Parasha da Semana – Beshalach

Parasha da Semana – Beshalach

Por: Rav Reuven Tradburks

O faraó persegue, o mar divide-se, o povo canta. O povo caminhou e reclamou por água em Mara, por pão e carne no Deserto de Sin e por água em Refidim. Amaleque atacou e foi derrotado.

1ª aliá (13:17-14:8) D’us guia os judeus na direção do Mar. Moshe leva os ossos de Yosef. Uma nuvem guia-os de dia, fogo de noite. D’us instrui-os a evitar a rota direta para a Terra de Israel, por medo de que o retorno ao Egito seja demasiado fácil. Em vez disso, acampai no mar para que o faraó se aperceba. Endurecerei o seu coração e ele perseguir-vos-á, para que o Egito saiba que Eu sou D’us. O faraó levou as suas carruagens de elite em perseguição dos hebreus.

A nossa parashá apresenta um novo capítulo na história do povo judeu: o capítulo da liberdade nacional. Uma nuvem pairou sobre o povo desde o momento em que foi dito a Avraham “o teu povo será afligido numa terra estrangeira por 400 anos”. 7 parashas completas, desde a venda de Yosef até agora, contaram a história dessa aflição.

Mas agora, com a liberdade, vem o desafio de viver. Ser um povo livre é um conceito maravilhoso, mas uma dura realidade. É quase mais fácil viver à espera da liberdade do que realmente ser livre.

Até D’us, Ele próprio, está preocupado com que o povo recue diante das incertezas da liberdade; desejarão o conforto das certezas da vida escrava. E vão querer voltar ao Egito. Por isso, Ele desvia-os para uma rota indireta.

2ª aliá (14:9-14) Quando o exército do faraó se aproxima, o povo fica com medo.  Clamam a D’us e dizem a Moshe: Porque nos tiraste do Egito para morrer no deserto? Teríamos preferido ser escravos no Egito do que morrer no deserto. Moshe diz-lhes para não temerem, pois estão prestes a ver a redenção de D’us.

O foco da Torá muda drasticamente. Houve 4 figuras principais nesta história: D’us, Moshe, o faraó e o povo judeu. Mas há uma que esteve ausente da maior parte da história: o povo judeu. Ouvimos muito pouco sobre o povo judeu em toda a história do Êxodo. Foi Moshe, sob a direção de D’us, que confrontou o faraó. Foi Moshe que recebeu as mitsvot antes da praga dos primogénitos. Tudo o que ouvimos dos judeus é que eles fizeram tudo o que D’us ordenou a respeito da oferta de pesach. Mesmo na dramática noite do Êxodo, quando o faraó ordenou que se fossem embora, ouvimos apenas que receberam ouro e prata e prepararam provisões, sem terem tido tempo para a massa crescer.

Onde estão a alegria e a celebração? E o medo, a preocupação, o medo do desconhecido, o medo da mudança, o medo da vulnerabilidade, o medo da vingança do faraó? E as emoções, os pensamentos do povo? Disso não sabemos nada — até agora.

Tudo isso muda aqui. Agora ouvimos falar das suas lutas e das suas preocupações. Porque até aqui, a narrativa tem sido da perspectiva de D’us – para ensinar a lição da Mão de D’us no mundo. Agora o foco muda para os judeus. Aprendemos as Suas lições. Agora temos que vivê-las. E isso leva-nos ao medo, à alegria, à incerteza, à decepção e à vulnerabilidade – tudo o que torna as pessoas humanas.

3ª aliá (14:15-25) D’us instrui Moshe a levantar a mão para que o mar se divida. E informa que endurecerá o coração do Egito para De’s ser glorificado através do faraó e da sua comitiva. E o Egito saberá que Eu Sou D’us. Moshe assim o fez; o povo entrou no mar por terra seca, com a água a formar muros de ambos os lados. Os egípcios foram atrás; pela manhã ficaram presos no mar.

A divisão do mar renova o tema da água como símbolo de recomeço. Água em destaque na Criação, no berço de Moshe no rio e agora. Início do mundo, início do Êxodo e agora, início da vida nacional judaica. A vida nacional judaica começa com os judeus a entrar na água. Já não são apenas os Seus milagres; participamos como parceiros no Seu plano, dando aquele primeiro passo na água.

4ª aliya (14:26-15:26) A água voltou e afogou todos os egípcios. O povo judeu viu os egípcios mortos, viu a Mão de D’us, temeu a D’us, acreditando Nele e em Moshe. Moshe e o povo cantaram Az Yashir: “Cantarei para D’us, a minha força, o meu salvador, o meu D’us. Ele é D’us da Guerra, a Tua mão é poderosa, a Tua mão vence os inimigos. As nações temê-Lo-ão. D’us reinará para sempre.” Miriam liderou as mulheres na canção. Moshe conduziu o povo ao deserto, até Mara. O povo reclamou por água. D’us instruiu Moshe a lançar um pedaço de madeira para adoçar a água.

Na grande canção no mar, temos a emoção liberada. O povo canta. A redenção divina exige uma resposta humana. De fato, quando citamos o êxodo do Egito na nossa tefila, mencionamos sempre a Shira – a história do Êxodo não está completa até o povo cantar.

Aqui encontramos alegria, apreço, euforia e fé. E apesar de todo o povo cantar com Moshe, o poema, curiosamente, está na primeira pessoa do singular: eu canto, a minha força (em algumas traduções não se nota, mas  “Azi”, é a minha força, tudo no singular.) Isto é pessoal, individual – meu, não nosso. Todos cantámos a canção no mar; mas no singular. O meu D’us salvou-me.

Na verdade, embora eu esteja apenas a especular, esta poderia ser a fonte para a frase na Hagadá “Cada pessoa é obrigada a ver-se a si mesma como tendo deixado o Egito”. Se formos exatos ao contar a nossa história do Egito, devemos notar que cada pessoa, individualmente, cantou pessoalmente a canção no singular: O meu D’us salvou-me, o meu D’us travou a batalha. E assim, se quisermos contar a história do Egito com precisão no seder, também devemos sentir individualmente o nosso lugar nesta história, assim como cada judeu individual a sentiu naquela época.

5ª aliá (15:27-16:10) Eles viajaram para o deserto de Sin. Reclamaram: Ah, se tivéssemos permanecido no Egito com fartura de pão e carne. O maná foi fornecido pela manhã: Juntai o suficiente para um dia; na sexta-feira para 2 dias. D’us apareceu numa nuvem.

A série de reclamações inicia essa coisa complicada que é ser um povo. Por mais sublime que a liberdade seja, as preocupações humanas são muitas vezes mais imediatas. O povo reclama por água, pão, carne, e novamente água. Moshe fica exasperado.

A frustração de Moshe é destacada para enfatizar quem é o verdadeiro Líder aqui. Toda a história do Êxodo é a história da intervenção divina. Ele é que nos libertou; Moshe apenas levantou o cajado. Ele dividiu o mar; Moshe apenas levantou o cajado. E Ele cuida de nós; Moshe simplesmente bateu com o cajado na rocha. Não é a história de Moshe, o líder carismático, que conduz o seu povo à liberdade. É a história de D’us, usando o Seu fiel servo para levar o Seu povo à liberdade. E para cuidar deles.

6ª aliá (16:11-36) A carne chegará à noite. Cada pessoa deve colher maná diariamente para as suas necessidades. Algumas pessoas guardaram-no para o dia seguinte; estraga-se. E alguns foram recolher no Shabat. D’us questionou: Até quando resistireis a cumprir os Meus mandamentos? D’us deu-vos o Shabat, portanto dá-vos o dobro na sexta-feira. Aharon, pega numa porção de maná para a guardares para sempre. O povo judeu comeu o maná durante 40 anos.

O Shabat precede a entrega da Torá. A Mitzvá do Shabat é o 4º dos Dez Mandamentos. No entanto, aqui, ainda antes do Monte Sinai, está a noção de Shabat. Prepara na sexta-feira o que vais precisar. Recolhe em dobro na sexta-feira. Não recolhas no Shabat, porque não vai haver.

Há uma ironia em dar o maná e o Shabat ao mesmo tempo. Durante 6 dias deves trabalhar. O sétimo é um dia de descanso. Mas eles estão a receber a comida caída do céu. Que trabalho está o povo a fazer durante os seis dias?

Aqui, num ambiente sem trabalho, há o Shabat. Não significa apenas um dia de descanso, depois do trabalho árduo da semana. É um dia sagrado, um encontro com a Shechiná. A ausência de trabalho é um meio para atingir o fim da concentração espiritual. Um dia íntimo com a Shechiná é significativo – seja depois de 6 dias de trabalho ou não.

7ª aliá (17:1-16) Não havia água em Refidim. O povo reclamou, assim como Moshe. Moshe foi instruído a bater na rocha; produziu-se água. Amaleque atacou em Refidim. Yehoshua derrotou Amaleque. É necessário registar uma memória desta guerra.

A justaposição da guerra de Amaleque com tudo o que veio antes é instrutiva. O Divino proporcionou-nos: redenção da escravidão, intervenção no mar, água, comida, carne, e novamente água. Parece que Amaleque está a atacar essa realidade. Um povo com um D’us que o protege e o provê – esse é um povo para eu atacar.

Os inimigos do povo judeu vêem-nos como o povo de D’us. Um povo protegido pela Sua Mão. Isso provoca inveja, ressentimento e negação. Sobre isso não precisamos de comentários.

Parasha da Semana – Bo

Parasha da Semana – Bo

Por: Rav Reuven Tradburks

Ocorrem as 8ª e 9ª pragas. Antes da 10ª, a morte do primogénito, são dadas as mitzvot de Korban Pesach e de Matza. Morre o primogénito. Os judeus são enviados para fora do Egito. São dadas mitzvot para comemorar o evento importante do Êxodo do Egito.

1ª aliá (10: 1-11) A oitava praga: gafanhotos. Moshe e Aharon vão ao faraó: surgirão gafanhotos, que comerão toda a vegetação que sobrou do granizo. Eles saem. Os conselheiros do faraó avisam-no de que o Egito está a caminhar para a destruição. Moshe e Aharon são trazidos de volta. O faraó diz: Ide e servi o vosso D’us. Quem vai? Moshe responde: Os jovens, os velhos, os homens, as mulheres, os animais. O faraó recusa: Só os homens. E manda-os ir.

As pragas têm padrões. Um dos padrões nestas últimas pragas parece ser uma reversão da Criação. Na história da Criação, a luz é criada no dia 1. Os céus no dia 2. A terra e a vegetação no dia 3. Ao inverso: os gafanhotos comem toda a vegetação da terra. Vêm do céu. Na escuridão, Moshe levanta o seu cajado para o céu. E então, escuridão. Como se o mundo do Egito estivesse a voltar ao caos.

2ª aliá (10: 12-23) O vento leste traz os gafanhotos. Eles escurecem a terra, comendo toda a vegetação. O faraó chama rapidamente Moshe e Aharon: Pequei perante D’us, o vossoD’us. Rezai para remover esta morte de mim. Moshe reza. O vento leva os gafanhotos de volta para o mar. O faraó não deixa o povo ir. A 9ª praga: 3 dias de escuridão. Para os judeus há luz.

As pragas são educativas. São para ensinar os princípios fundamentais da crença em D’us. Moshe diz isso ao faraó nas pragas 1, 4 e 7. Então saberás que Eu sou D’us. Então saberás que Eu sou D’us no meio da terra. Então saberás que não há ninguém como Eu. Estas são as 3 ideias centrais de crença em D’us que dizemos no Shema – há um D’us, Ele é nosso (conectado a este mundo) e Ele é Um.

Além disso, as pragas sobem – da água (sangue, rãs), para a terra (os animais selvagens e a morte) e para o céu (granizo, gafanhotos, escuridão). Ele governa sobre tudo.

E podemos ver como impactam a nossa vida. Sabemos que existe um delicado equilíbrio necessário para sustentar a vida. À medida que a ciência avança, tornamo-nos ainda mais conscientes. Precisamos de água. Os nossos corpos combatem doenças que podem ser mortais. Precisamos de nutrição. Uma mudança no equilíbrio da natureza traz desastres naturais.

As pragas podem ser vistas como se dissessem – toda essa sua vida é um equilíbrio delicado. Se houver qualquer coisa errada, cuidado. Você depende da água – observe o que acontece quando se transforma em sangue. O reino animal é um equilíbrio delicado entre predadores e presas. As rãs fora de controlo trazem a destruição. Os piolhos têm a sua função – mas demasiados acabam connosco. Os animais não atacam as pessoas – quando o fazem, é o caos. Os nossos corpos combatem doenças – doenças e furúnculos transmitem a nossa vulnerabilidade. O granizo simboliza o delicado equilíbrio da natureza, que quando perturbado pode trazer destruição em massa. A nossa comida é fraca – uma invasão de gafanhotos pode trazer uma fome que ameaça a própria vida. E a escuridão – a luz é simplesmente indispensável para o nosso funcionamento.

As pragas dizem-nos  que o nosso mundo é um equilíbrio delicado – a nossa vida individual de água, comida e doença, o reino animal e seu maravilhoso equilíbrio, o mundo natural e a sua conexão. Tudo isso tem que estar perfeito para que tudo funcione. E essa é a Sua Mão. A Sua Mão Oculta calibra tudo isso para que nem percebamos essa complexidade infinita. Nós, pessoas modernas, sabemos disso cada dia mais, pois a ciência revela equilíbrios cada vez mais fascinantes. As pragas transmitem a nossa vulnerabilidade e confiança na Mão Oculta que controla tudo.

3ª aliá (10: 24-11: 3) O faraó chama Moshe: Ide servir a D’us, até mesmo os vossos bebés. Deixai apenas os animais para trás. Moshe responde: Precisamos de os levar. Não sabemos o que oferecer até chegarmos lá. O faraó: Nunca mais me apareças, ou morrerás. D’us diz a Moshe que após a próxima praga ficarão livres. E os egípcios darão ao povo ouro e prata.

A justiça é um tema central da Torá. A injustiça da escravidão deve ser corrigida – daí a promessa de que os egípcios darão aos israelitas  ouro e prata, uma pequena correção do mal da escravidão.

4ª aliá (11: 4-12: 20) Moshe fala ao faraó sobre a praga iminente do primogénito. O teu povo vai implorar para que partamos. Moshe sai, zangado. D’us diz-lhe que o faraó não vai ouvir. Moshe e Aharon recebem as instruções para o Korban Pesach: No dia 10 do mês tomai um cordeiro para cada a família, guardai-o até dia 14, todo o povo judeu deve oferecê-lo, consumi-lo à noite assado com Matza e Maror, com os vossos cajados na mão e as sandálias nos pés. Enquanto isso, destruirei todos os primogénitos à meia-noite. Este dia e sua celebração ficarão marcados para sempre. Durante 7 dias comei Matza; Não deveis comer chametz algum durante 7 dias.

A matza deve ser comida na noite do êxodo – antes da meia-noite. Eu pensava que comíamos Matza por causa da pressa do êxodo… Mas isso não acontecerá até amanhã. Rav Menachem Liebtag aponta que o seder na noite do êxodo é um jantar anti-Egito. Os animais são sagrados? Nós vamos assar um. E o pão levedado é um desenvolvimento egípcio. Todo o pão nessa parte do mundo é achatado: pitas, lafa. O pão em formas elegantes é egípcio. Então, no seder no Egito, nada de pão egípcio chique, apenas Matza.

5ª aliá (12: 21-28) Moshe instrui o povo sobre o pesach, incluindo marcar as portas com o seu sangue. Não saiam de casa nessa noite. Este feriado será cumprido para sempre: Quando chegares à terra, cumpre-o. Os teus filhos perguntarão porquê; diz-lhes que é porque D’us passou por cima das nossas casas. O povo, ao ouvir estas instruções, faz exatamente como D’us ordenou a Moshe e Aharon.

Imagine a fé necessária para seguir essas instruções. Ok, D’us prometeu que os primogénito egípcios seriam feridos no dia 15 à meia-noite. E com isso, sairemos em liberdade. Mas escravos a prepararem-se descaradamente para matar e assar os animais sagrados do Egito? Porquê assar em fogo aberto? Não sei, vou especular, mas… bem, o cheiro de churrasco não dá para esconder. O cheio chega à vizinhança toda. É ordenado aos judeus que celebrem, sem vergonha, em plena exibição, queimando o que é sagrado para os egípcios, bem na cara deles, antes de serem libertados!

E, para aumentar a confiança, a fé, a certeza, sabei que cumprireis isto para sempre. Antes que o êxodo aconteça, eles já estão a planear celebrá-lo para sempre. Isso é confiança. Fé.

Quando Moshe instruiu o povo, eles fizeram exatamente o que D’us ordenou. Uau.

6ª aliá (12: 29-51) À meia-noite, todos os primogênitos no Egito morrem. O faraó chama Moshe e Aharon e ordena que saiam para servir a D’us. Rapidamente, para que todo o Egito não seja ferido. 600.000 homens adultos estavam entre os judeus que deixaram o Egito. A massa foi assada como Matza, pois eles não podiam esperar para o pão crescer. A permanência no Egito foi de 430 anos. D’us diz a Moshe e Aharon as regras da oferenda de Pessach: apenas escravos circuncidados, nenhum empregado, todo o povo, não levem para fora de casa, uma regra para o povo todo.

O Êxodo do Egito é uma crença central: que D’us molda a História judaica, com um yad chazaka e um braço estendido. E já que é uma crença tão central, temos um monte de mitsvot para nos lembrar disso. Para ficar bem inculcado na mente. Porque acreditar em um D’us todo-poderoso que criou o mundo é uma coisa. E que nos deu a Torá. Mas que, além disso, está ativo na nossa história? Isso é difícil de ver. Vivemos em um mundo nebuloso, onde os fluxos e refluxos de nossa história parecem aleatórios. Tivemos reis, depois exílio, depois voltámos. E depois 2.000 anos de exílio, com muitos  momentos em que a crença em um D’us ativo em nossa história foi, bem, foi muito difícil. Desafiante. Culminando no eclipse mais escuro de todos, a Shoah. A Mão de D’us na história, muitas vezes, na verdade, na maioria das vezes, foi obscurecida de nossa visão. Para onde Ele está nos levando, como Ele está nos guiando? Se acreditar em Sua Mão na história fosse fácil, não precisaríamos de todos esses lembretes do êxodo do Egito. Nós têmo-los porque precisamos deles.

Mas para nós é diferente. Nós, a geração privilegiada, (Ah, que privilegiada!), nós, que voltámos à nossa Terra, somos realmente privilegiados, porque quando lemos sobre o Seu Yad Hachazaka e o Seu Zroa Netuya, a Sua mão forte e o Seu braço estendido, podemos testemunhar e afirmar que sim, que Ele guia o nosso povo, intervém na nossa História. Para nós é mais fácil.

7ª aliá (13: 1-16) Ordens de D’us: todos os primogénitos  e animais do povo judeu serão Sagrados para Mim. Moshe diz ao povo: lembrai-vos deste dia, pois nele D’us tirou-vos da escravidão com Mão Forte. Quando vierdes para a terra de Israel, cumpri o seguinte: comei matza durante 7 dias, livrai a casa de chametz, dizei aos vossos filhos que foi por isso que D’us nos tirou do Egito. E amarrai isto como um sinal nos vossos braços e uma lembrança entre os vossos olhos. Cada animal primogénito é uma oferenda dedicada. Quando os vossos filhos perguntarem o que é isto, dizei-lhes que D’us nos tirou do Egito. Amarrai isso como um sinal nas vossas mãos e um guia entre os vossos olhos, pois D’us nos tirou com mão forte.

As mitzvot da história do Êxodo, incluindo amarrar tefilin na mão (do nosso lado mais fraco, pois o braço forte é dEle), e na cabeça, essas mitzvot resultam. A história do êxodo do Egito é facilmente a história mais familiar da Torah. As mitzvot-lembretes resultam.

Parasha da Semana – Vaerá

Parasha da Semana – Vaerá

Parshat Vaera

Por: Rav Reuven Tradburks

A Parshat Vaera é a transição das promessas Divinas para a ação Divina. Após a primeira recusa do faraó no final da parasha da semana passada, D’us garante a Moshe que Ele libertará o povo judeu da escravidão e o trará para a terra de Israel. Após a relutância de Moshe, Moshe e Aharon são enviados ao faraó. Ocorrem as primeiras sete pragas: sangue, rãs, piolhos, animais selvagens, praga nos animais, pústulas, granizo. O faraó reage aos solavancos, às vezes concordando e mudando de ideias logo a seguir.

1ª Aliá (6: 2-13) D’us responde firme e definitivamente à aparente futilidade da abordagem de Moshe ao faraó no final da parasha da semana passada. Eu sou D’us, um nome que os Avot não conheciam. Eu prometi-lhes a terra de Israel. Ouvi o clamor do povo. E lembro-Me da aliança. Então diz ao povo: Eu, D’us, tirá-los-ei, salvá-los-ei, redimindo-os, trazendo-os a Mim, trazendo-os para a Terra. O povo não ouve, devido aos seus fardos. D’us diz a Moshe para ir ao faraó. Ele objeta: o povo não me ouviu, como me ouvirá o faraó?

Nesta aliá, D’us estabelece a mais fundamental das crenças judaicas: a intervenção direta de D’us na história judaica. Até agora, conhecemos D’us como Aquele que promete a Avraham que receberá a terra de Israel. Mas ainda não vimos essa promessa se tornar realidade. A promessa da terra não foi concretizada.

Tudo muda agora. Em vez de termos que procurar, perscrutar os bastidores em busca do Divino, Ele diz-nos exatamente o que fará. Agora, pela primeira vez, D’us revela, em grandes detalhes, o que está prestes a fazer. E isso acontece imediatamente. Ele diz a Moshe e ao povo exatamente o que vai fazer, com todos os detalhes: tirá-los, salvá-los, redimi-los, aproximá-los a Ele, trazê-los para a Terra.

Vamos ver isto ainda melhor nas próprias pragas: De’s diz o que vai fazer hoje ou o que vai fazer amanhã. E fá-lo imediatamente. É por isso que existem 10 pragas. De’s quer demonstrar repetidamente que controla o mundo e, portanto, também a história humana.

2ª Aliá  (6: 14-29) É delineada a linhagem de Reuven, Shimon e Levi, incluindo o nascimento de Moshe e Aharon. São os mesmos Aharon e Moshe que D’us ordenou que fossem ao faraó. Aqueles que falam com o faraó.

A linhagem de Moshe parece ser apresentada para destacar que ele não é líder devido à sua linhagem. Ele não provém do filho primogénito Reuven. Nem do primeiro filho de Levi. Nem sequer é o filho primogénito de Amram. Moshe não é líder em virtude da sua linhagem.

3ª Aliá (6: 30-7: 7) D’us diz a Moshe para ir ao faraó. Moshe objeta: Sou preso de língua, como como me ouvirá o faraó? D’us diz a Moshe: Faço de ti juiz do faraó e de Aharon teu porta-voz. Endurecerei o coração do faraó. Ele não te ouvirá.

Aqui começa o detalhe do que vai acontecer. Por medidas políticas normais, Moshe sabe que não terá sucesso. Ele: fraco. O faraó: poderoso. Mas é-lhe dito que ele e o faraó são apenas peões nas Mãos de D’us.

4ª Aliá (7: 8-8: 6) Começam as pragas. Vai ao faraó pela manhã, quando ele for ao o rio. Através disto saberás que Sou D’us: A água transformar-se-á em sangue. Moshe avisa o faraó. Aharon toca na água; esta transforma-se em sangue. Os feiticeiros também o fazem. O faraó não escuta. A 2ª praga: Vai ao faraó e diz-lhe que D’us diz para deixares o povo ir servi-Lo. De contrário, as rãs invadirão a tua casa, cama, fornos, as casas dos escravos. Aharon levanta o seu cajado e surgem as rãs. O faraó chama Moshe e pede-lhe que reze para aquilo parar.

As primeiras 2 pragas, sangue e sapos, vêm da água. A água faz-nos imediatamente pensar na Criação: O espírito de D’us pairava sobre as águas. A água é um começo: em Breishit, é o começo do mundo. Aqui, é o início do povo judeu.

E as pragas serão de baixa intensidade ao princípio, e depois aumentarão. O que é mais baixo do que o nível do solo? A água, que se acumula nas partes mais baixas. As primeiras 2 pragas vêm da água. A 4ª e a 5ª, os animais selvagens e a praga nos animais, são em terra. E a 7ª, 8ª e 9ª, o granizo, o enxame de gafanhotos e a escuridão, vêm do céu.

Isto também nos remete à Criação: primeiro havia água. Separou-se para fazer os céus. E a água em baixo foi dividida para fazer surgir a terra seca. As pragas atacam esses mesmos elementos do princípio da Criação.

5ª Aliá (8: 7-8: 18) Moshe reza, as rãs param, o faraó obstina-se. 3ª praga: Aharon levanta o seu cajado; os piolhos atacam as pessoas e os animais. Os feiticeiros tentam imitar, sem sucesso. É a mão de D’us. O faraó não escuta. A 4ª praga: Vai ao faraó pela manhã quando ele for ao rio. Diz-lhe: Haverá feras no Egito, mas não em Goshen. Através disto saberás que Sou D’us no meio da terra.

Quem decidiu onde acaba cada aliá estava a fazer um comentário através dessa escolha. Na nossa parashá, faria sentido que as aliot acabassem de forma lógica com o fim de cada praga – na quebra de parágrafo. Mas tanto esta aliá quanto a seguinte concluem da mesma forma: Saberás que Eu Sou D’us.

A 1ª, 4ª e 7ª pragas começam com Moshe a encontrar-se com o faraó na água pela manhã. E cada uma repete a mesma frase: Saberás… A primeira é “Saberás que sou D’us.” A 4ª, “Saberás que sou D’us no meio da terra.” E a 7ª, “Saberás que não há ninguém como Eu.”

Estes são os 3 pilares da fé judaica: Existe um D’us, Ele é nosso D’us, ou seja, está envolvido no que acontece no mundo, e Ele é Um.

6ª Aliá (8: 19-9: 16) Ocorre a praga de feras. O faraó concorda em permitir que o povo saia para adorar no deserto. Moshe reza pelo fim da praga. O faraó muda de ideias. A 5ª praga: Vai ao faraó, os animais serão atacados com uma praga, mas não os do povo judeu. O faraó verificou, viu que era verdade. Mas endureceu o seu coração. A 6ª praga: Moshe, lança pó ao céu à frente do faraó. O pó transformou-se em furúnculos e pústulas nos animais e nas pessoas. D’us endureceu o coração do faraó. 7ª praga: Moshe, vai ao faraó pela manhã. Com esta praga saberás que não há ninguém como Eu.

As pragas 4 e 5, os animais selvagens e a praga nos animais, atacam apenas os egípcios, não acontecem em Goshen. Isto ensina-nos que D’us está envolvido na atividade do Homem, distinguindo entre o bem e o mal.

Transformar a água em sangue foi um ataque ao deus egípcio; portanto, saberás que sou D’us. Aqui a praga distingue as pessoas, os egípcios  dos judeus, para ensinar: Eu sou D’us, a agir no meio da terra. E as últimas pragas vêm do céu – Ele controla o céu, os poderes, o cosmos. Não há ninguém fora dEle.

7ª Aliá (9: 17-35) Choverá granizo e matará toda a gente no seu caminho. Moshe ergueu o seu cajado e choveu granizo no meio de trovões, com fogo. O faraó chamou Moshe e Aharon: Pequei; D’us é justo. Rezem para remover isto e eu vos deixarei ir. Moshe fez isso. O faraó recusou-se a deixar sair o povo.

Embora as pragas tenham uma ordem muito clara, as reações do faraó não. Ele aceita, permitindo que eles saiam para comemorar. Depois muda de ideias. Aqui, ele aceita que pecou. Esta é uma aceitação de responsabilidade muito impressionante. Está arrependido. E depois muda de ideias.

Esta demonstração do envolvimento de D’us no mundo é algo sem precedentes, mas o Homem permanece teimoso.

A Parasha termina após 7 pragas. As últimas 3 fazem parte da Parasha da próxima semana.

Esta história é a história mais notável da vida judaica. Mencionada diariamente nas nossas orações. No Shema. No Birkat Hamazon. No Kidush. E no seder. Por duas razões:

  1. Porque representa uma inovação radical na crença religiosa. D’us como Criador é uma crença central. D’us como Juiz, a recompensar e a punir, também é uma crença fundamental. Mas a noção de que D’us intervém no mundo, moldando a história humana, atraindo o povo judeu a Ele, para nos trazer à terra de Israel – o D’us da História, essa noção é introduzida aqui. No nosso tempo somos mimados, pois vemos o D’us da História no nosso retorno à terra de Israel. Para nós, é evidente. Nós vemo-Lo com os nossos próprios olhos. O D’us da História é-nos apresentado aqui, na nossa Parasha.
  2. Porque a perceção aberta de D’us é… bem, é difícil para nós. A Mão de D’us está escondida neste nosso mundo nebuloso. Ele criou-o dessa forma – a palavra em hebraico para «mundo» é olam, semelhante a ne’elam, «oculto». Mas perceber a Sua Mão moldando a história requer grande fé e discernimento. Oh, quantos escolheram, nos nossos dias, devido ao eclipse da Sua Face, à falta da Sua Mão na nossa história, no holocausto, oh, quantos O abandonaram. Esta história do Egito é como se Ele nos dissesse: Vou mostrar-vos a Minha Mão uma vez. Só uma vez. Prestem atenção. Não vai acontecer assim de novo. Mas estou a fazer isso porque sei como é difícil para vocês conseguirem ver-Me. A Minha Mão revela-se no Egito, nas pragas, na travessia do mar. E vocês, meu povo judeu, que viverão no futuro na espessa névoa da vida, quando ver a Minha Mão for demasiado difícil – vocês regressarão, muitas vezes, em oração, em mitsvot, a este glorioso dia claro e ensolarado da Minha Mão. E saberão que, tal como a minha Mão era tão clara e óbvia naquele tempo, a Minha Mão também está presente agora.
Parasha da Semana – Shemot

Parasha da Semana – Shemot

Parshat Shemot

Por: Rav Reuven Tradburks

O povo judeu está no Egito. Um novo faraó está preocupado com o tamanho do povo judeu. Ele decreta trabalhos forçados, infanticídio e, em seguida, o afogamento ativo dos bebés do sexo masculino. Moshe nasce e é criado em casa da filha do faraó. Depois de ver os judeus maltratados, foge para Midiã, casa, e estabelece-se lá. Aos 80 anos, Moshe encontra a sarça ardente. D’us ordena-lhe ir ao faraó e exigir, em nome de D’us, a libertação do povo judeu. Moshe, depois de tentar recusar esta missão, vai ao faraó. O faraó aumenta os trabalhos. O povo reclama.

1ª Aliá (1: 1-17) 70 Bnei Yisrael descem ao Egito. Tornam-se excessivamente numerosos, enchendo a terra. Surge um novo faraó que não conhecia Yosef. Receando que os judeus se unissem aos inimigos do Egito, ele procura diminuir a sua quantidade. A um imposto sobre o trabalho seguem-se trabalhos opressores. Em seguida, é ordenado às parteiras que matem os bebés judeus. As parteiras temem a D’us e não obedecem à ordem do faraó.

O livro de Shemot, do Êxodo, é radicalmente diferente de Bereshit. Bereshit era a história de pessoas: Avraham, Yitzchak e Yaakov, Sarah, Rivka, Rachel e Leah. Depois Yosef e os seus irmãos. E, sobreposto à história das pessoas, está o refrão Divino, “Dou-te a terra que prometi a Avraham”. É quase como uma canção com um refrão: cada pessoa é um verso, com o refrão da promessa de D’us sobre a terra a repetir-se. Avraham e sua vida, com a promessa de D’us a repetir-se. Yitzchak e sua família, com a promessa de D’us a repetir-se. Yaakov e depois a história de Yosef, com a promessa de D’us a repetir-se. Em Bereshit, as pessoas estão no centro do palco, com D’us sempre presente, mas de poucas palavras: a repetição da promessa.

Em Shemot, D’us e o homem trocam de lugar. É a história do controlo divino sobre o destino judaico. Ele é o encenador principal, e o povo judeu meros atores no palco. Ele já não não se oculta com repetidas promessas. Ele age, domina, controla, manobra. Inicia, comunica, comanda. Posteriormente, no Sinai, revela-Se.

Mas o Seu aparecimento só aconteceu quando chegámos ao fundo do poço.

O faraó age para enfraquecer o povo judeu. Ações cruéis, incluindo assassinato. As parteiras temem a D’us, recusam-se a matar. Não há menção das ações de D’us. Nós já vimos isso antes. O nome de D’us está ausente da venda de Yosef, tal como aqui. Cair, podemos cair sozinhos. No que toca à crueldade, o ser humano faz um excelente trabalho sozinho. D’us aparece quando chegamos ao fundo.

2ª Aliá (1: 18-2: 10) As parteiras defendem as suas ações perante o faraó. Moshe nasce e é colocado na água, numa cesta. A filha do faraó resgata-o. Miriam providencia para que a mãe de Moshe cuide dele. Ele é devolvido à filha do faraó e é chamado Moshe.

Quando Moshe nasceu, a sua mãe “viu que ele era bom”. E ele foi colocado na água, numa cesta. Esses 2 elementos, água e “era bom”, lembram-nos imediatamente o primeiro dia da Criação. No início, “o espírito de D’us pairava sobre as águas” (Génesis 1: 2). E quando a luz foi criada, “D’us viu a luz e eis que era boa.” Moshe a ser colocado na água e a sua mãe a ver “que ele era bom” poderia ser a maneira de a Torá nos dizer que há uma nova história da Criação a acontecer: com o nascimento de Moshe, um novo mundo amanhece para o povo judeu.

3ª Aliá (2: 11-25) Moshe amadurece. Ele sai para ver as angústias dos seus irmãos. Defende um judeu matando o seu agressor egípcio e, em seguida, salva um judeu de um agressor judeu. Foge para Midiã para salvar a vida, ajuda as filhas de Yitro, é recebido por Yitro, casa-se com Zípora e tem um filho, Gershom, “pois sou um estranho numa terra estranha”. D’us vê o sofrimento dos judeus e lembra-Se da sua aliança com Avraham, Yitchak e Yaakov.

Moshe chama o seu filho Gershom, porque “sou um estranho”. A que terra estranha se refere ele? Ser judeu no Egito? Ou ser egípcio em Midiã? Onde é a verdadeira casa de Moshe?

A história até este ponto é a história de pessoas; D’us ainda não apareceu. Num mundo sem a presença de D’us, existem pessoas boas e pessoas más. O faraó: mau. As parteiras: boas. Os pais de Moshe: corajosos. A filha do faraó: boa. A irmã de Moshe: altruísta. O capataz dos escravos egípcio: cruel. Os judeus a lutar, violentos. Yitro: hospitaleiro.

E Moshe? Sai. Preocupado. Ajuda quem precisa de ajuda. Sente angústia. Um estranho.

D’us aparece. O Seu nome aparece 5 vezes em 3 versículos. Agora tudo muda. Ou talvez não. Será que Ele orquestrou toda a atividade humana até este ponto, ou são simplesmente as pessoas a fazerem o que costumam fazer, algumas sendo boas e outras não? Ou têm sido meros fantoches na Sua Mão?

4ª Aliá (3: 1-15) Moshe e a sarça ardente. Moshe, Moshe, Hineni. D’us fala, Moshe fica intimidado. D’us diz-lhe: Vi o sofrimento do Meu povo. Salvá-los-ei do Egito e trá-los-ei para a terra do leite e do mel. Envio-te para ir ao faraó e ele libertará o meu povo do Egito. Moshe refuta: Quem sou eu para ir ao faraó? E o povo judeu vai perguntar Quem me enviou. D’us diz: Diz-lhes que foi o D’us dos seus antepassados, Avraham, Yitzchak e Yaakov, que te enviou.

Aqui, toda a história da Torá muda. D’us passa de força invisível por trás da ação humana a ditar diretamente a atividade humana. Ele diz a Moshe que tirará o povo judeu do Egito e os trará para a terra de Israel. Até agora, a terra foi prometida ao povo judeu, mas o povo tem vivido apenas com a promessa, não com o seu cumprimento. Eles não viram a Mão de D’us; detectaram-na por trás dos eventos. Como disse Yosef, “D’us trouxe-me ao Egito para salvar a família”. Ele nunca ouviu isso. Ele espreitou por trás da cortina e detectou-o.

Agora a cortina está corrida. Moshe recebe informação detalhada sobre o que acontecerá. Os judeus serão expulsos pelo faraó. A história do Êxodo do Egito é um pilar da crença judaica porque é uma exibição direta e flagrante da Mão de D’us na nossa história. É a Sua mão à vista de todos, não por trás da cortina.

5ª Aliá (3: 16-4: 17) D’us continua: Reúne o povo. Diz-lhes que os levarei para a Terra. Eles ouvirão. Vai ao faraó. Eu sei que ele não te ouvirá. Ferirei os egípcios. Saireis carregados de ouro, prata e roupas, tudo dado pelos egípcios. Moshe ainda está convencido de que as pessoas não vão acreditar nele. D’us dá-lhe sinais: o cajado transforma-se em cobra e depois de novo em cajado, a sua mão fica leprosa e depois volta ao normal. E a água transforma-se em sangue. Moshe contrapõe: Não sou bom orador. D’us diz: Sou Eu que dou a palavra ao Homem. Enviarei Aharon contigo. Ele falará. Leva o teu cajado.

A relutância de Moshe é surpreendente. Avraham não hesitou em cumprir a ordem de sacrificar o seu filho. Noach também não, quando recebeu uma ordem que iria causar a zombaria das pessoas. Moshe é um líder muito relutante, o que mostra que ele não é um homem guiado por uma missão, um líder fantástico, carismático, que vai guiar o seu povo da opressão à liberdade, mostrando o poder da vontade humana face à injustiça. E, afinal de contas, ele tem oitenta anos; já é um começo tardio para ser líder de um povo.

A história de um líder carismático a conduzir a liberação, da opressão à liberdade, seria uma história ótima. Mas não é a nossa história. A nossa história é a história da Mão Divina a guiar os eventos humanos através de um líder relutante. Esta não é a história de Moshe. É a história do Divino. E até mesmo a famosa frase “deixa ir o meu povo”, não é uma frase de Moshe. A frase é “deixa ir o Meu povo”. É Moshe a repetir a frase de De’s ao faraó. Moshe é só o mensageiro.

6ª Aliá (4: 18-31) Moshe recebe a bênção de Yitro para retornar ao Egito. D’us diz a Moshe que aqueles que queriam a sua morte já morreram. D’us diz-lhe para dizer ao faraó: D’us diz que Israel é o Seu primeiro filho. Deixa sair o Meu primogénito, pois se não o fizeres, matarei o teu primogénito. Zippora circuncida o seu filho. Aharon cumprimenta Moshe. Eles reúnem o povo. O povo acredita que D’us os redimirá.

D’us diz mais uma coisa a Moshe: Israel é o Meu primogénito. Como se dissesse – “Moshe, esta é uma história de amor. Eu vejo o povo judeu como o Meu amado primogénito. E a recusa do faraó resultará em punição divina.” A nossa ética ocidental fica desconfortável com estes princípios centrais do Judaísmo: a Mão de D’us na História, o amor de D’us pelo povo judeu e o castigo Divino. Como disse Rabi Sacks, z ”l,: Isso era radical nessa época, e continua radical hoje.

7ª Aliá (5: 1-6: 1) Moshe e Aharon aproximam-se do faraó, solicitando uma viagem de 3 dias ao deserto para uma celebração. O faraó recusa-se. Ele aumenta a carga de trabalho. Surge conflito entre os trabalhadores judeus e os supervisores egípcios. Os judeus criticam Moshe por o seu fardo ter aumentado. Moshe queixa-se a D’us. D’us assegura-lhe que, através de uma mão forte, o faraó deixá-los-á sair.

Que grande lição: mesmo quando temos uma promessa de De’s, não pense que tudo vão ser rosas. As Suas promessas confrontam a incómoda realidade dos seres humanos. O plano para a saída dos judeus confronta a realidade do faraó e a sua resistência. O faraó desvia o plano, pelo menos em parte. Essa é a lição: O homem deambula sem rumo enquanto o plano Divino se desdobra, para cima e para baixo, para a frente e para trás. Mas a resistência não altera o fim. O fim vai chegar. Pode ser mais tarde, mas uma promessa é uma promessa.

 

Parashá da Semana – Pekudei

Parashá da Semana – Pekudei

Parshat Pekudei

Por: Rav Reuven Tradburks

1ª aliá (Shemot 38:21-39:1) Foi feita uma contagem de todas as matérias-primas utilizadas para construir o Mishkan (o ouro, a prata e o cobre) e aquilo para que foram utilizadas. Os têxteis finos foram utilizados para as peças de vestuário dos Cohen, tal como De’s ordenou Moshe.
A Torah regista a forma como os materiais recolhidos do povo foram utilizados. Isso é interessante, mas porque é que está aqui? Que propósito é servido por esta contagem?

Quando Moshe desce da montanha com as segundas luchot, começa um novo capítulo para o povo judeu. É o capítulo da autonomia. Agora somos livres. Estes são os primeiros passos da nação judaica. Estamos a embarcar no nosso esforço nacional: governação, liderança, orçamentos, construção. O Mishkan é o primeiro projecto nacional. Todos os olhos estão postos nele. Será o nosso projecto judaico diferente de todas as outras estruturas de poder conhecidas pela humanidade? Todas elas seguem a mesma fórmula: construir estruturas nacionais através de impostos ao povo. Ficando os líderes sempre com uma parte. Moshe estabelece o tom para a nação judaica. Nós não ficamos com nada. A frase: “E De’s falou a Moshe, ordenando…” está ausente da descrição. Não há nenhuma ordem. Esta é uma iniciativa de Moshe. Para definir o tom da integridade: Servir a De’s, não servir a nós próprios.

2ª aliá (39:2-21) O Efod (saia) foi feito de materiais coloridos como De’s ordenou a Moshe. As pedras preciosas esculpidas com os nomes de Israel foram colocadas nos ombros do Efod, tal como De’s ordenou a Moshe. O Choshen (Placa de peito), do mesmo material do Efod, foi feito com as 12 pedras engastadas nele, pendurado nos ombros do Efod, como D’s ordenou a Moshe.

As peças de vestuário dos Cohen estão em contraste com o resto do Mishkan. Elas mexem-se. São dinâmicas. O Mishkan não se mexe. É estático. O Aron, a Menorah, a Shulchan, o altar de incenso, são todos estacionários, estáticos. As peças de vestuário do Cohen movem-se com ele. Parece que há duas noções simultâneas no Mishkan: Há constância, permanência, uma noção imutável simbolizada pela consistência do edifício e dos seus objetos. E depois há o dinamismo, o movimento, a mudança, simbolizados pelo Cohen. No nosso serviço a De’s, a um certo nível, a nossa relação de pacto é sólida, imutável, consistente, um serviço diário. Mas, ao mesmo tempo, o nosso mundo muda constantemente. Cada momento é diferente, novo, único. Crescemos, envelhecemos, as nossas circunstâncias mudam, o nosso mundo muda. Vivemos num mundo dinâmico, em constante mudança. A constância da nossa relação na aliança reflecte-se no material sólido dos vasos e na construção do Mishkan. A fluidez da vida reflecte-se nas vestes dos Cohen que se movem com ele, expressando o nosso serviço a Ele através de todas as exigências da vida.

3ª aliá (39:22-32) O Meil (manto) era feito de Techelet, com romãs e sinos na bainha, como De’s ordenou Moshe. O K’tonet (túnica de linho) era feito para todos os Cohanim, tal como o Turbante e o Cinto, tal como De’s ordenou a Moshe. O Tzitz dourado (na testa) foi feito e apertado como De’s ordenou a Moshe.

Os nomes são gravados nas peças de vestuário dos Cohen. Mas de quem são os nomes? Os nomes das 12 tribos do povo judeu são gravados em 2 jóias e colocados sobre os ombros do Cohen Gadol. Além disso, os mesmos 12 nomes são gravados individualmente em pedras preciosas e colocados na placa de peito. Mas, para além dos nossos nomes, o nome de De’s está gravado no Tzitz, uma placa de ouro pendurada do turbante do Cohen Gadol, na sua testa. Os nossos nomes no coração e no ombro. O Seu nome na cabeça. Rav Soloveitchik considera-os no contexto da halacha. O nome de De’s no nosso cérebro representa a halacha raíz, no seu sentido teórico. Os nomes do povo judeu sobre o coração, fixados ao Choshen Mishpat, representam a aplicação da halacha no seu sentido prático, tendo em conta a singularidade de cada situação, julgando com a sensibilidade e ternura do coração.

4ª aliá (39:33-43) Todo o trabalho foi completado como De’s ordenou a Moshe. Todo o trabalho concluído foi levado a Moshe: o edifício do Mishkan, os utensílios, o pátio exterior, as peças de vestuário dos Cohen. Moshe viu que tudo foi feito como De’s lhe tinha ordenado. Moshe abençoou o povo.

A repetição da frase “como De’s ordenou a Moshe” é impressionante. Aparece 18 vezes. Isto cria um contraste subtil com o bezerro de ouro. Ao contrário da terrível violação do Seu comando no bezerro de ouro, aqui todos agem em total conformidade com o que foi ordenado.

5ª aliá (40:1-16) De’s ordena a Moshe: no primeiro dia do primeiro mês, monta o Mishkan. Moshe é instruído na ordem exacta para colocar os utensílios e o edifício. Ele deve vestir os Cohanim e ungi-los. Moshe fez tudo o que De’s lhe ordenou.

A montagem da estrutura acontece em Rosh Chodesh Nissan, no ano 2. Um ano após o Êxodo. O Êxodo foi um começo. Daí que Nissan se tenha tornado o primeiro mês do ano. Isto também é um começo. Daí o 1º dia, o 1º mês.

6ª aliá (40:17-27) No primeiro dia do primeiro mês do segundo ano, o Mishkan foi montado, na ordem exacta em que Moshe foi instruído por De’s.

7ª aliá (40:28-38) Moshe completou o trabalho. Uma nuvem cobriu o Ohel Moed; a glória de De’s encheu o Mishkan. Moshe não pôde entrar devido à nuvem e à glória de De’s. A subida da nuvem era o sinal para partir. A nuvem de De’s estava diariamente sobre o Mishkan, à noite era fogo, visível para todo o povo judeu.

Esta pequena aliá é no entanto muito profunda. A conclusão do edifício é a descida da nuvem, indicando a presença de De’s. Estamos familiarizados com a nuvem. Quando De’s quer indicar que está presente, ou mais precisamente, que a Shechina está presente, aparece uma nuvem. Vimos a nuvem em Har Sinai. E aqui.

Esta descrição enganosamente simples é o culminar de toda a Torá até este ponto. E é a história do amor de De’s por nós. Toda a história da Torá até este ponto é a história do alcance cada vez mais íntimo de D’us em relação ao homem. Ele criou o mundo, retirando-se para dar lugar ao Homem. Quando Adão e Eva pecaram, Ele não os destruiu. Quando Caim matou Abel, Caim vagueou pelo mundo, mas não foi destruído. No tempo de Noé, Ele salvou a humanidade. Ele fez uma promessa de não destruir o mundo. Cada um destes episódios exprime o compromisso de De’s para com o Homem; a sua generosidade e amor pelo homem. Ele prometeu a terra a Avraham. Observou enquanto os filhos de Avraham tropeçavam, repetindo-lhes a Sua promessa. Retirou o povo judeu do Egipto, embora eles não o merecessem. Aproximando-se do Homem vezes sem conta. Dando a Torá ao povo judeu, descendo ao Har Sinai para falar. E, em resposta ao grande insulto do bezerro de ouro, dando ao povo um segundo conjunto de tábuas. Por muito que a Torá seja a história do povo judeu, é realmente a história da aproximação de De’s em relação ao Homem: alcançar o Homem, trazê-lo para mais perto, aproximar-se do Homem. É a história de De’s, fiel, trazendo-nos até Ele, trazendo Avraham, trazendo-nos para fora do Egipto, aproximando-se de nós no Sinai. E finalmente, descendo para se instalar no meio do povo no Mishkan. Um lar para a Shechina, no meio do povo. O Mishkan é o lar da Shechina neste mundo.

Isto não é só retórica. Esta é a simples leitura do fluxo da Torá. Tudo conduz a este momento: a presença da Shechina no nosso meio. É um pensamento radical. De’s a viver neste mundo? Mas é isso que a Torá. É um pensamento Radical. E profundo.

Todos nós conhecemos a expressão frequentemente citada de que o De’s dos cristãos é o De’s do amor. Bem, o De’s do povo judeu é o De’s do amor. Ele aproxima-Se de nós incansavelmente, mesmo quando O insultamos e O rejeitamos. E instala-Se no nosso meio.

Os seres humanos querem ser procurados. Queremos saber que alguém se preocupa, que alguém nos ama. Essa é a história da Torá. Que o amor incessante de De’s culmina no Seu desejo de habitar entre nós. Entre nós? Sim. Ele quer instalar-Se no Mishkan.

E assim termina a descrição da Sua aproximação a nós. O resto da Torá será sobre como nós retribuiremos essa aproximação.

O livro do Êxodo chama-se Sefer HaGeula, o livro da redenção. Mas não apenas a redenção do Egipto. É a redenção do Homem dos absurdos e caprichos da vida, da loucura sem sentido da existência, até ao momento glorioso e majestoso em que a Shechina nos abraça. No abraço da Shechina, toda a vida ganha sentido.