Parashá da Semana – Mishpatim

Parashá da Semana – Mishpatim

Parashá Mishpatim

Por: Rav Reuven Tradburks

Começamos uma nova era na Torá: a era das Mitzvot. Nos primeiros 86 versos da Parasha, há 51 mitsvot. A maior parte da parashá são mitzvot de direito civil. O final da parashá retoma a narrativa, descrevendo a iminente entrada na terra de Israel. Moshe sobe a montanha para receber as tábuas.

Para dar alguma estrutura a essas 51 mitsvot, introduzi cada seção com um título em negrito, indicando o tópico das leis que se seguem.

1ª aliá (21:1-19) E estas são as leis nas quais deves instruí-los. As leis dos escravos: os escravos judeus ficam livres depois de trabalhar 6 anos. Se quiserem, podem estender a escravidão permanentemente. O proprietário ou seu filho podem casar com uma escrava. Se optarem por não o fazer, ela fica livre quando chegar à puberdade. A agressão física que resultar em morte é punível com a morte; tal como agredir o pai ou a mãe, sequestrar, amaldiçoar o pai ou a mãe. Para agressão corporal que não resultar em morte, é feito um pagamento por danos, desemprego e despesas médicas.

A Parasha da semana passada terminou com a experiência máxima da revelação no Sinai – e o medo do povo ao ouvir a voz de D’us. Que contraste, ter as leis sobre a escravidão e agressão imediatamente a seguir a isso. Rashi ressalta que a primeira palavra da parashá tem um “vav”, “E estas são as leis”. Embora para nós esta seja uma nova parashá, na Torá é a continuação da narrativa do Monte Sinai. Temos que fazer a pergunta óbvia: de que maneira todas estas leis civis estão relacionadas com a narrativa?

A longa permanência no Egito teve vários propósitos: 1) permitir que todo o povo judeu passasse pela experiência da Mão de D’us na História, 2) permitir que todo o povo judeu passasse pela revelação no Sinai e 3) ensinar ao povo judeu que tipo de sociedade eles não devem querer imitar. Estamos a caminhar para uma nova vida, uma sociedade judaica na terra de Israel. Não estamos apenas a deixar o Egito; temos um destino. Mas, essa sociedade que vamos construir – não a façam como a do Egito. Deixem a sociedade egípcia para trás. A nossa sociedade judaica não deve ser em nada como aquela: estamos a construir uma sociedade anti-Egito. Deixem para trás o seu abuso de escravos, o seu desprezo irreverente pela vida humana (bebés no rio), o seu uso excessivo de força física (o capataz).

A nossa sociedade judaica respeitará a vida, respeitará os outros, delineará o respeito pela propriedade dos outros e construirá uma sociedade de bondade e justiça. Então, a esse respeito, faz todo o sentido começar a descrição da sociedade judaica com as mesmas coisas em que a sociedade egípcia falhou: escravidão, agressão física, violação de propriedade.

2ª aliá (21:20-22:3) Agressões físicas que resultam em pagamento financeiro: agressão a escravos ou a uma mulher grávida resultando em perda da gravidez. A agressão a um escravo que resultar na perda de um olho ou dente concede ao escravo a sua liberdade. Danos causados ​​pelos meus bens ou ações: um boi a marrar resultando na morte de uma pessoa, a morte de um animal como resultado de um buraco escavado por mim, ou como resultado do meu boi marrar outro. O roubo e venda ou abate de animais exige a restituição de 4 ou 5 vezes o valor da perda. No furto clandestino, se o ladrão for morto, considera-se que quem o matou agiu em legítima defesa. A punição para o roubo é o dobro do objeto roubado.

Além do respeito pela dignidade dos outros, a nossa sociedade deve ser justa. O tópico desta aliá não é bois a marrar em bois; são as pessoas que assumem a responsabilidade pelas suas propriedades. Se a minha propriedade danificar a sua, eu assumo total responsabilidade. Pessoas a respeitar a propriedade dos outros.

3ª aliá (22:4-25) Bons vizinhos: danos na sua propriedade devem ser compensados ​​se causados ​​pelos meus animais de pasto ou por um fogo ateado por mim na minha propriedade; leis de compensação por perda de propriedade sua enquanto estiver a ser guardada por mim ou me tiver sido emprestada. Leis sobre uma pessoa se aproveitar de outra: seduzir uma mulher solteira, os feiticeiros são mortos. Se alguém oprimir o estrangeiro, a viúva ou o órfão e eles clamarem a Mim, as vossas esposas serão viúvas e os vossos filhos órfãos.

Voltando ao tema da rejeição das normas do Egito, a superpotência: o poder não concede privilégio. Existem pessoas com poder. E pessoas sem. O estrangeiro, a viúva e o órfão não têm poder – estão sozinhos, sem ninguém para defender a sua causa. Não te aproveites da falta de poder deles. Eu, diz D’us, sou o Defensor daqueles que não têm poder. Eles podem não ter a quem recorrer. Mas, eles sempre Me terão a Mim. Tu, com poder, que te aproveitas de quem não o tem, tu, terás que lidar Comigo.

4ª aliá (22:26–23:5) Bons cidadãos: não amaldiçoar juízes ou governantes, não adiar obrigações, nem se aliar a trapaceiros para perverter a justiça, nem seguir más companhias em disputas. Vizinhos prestáveis: devolve os animais perdidos, ajuda a aliviar a carga de um animal sobrecarregado, até mesmo se for do teu inimigo.

O desequilíbrio de poder do Egito que gerou ressentimento dos que estão no poder não é para nós. Nós somos eles – respeita os que estão no poder, pois eles estão lá para nos servir. A nossa sociedade deve ser cooperativa para o bem de todos nós. E melhorar a vida dos outros não é responsabilidade exclusiva do governo: todos nós podemos melhorar a vida dos outros – tendo a iniciativa de devolver itens perdidos, ou aliviando o fardo dos outros.

5ª aliá (23:6-19) Justiça: não pervertas a justiça – a dos pobres e fracos, através de mentiras e subornos, e a do estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros no Egito. Os limites do Homem no mundo de D’us: trabalha a terra 6 anos, deixa-a para os pobres no 7º. Trabalha 6 dias, permite descanso aos teus trabalhadores no dia 7. Cumpre as 3 festas de peregrinação: Pessach, Shavuot, Sucot. Não apareças de mãos vazias.

Esta lista detalhada do que chamaríamos de direito civil termina com Shmita, Shabat e os feriados. A raiz de uma sociedade judaica é a realização saudável dos limites do Homem e a nossa parceria com D’us. Nós trabalhamos; mas a terra é dEle. Empregamos trabalhadores; mas todos nós somos servos Dele. A nossa agricultura é pontuada por feriados, de modo a temperar a nossa busca da riqueza pela riqueza com momentos para estar diante dEle.

6ª aliá (23:20-25) Viagem à Terra: Enviarei o Meu anjo para vos guiar até à terra de Israel. A lealdade ao que eu digo garantirá o vosso sucesso na colonização da terra. Não adoreis ídolos lá; pelo contrário, servi a D’us e desfrutareis de bênçãos e saúde na terra.

A lista das mitsvot termina e a narrativa recomeça. Estamos a caminho da terra de Israel. Por que motivo a narrativa foi interrompida com as 51 mitzvot? Temos que nos lembrar de que nós conhecemos a história dos 40 anos no deserto. Mas eles não. Moshe foi informado por D’us de que Ele iria tirar o povo do Egito, trazê-lo para o Monte Sinai e trazê-lo para a terra de Israel. Até agora eles sairam do Egito e estiveram no Sinai; agora, estão prontos para caminhar para a terra de Israel. Na mente do povo, a lista das mitzvot que constituem uma sociedade justa e bondosa faz todo o sentido. Porque em apenas alguns meses eles estarão a estabelecer uma nova sociedade judaica na terra de Israel. Depois de ouvir essas mitzvot, eles agora sabem como será uma sociedade judaica – de acordo com essas leis boas e justas.

7ª aliá (23:26-24:18) Os vossos oponentes na terra recuarão. Eu farei com que eles saiam lentamente, ao longo do tempo, para que a terra não fique desolada quando chegardes. Não façais aliança com o povo da terra; eles não podem viver convosco para que vós não acabeis servindo os seus deuses. Moshe subiu à montanha e escreveu as palavras de D’us. Construiu um altar ao pé da montanha; foram trazidas oferendas. Ele leu as palavras da Aliança; o povo respondeu que cumpriria tudo. Foi aspergido sangue como pacto. Moshe ascendeu com Aharon, Nadav e Avihu e os 70 anciãos; eles viram safira, a pureza dos céus. D’us chamou Moshe até a montanha para lhe dar as luchot, a Torá e as Mitzvot. A nuvem de D’us estava na montanha, a visão de D’us era como um fogo consumidor. Moshe esteve lá 40 dias e 40 noites.

A última aliá de uma parasha recebe pouca atenção. Mas este último parágrafo? Safira, a visão da pureza dos céus, uma nuvem e fogo na montanha… Embora muitas vezes nos concentremos no conteúdo dos 10 mandamentos no Sinai, na Torá é dada muito mais atenção ao drama da experiência, tanto em Yitro, na semana passada, quanto nesta descrição. A experiência do Sinai é assustadora. As pessoas sentiram-se inseguras, assustadas, indignas, oprimidas, confusas. Queriam um D’us próximo e benevolente, mas podem muito bem ter pensando duas vezes ao ver o Seu poder e as implicações do que significa ter um D’us próximo.

Parashá da Semana – Ytro

Parashá da Semana – Ytro

Por: Rav Reuven Tradburks

Yitro junta-se a Moshe. Ele aconselha Moshe a delegar trabalho aos juízes. No Monte Sinai, D’us oferece ao povo judeu ser um povo precioso. Os Dez Mandamentos são dados no Sinai. Em resposta, o povo treme..

1ª aliá (18:1-12) Yitro, sogro de Moshe, comovido pelo êxodo do Egito, viaja ao encontro de Moshe, trazendo Tzippora e os 2 filhos. Moshe cumprimenta-os e conta tudo o que aconteceu. Yitro abençoa D’us, afirmando que agora sabe que D’us é grande, e faz-Lhe oferendas.

Rashi afirma que esta história de Yitro ocorre após a entrega da Torá – ou seja, a Torá tirou-a da sua cronologia adequada e colocou-a aqui. Provavelmente por um bom motivo. Porquê colocar essa história aqui?

Pode-se responder olhando para o que vem a seguir ou para o que acabou de acontecer. A história no final da Parasha da semana passada foi a guerra com Amaleque. Justaposto a Amaleque está Yitro. Há dois tipos diferentes de não-judeus que encontraremos na história; Amaleque e Yitro. Amaleque procura o nosso mal. Yitro procura o nosso D’us. Amaleque vê a nossa fraqueza. Yitro vê a nossa grandeza. Amaleque luta contra nós. Yitro faz uma connosco uma parceira.

2ª aliá (18:13-23) Yitro observa as pessoas de pé à espera o dia todo que Moshe as atenda . Yitro questiona isso. Moshe responde: o povo vem em busca de D’us; em busca de uma decisão; eu ensino-lhes as leis de D’us. Yitro critica Moshe. E sugere: Pergunta a D’us em nome deles. E ensina-lhes as leis de D’us. Mas, além disso, escolhe Juízes que possam julgar em teu lugar. Juízes que sejam homens íntegros, tementes a D’us, homens de verdade que abominem ganhos inapropriados.

Yitro dá bons conselhos a Moshe; delegar autoridade aos juízes. Mas, apesar de ele propor delegar autoridade, não sugere delegar autoridade nas outras funções de Moshe. Porque nessas Moshe é simplesmente insubstituível.

Moshe disse a Yitro que tem 3 funções: ajudar aqueles que buscam a D’us, julgar disputas e ensinar os mandamentos de D’us. Yitro diz-lhe: outros podem resolver disputas. Mas quanto a fazer perguntas a D’us e ao ensino dos Seus mandamentos, bem, quanto a isso, ninguém além de ti o pode fazer. Pois quando se trata de comunicar com D’us, tu és único, insubstituível.

Este diálogo apresenta um princípio fundamental da Torá: que D’us fala com Moshe de uma maneira que não fala, nem falará no futuro com nenhuma outra pessoa. Quando Moshe diz que as pessoas o procuram em busca de D’us, o que ele quer dizer é: eu tenho acesso a D’us. Ele fala comigo. (Falar com D’us não é nada de especial; especial é quando Ele responde!) Da mesma forma, quando Moshe diz que ensina as leis de D’us, o que ele quer dizer é que D’us lhe comunica essas leis a ele e a mais ninguém.

Este poderia muito bem ser o objetivo principal da história de Yitro, pois, na próxima história, a entrega da Torá, o mesmo tema da singularidade de Moshe como aquele com quem D’us fala é central.

3ª aliá (18:24-27) Moshe ouviu. Escolheu juízes, e passou a julgar apenas os casos mais difíceis. Moshe mandou Yitro para casa.

Só os líderes honestos aceitam sugestões para melhorar. Moshe mostra a sua honestidade e humildade: se a sugestão for boa, aceite-a. Assim como Yitro aceitou a notícia do Êxodo e afirmou a existência de Um D’us, Moshe também admite que poderia melhorar o seu sistema. Dois homens de honestidade e humildade.

4ª aliá (19:1-6) O povo acampou no deserto do Sinai, em frente à montanha. Moshe subiu a montanha. D’us disse-lhe: Diz ao povo: Se Me ouvirdes, guardardes a Minha Aliança, então sereis um reino de cohanim e uma nação santa. Diz isso ao povo judeu.

Esta curta aliá está cheia de significado: é o convite para um encontro íntimo. Toda a Torá até este ponto tem sido  D’us a aproximar-se do Homem. E aqui está o ponto culminante dessa aproximação. Semelhante a um abraço divino. D’us criou o mundo, um ato de desejo por um mundo. Ele criou o Homem. Ele estendeu a mão a Avraham, prometendo, sem lhe ter sido pedida, a terra de Israel. Mas Ele manteve a Sua distância. Até ao Egito, quando Se aproximou novamente para tirar o povo judeu da escravidão. Agora Ele diz a Moshe que está a atrair o povo judeu para perto de Si como os Seus mais próximos, como cohanim, aqueles que estão no Seu santuário interno.

5ª aliá (19:7-19) Moshe apresenta as palavras de D’us ao povo. O povo responde: tudo o que D’us disser, nós faremos. D’us diz: Eu virei a ti numa nuvem, para que o povo ouça que eu falo contigo. Prepara-os durante 3 dias, pois no 3º dia Eu descerei à vista de todo o povo. Ninguém deve tocar na montanha. Moshe preparou o povo. No terceiro dia houve relâmpagos e trovões, uma nuvem espessa e um forte som de shofar. O povo no acampamento estava com medo. Moshe trouxe o povo para a montanha. Estava tudo em fumo porque D’us desceu em fogo. A montanha tremeu. O shofar aumentou em força. Moshe falou; A voz de D’us emanou.

A revelação do Sinai é a culminação da aproximação de D’us ao homem. Ele promete, Ele redime-nos, e agora Ele fala, comunica.

E embora este momento seja um momento culminante na história do Homem, o que o povo realmente ouviu não é nada claro. A narrativa, sem os midrashim, parece relatar que o povo ouve D’us a falar com Moshe. Afinal, a comunicação divina com o Homem é avassaladora, inconsistente com o nosso ser finito. O povo está com medo – Moshe precisa de os persuadir. Depois, na aliá 7, as pessoas dizem a Moshe que não aguentam ouvir a voz de D’us ou morrerão.

É aqui que vemos realmente a singularidade de Moshe: o único capaz de ouvir a palavra de D’us e sobreviver. A Torá irá descrevê-lo como tal mais tarde – mais ninguém aguentaria “panim el panim”, a comunicação direta com D’us. A singularidade de Moshe não é como líder, legislador, rei, guerreiro, orador motivacional. A sua singularidade é como aquele que ouve as palavras de D’us, os Seus mandamentos, as Suas mitsvot, e é capaz de aguentar isso e sobreviver.

O propósito da revelação no Sinai é expor o povo à experiência, de perto, da comunicação de D’us a Moshe. Esta experiência irá reforçar para eles que D’us fala com Moshe, para que mais tarde eles aceitem os ensinamentos de Moshe como sendo de D’us. A revelação será avassaladora e levá-los-á a acreditar em D’us.

6ª aliya (19:20-20:14) D’us desceu sobre a montanha e chamou Moshe até a montanha. Avisou-o novamente para instruir o povo a não tocar na montanha, pois morreriam. Os Dez Mandamentos: Eu sou D’us, não tenhais ídolos diante de Mim, não useis o nome de D’us em vão, Shabat, honra os teus pais, não mates, não cometas adultério, roubo, falso testemunho, cobiça.

O Midrash aponta que os primeiros 2 mandamentos estão na 2ª pessoa, D’us a falar diretamente ao povo: Eu sou D’us. E o resto vem na 3ª pessoa, aparentemente Moshe a falar em nome de D’us sobre Ele: Não tomeis o Seu nome em vão. Isso é contrário ao que eu disse acima – que o povo não ouviu o conteúdo do que D’us disse, mas apenas O ouviram a falar com Moshe. O Midrash reconcilia isso afirmando que depois de ouvir os 2 primeiros mandamentos diretamente de D’us, o povo de facto morreu no local da experiência esmagadora da revelação. Depois voltaram à vida. A partir de então, Moshe falou em nome de D’us, pois o povo era simplesmente incapaz de resistir ao poder da experiência direta de D’us.

7ª aliá (20:15-23) O povo recuou ao ver os trovões e os relâmpagos, o som do shofar e a montanha fumegante. Eles disseram a Moshe: Deixa que D’us fale contigo, mas não connosco, pois não queremos morrer. Moshe assegurou-lhes que D’us veio para que eles O temessem. D’us ordenou: Vistes que Eu falei convosco do céu. Portanto, não tenhais outros deuses; em vez disso, fazei um altar.

2 símbolos permanecem na experiência do Sinai: o shofar e a nuvem. O shofar é a nossa maneira de recordar a Sua Presença; a nuvem é Sua maneira de indicar a Sua Presença. A partir de agora, quando a nuvem pairar sobre o Ohel Moed, é para indicar que a Presença de D’us está lá, falando com Moshe. Como a nuvem e o fumo do Monte Sinai.

E o shofar é nossa maneira de recordar a Sua Presença no Monte Sinai. Em Rosh Hashaná, quando devemos nos sentir especialmente próximos de D’us, recordamos o shofar do Sinai. A redenção final também é anunciada pelo Shofar Gadol. O shofar permanece como um símbolo da Presença íntima de D’us, como aconteceu no Monte Sinai.

Parashá da Semana – Beshalach

Parashá da Semana – Beshalach


Por: Rav Reuven Tradburks

O faraó persegue, o mar divide-se, o povo canta. O povo caminhou e reclamou por água em Mara, por pão e carne no Deserto de Sin e por água em Refidim. Amaleque atacou e foi derrotado.

1ª aliá (13:17-14:8) D’us guia os judeus na direção do Mar. Moshe leva os ossos de Yosef. Uma nuvem guia-os de dia, fogo de noite. D’us instrui-os a evitar a rota direta para a Terra de Israel, por medo de que o retorno ao Egito seja demasiado fácil. Em vez disso, acampai no mar para que o faraó se aperceba. Endurecerei o seu coração e ele perseguir-vos-á, para que o Egito saiba que Eu sou D’us. O faraó levou as suas carruagens de elite em perseguição dos hebreus.

A nossa parashá apresenta um novo capítulo na história do povo judeu: o capítulo da liberdade nacional. Uma nuvem pairou sobre o povo desde o momento em que foi dito a Avraham “o teu povo será afligido numa terra estrangeira por 400 anos”. 7 parashas completas, desde a venda de Yosef até agora, contaram a história dessa aflição.

Mas agora, com a liberdade, vem o desafio de viver. Ser um povo livre é um conceito maravilhoso, mas uma dura realidade. É quase mais fácil viver à espera da liberdade do que realmente ser livre.

Até D’us, Ele próprio, está preocupado com que o povo recue diante das incertezas da liberdade; desejarão o conforto das certezas da vida escrava. E vão querer voltar ao Egito. Por isso, Ele desvia-os para uma rota indireta.

2ª aliá (14:9-14) Quando o exército do faraó se aproxima, o povo fica com medo.  Clamam a D’us e dizem a Moshe: Porque nos tiraste do Egito para morrer no deserto? Teríamos preferido ser escravos no Egito do que morrer no deserto. Moshe diz-lhes para não temerem, pois estão prestes a ver a redenção de D’us.

O foco da Torá muda drasticamente. Houve 4 figuras principais nesta história: D’us, Moshe, o faraó e o povo judeu. Mas há uma que esteve ausente da maior parte da história: o povo judeu. Ouvimos muito pouco sobre o povo judeu em toda a história do Êxodo. Foi Moshe, sob a direção de D’us, que confrontou o faraó. Foi Moshe que recebeu as mitsvot antes da praga dos primogénitos. Tudo o que ouvimos dos judeus é que eles fizeram tudo o que D’us ordenou a respeito da oferta de pesach. Mesmo na dramática noite do Êxodo, quando o faraó ordenou que se fossem embora, ouvimos apenas que receberam ouro e prata e prepararam provisões, sem terem tido tempo para a massa crescer.

Onde estão a alegria e a celebração? E o medo, a preocupação, o medo do desconhecido, o medo da mudança, o medo da vulnerabilidade, o medo da vingança do faraó? E as emoções, os pensamentos do povo?

Tudo isso muda aqui. Agora ouvimos falar das suas lutas e das suas preocupações. Porque até aqui, a narrativa tem sido da perspectiva de D’us – para ensinar a lição da Mão de D’us no mundo. Agora o foco muda para os judeus. Aprendemos as Suas lições. Agora temos que vivê-las. E isso leva-nos ao medo, à alegria, à incerteza, à decepção e à vulnerabilidade – tudo o que torna as pessoas humanas.

3ª aliá (14:15-25) D’us instrui Moshe a levantar a mão para que o mar se divida. E informa que endurecerá o coração do Egito para De’s ser glorificado através do faraó e da sua comitiva. E o Egito saberá que Eu Sou D’us. Moshe assim o fez; o povo entrou no mar por terra seca, com a água a formar muros de ambos os lados. Os egípcios foram atrás; pela manhã ficaram presos no mar.

A divisão do mar renova o tema da água como símbolo de recomeço. Água em destaque na Criação, no berço de Moshe no rio e agora. Início do mundo, início do Êxodo e agora, início da vida nacional judaica. A vida nacional judaica começa com os judeus a entrar na água. Já não são apenas os Seus milagres; participamos como parceiros no Seu plano, dando aquele primeiro passo na água.

4ª aliya (14:26-15:26) A água voltou e afogou todos os egípcios. O povo judeu viu os egípcios mortos, viu a Mão de D’us, temeu a D’us, acreditando Nele e em Moshe. Moshe e o povo cantaram Az Yashir: “Cantarei para D’us, a minha força, o meu salvador, o meu D’us. Ele é D’us da Guerra, a Tua mão é poderosa, a Tua mão vence os inimigos. As nações temê-Lo-ão. D’us reinará para sempre.” Miriam liderou as mulheres na canção. Moshe conduziu o povo ao deserto, até Mara. O povo reclamou por água. D’us instruiu Moshe a lançar um pedaço de madeira para adoçar a água.

Na grande canção no mar, temos a emoção liberada. O povo canta. A redenção divina exige uma resposta humana. De fato, quando citamos o êxodo do Egito na nossa tefila, mencionamos sempre a Shira – as pessoas precisam de cantar quando são abençoadas com a redenção.

Aqui encontramos alegria, apreço, euforia e fé. E apesar de todo o povo cantar com Moshe, o poema, curiosamente, está na primeira pessoa do singular: eu canto, a minha força (em algumas traduções não se nota, mas  “Azi”, é a minha força, tudo no singular.) Isto é pessoal, individual – meu, não nosso. Todos cantámos a canção no mar; mas no singular. O meu D’us salvou-me.

Na verdade, embora eu esteja apenas a especular, esta poderia ser a fonte para a frase na Hagadá “Cada pessoa é obrigada a ver-se a si mesma como tendo deixado o Egito”. Se formos exatos ao contar a nossa história do Egito, devemos notar que cada pessoa, individualmente, cantou pessoalmente a canção no singular: O meu D’us salvou-me, o meu D’us travou a batalha. E assim, se quisermos contar a história do Egito com precisão no seder, também devemos sentir individualmente o nosso lugar nesta história, assim como cada judeu individual a sentiu naquela época.

5ª aliá (15:27-16:10) Eles viajaram para o deserto de Sin. Reclamaram: Ah, se tivéssemos permanecido no Egito com fartura de pão e carne. O maná foi fornecido pela manhã: Juntai o suficiente para um dia; na sexta-feira para 2 dias. D’us apareceu numa nuvem.

A série de reclamações inicia essa coisa complicada que é ser um povo. Por mais sublime que a liberdade seja, as preocupações humanas são muitas vezes mais imediatas. O povo reclama por água, pão, carne, e novamente água. Moshe fica exasperado.

A frustração de Moshe é destacada para enfatizar quem é o verdadeiro Líder aqui. Toda a história do Êxodo é a história da intervenção divina. Ele é que nos libertou; Moshe apenas levantou o cajado. Ele dividiu o mar; Moshe apenas levantou o cajado. E Ele cuida de nós; Moshe simplesmente bateu com o cajado na rocha. Não é a história de Moshe, o líder carismático, que conduz o seu povo à liberdade. É a história de D’us, usando o Seu fiel servo para levar o Seu povo à liberdade. E para cuidar deles.

6ª aliá (16:11-36) A carne chegará à noite. Cada pessoa deve colher maná diariamente para as suas necessidades. Algumas pessoas guardaram-no para o dia seguinte; estraga-se. E alguns foram recolher no Shabat. D’us questionou: Até quando resistireis a cumprir os Meus mandamentos? D’us deu-vos o Shabat, portanto dá-vos o dobro na sexta-feira. Aharon, pega numa porção de maná para a guardares para sempre. O povo judeu comeu o maná durante 40 anos.

O Shabat precede a entrega da Torá. A Mitzvá do Shabat é o 4º dos Dez Mandamentos. No entanto, aqui, ainda antes do Monte Sinai, está a noção de Shabat. Prepara na sexta-feira o que vais precisar. Recolhe em dobro na sexta-feira. Não recolhas no Shabat, porque não vai haver.

Há uma ironia em dar o maná e o Shabat ao mesmo tempo. Durante 6 dias deves trabalhar. O sétimo é um dia de descanso. Mas eles estão a receber a comida caída do céu. Que trabalho está o povo a fazer durante os seis dias?

Aqui, num ambiente sem trabalho, há o Shabat. Não significa apenas um dia de descanso, depois do trabalho árduo da semana. É um dia sagrado, um encontro com a Shechiná. A ausência de trabalho é um meio para atingir o fim da concentração espiritual. Um dia íntimo com a Shechiná é significativo – seja depois de 6 dias de trabalho ou não.

7ª aliá (17:1-16) Não havia água em Refidim. O povo reclamou, assim como Moshe. Moshe foi instruído a bater na rocha; produziu-se água. Amaleque atacou em Refidim. Yehoshua derrotou Amaleque. É necessário registar uma memória desta guerra.

A justaposição da guerra de Amaleque com tudo o que veio antes é instrutiva. O Divino proporcionou-nos: redenção da escravidão, intervenção no mar, água, comida, carne, e novamente água. Parece que Amaleque está a atacar essa realidade. Um povo com um D’us que o protege e o provê – esse é um povo para eu atacar.

Os inimigos do povo judeu vêem-nos como o povo de D’us. Um povo protegido pela Sua Mão. Isso provoca inveja, ressentimento e negação. Sobre isso não precisamos de comentários.

Parashá da Semana – Bo

Parashá da Semana – Bo

Por: Rav Reuven Tradburks

Ocorrem as 8ª e 9ª pragas. Antes da 10ª, a morte do primogénito, são dadas as mitzvot de Korban Pesach e de Matza. Morre o primogénito. Os judeus são enviados para fora do Egito. São dadas mitzvot para comemorar o evento importante do Êxodo do Egito.

1ª aliá (10: 1-11) A oitava praga: gafanhotos. Moshe e Aharon vão ao faraó: surgirão gafanhotos, que comerão toda a vegetação que sobrou do granizo. Eles saem. Os conselheiros do faraó avisam-no de que o Egito está a caminhar para a destruição. Moshe e Aharon são trazidos de volta. O faraó diz: Ide e servi o vosso D’us. Quem vai? Moshe responde: Os jovens, os velhos, os homens, as mulheres, os animais. O faraó recusa: Só os homens. E manda-os ir.

As pragas têm padrões. Um dos padrões nestas últimas pragas parece ser uma reversão da Criação. Na história da Criação, a luz é criada no dia 1. Os céus no dia 2. A terra e a vegetação no dia 3. Ao inverso: os gafanhotos comem toda a vegetação da terra. Vêm do céu. Na escuridão, Moshe levanta o seu cajado para o céu. E então, escuridão. Como se o mundo do Egito estivesse a voltar ao caos.

2ª aliá (10: 12-23) O vento leste traz os gafanhotos. Eles escurecem a terra, comendo toda a vegetação. O faraó chama rapidamente Moshe e Aharon: Pequei perante D’us, o vossoD’us. Rezai para remover esta morte de mim. Moshe reza. O vento leva os gafanhotos de volta para o mar. O faraó não deixa o povo ir. A 9ª praga: 3 dias de escuridão. Para os judeus há luz.

Embora não devamos ter um filho preferido, podemos ter uma praga preferida. As crianças gostam das rãs. A minha preferida é a escuridão. Pelo que diz sobre os judeus. Ficou escuro no Egito durante 3 dias. Porquê 3 dias? Em nenhuma das outras pragas nos é dito quanto tempo duraram. Porque durou 3 dias a escuridão? Onde mais nesta história surgem 3 dias?

Moshe pediu ao faraó para permitir que os judeus fizessem uma jornada de 3 dias no deserto para servir a D’us. Se ficar escuro durante 3 dias, perfeito: Sai, anda os 3 dias e quando a luz voltar, o povo judeu já estará no mar. Porque não saíram eles quando estariam ocultos pelos 3 dias de escuridão?

Porque esta não é a história da marcha dos judeus para a liberdade. Uma marcha pela liberdade teria que ter um líder carismático a mobilizar o povo para lutar contra as injustiças que lhe são infligidas, liderando um povo que anseia pela sua liberdade. Mas a história não é essa. Os judeus estão no Egito há centenas de anos. Sem uma insurreição. Moshe tinha 80 anos quando foi chamado para a sua missão – um pouco tarde na vida para liderar o seu povo. Mas liderar o povo não é ideia dele; é-lhe imposto. Ele recusa-se. Moshe não é um líder carismático, um orador retórico hábil, um mestre legislador.

A história do Êxodo é a história dEle. Ele escolhe Moshe, contra a sua vontade, para ser o Seu peão. E repare nos judeus: eles poderiam ter fugido, mas eles não são ativistas pela liberdade. Eles saem completamente pela vontade de D’us, não pelas suas próprias artimanhas. Quando tiveram a oportunidade de fugir, não o fizeram. O líder relutante e os seguidores passivos significam apenas uma coisa: a sua redenção não foi obra deles, mas sim de D’us.

3ª aliá (10: 24-11: 3) O faraó chama Moshe: Ide servir a D’us, até mesmo os vossos bebés. Deixai apenas os animais para trás. Moshe responde: Precisamos de os levar. Não sabemos o que oferecer até chegarmos lá. O faraó: Nunca mais me apareças, ou morrerás. D’us diz a Moshe que após a próxima praga ficarão livres. E os egípcios darão ao povo ouro e prata.

A justiça é um tema central da Torá. A injustiça da escravidão deve ser corrigida – daí a promessa de que os egípcios darão aos israelitas  ouro e prata, uma pequena correção do mal da escravidão.

4ª aliá (11: 4-12: 20) Moshe fala ao faraó sobre a praga iminente do primogénito. O teu povo vai implorar para que partamos. Moshe sai, zangado. D’us diz-lhe que o faraó não vai ouvir. Moshe e Aharon recebem as instruções para o Korban Pesach: No dia 10 do mês tomai um cordeiro para cada a família, guardai-o até dia 14, todo o povo judeu deve oferecê-lo, consumi-lo à noite assado com Matza e Maror, com os vossos cajados na mão e as sandálias nos pés. Enquanto isso, destruirei todos os primogénitos à meia-noite. Este dia e sua celebração ficarão marcados para sempre. Durante 7 dias comei Matza; Não deveis comer chametz algum durante 7 dias.

A matza deve ser comida na noite do êxodo – antes da meia-noite. Eu pensava que comíamos Matza por causa da pressa do êxodo… Mas isso não acontecerá até amanhã. Rav Menachem Liebtag aponta que o seder na noite do êxodo é um jantar anti-Egito. Os animais são sagrados? Nós vamos assar um. E o pão levedado é um desenvolvimento egípcio. Todo o pão nessa parte do mundo é achatado: pitas, lafa. O pão em formas elegantes é egípcio. Então, no seder no Egito, nada de pão egípcio chique, apenas Matza.

5ª aliá (12: 21-28) Moshe instrui o povo sobre o pesach, incluindo marcar as portas com o seu sangue. Não saiam de casa nessa noite. Este feriado será cumprido para sempre: Quando chegares à terra, cumpre-o. Os teus filhos perguntarão porquê; diz-lhes que é porque D’us passou por cima das nossas casas. O povo, ao ouvir estas instruções, faz exatamente como D’us ordenou a Moshe e Aharon.

Imagine a fé necessária para seguir essas instruções. Ok, D’us prometeu que os primogénito egípcios seriam feridos no dia 15 à meia-noite. E com isso, sairemos em liberdade. Mas escravos a prepararem-se descaradamente para matar os animais sagrados do Egito, não num dia, mas guardando-os durante 4 dias, oferecendo-os, assando-os? Porquê assar em fogo aberto? Não sei, vou especular, mas… bem, o cheiro de churrasco não dá para esconder. O cheio chega à vizinhança toda. É ordenado aos judeus que celebrem, sem vergonha, em plena exibição, queimando o que é sagrado para os egípcios, bem na cara deles, antes de serem libertados!

E, para aumentar a confiança, a fé, a certeza, sabei que cumprireis isto para sempre. Antes que o êxodo aconteça, eles já estão a planear celebrá-lo para sempre. Isso é confiança. Fé.

Quando Moshe instruiu o povo, eles fizeram exatamente o que D’us ordenou. Uau.

6ª aliá (12: 29-51) À meia-noite, todos os primogênitos no Egito morrem. O faraó chama Moshe e Aharon e ordena que saiam para servir a D’us. Rapidamente, para que todo o Egito não seja ferido. 600.000 homens adultos estavam entre os judeus que deixaram o Egito. A massa foi assada como Matza, pois eles não podiam esperar para o pão crescer. A permanência no Egito foi de 430 anos. D’us diz a Moshe e Aharon as regras da oferenda de Pessach: apenas escravos circuncidados, nenhum empregado, todo o povo, não levem para fora de casa, uma regra para o povo todo.

O Êxodo do Egito é uma crença central: que D’us molda a História judaica, com um yad chazaka e um braço estendido. Acreditamos num D’us todo-poderoso, que nos deu a Torá. Mas que, além disso, tem um plano. Ele interveio nos assuntos do Homem, trouxe-nos até Ele. A Mão de D’us na História tem sido muitas vezes (na verdade, na maioria das vezes) oculta da nossa vista. Para onde está Ele a guiar-nos? Como está Ele a guiar-nos?

Nós, a geração privilegiada, (Ah, que privilegiada!), nós, que voltámos à nossa Terra, somos realmente privilegiados, porque quando lemos sobre o Seu Yad Hachazaka e o Seu Zroa Netuya, a Sua mão forte e o Seu braço estendido, podemos testemunhar e afirmar que sim, que Ele guia o nosso povo, intervém na nossa História.

7ª aliá (13: 1-16) Ordens de D’us: todos os primogénitos  e animais do povo judeu serão Sagrados para Mim. Moshe diz ao povo: lembrai-vos deste dia, pois nele D’us tirou-vos da escravidão com Mão Forte. Quando vierdes para a terra de Israel, cumpri o seguinte: comei matza durante 7 dias, livrai a casa de chametz, dizei aos vossos filhos que foi por isso que D’us nos tirou do Egito. E amarrai isto como um sinal nos vossos braços e uma lembrança entre os vossos olhos. Cada animal primogénito é uma oferenda dedicada. Quando os vossos filhos perguntarem o que é isto, dizei-lhes que D’us nos tirou do Egito. Amarrai isso como um sinal nas vossas mãos e um guia entre os vossos olhos, pois D’us nos tirou com mão forte.

A história do Êxodo tem que ser lembrada nos seus detalhes através de Mitzvot, incluindo amarrar tefilin na mão, no nosso braço mais fraco (pois Ele é quem tem o braço forte), e nas nossas cabeças. Porque todas as nossas ações e todas as nossas aspirações, por toda a História, têm que ser guiadas por essa história do Seu amor, levando-nos a ser Seus amados.

Parasha Da Semana – Vaerá

Parasha Da Semana – Vaerá

Parshat Vaera

Por: Rav Reuven Tradburks

A Parshat Vaera é a transição das promessas Divinas para a ação Divina. Após a primeira recusa do faraó no final da parasha da semana passada, D’us garante a Moshe que Ele libertará o povo judeu da escravidão e o trará para a terra de Israel. Após a relutância de Moshe, Moshe e Aharon são enviados ao faraó. Ocorrem as primeiras sete pragas: sangue, rãs, piolhos, animais selvagens, praga nos animais, pústulas, granizo. O faraó reage aos solavancos, às vezes concordando e mudando de ideias logo a seguir.

1ª Aliá (6: 2-13) D’us responde firme e definitivamente à aparente futilidade da abordagem de Moshe ao faraó no final da parasha da semana passada. Eu sou D’us, um nome que os Avot não conheciam. Eu prometi-lhes a terra de Israel. Ouvi o clamor do povo. E lembro-Me da aliança. Então diz ao povo: Eu, D’us, tirá-los-ei, salvá-los-ei, redimindo-os, trazendo-os a Mim, trazendo-os para a Terra. O povo não ouve, devido aos seus fardos. D’us diz a Moshe para ir ao faraó. Ele objeta: o povo não me ouviu, como me ouvirá o faraó?

Nesta aliá, D’us estabelece a mais fundamental das crenças judaicas: a intervenção direta de D’us na história judaica. Até agora, conhecemos D’us como Aquele que promete a Avraham que receberá a terra de Israel. Mas ainda não vimos essa promessa se tornar realidade. A promessa da terra não foi concretizada.

Tudo muda agora. Em vez de termos que procurar, perscrutar os bastidores em busca do Divino, Ele diz-nos exatamente o que fará. Agora, pela primeira vez, D’us revela, em grandes detalhes, o que está prestes a fazer. E isso acontece imediatamente. Ele diz a Moshe e ao povo exatamente o que vai fazer, com todos os detalhes: tirá-los, salvá-los, redimi-los, aproximá-los a Ele, trazê-los para a Terra.

E nas próprias pragas Ele diz o que vai fazer. E fá-lo imediatamente. É por isso que existem 10 pragas. Ele quer demonstrar repetidamente que está a controlar o mundo e, portanto, também a história humana.

E o mais crucial – Ele não está a castigar. Ele está a aproximar os Seus amados, o Seu primogénito. Ele disse a Noé que puniria o mundo. E fê-lo. Disse a Avraham que puniria Sodoma e Gomorra. E fê-lo. Mas isto não é uma punição. É amor pelo Seu povo.

2ª Aliá  (6: 14-29) É delineada a linhagem de Reuven, Shimon e Levi, incluindo o nascimento de Moshe e Aharon. São os mesmos Aharon e Moshe que D’us ordenou que fossem ao faraó. Aqueles que falam com o faraó.

A linhagem de Moshe parece ser apresentada para destacar que ele não é líder devido à sua linhagem. Ele não provém do filho primogénito Reuven. Nem do primeiro filho de Levi. Nem sequer é o filho primogénito de Amram. Moshe não é líder em virtude da sua linhagem.

3ª Aliá (6: 30-7: 7) D’us diz a Moshe para ir ao faraó. Moshe objeta: Sou preso de língua, como como me ouvirá o faraó? D’us diz a Moshe: Faço de ti juiz do faraó e de Aharon teu porta-voz. Endurecerei o coração do faraó. Ele não te ouvirá.

Aqui começa o detalhe do que vai acontecer. Por medidas políticas normais, Moshe sabe que não terá sucesso. Ele: fraco. O faraó: poderoso. Mas é-lhe dito que ele e o faraó são apenas peões nas Mãos de D’us.

4ª Aliá (7: 8-8: 6) Começam as pragas. Vai ao faraó pela manhã, quando ele for ao o rio. Através disto saberás que Sou D’us: A água transformar-se-á em sangue. Moshe avisa o faraó. Aharon toca na água; esta transforma-se em sangue. Os feiticeiros também o fazem. O faraó não escuta. A 2ª praga: Vai ao faraó e diz-lhe que D’us diz para deixares o povo ir servi-Lo. De contrário, as rãs invadirão a tua casa, cama, fornos, as casas dos escravos. Aharon levanta o seu cajado e surgem as rãs. O faraó chama Moshe e pede-lhe que reze para aquilo parar.

As primeiras 2 pragas, sangue e sapos, vêm da água. A água faz-nos imediatamente pensar na Criação: O espírito de D’us pairava sobre as águas. A água é um começo: em Breishit, é o começo do mundo. Aqui, é o início do povo judeu.

E as pragas serão de baixa intensidade ao princípio, e depois aumentarão. O que é mais baixo do que o nível do solo? A água, que se acumula nas partes mais baixas. As primeiras 2 pragas vêm da água. A 4ª e a 5ª, os animais selvagens e a praga nos animais, são em terra. E a 7ª, 8ª e 9ª, o granizo, o enxame de gafanhotos e a escuridão, vêm do céu.

5ª Aliá (8: 7-8: 18) Moshe reza, as rãs param, o faraó obstina-se. 3ª praga: Aharon levanta o seu cajado; os piolhos atacam as pessoas e os animais. Os feiticeiros tentam imitar, sem sucesso. É a mão de D’us. O faraó não escuta. A 4ª praga: Vai ao faraó pela manhã quando ele for ao rio. Diz-lhe: Haverá feras no Egito, mas não em Goshen. Através disto saberás que Sou D’us no meio da terra.

Quem decidiu onde acaba cada aliá estava a fazer um comentário através dessa escolha. Na nossa parashá, faria sentido que as aliot acabassem de forma lógica com o fim de uma praga – na quebra de parágrafo. Mas tanto esta aliá quanto a seguinte concluem da mesma forma: Saberás que Eu Sou D’us.

A 1ª, 4ª e 7ª pragas começam com Moshe a encontrar-se com o faraó na água pela manhã. E cada uma repete a mesma frase: Saberás… A primeira é “Saberás que sou D’us.” A 4ª, “Saberás que sou D’us no meio da terra.” E a 7ª, “Saberás que não há ninguém como Eu.”

Estes são os 3 pilares da fé judaica: Existe um D’us. Ele é nosso D’us, ou seja, envolvido no mundo. E Ele é Um.

6ª Aliá (8: 19-9: 16) Ocorre a praga de feras. O faraó concorda em permitir que o povo saia para adorar no deserto. Moshe reza pelo fim da praga. O faraó muda de ideias. A 5ª praga: Vai ao faraó, os animais serão atacados com uma praga, mas não os do povo judeu. O faraó verificou, viu que era verdade. Mas endureceu o seu coração. A 6ª praga: Moshe, lança pó ao céu à frente do faraó. O pó transformou-se em furúnculos e pústulas nos animais e nas pessoas. D’us endureceu o coração do faraó. 7ª praga: Moshe, vai ao faraó pela manhã. Com esta praga saberás que não há ninguém como Eu.

As pragas 4 e 5, os animais selvagens e a praga nos animais, atacam apenas os egípcios, não acontecem em Goshen. Isto ensina-nos que D’us está envolvido na atividade do Homem, distinguindo entre o bem e o mal.

Transformar a água em sangue foi um ataque ao deus egípcio; portanto, saberás que sou D’us. Aqui a praga distingue as pessoas, os egípcios  dos judeus, para ensinar: Eu sou D’us, a trabalhar no meio da terra. E as últimas pragas vêm do céu – Ele controla o céu, os poderes, o cosmos. Ninguém fora dEle.

7ª Aliá (9: 17-35) Choverá granizo e matará toda a gente no seu caminho. Moshe ergueu o seu cajado e choveu granizo no meio de trovões, com fogo. O faraó chamou Moshe e Aharon: Pequei; D’us é justo. Rezem para remover isto e eu vos deixarei ir. Moshe fez isso. O faraó recusou-se a deixar sair o povo.

Embora as pragas tenham uma ordem muito clara, as reações do faraó não. Ele aceita, permitindo que eles saiam para comemorar. Depois muda de ideias. Aqui, ele aceita que pecou. Esta é uma aceitação de responsabilidade muito impressionante. Nós chamar-lhe-íamos teshuvá. Está arrependido. E depois muda de ideias.

Esta demonstração do envolvimento de D’us no mundo é algo sem precedentes, mas o Homem permanece teimoso.

A Parasha termina após 7 pragas. As últimas 3 fazem parte da Parasha da próxima semana. O drama do Êxodo do Egito abrange 3 parshiot: Vaera, Bo e Beshalach.

Esta história é a história mais notável da vida judaica. Mencionada diariamente nas nossas orações. No Shema. No Birkat Hamazon. No Kidush. E no seder. Porque representa uma inovação radical na crença religiosa. D’us como Criador é uma peça central. D’us como Juiz, a recompensar e a punir, é uma peça fundamental. Mas a noção de que D’us intervém no mundo, moldando a história humana, atraindo o povo judeu a Ele, para nos trazer à terra de Israel – o D’us da História, essa noção é introduzida aqui. No nosso tempo somos mimados, pois vemos o D’us da História no nosso retorno à terra de Israel. Para nós, é evidente. Nós vemo-Lo com os nossos próprios olhos. O D’us da História é-nos apresentado aqui, na nossa Parasha.