchan a cada Shabbat. Os Cohanim devem comer este pão sagrado no Mikdash. Dois homens lutaram. O judeu amaldiçoou De’s. Foi detido até que a sua sentença fosse determinada por De’s. Será apedrejado. Estes crimes são puníveis com a morte: amaldiçoar De’s e assassinato. Outros têm sanções financeiras: danos materiais e agressão corporal.

O tema da pena de morte na Torá é um tema pesado. Mas certamente, o castigo pela morte do blasfemo é dizer-nos que o significado da nossa vida, o seu propósito, é santificar a De’s através do nosso comportamento. Amaldiçoá-lo drena a nossa vida do seu propósito.