Parasha da Semana – Bechukotai

Parasha da Semana – Bechukotai

Por: Rav Reuven Tradburks

A Parshat Bechukotai é a última no livro de Vayikra. A primeira metade da Parasha é a gloriosa, embora muito breve descrição das bênçãos que serão recebidas se cumprirmos as mitsvot. Mas depois a Torá volta-se para a descrição arrepiante do exílio, desolação e sofrimento que advirão se houver falta de lealdade às Mitzvot. Bênçãos: 10 versículos. Maldições: 32 versículos.

Esta parashá é sempre lida antes de Shavuot. Mas não no Shabat imediatamente antes de Shavuot. 2 Shabbatot antes (este ano, em Israel, teremos 2 parshiot depois de Bechukotai até Shavuot). A seriedade das maldições pode motivar-nos a renovar a nossa aceitação da Torá, mas esta é uma parashá muito dura. Motiva-nos pelo medo. Queremos entrar em Yom Tov com medo? Eu acho que não. Então, entre a dureza de Bechukotai e a doçura do Yom Tov de Shavuot, há uma semana no meio, com uma parasha mais benigna intercalada.

1ª aliá a (Vayikra 26:3-5) ) Se forem leais às Mitzvot, dar-vos-tei tal abundância que a colheita se estenderá até a época de plantio. Ficarão satisfeitos e seguros na vossa terra. A Parashat Bechukotai é a conclusão do livro de Kedusha, Vayikra. Nós, na época moderna, precisamos especialmente desta parasha. Fomos abençoados com uma explosão de informação. E essa informação pode levar rapidamente a uma visão mecanicista da vida: que
tudo é causa e efeito. Trabalha duro e terás sucesso. Estuda muito e conseguirás. Come bem e faz exercício e viverás muitos anos. Esta parashá introduz uma das crenças judaicas centrais, e que é um tanto radical. As colheitas vão crescer bem enquanto cumprires as mitsvot. Não vivemos em 2 mundos: o físico e o espiritual. Vivemos num só mundo: o mundo do físico e do espiritual entrelaçados. O nosso sucesso físico na terra de Israel está inextricavelmente ligado à nossa fidelidade em cumprir às mitsvot.

Este tema dominará o resto da Torá, pois, com a conclusão do livro de Vayikra, passamos à marcha em direção à terra de Israel. O resto da Torá descreverá essa marcha e as mitsvot relevantes para a construção da sociedade judaica na terra de Israel. Mas ao longo de todo o percurso este tema estará sempre presente: que o destino de toda a iniciativa na terra de Israel está ligado ao nosso cumprimento das mitsvot.

2ª aliá (26:6-9) Dar-te-ei paz e não terás medo. Cinco de vós perseguirão 100; 100 perseguirão 10.000. Far-te-ei frutificar, far-te-ei multiplicar e guardarei a Minha aliança contigo.

Sereis abençoados com um poder militar enorme – um pequeno grupo poderá perseguir 20 ou 100 vezes o seu número. E, num eco da Criação, a promessa de que serás frutífero e te multiplicarás. Na Criação, D’us ordenou que o Homem fosse frutífero e se multiplicasse. E aqui está a prometer que seremos frutíferos e nos multiplicaremos. Como se dissesse: a lealdade às mitsvot trará um mundo exatamente como ele deveria ser.

3ª aliá (26:10-46) E Eu estarei no meio de vós; Eu, o teu De’s, tu, o Meu povo. Tirar-te-ei os jugos e caminharás orgulhosamente. Mas se não cumprires as Minhas mitzvoth, Eu também não te prestarei atenção. Ficarás sujeito à doença, aos inimigos, à seca. Se persistires em ignorar-Me, Eu também persistirei em ignorar-te, deixando-te vulnerável à guerra, à peste, à fome. Os vossos lugares sagrados serão conquistados, as vossas cidades destruídas; sereis espalhados pelo mundo. Então a terra terá o resto da sua Shmita. Entrarás em pânico no teu exílio, com medo de uma folha ao vento. Admitirás as tuas falhas; Lembrar-Me-ei das minhas promessas. Mesmo na tua dispersão, não permitirei que sejas destruído.

A brevidade deste nosso texto exige que deixemos de fora muitas das arrepiantes previsões de calamidade, para nos focarmos num só aspeto: O fracasso em estar à altura das exigências deste lugar sagrado traz desolação e exílio. A desolação da terra de Israel sem o povo judeu é lendária. A terra que emana leite e mel esteve estéril e seca durante dois mil anos. Arrepiante. Além disso, a diáspora judaica, a história judaica está prevista aqui; quem precisa de uma descrição do seu cumprimento? O sofrimento judaico no exílio foi tomado por outras religiões como um sinal da rejeição do judeu. O regresso à terra de Israel, tão inesperado, tão sem precedentes e tão dinâmico, é uma forte refutação disso. Se o exílio foi devido ao descontentamento divino com a nossa atitude desprezível para com Ele, o regresso à terra só pode significar o prazer divino em nos ter por perto. E uma tarefa para nós: nunca sermos indiferentes para com Ele, mas sim envolvermo-nos, procurarmos, aproximarmo-nos. O nosso sucesso na terra depende disso. Que tempos privilegiados estes, que nós, os indignos, temos o privilégio de estar a viver . E como temos de ser vigilantes para não voltarmos a ser indiferentes para com Ele na Sua terra.

4ª aliá (27:1-15) Quando fizeres um voto do teu valor para De’s, há valores definidos para diferentes idades e situações. Este valor é dado ao Mikdash. Se prometeres um animal, está dado e não pode ser trocado. Uma promessa de uma casa pode ser dada ou redimida.

Seguindo a secção arrepiante das maldições, o livro de Vayikra termina com um capítulo completo de leis de votos. A generosidade inspira contribuições para o Mikdash. É uma coisa boa. O centro religioso do povo judeu precisa de contribuições. Mas porque será que esta parte aparece a seguir às bênçãos e maldições? Eu diria que a melhor maneira de acabar o livro de Kedusha seria com as bênçãos e maldições, não com com as regras aparentemente mundanas das contribuições para o Templo.

Todo o livro de Vayikra se concentrou em Kedushá; que nossas vidas sejam elevadas, santificadas. Podemos pensar que esta parte elevada das nossas vidas, a parte das nossas vidas em que nos esforçamos para nos aproximar do Divino, é uma parte boa, desejável, maravilhosa – mas é uma parte extra. Se eu viver a minha vida não fazendo mal a ninguém e não violando as mitzvot, então terei vivido uma boa vida. Então a Torá apresenta-nos as bênçãos e as maldições. Não, não. A Santidade não é uma sobremesa. Não é em extra. É a essência da vida de um judeu. Devemos viver vidas santificadas. E o nosso sucesso na terra depende disso. A falta de de fidelidade às mitzvot trará consequências terríveis, incluindo exílio e destruição.

Mas, para este livro não terminar com uma nota dura, terminamos, não com maldições, mas com generosidade.

5ª aliá (27:16-21) Se um campo é prometido, é válido até ao yovel ser calculado. Esse valor é dado ao Mikdash para resgatar o campo. Se não for redimido, fica com o Mikdash mesmo depois de Yovel. Os bens que se tornam propriedade do Mikdash não podem ser resgatados.

6ª aliá (27:22-28)) Um campo que não é tua herança pode ser dedicado ao Mikdash; é dado o seu valor. O primogénito de um animal já é sagrado, por isso não o prometas ao Mikdash.

7ª aliá (27:29-34) O Maaser das propriedades é sagrado; pode ser redimido, e acrescenta-se um quinto ao seu valor. O Maaser de animais é sagrado; não pode ser redimido.

O livro de Vayikra, o livro da abordagem do Homem a De’s, termina com um equilíbrio sóbrio. Enquanto nos aproximamos de De’s, dedicamos as nossas vidas a Ele, nos aproximamos dEle, e Ele de nós, a Torá protege-nos de ir longe demais, de alienarmos os nossos bens, de nos livrarmos das nossas casas e de nos tornarmos escravos do Templo, dando o nosso melhor ao Mikdash. O nosso desafio é sermos sagrados nas nossas casas e nos nossos campos enquanto tentamos alcançar o Divino.

Esta seção final de votos também faz parte da mudança em direção ao livro de Bamidbar. Estamos em marcha para a terra. A seção de votos é uma introdução a isso. Já não estamos focados na santidade mas sim na construção da nação. A vida comunitária de que desfrutaremos na terra de Israel será edificada na base da generosidade. Eu não vivo apenas para mim mesmo; faço parte do povo judeu. As necessidades dos outros são as minhas. As contribuições para o Mikdash são uma expressão da minha parte na construção da nossa nação. E essa construção será a preocupação do resto da Torá.

 

 

 

 

Parasha da Semana – Behar

Parasha da Semana – Behar

Pelo rabino Reuven Tradburks

A Parshat Behar é uma pequena parasha de 57 versículos. É apenas um capítulo, mais 2 versículos para o próximo capítulo. Essencialmente, é a conclusão do livro de Vayikra, pois a Parasha da próxima semana, Bechukotai, é formada principalmente pelas admoestações das bênçãos e maldições em jogo na entrada na terra.

Assim, continua o tema da Kedushá que tem sido a preocupação deste livro de Vayikra, mas ele começa a abordar temas de estrutura social, antecipando a entrada iminente na terra de Israel. Nós conhecemos o resto da Torá, por isso sabemos que a entrada na terra será adiada por 40 anos, mas neste ponto da Torá parece que estamos prestes a entrar na terra. O foco então muda da Kedusha no nosso relacionamento com D’us para abordar os fundamentos da sociedade judaica em antecipação à entrada na terra.

1ª aliá (Vayikra 25:1-13) A Terra de Israel tem o seu Shabbat. Trabalha 6 anos, o 7º é um Shabbat para De’s. O que cresce por si só está disponível para ser usado. Yovel: A 7 ciclos de 7 anos segue-se o Yovel, o 50º ano, o ano do jubileu. É sagrado; proclama liberdade em toda a terra. Os escravos são libertados; a terra retorna ao seu proprietário original.

O tema da santidade é novamente expandido. Tivemos santidade no Mikdash, a nossa aproximação a Ele em Sua casa. Tivemos santidade na comida. Santidade nas relações: as permitidas e as proibidas. Santidade no tempo: Shabbat e feriados. Agora somos apresentados à santidade da terra de Israel, kedushat haaretz.

A terra de Israel é onde De’s nos convidou para estar perto dEle. Estamos mais próximos dEle em Sua casa, o Mikdash. E em Jerusalém, a Sua cidade. Mas a santidade da proximidade com Ele emana de Jerusalém para toda a terra. Essa santidade, a nossa proximidade com a Shechiná na terra de Israel, produz leis únicas relacionadas com a agricultura, com esta terra. Shemita e Yovel são exemplos destas leis, aplicáveis ​​apenas na terra de Israel. Nós, que temos o privilégio de viver na terra de Israel, temos o privilégio de caminhar no jardim do Rei, no Seu quintal. Uma responsabilidade e um privilégio.

A Shmita diz-nos que precisamos de perceber que toda a Terra é Sua. Existem duas condições humanas que levam à alienação de D’us. Desânimo e arrogância. Uma visão demasiado baixa de nós mesmos. E uma demasiado alta. Até aqui, a Torá concentrou-se extensivamente na aproximação de D’us em relação ao Homem. O amor de D’us pelo homem cria um sentimento de importância: Ele quer aproximar-Se de nós? Uau, devemos ser especiais. Se Ele se aproxima de mim, então eu tenho que estender a mão para Ele. Esta é a dignidade e a majestade do homem. Mas, quando pensamos demais em nós mesmos – o homem que vence sozinho, o sucesso, a popularidade, o mundo aos meus pés – bem, então…  Quem precisa de D’us? Eu posso fazer tudo sozinho. O Shabat ensina-nos que Ele é o Criador, não eu. E a Shmita ensina o mesmo com a terra – é dEle, não é minha. A Shemita equilibra a arrogância.

Mas o Yovel é uma mitsvá de um tipo totalmente diferente. E apresenta-nos a abordagem económica radical da Torá: proteção aos mais desfavorecidos.

Em Yovel, os escravos ficam livres e a terra volta à sua ordem original. Esta é a versão de «falência» da Torá. Vamos começar de novo. A cada 50 anos, a terra, que é a principal fonte de subsistência de uma sociedade agrária, começa de novo. Se uma pessoa precisou de vender o seu campo foi só porque estava com problemas financeiros. Mais ainda o escravo – ele estava realmente em apuros. Ambos começam de novo.

É esta teoria económica de proteção aos desfavorecidos que se desenvolve no resto da parashá.

2ª aliá (25:14-18) Ao venderes a tua terra, não abuses do comprador, por saberes que a terra retornará para ti no 50º ano. Vendê-a proporcionalmente aos anos que o comprador terá até ao Yovel. Manter estas leis permitir-vos-á estarem seguros na terra.

O comércio deve ser sempre justo. O alerta permanente ao consumidor não é a atitude da Torá. Caso o comprador não saiba que o Yovel é daqui a 3 anos, não venda por um preço que seria para 40 anos de uso. A segurança na terra depende não apenas da tua lealdade a D’us, mas também de uma prática comercial justa.

3ª aliá (25:19-24) Não te preocupes por poderes não ter o suficiente para comer se a terra descansar; Eu vou providenciar. Que a terra não seja vendida permanentemente, pois a terra é Minha, e vós sois apenas passageiros nela.

Não vamos ao extremo de esperarmos que a comida caia do céu. Precisamos de trabalhar para ganhar o almoço. Mas a bênção divina chega, se fizermos o correto. Descansa na Shemita depois de trabalhar por 6 anos, e Ele proverá. Lembramos isso com as nossas 2 challot em Shabat: no dia em que não trabalhamos, temos uma porção dupla. Descansa quando ordenado – bênção dupla.

4ª aliá (25:25-28) Se alguém ficar necessitado e vender o seu campo, resgata-o. O vendedor também pode resgatá-lo de acordo com os anos restantes até este lhe ser devolvido no Yovel.

Esta seção inicia o desenvolvimento da teoria econômica da intervenção. Quando as pessoas estão com problemas, ajuda-as. A venda de um campo não pode terminar bem. Significa perder o trabalho. Numa sociedade agrária, o que fará para viver este antigo proprietário de terras? Este é o início de uma espiral descendente. Resgata o seu campo; recupera-o para ele, para que possa ganhar a vida. Isto é como diz o Talmude: a forma mais alta de tzedaka é dar a uma pessoa um trabalho. Redimir o campo é devolver-lhe a vida.

A Torá está a legislar a intervenção. Não podemos dizer: ah, isso é problema dele. Ele meteu-se em problemas; ele que saia sozinho. Não é da minha conta.

É o paralelo financeiro de “não fiques indiferente perante o sangue do teu próximo”. A Torá não permite que sejamos espectadores inocentes, não nos envolvendo. Se a vida de alguém está em perigo, somos obrigados a intervir. E na nossa parashá, se as finanças de alguém estão em colapso, somos obrigados a intervir.

Mas a conexão familiar também é percetível. Devemos intervir para ajudar a nossa família. Há uma responsabilidade maior para os membros da família do que para os outros. A caridade começa em casa.

5ª aliá (25:29-38) Uma casa numa cidade também pode ser redimida se for vendida, mas apenas no primeiro ano. Depois disso, a venda é permanente. As casas em cidades abertas sã o consideradas como campos; podem ser resgatadas e regressam no Yovel. As cidades dos Leviim, mesmo que muradas, podem sempre ser resgatadas e também regressam no Yovel. Quando alguém precisar, ajuda-o. Não cobres juros; dá-lhe vida. Eu sou De’s que te tirou do Egito para te dar esta terra e para ser o teu De’s.

O Talmude salienta que a progressão das histórias que a Torá apresenta aqui é de mal a pior. Uma pessoa que se vê obrigada à venda de um campo devido à pobreza. Depois, a venda de uma casa. Depois, a necessidade de um empréstimo. E na próxima aliá, ser vendido como escravo. A tsedaka mais barata é a primeira: recuperar o campo, evitando todo este colapso.

6ª aliá (25:39-46) Se alguém te for vendido como escravo, não o oprimas. Trata-o como um trabalhador. E ele sai em liberdade no ano do Yovel. Porque vós sois meus servos. Escravos comprados às nações circundantes são como propriedade que passa de geração em geração.

A escravidão deixa-nos desconfortáveis ​​porque conhecemos os abusos da escravidão e sua humilhação da dignidade humana. Mas a Torá permite a escravidão. Acho que temos que ver a escravidão dentro do contexto da abordagem económica da Torá: a ajuda aos desfavorecidos depende dos indivíduos. Não há nenhum sistema de bem-estar do governo. A nossa generosidade moderna expressa em elaborados sistemas de bem-estar social é um desenvolvimento muito recente. A Torá não coloca o cuidado dos desfavorecidos nos ombros do governo, mas sim nos ombros generosos do nosso povo. Como tal, pode haver circunstâncias em que a situação financeira seja tão terrível que a escravidão seja a melhor opção. Está muito além do âmbito deste texto apresentar as elaboradas leis de escravidão desenvolvidas no Talmud, mas a escravidão judaica tem muitas leis generosas. E pelo menos para o escravo há esperança: liberdade no Yovel.

7ª aliá (25:47-26:2) Se um judeu for vendido a um não-judeu, um parente o redimirá, porque o povo judeu são Meus servos, os Meus servos que redimi do Egito. Numa bela expressão de Imitatio Dei, imitando os caminhos de D’us, temos que ser como Ele era no Egito. Ele tirou-nos do Egito; nós também devemos tirar os nossos parentes da escravidão.

Parasha da Semana – Emor

Parasha da Semana – Emor

Parashat Emor

Pelo rabino Reuven Tradburks

1ª aliá (Vayikra 21:1-15) Os Cohanim não estão autorizados a entrar em contacto com mortos, exceto se forem da sua família nuclear. Também não podem adotar práticas de luto não judaicas, como rapar a cabeça ou a barba ou fazer cortes no corpo. Porque os Cohanim têm que ser sagrados para De’s, já que são os Seus servidores da linha da frente. Não podem casar com uma divorciada. Deves santificá-los. O Cohen Gadol não deve tornar-se tameh de forma alguma, pois é ungido. Não pode casar com uma divorciada ou uma viúva.

O tema dominante do livro de Vayikra é a santidade. Santidade na Torá significa raridade. Quanto mais perto de De’s, mais raro, mais santo. Mas isso tem um preço: a santidade, essa proximidade com De’s, acarreta maiores restrições. Não é de admirar que os Cohanim, aqueles que são encarregados de apresentar as oferendas, a abordagem do Homem ao Divino, tenham regras únicas para a sua conduta pessoal. Mas porque a santidade, a proximidade com De’s, requer mais restrições?

No encontro entre De’s e o Homem, o Homem precisa de ser reticente. Cuidadoso. O fato de o Homem, finito, se aproximar de De’s, infinito, convida à arrogância, ao orgulho, à presunção. Não queremos isso. Queremos aproximar-nos suavemente, humildemente. Com cuidado. A mensagem da santidade é que nos aproximemos com cuidado. As muitas regras do Mikdash refletem esta abordagem cuidadosa.

Os Cohanim, que apresentam as oferendas, também têm as suas regras. Há restrições sobre com quem podem casar. Isto enquadra-se perfeitamente nas regras delineadas na parasha anterior sobre quem pode e quem não pode casar.

As primeiras 2 instruções que o Homem recebe no 6º dia da Criação são: ser frutífero e multiplicar-se. E comer vegetais e fruta. Relacionamentos e alimentação. As primeiras 2 instruções delineadas neste livro, que nos moldam a sermos santos são: kashrut e relações proibidas. A santidade existe nos limites da alimentação e das relações. Os Cohanim, que precisam de ser mais escrupulosamente santos, têm as suas próprias regras aqui no que diz respeito às suas relações.

2ª aliá (21:16-22:16) O Cohen que tiver um defeito não pode servir no Mikdash. Isto inclui ser cego, coxo, ter um membro partido, problemas oculares e outros. Pode consumir itens sagrados, mas não realizar o serviço. Um Cohen não pode servir enquanto tameh, porque isto profana o sagrado. Enquanto que um não-Cohen não pode consumir o sagrado (Teruma), aqueles que fazem parte da casa do Cohen podem. A sua filha, antes do casamento, ou depois, se não tiver filhos, faz parte da sua casa, e pode consumir o sagrado. O sagrado é profanado quando consumido por outros.

Um cohen com algum defeito não pode servir no Mikdash. E um cohen tamei não pode consumir coisas sagradas; nem oferendas nem Teruma. A Teruma pode ser consumida por qualquer membro da sua família. Mas só se estiverem num estado de pureza. Hoje, assume-se que todos os Cohanim estão num estado de impureza e, portanto, não podem consumir Teruma. No entanto, podem queimá-la. Se uma pessoa tiver uma oliveira e quiser dar teruma a um verdadeiro Sr. Cohen, então a Sra. Cohen pode usar esse azeite que lhes foi entregue como Teruma para acender as suas velas de shabbat. Com o nosso regresso a Eretz Yisrael, muitas velas de shabbat de Cohanim por todo o país estão sendo acesas com azeite de Teruma.

3ª aliá (22:17-33) Uma oferenda animal não pode ter defeito. Isto inclui ser cego, coxo, ter um membro partido, problemas oculares e outros. Isto aplica-se também à oferenda de um não-judeu. Um animal com defeito não é agradável. As oferendas devem ter pelo menos 8 dias de idade. Mãe e filhote não podem ser abatidos no mesmo dia. As oferendas não podem ser comidas após o 2º dia. Não profaneis o Meu nome, mas sim santificai-Me entre vós.

O Cohen precisa de ser imaculado; a oferenda também. Um não-judeu pode trazer uma oferenda ao nosso Mikdash, mas sob as nossas condições, não sob as dele. Deve cumprir o rigor dos nossos padrões de oferendas.

A conclusão desta parte diz que seguir estas regras Me santifica, enquanto oferendas inadequadas Me profanam. Mas neste comentário bastante inócuo está presente a mitzvá de Kiddush Hashem e também o Hillul Hashem. As ações feitas por mim (sim, euzinho!) podem fazer com que o nome de De’s seja profanado, Hillul Hashem, ou santificado, Kiddush Hashem. Embora haja muitos detalhes de Santidade nas oferendas, as nossas ações diárias dão-nos uma oportunidade ainda maior para a Santidade. A Santidade do Nome de De’s paira sobre todas as nossas ações. Que responsabilidade pesada. E que oportunidade maravilhosa.

4ª aliá (23:1-22) Estes são os dias sagrados: 6 dias de trabalho, ao 7º dia é Shabbat. Pesach é no dia 14 do 1º mês; durante 7 dias comereis matza. O primeiro dia é sagrado, tal como o 7º. Não devereis fazer neles nenhuma melacha. A oferta do omer de cevada recém-colhida é trazida no dia seguinte ao primeiro dia sagrado de Pesach. É ela que permite o consumo de cereais novos. Contai 7 semanas completas e no dia 50 trazei uma oferta de trigo novo como chametz assado. Esse dia (Shavuot) será um dia sagrado no qual não será feita nenhuma melacha. Ao fazerdes a vossa colheita, deixai os cantos do terreno e os produtos que tiverem sido deixados cair para os pobres e para os estrangeiros.

Somos apresentados à santidade do tempo. A santidade da proximidade a De’s foi expressa na santidade do espaço, o Mishkan. E através da alimentação e das relações, somos santos. E os Cohanim têm santidade. Mas o tempo também a tem. O Shabbat e os feriados são encontros com De’s; não só num determinado lugar, mas também num determinado momento. Rav Soloveitchik salientava que temos Kabbalat Shabbat, mas não temos Kabbalat Yom Tov. Porque o encontro muda de anfitrião. Em Yom Tov há uma mitzvah de aliá l’regel, peregrinação. Visitamo-Lo em Sua casa. No Shabbat, Ele visita-nos em nossa casa. No Shabbat damos-Lhe as boas-vindas a nossa casa, daí o Kabbalat Shabbat – mais precisamente, damos as boas-vindas à Shechina. Quando é a nossa vez de receber (ou seja, o Shabbat), damos as boas-vindas ao nosso convidado, a Shechina, em nossa casa, através de Kabbalat Shabbat.

O Shabbat é mais do que um maravilhoso dia livre, com tempo de qualidade com família e amigos. É um dia sagrado; um encontro com a Shechina, um dia em que convidamos a Shechina a juntar-Se connosco em nossa casa.

5ª aliá (23:23-32) O primeiro dia do 7º mês (Rosh Hashana) é uma lembrança da truah. Nenhum trabalho será feito. O 10º dia (Yom Kippur) é um dia sagrado para afligirmos as nossas alma, pois é um dia de expiação. Nenhum trabalho será feito. De uma noite até à outra.

Rosh Hashana e Yom Kippur não são festas de peregrinação. Veremos na Parshat Pinchas que as suas oferendas não são as mesmas que nas 3 regalim. Mas partilham a restrição de trabalho com todos os outros feriados. Quer o encontro seja alegre ou introspetivo, o tempo sagrado é marcado pela restrição de trabalho. O trabalho e a sua realização, embora valiosos, são equilibrados pela pausa nos mesmos. As nossas vidas não devem ser consumidas pelo nosso trabalho; no Shabbat e nos feriados recuperamos o sentido da própria vida, independentemente do trabalho. É o encontro com De’s nesses dias que dá sentido à vida.

6ª aliá (23:33-44) O dia 15 do 7º mês começa a festa de 7 dias de Sukkot. O primeiro dia é sagrado, nenhum trabalho será feito. O 8º dia é sagrado, nenhum trabalho será feito. Estes são os dias sagrados, cada um com as suas oferendas, além das oferendas do Shabbat e as voluntárias. E além disso, no dia 15 do 7º mês, pega num Lulav e num Etrog e alegra-te perante De’s por 7 dias. Habita em Sukkot para que saibas que os judeus habitaram em Sukkot durante o Êxodo.

Depois de todas as festas terem sido delineadas e resumidas, a Torá volta para trás e diz para tomarmos o Lulav por 7 dias e regozijarmo-nos. Parece que o Lulav é a expressão de apreço no final do ciclo de festas que começou em Pesach. Que sorte que temos em desfrutar dos nossos dias especiais. Daí que abanemos o Lulav em Hallel, a oração de apreço pelo nosso ciclo de festas durante sukkot, a ultima das festas do ciclo.

7ª aliá (24:1-23) Tragam azeite para uma lâmpada permanente na Menorah, situada fora do Santo dos Santos. Assa 12 pães para serem colocados em 2 grupos de 6 no Shulchan a cada Shabbat. Os Cohanim devem comer este pão sagrado no Mikdash. Dois homens lutaram. O judeu amaldiçoou De’s. Foi detido até que a sua sentença fosse determinada por De’s. Será apedrejado. Estes crimes são puníveis com a morte: amaldiçoar De’s e assassinato. Outros têm sanções financeiras: danos materiais e agressão corporal.

Azeite, farinha e vinho são elementos em destaque no Mikdash. Azeite na Menorá. Pão no Shulchan. As oferendas das festas são acompanhadas de azeite, farinha e vinho. É curioso que cada um deles seja processado por seres humanos. Nenhum deles surge naturalmente. Azeitonas, trigo e uvas são os produtos naturais. Quando processados ​​tornam-se azeite, farinha e vinho. Servimos ao Criador com criatividade humana, especificamente com elementos processadas por mãos humanas.

O tema da pena de morte na Torá é um tema pesado. Mas certamente, o castigo pela morte do blasfemo é dizer-nos que o significado da nossa vida, o seu propósito, é santificar a De’s através do nosso comportamento. Amaldiçoá-Lo drena a nossa vida do seu propósito.

 

 

Parashá da Semana – Metzorá

Parashá da Semana – Metzorá

1ª aliá (Vayikra 14:1-12) Purificação da Tzarat: Quando o Cohen determinar que a Tzarat da pele diminuiu, o metzora passa por um processo para poder entrar novamente no acampamento, embora não possa entrar no Mikdash durante mais 7 dias. São trazidas duas aves: uma é abatida e a outra é mergulhada no seu sangue, juntamente com madeira de cedro, um fio vermelho e hissopo. O sangue e a água são salpicados no metzora. A ave viva é libertada. O metzora faz a imersão. No 8º dia: No oitavo dia, o seu cabelo é rapado, faz a imersão e traz oferendas. O processo de purificação do metzora tem duas etapas: A primeira etapa é efetuada fora do acampamento ou cidade. Depois de 7 dias, é efetuado um segundo processo no 8º dia, que vai ser descrito na próxima aliá.

O processo de purificação do metzora é único. Tem três elementos inusuais: 1) são levadas duas aves para fora da cidade, sendo uma abatida e a outra libertada. 2) São utilizados hissopo, um fio e madeira, juntamente com a ave, para salpicar o metzora para o purificar. 3) No 8º dia, são colocados sangue e azeite na orelha, no polegar e no dedo grande do pé do metzora.

Cada um destes elementos encontra-se também noutro sítio. Yom Kippur, Para Aduma (o bezerro vermelho) e a consagração dos cohanim.

  1. As duas aves, uma oferecida e a outra libertada – é o Yom Kippur. Duas cabras, uma oferecida e outra libertada no deserto. As cabras são instrumentos de expiação, kapara.
  2. O hissopo utilizado para aspergir a pessoa – é a Para Aduma, a purificação de uma pessoa depois desta ter tido contacto com mortos. A aspersão é o instrumento da purificação, tahara.
  3. A colocação de azeite na orelha, polegar e dedo do pé era o instrumento da consagração dos cohanim, alcançar santidade, kedusha.

A purificação do Metzora é a kapara de Yom Kippur, a tahara de Para Aduma e a kedusha da inauguração dos Cohanim. Kapara, Tahara e Kedusha; expiação, purificação, santidade.

O Metzora é a tuma mais dramática. Ele é enviado para fora do acampamento inteiramente. A sua reentrada no acampamento e depois no Mikdash também é a mais dramática: contém elementos de kapara (expiação) do Yom Kippur, elementos de tahara (pureza) de Para Aduma e elementos de kedusha (santidade) da consagração.

Temos uma noção de tuma que temos vindo a desenvolver. O Mikdash é o encontro do homem com a Shechina. O Divino convida-nos a este encontro. Somos convidados devido à visão de D’us sobre o Homem como nobre, digno. Digno do convite.

A Tuma é o encontro do Homem com situações da vida que ferem o nosso sentido de nobreza e dignidade. Encontros com a nossa mortalidade, a nossa corporalidade material grosseira, a parte da nossa vida que partilhamos com todo o mundo animal. Isso inclui a morte, a doença, a procriação, a alimentação. A nossa nobreza reside na nossa singularidade humana, na nossa comunicação, na nossa natureza social.

A dignidade e nobreza do Metzora é ferida pela natureza pública das lesões ou descolorações na sua pele. O seu caráter de nobreza é ainda mais prejudicado pela necessidade de isolamento, pela perda de interação social. Um duplo golpe na sua dignidade: a vergonha das suas manchas visíveis na pele e a sua necessidade de se isolar socialmente.

Para recuperar a sua dignidade, ele precisa de kapara e tahara, dois processos de renovação, de limpeza divina. A Kapara e a Tahara são sinais Divinos para nós do favor Divino. O amor Divino pelo Homem expressa-se na Sua vontade de se aproximar de nós, de nos perdoar, de limpar o passado. A Kapara e a Tahara são o encorajamento ao Homem por parte de D’us.

2ª aliá (14:13-20) É trazida a oferenda: o seu sangue é colocado na orelha direita, polegar e dedo grande do pé do Metzora. O azeite é salpicado na frente da cortina e colocado na orelha direita, polegar, dedo grande do pé e cabeça do Metzora. Com estes elementos, o Cohen forneceu kapara para o Metzora e ele torna-se tahor.

A inusitada colocação de sangue e azeite na orelha, polegar e dedo do pé são elementos emprestados da inauguração dos Cohanim, a entrada em Kedusha. O Metzora está a ser equiparado ou pelo menos associado à santidade dos Cohanim. Ao fazê-lo, afirma-se que todos nós somos dotados de santidade, que o nosso propósito é elevado. O Metzora emerge do seu elaborado processo de tahara tendo afirmado novamente a posição digna e elevada do Homem, amado pelo seu Criador, dotado de kedusha. Neste estado recém-afirmado, ele pode encontrar-se novamente no Mikdash, como o ser digno que foi convidado pela Shechina.

3ª aliá (14:21-32) A alternativa menos dispendiosa: Se uma pessoa não puder pagar as oferendas que são trazidas no 8º dia, é oferecida uma alternativa menos dispendiosa, incluindo aves em vez de uma das oferendas animais. Faz-se então o processo descrito acima para obter kapara e tahara para o metzora.

4ª aliá (14:33-53) Na terra de Israel, as casas também estarão sujeitas a Tzarat. Os Cohen examinarão as marcas. Se for declarado que é Tzarat, tudo o que está em casa torna-se tamei, portanto, tudo tem que ser removido antes da declaração do Cohen. Se as marcas se espalharem nos 7 dias seguintes, o Cohen ordenará que algumas pedras sejam retiradas e substituídas. Se a propagação persistir, o Cohen pode ordenar a demolição da casa. Se o Cohen declarar a casa tahor, tomam-se 2 aves, uma é abatida e a outra é mergulhada no seu sangue com madeira de cedro, um fio carmesim e hissopo. Liberta-se a ave.

Uma pessoa pode se tornar tamei por estar numa casa com Tzarat. Temos argumentado que a entrada no Mikdash exige que uma pessoa reconheça a sua nobre posição na vida. Mas a vida pode prejudicar a nossa nobreza, fazendo com que a subestimemos. Mas também podemos ter nascido «em berço de ouro», o que pode empolar demasiado a nossa autopercepção. Somos nobres, mas não em virtude do que temos e sim em virtude do que somos. As nossas casas podem ser a fonte não de dignidade diminuída, mas de arrogância.

Nós, que vivemos nesta geração, sabemos muito bem como a enorme abundância em que vivemos nestes nossos tempos pode distorcer a qualidade da nossa autoperceção. A dignidade do Homem não reside na grandiosidade da sua casa, mas na grandiosidade da sua pessoa. Aparece uma erupção na casa se esta tiver causado uma inflamação na autoestima do dono, transformando essa autoestima em arrogância.

5ª aliá (14:54-15:15) Um Zav: um homem que tem uma descarga incomum do seu órgão de procriação. Ele torna os outros tamei e requer um processo de purificação de 2 oferendas de aves no final de 7 dias.

6ª aliá (15:16-28) Uma descarga sexual normal de um homem causa um nível baixo de tuma.

Nida: O sangramento menstrual regular de uma mulher torna-a temeya durante 7 dias, transferindo a sua tuma para outros, incluindo através do toque. Zava: Uma mulher que tem um sangramento fora do seu período regular é uma Zava, uma Tuma semelhante ao Zav masculino. Ela conta 7 dias antes de se tornar tahor.

A procriação também pode levar a uma autoimagem inflacionada: a Criação não é apenas Sua, também é nossa. Ele dá vida; também nós damos vida. A autoimagem saudável da nossa dignidade e majestade pode ser danificada pela nossa fisicalidade em ambas as direções: diminuída ou aumentada. Uma visão demasiado baixa (que não passamos de animais), ou demasiado alta, vendo-nos como criadores, deixando menos espaço para o Criador.

Talvez estas leis, relacionadas a anomalias nos órgãos de procriação, estejam relacionadas à possibilidade ou talvez à tendência dos seres humanos de terem visões empoladas de si mesmos como criadores, no lugar dO Criador.

7ª aliá (15:29-33) As oferendas são trazidas após a cessação desse sangramento incomum.

As leis de tuma e tahara não fazem parte do nosso mundo. As leis são complexas. A vida nos tempos do Mikdash, o mundo de tuma e tahara, seria irreconhecível para nós. Estaríamos perdidos nesse mundo, sem saber o que fazer. Temos vestígios – a lavagem das mãos antes do pão. E a lavagem das mãos no seder, antes do karpas. O seder é talvez o único momento em que realmente colocamos o pé no mundo de tuma e tahara, só um pouquinho, para nos transportar, mesmo que por um momento, para o mundo do Mikdash, o mundo de tuma e tahara.

Parasha da Semana – Tazriá e Parashat Hachodesh

Parasha da Semana – Tazriá e Parashat Hachodesh

Por: Rav Reuven Tradburks

As duas próximas parashiot, Tazria e Metzora, são um desafio. O seu tema é simples: a entrada no Mikdash é restrita para aqueles que são Tamei. Há uma série de situações que tornam uma pessoa Tamei. A remoção do estado de Tuma permite a reentrada no Mikdash. É-nos dito quem se torna Tamei e como se remove a Tuma.

A ideia de que a entrada no local mais sagrado tem que ter regras especiais faz sentido. O desafio é perceber porque é que estas pessoas específicas não podem entrar. E, especialmente, porque é que uma pessoa com tzarat, um tipo de lepra, não pode entrar. Mas vamos pelo menos tentar dar uma explicação para a compreensão do porquê destas pessoas se tornarem tamei, e do porquê de não poderem entrar no Mikdash.

Vou propor uma abordagem e tentarei mostrar onde se localiza ao longo das aliot. Penso que esta abordagem tem mérito, embora eu não tenha a certeza de que é esta a intenção da Torá.

O Mikdash é o lugar de encontro entre o Homem e De’s. A noção do Homem finito encontrar o Infinito é assustadora e humilhante. Mas é também grandiosa. Se Ele nos está a convidar para nos encontrarmos com Ele em Sua Casa, é porque Ele deve achar que somos dignos de nos encontrarmos com Ele. O Homem é digno de ser Seu parceiro. Porque o Homem é criado à Sua Imagem. O Homem é majestoso. Nobre. Elevado. Distinto. É único. De’s convida o majestoso e nobre Homem para ir a Sua Casa, ao Mikdash.

No entanto, apesar de Ele pensar em nós como majestosos, a vida às vezes faz-nos sentir menos que majestosos, não tão nobres e sim banais. As circunstâncias podem fazer-nos perder o sentido de nobreza, e podemos sentir-nos não elevados, mas sim simples plebeus. Em particular, no que diz respeito aos elementos que partilhamos com os animais: alimentação, procriação, doença, morte. Quando confrontados com as nossas limitações, com a fisicalidade que partilhamos com os animais, com a nossa mortalidade, podemos perder a noção da nossa nobreza. Podemos sentir-nos simplesmente como uns animais mais ilustres.

Este pode ser o significado da tuma. A tuma na nossa parsha é o que se chama tuma cuja fonte é o nosso próprio corpo: o parto, a tzarat (traduzido livremente como lepra), e as emissões de órgãos reprodutores. Estas partes tão terrenas do nosso ser podem danificar o nosso sentido de nobreza, fazendo-nos sentir mais próximos dos animais do que dos anjos. O Homem na sua nobreza é convidado a aproximar-se de De’s; O Homem, quando duvida da sua nobreza, precisa de ser restaurado antes de se aproximar de De’s. O processo de nos tornarmos Tahor é o processo de recuperação da nossa nobreza. Esta nobreza humana é necessária para o encontro com o Divino em Sua casa.

1ª aliá (Vayikra 12:1-13:5) O parto torna uma mulher tamei (tmeya). Uma criança do sexo masculino é circuncidada aos 8 dias. No final da tuma (40 dias para um menino, 80 dias para uma menina) a mãe mergulha [na mikve] e traz uma oferenda de uma olah e de um chatat. Depois pode então entrar no Mikdash. Tzarat: uma mancha branca na pele pode ser tzarat. Um cohen examina-a para ver se é de um branco específico e se os pelos nessa parte da pele são brancos. Se assim for, a pessoa é declarada Metzorah. Se os sinais não são os específicos, a pessoa fica de quarentena durante uma semana. A quarentena pode ser alargada por mais uma semana.

Um parto é uma ocasião alegre; no entanto, a mulher torna-se tmeya, o que impede a sua entrada no Mikdash. Ao longo do tema acima mencionado, as experiências que partilhamos com os animais podem prejudicar o nosso sentido da nobreza de sermos humanos. O parto, embora maravilhoso, é terreno. O carácter maravilhoso do parto pode ser ultrapassado por sentimentos opressivos da fisicalidade do parto e das primeiras etapas da maternidade. Para recuperar a nobreza superior da maternidade, a mulher traz oferendas como reinicialização, como uma reafirmação da vocação superior do ser humano.

2ª aliá (13:6-17) O cohen examina a pele passadas as duas semanas de quarentena, e, se a lesão não se tiver espalhado, a pessoa pode fazer a imersão e tornar-se tahor. Se se tiver espalhado, a tuma continua. Se a mancha branca na pele, com pelos brancos, tem pele saudável no meio, é tamei. Se cobrir o corpo inteiro, é tahor. Quando a pele saudável reaparece, a pessoa é tamei. O cohen declara o status de tamei ou tahor da tzarat.

A Tzarat tem muitos detalhes. Aparece sob a forma de colorações incomuns na pele. A pele é a parte visível do nosso corpo. De facto, se a mancha de tzarat estiver numa parte do corpo que o cohen não pode ver, não é tzarat; para se tzarat precisa de ser visível.  Uma pessoa com Tzarat torna-se auto-consciente; a Tzarat era um pouco embaraçosa. Uma das formas pelas quais a humanidade se distingue dos animais é pela sua natureza social. Estarmos conscientes da nossa aparência prejudica a nossa natureza social. Este dano ao nosso sentido de nobreza também exige um reinício sob a forma de uma cerimónia no fim da Tzarat, delineada na parasha da semana que vem.

3ª aliá (13:18-23) tzarat de pele branca com pelos brancos que aparece na pele que está a recuperar de uma ferida é tamei. Se o cohen não encontrar a coloração específica ou pelos, a pessoa fica de quarentena por 7 dias. Se se espalhar, é tamei. Senão, é tahor.

Todos os detalhes da tzarat estão contidos em um só longo capítulo, mas as quebras entre aliot são deliberadas. As aliot 2, 3, 4 e 5 terminam com um versículo que declara a pessoa tahor. Se temos a oportunidade de sermos positivos, foquemos nisso, não num versículo que declare a pessoa tamei. É interessante que às vezes fazemos o contrário: começamos por elogiar uma pessoa e depois começamos a criticá-la. E se fizéssemos o contrário? A última coisa a ser dita deveria ser a positiva, os elogios. Não nos foquemos no tamei; só no tahor.

4ª aliá (13:24-28) A Tzarat também pode ser encontrada na pele que sofreu uma queimadura. O Cohen avalia a natureza da descoloração, determinando se requer quarentena de 7 dias e reavaliação para determinar se é tamei ou tahor.

5ª aliá (13:29-39) A Tzarat também pode aparece na cabeça ou na barba, com perda de cabelo e descoloração. O cohen avalia a disseminação da descoloração, para determinar se exige quarentena e se é tamei.

6ª aliá (13:40-54) Quando uma pessoa é declarada com tzarat, ela rasga as suas vestes, deixa o cabelo crescer, cobre-se até ao queixo e vai viver para fora do acampamento. Considera-se que as peças de vestuário que apresentem uma descoloração específica têm tzarat de vestuário. O Cohen avalia a cor e a forma, e coloca-as de quarentena se necessário.

Após a descrição detalhada de quando uma pessoa tem Tzarat e quando não tem, são descritas as consequência da Tzarat. A pessoa age como o faria um enlutado: roupa rasgada, cabelo crescido, cabeça coberta (uma prática que os enlutados geralmente já não observam). Mas o mais dramático: fica isolada da área povoada. Este isolamento é uma das coisas que suscita o comentário midráshico de que a Tzarat é para o lashon hara – o castigo encaixa na transgressão. Se não consegues tratar os outros com respeito, então vais passar algum tempo sozinho.

Ou, de acordo com a minha abordagem acima descrita: a proximidade com De’s exige que demonstremos a nobreza do Homem. A Tzarat, uma descoloração embaraçosa que nos faz sentir envergonhados, diminui o nosso sentido de nós mesmos. O isolamento permite-nos refletir sobre o nosso próprio valor. A autoestima não tem nada a ver com o nosso aspeto para os outros, se a nossa pele está bonita ou se o nosso vestido nos fica bem. A autoestima é intrínseca; temos autoestima simplesmente porque somos criados à imagem de De’s.

7ª aliá (13:55-59) Se ficar determinado que tem tzarat, a peça de roupa é queimada. Os regulamentos da tuma do vestuário chegam ao fim.

O vestuário também é unicamente humano. Os animais não usam roupa. O vestuário é uma expressão da dignidade humana. A tumah de uma peça de roupa proíbe a pessoa de entrar no Mikdash; a dignidade humana é dominuída por essa peça de roupa estranhamente manchada.

A teoria que oferecemos nesta parashá é que a tuma e a tahara restringem as pessoas de entrar no Mikdash, pois são momentos em que a dignidade e a singularidade humanas são maculadas. D’us convida o majestoso e digno Homem ao Mikdash. Apesar de partilharmos alguns aspetos da vida com os animais – alimentação, procriação, doença e morte – somos muito mais gloriosos do que os animais. E a singularidade do homem manifesta-se na plenitude das suas interações sociais e na dignidade da sua vestimenta, ambas ausentes do mundo animal (a natureza social de alguns animais não alcança a riqueza da sociedade humana com a sua comunicação e a robustez e sofisticação da estrutura das cidades, negócios e educação). A majestade do convite ao homem para se encontrar com D’us no Mikdash exige a mais plena dignidade e majestade do homem. Quando essa dignidade é ferida pelo confronto com a nossa natureza terrena, animal, ou por lesão à dignidade da nossa singularidade na sociedade e nas roupas, precisamos de reafirmar a nossa majestade através de purificação e oferendas. Isso talvez possa dar sentido às leis de tuma e tahara.

Parshat HaChodesh (Shmot 12:1-20)

A última das 4 parshiot especiais lidas antes de Purim e Pessach é a Parshat Hachodesh. São as instruções para a oferenda de Pessach para a noite do seder. A oferta de Pessach é única. É a única oferta exigida de cada pessoa, todos os anos. E embora fosse uma oferenda, era consumida inteiramente pelo dono – e cada pessoa precisava de se inscrever num Pessach. E era trazida no primeiro mês, um dia antes do primeiro feriado. Como tal, parece ser uma afirmação anual por cada pessoa da essência do judeu. Estou a consumir a Tua oferenda. Somos o que comemos. Portanto, somos oferendas sagradas. As nossas vidas são dedicadas a D’us e à missão sagrada do povo judeu, pois somos parceiros na grande aventura do povo judeu.