Parasha da Semana – Vayelech

Parasha da Semana – Vayelech

Vayelech

Pelo rabino Reuven Tradburks

Vayeilech é a Parasha mais curta da Torá. A parashá inteira é um capítulo de apenas 30 versos.

1ª aliya (Devarim 31: 1-3) Moshe vai. E fala a todo o povo. Tenho 120 anos. Não vos levarei à terra; D’us guiar-vos-á. E Yehoshua conduzir-vos-á. Moshe enfatiza que nenhum líder é indispensável. É D’us quem conduz. Yehoshua assumirá o seu lugar como líder, mas como parceiro do Divino. A parashá é chamada Vayelech por causa da primeira palavra. Moshe foi. Para onde foi ele? Ibn Ezra disse que foi a cada tribo para informá-los de que não os lideraria, de que estava prestes a morrer, e para abençoá-los. A airosa despedida de Moshe é preciosa; Eu fiz o que fiz. Agora é hora de Yehoshua liderar o próximo capítulo.

2ª aliya (31: 4-6) D’us fará por vós, como fez com Sichon e Og. Sede fortes e firmes, não tenhais medo nem vos preocupeis; D’us estará convosco. Ele não vos deixará.

Estes versículos são instrutivos. Moshe repete a necessidade de serem fortes, de não se preocuparem, e que D’us não os abandonará. A duplicação de expressões é a maneira de Moshe dizer que isso não será fácil. Não penses que a aliança com o Divino torna a vida fácil. Ele está contigo, mas tens que ser um participante ativo do teu próprio destino.

3ª aliya (31: 7-9) Moshe chamou Yehoshua, e na frente de todo o povo instruiu-o a ser forte e corajoso. Pois D’us estará contigo; Ele não te abandonará, então não tenhas medo. E Moshe escreveu a Torá deu-a aos portadores do Aron. Moshe encoraja muito Yehoshua – sê chazak, forte, e amatz, poderoso. Não tenhas medo. Embora Moshe tenha dito exatamente a mesma coisa ao povo, ele garante a Yehoshua o sucesso. Moshe está a abordar os medos de Yehoshua. Pois embora haja uma promessa ao povo judeu, quem sabe se eu, Yehoshua, mereço ser o líder. Talvez eu seja indigno. Esta é a humildade saudável que todos os líderes devem demonstrar. Quem sou eu para liderar este grande povo.

4ª aliya (31: 10-13) Hakhel: A cada 7 anos, durante Sucot, quando todo o Israel se reúne, lede esta Torá, para que todos aprendais a ter admiração e a observar a Torá. Depois de encorajar Yehoshua, Moshe escreve a Torá e aprendemos a mitsvá de Hakhel – a leitura pública da Torá a cada 7 anos. E embora Hakhel seja uma mitsvá significativa, o seu aparecimento aqui é curioso. Moshe está em transição. Ele está a despedir-se. Yehoshua está a ser investido. Porquê cumprir a Mitzvah de Hakhel, de ler e ensinar as pessoas a temer a D’us? Talvez, e isto é uma conjetura, a mitsvá de Hakhel não seja ensinar o povo, mas ensinar o rei. O Rei deve ler a Torá perante o povo. Talvez esta seja a versão da Torá do «desconforto dos 7 anos». Os líderes, as empresas e as instituições geralmente fazem mudanças a cada ciclo de 7 anos. Após 7 anos, faz um balanço. Onde estás? Para onde te diriges? Estás no caminho certo? Moshe está a instruir Yehoshua. Deves liderar o povo para ser um servo de D’us. Quando fores líder, acontecerá muita coisa que pode tornar-te excessivamente confiante, arrogante, ou talvez medroso, pessimista. A cada 7 anos, pega na Torá e lê-a; faz um balanço, publicamente. Reinicia-te, perante todo o povo. Quando eles virem isso, será uma lição através do exemplo. Eles também farão um reinício para serem servos do povo e de D’us.

5ª aliya (31: 14-19) D’us chama Moshe e Yehoshua. Aparece uma nuvem. Ele diz: este povo irá atrás de ídolos e abandonará a Minha aliança. Deixá-los-ei. Ocultarei o Meu rosto deles e sentirão que os abandonei. Certamente, ocultar-Me-ei deles. Escreve esta canção. Ensina-lhes isto, para que seja um testemunho para eles. Esta aliya torna-se difícil. Agora não é Moshe a falar, mas D’us a falar com Moshe e Yehoshua. Os judeus rebelar-se-ão. E Hashem retirar-Se-á, deixará os judeus sujeitos a quaisquer calamidades que lhes aconteçam. Este versículo contém um grande mistério teológico: «Ocultarei o Meu rosto deles». Arrepiante. E repete-se: Certamente, ocultar-Me-ei. O maior desafio teológico, colocado no nosso tempo pela tragédia insondável do Holocausto, deve lidar com este eclipse Divino – A ocultação do Seu Rosto. Quando e porquê oculta Ele o rosto? A Torá afirma-o, mas não o explica. E enquanto a história judaica está repleta de tragédias, aparentemente momentos deste eclipse divino, pelo menos no nosso tempo somos aquecidos pelo oposto: nós, que retornámos à Sua terra, somos aquecidos pelo resplendor do Seu rosto sobre nós.

6ª aliya (31: 20-24) Levarei o povo à terra, mas eles reagirão ao sucesso com rebelião. Que esta canção esteja pronta para quando isso ocorrer. Moshe escreveu a canção, ensinando-a ao povo. Ele encarregou Yehoshua novamente de ser forte. Moshe parece ser generoso com Yehoshua, como se dissesse: «quando as coisas ficarem feias, não te sintas culpado. Tudo o que podes fazer é liderar. Se o povo te segue ou se rebela, não é culpa tua. Sê forte.» A generosidade para com o próximo líder, fazendo de tudo para ajudá-lo a ter sucesso, é o sinal de um líder que lidera não por seu próprio ego, não gostando que o próximo líder seja melhor do que ele, mas sim de um líder que lidera como um servo do povo, desejando apenas o seu sucesso do povo.

7ª aliya (31: 25-30) Moshe ordenou aos Leviim que colocassem a Torá ao lado do Aron, como um testemunho permanente. Pois eu conheço este povo e eles são teimosos e rabugentos. Reúnam todos os líderes para que eu possa admoestá-los, pois tenho certeza de que depois de minha morte, haverá deslealdade. E Moshe recitou ao povo as palavras da canção. A canção à qual Moshe continua a referir-se parece ser Haazinu, a próxima parashá. A história terá sua cota parte de surpresas. Mas haverá episódios na história que, embora trágicos e cheios de sofrimento, não precisam de constituir crises teológicas. No alvorecer da nossa história já esperamos o inesperado, enfrentando a história com um sentido sóbrio de sucesso e desafio.

 

Parasha Da Semana – Nitzavim

Parasha Da Semana – Nitzavim

Parashat Nitzavim

Pelo rabino Reuven Tradburks

Com a Parshat Nitzavim começamos 4 parshiot muito curtas que são a conclusão da Torá. Embora a parashá tenha apenas 40 versículos, o seu impacto emocional é difícil de igualar. O Talmud diz que as maldições da Parshat Ki Tavo devem ser lidas antes de Rosh Hashaná. Nós não fazemos isso. Nitzavim é sempre lida no Shabat antes de Rosh Hashaná. Parece que a dureza das calamidades que cairiam sobre nós, conforme descritas em Ki Tavo, embora verdadeiras, são difíceis. Com que humor queremos enfrentar Rosh Hashaná? Com a dureza e seriedade da condenação que resultará da falta de lealdade à Torá? Ou com o otimismo e o incentivo da previsão de retorno da nossa parashá? O medo de Ki Tavo é temperado pela esperança e pelas garantias de Nitzavim.

1ª aliá (Devarim 29: 9-11) O Brit de Arvot Moav. O povo inteiro está reunido para entrar no pacto: homens, mulheres, crianças, carregadores de água e cortadores de lenha. Já tivemos outros pactos na Torá: Uma das alianças foi feita com Avraham; a outra no Sinai. O que é impressionante nesta aliança são 2 coisas: pessoas específicas e a palavra Hayom, que aparece 4 vezes em 6 versículos. Um acordo, ou uma aliança, feita com uma nação, pode permitir que nos ocultemos: «Isto não se aplica a mim pessoalmente, mas sim à nação. Cuidem vocês disso.» Moshe evita ocultar-se: vocês estão todos incluídos: homens, mulheres, gente comum. E isto não é uma informação antiga. É de hoje. Como se Moshe estivesse a dizer: «Eu não estou a fazer esta aliança no “meu” hoje – mas para vocês, leitores, esta aliança está a ser feita no “vosso” hoje.» Todos vocês estão dentro: gerações presentes e futuras. Sem ninguém se ocultar.

2ª aliá (29: 12-14). Para entrar na aliança; que D’us será o nosso D’us e nós seremos o Seu povo. Como foi dito aos Avot. Esta aliança é feita contigo aqui hoje e com aqueles que não estão aqui hoje. O Talmud entende esta aliança como aquela que une todos os judeus com a noção de que «todos os judeus são responsáveis uns pelos outros – kol Yisrael areivim zeh b’zeh». Parece que há aqui uma extensão  da aliança, não apenas às pessoas presentes, mas a todas as gerações futuras, que gera a ideia de responsabilidade mútua. Todos nós estamos vinculados por esta aliança que abrange gerações.

3ª aliá (29: 15-28) Se existir entre vós alguém que siga um ídolo, racionalizando que é livre para seguir o seu coração, a consequência do vínculo especial desta aliança é que a sua deslealdade, a sua adoração de ídolos, será recebida com a ira divina. A destruição desta Terra por causa de sua infidelidade será tão profunda que as pessoas olharão para ela e ficarão chocadas com a sua total desolação. Reconhecerão que a sua deslealdade resultou nesta desolação e na sua expulsão desta Terra. A descrição da terra de Israel como uma terra que mana leite e mel é difícil para nós, ocidentais: nós sabemos como é uma paisagem rica e verdejante, e a atual terra de Israel não é assim. A topografia rochosa de Israel, sem grama [relva] e sem árvores é chocante para os nossos olhos – estamos habituados a grama [relva] e árvores. Especialmente porque é a terra que mana leite e mel. Algo mau aconteceu com ela. O Ramban afirma que a terra não está permanentemente condenada a ser estéril e desolada; enquanto permaneceu em mãos não-judias, a topografia permaneceu árida. Uma vez devolvida às mãos dos judeus, o verde retorna. Privilegiados são os olhos que viram o retorno do verde.

4ª aliá (30: 1-6) Quando fores expulso da terra para os 4 cantos do mundo, levarás a sério o teu destino no teu coração – e retornarás a D’us. Ele retornará a ti, retornando a ti para te reunir dos lugares distantes. Mesmo que estejas nos confins da terra, Ele vai reunir-te e tirar-te de lá, para te trazer de volta a esta terra. Este é o parágrafo mais bonito de toda a Torá. É tão bom que fica partido ao meio, para o saborearmos melhor. É chamado de Parshat HaTeshuva, a seção do Retorno. A palavra retorno aparece 7 vezes. Nós para ele. Ele para nós. Nós damos um passo, Ele dá um passo na nossa direção. Mas o nosso primeiro retorno é descrito como «levarmos o assunto a sério no nosso coração». O início da teshuvá é ouvir os murmúrios do coração. E Ele é o nosso cardiologista. Ele conhece os murmúrios do nosso coração, por mais fracos que sejam. E dá-nos a força, a vontade de construir algo a partir dos nossos desejos mais profundos. Ele dança connosco, mas espera que nós demos o primeiro passo. Então dá-nos mais e mais força. Basta darmos esse passo.

5ª aliá (30: 7-10) E Ele implantará em ti o amor por Ele. E voltarás para Ele. E Ele ficará emocionado contigo porque o teu retorno é com sinceridade, de coração cheio. Moisés escolhe palavras no Sefer Devarim que são palavras de afeto. Há muito amor e muito coração: amor a Hashem, todo o teu coração. Palavras e expressões como vida, bom, apegar-se a Hashem, hoje. Moshe não quer ser apenas professor de halachá. Ele também deseja ser o professor da nossa vida interior. Precisamos de orientação, não apenas sobre o que fazer, mas também sobre o quê e como sentir. Os nossos sentimentos: deixa-O entrar, com amor, com os sentimentos mais profundos do teu coração, todos os dias. A linguagem é notavelmente mais emotiva do que no resto da Torá. Moshe, mesmo antes da sua partida, tanto do seu papel de líder como deste mundo, deseja desesperadamente transmitir os seus sentimentos mais profundos e alcançar as nossas mais profundas emoções.

6ª aliá (30: 11-14) Pois esta Mitzvah não é sublime, como se precisasses de alguém para ascender os céus ou cruzar o oceano para a ir buscar. Pelo contrário, está muito próxima; nos teus lábios e no teu coração. Este pequeno parágrafo é o mais bonito da Torá (ok, é um empate). Pode ser entendido como se referindo a toda a Torá. Como se dissesse: «Eu sei que a Torá parece assustadora; mas não é, é o verdadeiro “tu”» Ou pode estar a referir-se à Teshuva. Como se dissesse: «A mudança parece assustadora; mas não é uma mudança, é o verdadeiro “tu”» Temos essa expressão, o pintele yid. No fundo, todos têm uma conexão com D’us e com o povo judeu. Isso é exatamente o que este versículo diz: não precisamos de nos ajustar, para nos adaptarmos a uma crença em D’us. Precisamos de ser sensíveis, para sondar o nosso verdadeiro “eu”, para cavar fundo e descobrirmo-nos a nós mesmos. Está muito perto: nos nossos lábios e no nosso coração.

7ª aliá (30: 15-20) A vida e o Bem, a morte e o Mal estão diante de ti. A vida é consequência da lealdade às mitzvot. A destruição aguarda a falta de lealdade. O céu e a terra são testemunhas: a vida e a morte, a bênção e a maldição, estão diante de ti. Escolhe a vida. Essas palavras são as últimas do longo discurso de Moshe. Ele continuará a falar sobre a transição da liderança. Mas essas últimas palavras são como uma esbatimento, uma diluição. Depois de tudo dito e feito, o que está em jogo nesta grande aventura das mitsvot é, nada mais, nada menos do que a vida ou a morte. E, com estas palavras, Moshe prepara-se para se despedir do povo. Nada mais há a dizer. Escolhe a vida.

Parasha da Semana – Ki Tavo

Parasha da Semana – Ki Tavo

Parasha Ki Tavo

Pelo rabino Reuven Tradburks

A nossa Parasha inicia a conclusão da nossa Torá. O livro de Devarim consiste no longo discurso de Moshe no final da sua vida. O seu discurso é muito bem trabalhado, uma obra magna de passado, presente e futuro. Começou com uma revisão da nossa história, incluindo os sucessos e os fracassos e as suas lições sobre o assentamento iminente na terra. Depois esboçou como deve ser uma sociedade judaica: 170 mitzvot, incluindo monoteísmo ético em todo o seu esplendor, construção nacional, os poderes judiciário, legislativo e executivo e a alta vocação ética na vida dos indivíduos. A parshat Ki Tavo tem apenas 6 mitzvot. É o início da conclusão dos requisitos de Moshe para o povo. É seguida de 4 parshiotes muito curtas, que juntas seriam uma parashá longa. Ou seja, estamos apenas a uma  parashá do final da Torá depois de Ki Tavo. Este é o fim da nossa Torá. E esta secção não trata do presente, ou seja, do assentamento bem-sucedido da terra. Ela olha para o futuro: o futuro distante, o futuro que se segue a uma longa e bem-sucedida estadia na terra.

1ª aliá (Devarim 26: 1-11) Quando te estabeleceres na terra, traz os teus primeiros frutos como oferenda. Quando oferecidos, declara o seguinte: Os meus antepassados ​​desceram ao Egito, foram escravizados, clamaram a Ti e Tu redimiste-os com braço forte, trazendo-os para esta terra de leite e mel. E reconheço que me beneficiei de tudo isso, regozijando-me com todo o bem que recebi. Esta mitsvá de bikkurim, das primícias, é rica. Mas além da sua própria beleza, é importante o seu significado na narrativa de Devarim. Em bikkurim, o fazendeiro de sucesso expressa enfaticamente como ele é afortunado por estar onde está. Ele está de pé sobre os ombros da nossa história. Egito, redenção, a terra, e agora o pequeno eu, desfrutando da generosidade da terra. Esta é uma bela mitsvá de gratidão e apreço. Mas também é um prenúncio. Saibam, meu povo, diz Moshe, saibam que esta é a maneira como vocês devem viver. De um modo agradecido, consciente, com sentido da história, colocando D’us no centro do vosso sucesso. E regozijando-vos, tendo simcha. Este é um prenúncio para as horríveis maldições que Moshe delineará caso este ideal não seja realizado. É assim que deve ser. E poderia ser.

2ª aliá (26: 12-15) No terceiro ano, declara que todos os dízimos foram entregues: Eu entreguei os dízimos sagrados, bem como aqueles para os Levi e para os necessitados. Fiz tudo o que me foi ordenado fazer. Olha para baixo, do Teu lugar sagrado nos céus, e abençoa-nos nesta terra que mana leite e mel. Os dízimos incluem presentes para os Cohanim e Leviim: apoio comunitário aos líderes religiosos. E também abrange bem-estar social. A produção de Maaser sheni inunda Jerusalém, criando alimentos baratos, uma rede de segurança para os necessitados. E no 3º ano, 10% para os próprios pobres. Nestas primeiras 2 curtas aliot, estas 2 mitzvot encapsulam a vida judaica como deveria ser. Monoteísmo, centralidade do Seu lugar em Jerusalém, sensibilidade religiosa e cuidado com os necessitados. Monoteísmo ético. O que deveríamos ser e o que poderíamos ser.

3ª aliá (26: 16-19) Hoje D’us está ordenando que guardes as Suas leis com todo o teu coração. Declaras hoje que Ele será o teu D’us e que tu guardarás as Suas leis. E Ele declara que vós sereis uma nação preciosa, para vos elevar, para serdes um povo glorioso e santo.
Uma declaração breve, mas poderosa. Ambos estamos comprometidos: nós com Ele, e Ele connosco. Esta é nossa nobre vocação. Moshe afirma isso positivamente. No entanto, dentro em breve delineará as pesadas implicações de sermos o Seu povo.

4ª aliá (27: 1-10) Moshe, com os anciãos, ordenou ao povo: ao entrar na terra, estabelecei um monumento de pedras com toda esta Torá escrita nele. Construí um altar em frente a ele, apresentai oferendas e regozijai-vos diante do vosso D’us. Moshe, os Cohanim e os Leviim falaram: sabei que hoje sois o povo de D’us. Monumentos, pedra, permanência. A Torá deve ser permanente na vida na terra. Repare nas pessoas que Moshe incluiu aqui: primeiro, os anciãos juntam-se a ele no comando do povo. Depois, os Cohanim e os Leviim. O encorajamento do povo vem de todos os níveis de liderança.

5ª aliá (27: 11-28: 6) Moshe ordenou ao povo: 6 tribos estarão no Har Gerizim, 6 no Har Eval. Os Leviim ficarão entre as montanhas, pronunciando o seguinte, afirmado com Amén pelo povo: Maldito aquele que fizer ídolos em privado, amaldiçoar os pais, alterar as demarcações entre as suas terras e as do vizinho, enganar os cegos, manipular a justiça dos fracos, cometer incesto, agredir alguém em privado, aceitar suborno resultando em castigos corporais, ou deixar de cumprir a Torá. As Bênçãos e Maldições: Se cumprirdes as mitzvot, sereis uma nação gloriosa. Sereis abençoados com filhos, com o fruto da terra e com rebanhos. A dramática apresentação de quem é amaldiçoado é notável: todas as coisas feitas em privado. Com todas as necessidades de liderança comunitária, o centro da nossa vida religiosa é o nosso relacionamento pessoal com D’us. São as coisas feitas em privado que realmente transmitem a nossa lealdade. Quando ninguém está a olhar, Ele está. E isso também é um prenúncio. Pois nunca estaremos verdadeiramente em posição de avaliar a plenitude de nossa retidão, pois quem pode ver o coração dos seres humanos?

6ª aliá (28: 7-69) Serás abençoado com sucesso militar, com abundância do tesouro de D’us e sobressaindo sobre os outros. Mas se não cumprires as mitzvot, serás amaldiçoado: Na descendência, produção agrícola, rebanhos, doença. Os inimigos perseguir-te-ão. Serás uma carcaça no campo. Doença, cegueira, demência, vagando sem direção. Não desfrutarás dos frutos do teu trabalho; serão arrancados de ti. Isso tudo vai deixar-te louco. Serás levado para outras nações, e servirás os ídolos de lá. Os teus esforços não terão sucesso. Afundar-te-ás, outras nações se erguerão. Serás ridicularizado como alguém que abandonou a D’us, recusando-se a servi-Lo durante o teu sucesso. Tudo se desintegrará; a tua família, a tua estrutura social, aqueles que são caros para ti. As doenças dizimar-te-ão. Em vez de seres como as estrelas do céu, serás minúsculo. Serás lançado ao redor do mundo, servindo ídolos, sem encontrares consolo, amedrontado dia e noite. Vais até mesmo acabar por voltar para o Egito, o lugar para o qual nunca mais deverias voltar. Esta é a aliança das planícies de Moav. Esta aliá é a aliá das maldições: o que ocorrerá devido ao nosso abandono de D’us e das mitzvot. E é longa: com 63 versos, uma das mais longas de toda a Torá. Nisso, Moshe vai muito além do presente. Ele tem se preocupado, compreensivelmente, com o que é necessário para construir a nação judaica com sucesso. Descreveu o que podemos antecipar da vida na terra: os seus desafios (como a adoração de ídolos), e a sua glória. Agora, ele olha para um futuro distante. Haverá um tempo de exílio. Eu sei, ainda nem entrámos na terra, mas chegará um momento em que perderemos essa terra. Teremos falta de gratidão, falta de lealdade, e seremos exilados. A nossa experiência no exílio será horrível: doença, fracasso, insegurança, colapso social total. E como acaba tudo isso? Uh, bem, não importa. Não há final feliz. Ficamos pendurados; vagando, sofrendo, dizimados. Oh, mas isso é nesta parashá. Na próxima semana, na mais bela das parshiot da Torá, Moshe retorna para falar do futuro na parasha de Teshuva. Mas o poder da poesia, de terminar esta descrição das maldições sem nenhuma conclusão é doloroso e deixa-nos com um terrível sentimento de insatisfação e pavor.

7ª aliá (29: 1-8) Moshe chamou o povo e falou: Vós falais de todas as maravilhas do Egito, mas demorastes até hoje para entenderdes o seu significado. Ele  guiou-vos e derrotou nações, dando-vos as suas terras. Portanto, guardai este pacto para viver com inteligência. Esta enganadoramente breve aliá contém uma declaração surpreendente e profunda: «Demorastes até hoje para entenderdes a nossa história». Nunca devemos permitir-nos ser simplistas, presunçosos, sentir que entendemos a história e os caminhos de D’us. A geração do deserto demorou 40 anos para apreciar completamente a sua história, a dinâmica de D’us na sua história. Compreender os Seus caminhos não é fácil.

Parasha da Semana – Ki Tetzeh

Parasha da Semana – Ki Tetzeh

Parasha Ki Tetzeh

Pelo rabino Reuven Tradburks

A Parasha contém 74 mitzvot, o máximo de todas as parshiot na nossa Torá. É a terceira das parshiot de Mitzvot: Ekev, Shoftim e Ki Teitsei. Moshe começou o seu longo discurso em Sefer Devarim com uma narrativa, revendo as experiências centrais do deserto e as suas lições; a sua intenção era contribuir para o sucesso da entrada no terreno. Depois deixou de falar sobre entrar na terra e passou a falar sobre como viver na terra; a construção da nação judaica. Nas Parshiot de Ekev e Shoftim, delineou lindamente a sociedade nacional judaica. Deve ser uma sociedade monoteísta ética; portanto, delineou as leis para evitar a adoração de ídolos, a centralidade do que seria Jerusalém e as leis da generosidade, de partilhar com os outros. Em seguida, passou dos princípios do monoteísmo ético aos fundamentos da nossa nação: o poder judiciário, o executivo e o legislativo. E agora, em Ki Teitseh, concentra-se em mitzvot pessoais. A construção de uma nação requer governo, tribunais, equilíbrios e controlos. Mas não é o governo que faz uma grande nação; ele regula o comportamento dentro de certas estruturas amplas. A grandeza residirá na vida quotidiana das pessoas; como se tratam, como se ajudam, o que dizem e o que dão, como vivem com bondade e generosidade no dia a dia. É aí que residirá a grandeza da nação judaica. Talvez dito de forma diferente: A Parshat Shoftim produzirá manchetes: O sistema judicial, o rei, as guerras. Essas são boas manchetes. A Parshat Ki Teitseh nunca chegará às manchetes: devolver um objeto perdido, pagar salários prontamente, relacionamentos saudáveis ​​no casamento. O respeito pelos outros não é manchete, mas faz grandes nações.

1ª aliá (Devarim 21: 10-21) Mulher Cativa: Não se pode casar com uma mulher capturada na guerra antes de passarem 30 dias e a paixão tiver diminuído. Primogénito: Os direitos do primogénito à porção dobrada não serão desviados para o primogénito da esposa mais favorecida. Ben Sorer Umoreh: um adolescente que está a entrar na idade adulta que é atrevido e glutão deve ser julgado, por receio de um comportamento mais chocante no futuro.

O soldado pode casar com a mulher não judia capturada na guerra; mas só depois de um mês, vendo-a diariamente de uma maneira descuidada. Mas o que não foi dito é muito mais importante: a guerra é acompanhada de estupro [violação] e pilhagem de mulheres. As mulheres são vistas como espólios de guerra. Mas não no exército judaico. A permissão concedida para o casamento com essa mulher não judia após um mês grita uma ética de guerra muito mais básica: a guerra nunca deve ser vista pelo exército judaico como uma licença para o abuso de mulheres.

2ª aliá (21.22-22.7) Enterro: Não permitais que o corpo de um condenado à morte fique pendurado, exposto. Ele deve ser enterrado imediatamente. Devolução de bens perdidos: Não desvies os olhos dos bens perdidos; devolve-os ao seu dono. Ajuda um animal sobrecarregado; não desvies o olhar. Não uses roupa do sexo oposto. Manda a mãe pássaro embora antes de levares os ovos ou os filhotes.

Reparem na ética implícita: uma pessoa condenada à morte cometeu o mais grave dos pecados. No entanto, o ser humano nunca perde o direito à dignidade. Mesmo um condenado à morte é um ser humano; o seu corpo não deve ser deixado pendurado, mas enterrado imediatamente. Os seres humanos podem manchar a sua dignidade com crimes terríveis que merecem a morte; mas nunca perdem a sua dignidade humana essencial.

Uma outra ética implícita está contida na devolução da propriedade perdida. A ética legal só pode determinar que eu não danifique a propriedade de outra pessoa. Mas a ética judaica exige que vamos muito mais longe; eu tenho que ajudar ativamente a propriedade da outra pessoa. Não pode haver espectadores passivos; temos que agir ativamente para salvar as vidas e as propriedades dos outros.

3ª aliá (22: 8-23: 7) Constrói uma cerca no telhado para evitar acidentes. Não realizes as seguintes ações: plantar nas vinhas espécies diferentes de plantas juntas, arar com bois e burros juntos, usar lã e linho juntos. Um homem não deve: caluniar uma noiva alegando que ela não é virgem; cometer adultério com uma mulher casada ou com uma noiva prometida; estuprar [violar] uma mulher solteira. Não se pode casar com um mamzer, nem com um homem de Amon ou Moav.

Nesta aliá, temos mitzvot sobre o mais básico da vida diária: as nossas casas, os nossos campos ou meios de subsistência, a nossa roupa e os nossos relacionamentos com os nossos parceiros. Cada uma destas mitzvot regula os aspetos básicos das nossas vidas. Nisso reside o significado profundo desta parashá. A Torá dá sentido às nossas vidas. Os nossos relacionamentos, as nossas casas, a nossa comida, a nossa roupa; todas essas coisas adquirem significado quando reguladas por mitzvot. Rav Soloveitchik chamou isso de redenção, ou geula; a vida mundana do homem é redimida da vulgaridade e do vazio através de mitzvot. De repente, a vida banal que vivemos torna-se significativa, uma expressão de lealdade ao nosso Criador e ao Seu amor por nós ao dar-nos estas instruções.

4ª aliá (23: 8-23: 24) Podem se casar com alguém de Edom ou do Egito. Os acampamentos militares devem ser tratados com certo grau de asseio; os banheiros [casas de banho] devem ser colocados fora do acampamento. Já que a presença de D’us vai convosco, o seu acampamento tem santidade. Protege os escravo fugitivos. Não te prostituas, nem aceites dinheiro de prostituição como oferenda. Não exijas juros dos empréstimos. Cumpre os teus votos sem atraso.

A cobrança de juros sobre um empréstimo não é permitida. Este é um tipo de bem-estar legislado pela Torá. Quando uma pessoa está com problemas e precisa de um empréstimo, fica vulnerável à agiotagem. Quando alguém precisa desesperadamente de dinheiro, isso é a receita perfeita para os agiotas o espremerem até à última gota. A Torá proíbe esse aproveitamento da desgraça do outro. Encontra outra maneira de lucrar; não com o infortúnio dos outros.

5ª aliá (23: 25-24: 4) Os trabalhadores rurais podem comer uvas ou legumes durante a colheita. Divórcio: o divórcio deve ser feito através de uma carta de divórcio (Get). Se a mulher se casar depois com outro homem, não pode voltar a casar novamente com o primeiro marido.

Permitir que o trabalhador coma o que está a colher é a introdução da ética do empregador. Ser empregador implica responsabilidade: a vida das pessoas está nas suas mãos. Permitir que o trabalhador consuma o que está a colher é apenas um exemplo de sensibilidade aos sentimentos dos funcionários. Os direitos dos trabalhadores têm sua base nestes versículos.

O divórcio é realizado através de um Get, ou documento de divórcio. A celebração de um casamento é chamada de kidushin e tem santidade, mas a dissolução de um casamento deve ser absoluta e completa. O Get é chamado de sefer kritut, um documento de dissolução completa. A concessão de liberdade total à mulher é a essência do divórcio. Criar um relacionamento é casamento: conceder liberdade total é o divórcio.

6ª aliá (24: 5-13) Primeiro ano de casamento: Não vás para a guerra no primeiro ano de casamento: alegra a nova esposa. O sequestro é crime capital. Lembra-te da Tzarat de Miriam e cumpre as suas leis. Pode ser pedida uma garantia de um empréstimo, mas apenas com a cooperação do proprietário. Se o proprietário precisar desse objeto de volta, devolve-lho todas as noites.

Se eu emprestar dinheiro a uma pessoa e estiver preocupado com o facto de talvez essa pessoa não me pagar de volta, posso assegurar o meu empréstimo com uma garantia. Isso faz sentido. Mas a concessão de garantias, embora justa, também deve ser justa para quem pede emprestado. As leis monetárias são todas para o equilíbrio de interesses opostos. Beneficiar o credor prejudica o devedor. E beneficiar o tomador do empréstimo tem um custo para o credor. A Torá alerta-nos para a necessidade de sermos sensíveis em todas as transações monetárias; uma ação que beneficia uma pessoa, fere a outra. Equilibrar as necessidades de ambos é a mensagem das regras de obtenção de garantias.

7ª aliá (24: 14-25: 16) Não retenhas salários: os trabalhadores devem ser pagos antes do fim do dia. Não pervertais a justiça do estrangeiro ou da viúva. Ao colher cereais, azeitonas ou uvas, deixa para os necessitados o produto que deixares cair. Nunca devem ser dadas mais do que 40 chicotadas. Yibum: o irmão de um falecido deve casar com a viúva do seu irmão se eles não tiverem tido filhos e, assim, manter o seu nome. Usa apenas pesos e medidas precisas. Lembra-te do que Amalek vos fez ao atacar os mais fracos quando deixastes o Egito. Apagai qualquer memória dele.

Numa aliá, temos mitzvot de salários, de justiça, de bondade, de chicotadas, de casamento de levirato, de honestidade nos negócios e de Amalek. O que estava Moshe a pensar quando juntou tudo isso? Rav Moshe Taragin comentou certa vez que a falta de um fluxo convincente para a poesia de Shir haShirim poderia ser explicada como um fluxo da consciência. Os escritores muitas vezes pensam com clareza sobre a ordem dos seus pensamentos. Os pensadores, não. As nossas mentes voam, pensando no nosso trabalho, depois em pessoas, depois pensamos sobre se estamos ou não concentrados, depois das nossas famílias, depois nas férias, depois no nosso trabalho novamente, depois no significado da vida, depois… As nossas mentes não vão do 1 para o 2 e depois para o 3. As nossas mentes vão do 1 para o 10, depois para o 5, depois para o 7. As nossas mentes são dinâmicas, movem-se rapidamente: um momento feliz, outro triste, um energético, outro cansado. Talvez Moshe esteja a mostrar isso aqui. Ao relacionar mitzvot, a mente de Moshe move-se num fluxo de consciência. Ele quer cobrir as mitzvot sobre todos os aspetos das nossas vidas. E assim a sua mente voa por uma miríade de partes das nossas vidas. As nossas vidas incluem lares, e relacionamentos, e trabalho, e guerra, e honestidade, e manter a nossa palavra, e pagar aos nossos trabalhadores… e assim por diante. Moshe está a descrever a nossa vida. E a dizer-nos que em todos os aspetos das nossas vidas temos mitzvot; maneiras de fazer as coisas nobremente e com santidade. E que não há nenhuma parte da vida sem mitsvot. É essa riqueza de comportamento na nossa vida pessoal que é realmente o ingrediente necessário para a construção de uma nação.

Parasha da Semana – Shoftim

Parasha da Semana – Shoftim

Parshat Shoftim

Pelo rabino Reuven Tradburks

A Parshat Shoftim é a 2ª de 3 parshiot que tem um total de 170 mitzvot.  Shoftim tem 41.  Estas 3 parshiot são a parte do meio de 3 secções de Sefer Devarim. A primeira secção, Parshiot Devarim, Vetchanan e Ekev, foram a narrativa de Moshe sobre as lições do passado.  Não sejas cético quanto à tua capacidade de entrar na terra; esse foi o pecado dos espiões, e não queres repetir o destino deles. Ele fez uma revisão das lições das histórias fundamentais da Torá: o Monte Sinai, o bezerro de ouro, os espiões, o maná e outras. A última das 3 secções de Devarim volta à preparação para entrar na terra, incluindo 4 parshiot muito curtas. Estas 3 parshiots do meio são a construção da nação: expressam a visão do tipo de sociedade que queremos construir na terra de Israel. Numa palavra: construção nacional. Na semana passada assistimos à introdução do primeiro pilar da sociedade judaica:  o estabelecimento de uma sociedade monoteísta, incluindo  a centralidade do que será Jerusalém e a prevenção da  atração pelo culto idolátrico. Vimos o pilar de chesed e mitzvoth que ditam leis sobre os cuidados aos necessitados em Shemita e em Maaser Sheni: numa palavra, monoteísmo ético. Shoftim é a construção das instituições nacionais: o poder judicial, o executivo e o legislativo, incluindo tribunais, o rei, os profetas e a boa conduta de guerra. Embora tenham sido apresentadas muitas leis, está tudo num fluxo natural, delineando os aspetos cruciais de todos estes ramos do governo. Um tema que anima muitas destas instituições nacionais não é apenas o seu papel, mas também os seus limites: aquilo a que hoje chamamos os controlos mútuos e o equilíbrio entre instituições.

1a aliá (Devarim 16:18-17:13) Tribunais: Estabelece tribunais e sê vigilante na justiça; não mostrar favoritismo ou aceitar subornos, porque eles turvam o bom senso. Não plantes uma árvore ao lado do altar, nem estabeleças um monumento de pedra, nem ofereças sacrifícios com defeito.  Se se encontrar alguém a adorar ídolos, examina o caso cuidadosamente em tribunal:  a culpa deve ser identificada através da declaração de testemunhas. Se o caso for considerado verdadeiro, condena essa pessoa à morte e remove o mal do teu meio. Se uma decisão for difícil, remete-a para o tribunal superior; a decisão dele é vinculativa.  Não te desvies da decisão dele.

Judiciária:  O que se refere aqui é a importância de tribunais justos; no entanto, o que se pretende evitar é ainda mais importante. Nada de milícias. Não lutes contra as batalhas do Senhor dizendo «Aquela pessoa está a adorar ídolos! Vou lá eu mesmo eliminá-la! Quem precisa de tribunais?». Um sistema judicial é um mecanismo de equilíbrio e controlo sobre o zelo religioso. Um compromisso com a justiça requer a contenção do povo; não se pode simplesmente fazer o que se acha melhor. Curva-te perante os sábios juízes.

2ª aliá (17:14-20) Rei: Quando te estabeleceres na terra, nomeia um rei judeu. Ele não pode acumular cavalos em excesso, nem muitas esposas, nem prata e ouro. Terá sempre a sua própria Torá com ele, a fim de evitar o autoengrandecimento e garantir a fidelidade às mitzvoth.

Poder Executivo: Há pontos fortes em todos os sistemas de governo conhecidos pelo Homem.  A fraqueza de uma monarquia ocorre quando o Rei já não serve o povo, mas sim os seus próprios interesses.  Daí o equilíbrio e os controlos: a) Limita a quantidade de cavalos, ou seja, o poder dos militares b) um limite ao número de esposas, ou seja, um limite à autoindulgência e à devassidão e 3) um limite ao ouro, à ganância de posses.  Em vez disso, lê a Torá.  O Rei servirá a De’s e ao Seu povo. Parece um bom sistema:  pelo menos quando funciona.

3a Aliá (18:1-5) Cohen, Levi: A tribo de Levi, incluindo os Cohanim, não deve ter parte na terra de Israel, porque o seu lote é o serviço sagrado. O Cohen, que serve a De’s, receberá porções de animais e de produtos agrícolas.

Funcionários religiosos: Estes líderes religiosos são sustentados por um tipo de imposto pago pelo povo. Mas há limites: Não têm terra. E recebem só as porções que lhes são destinadas. Mas o importante não é só o que é dado para sustentar os Cohanim e os Leviim; é também o que não é dado. Todas as sociedades sustentam os seus líderes religiosos. A chave é o controlo do abuso de posição, através da declaração do que recebem: isto, e apenas isto. Tal como o devoto tem que recuar e permitir que sejam os tribunais a lidarem com o adorador de ídolos. E tal como como o rei deve recuar e limitar o seu poder e tendência pessoal à luxúria e à riqueza. Assim, os líderes religiosos devem ter uma posição recuada e servir a De’s e ao povo; sendo sustentados, mas com moderação.

4a aliá (18:6-12) O Levi é autorizado a servir no Templo sempre que quiser. Feitiçaria: Evita as práticas dos povos da terra, tais como o sacrifício infantil, a adivinhação, os presságios, a feitiçaria, a comunicação com os mortos.  A tua lealdade é para com De’s.

Enquanto a aliá anterior nos dava um sistema de controlos e equilíbrios para controlar a riqueza dos Cohen, quando se trata de fazer o próprio serviço no Templo, o Levi é recebido sempre que o seu coração o impele.  Pois essa é a sua verdadeira tarefa.  Quando o coração se impele por corrupção e abuso de posição, precisa de travões.  Quando os corações se impelem para o serviço divino, isso é bem-vindo.

Legislatura: A menção aqui da feitiçaria e da adivinhação é uma apresentação à legislatura, à fonte da sabedoria, à direção e à própria lei.  Há muitos mistérios no nosso mundo. Há demonstrações de poderes incomuns, fontes inexplicáveis de conhecimento, um mundo de forças invisíveis. Mas a sociedade torna-se caótica quando sujeita a quem fala em nome de poderes invisíveis. O iluminado exigirá que a sua voz seja ouvida, porque só ele sabe a verdade. A Torá requer uma forte contenção.  Essa não é a nossa fonte de verdade.  Como a próxima aliá descreve, a nossa fonte de verdade é De’s, através dos profetas.

5a aliá (18:13-19:13) Profeta: Enquanto os povos da terra procuram a sabedoria através de técnicas mágicas, vós procurais a vossa através do próprio De’s. Embora tenhais dito no Sinai que não queríeis ouvir a Sua voz diretamente, tendes o Profeta para transmitir as diretivas de De’s. Prestai atenção às palavras do profeta, mas não às do falso profeta. As previsões do verdadeiro profeta realizam-se: as do falso profeta não.  Preparai 3 cidades na margem leste do Jordão e 3 cidades na Terra de Israel como refúgio para o homicida acidental.  Ele não está sujeito à pena de morte. Não deve ser derramado na terra sangue inocente.

A nossa parsha delineou o poder judicial (os juízes) e o executivo (o rei). O legislativo, o ramo que cria as leis, é mais complicado; a fonte das nossas leis é De’s, através do profeta. Mas dentro desta pequena secção há uma expressão da humildade de Moshe. Porque a tradição sustenta que os profetas, após o tempo de Moshe, não devem ser legisladores. Não introduzem novas leis. Toda a legislação está nas mãos dos líderes rabínicos. Vimos isto anteriormente: se um caso for demasiado difícil, reencaminhado para o tribunal superior e, em seguida, fica vinculado à sua decisão. A lei, a partir de agora, está nas mãos dos rabinos, não nas mãos do profeta. Quando o Moshe diz aqui para ouvirem a voz do profeta, ele na realidade está a falar de si mesmo.  Os profetas no futuro encorajarão, repreenderão, criticarão e dirigirão o povo: mas não com novas leis. Moshe não quer  dizer  «ouçam-me a mim e só a mim».  Em vez disso, ele diz: «Sigam as leis do verdadeiro profeta», que é Moshe.

6a aliá (19:14-20:9) Não ultrapasses as fronteiras da tua propriedade.   Testemunhas: Uma testemunha é insuficiente no tribunal. Testemunhas coniventes que pretendem prejudicar alguém através do seu testemunho receberão o mal que pretendiam causar. Guerra: Não tenhais medo do inimigo na guerra, pois De’s trava as vossas batalhas. Será especialmente nomeado um Cohen para encorajar os soldados. Além disso, isentarás alguns dos soldados: aqueles que têm uma nova casa, uma nova vinha, uma esposa nova, ou que têm medo. Estes não devem desmoralizar os outros soldados.

Tendo delineado o poder judicial, o executivo e o legislativo, uma das principais funções do executivo, o Rei, é proteger militarmente o seu povo.  Algumas leis de guerra estão delineadas. A moral do exército é primordial. A presença dos Cohen lembra aos soldados que são o exército de De’s.  No entanto, a moral pode ser prejudicada por soldados apreensivos com as suas preocupações pessoais. O Midrash sustenta que uma casa nova ou uma nova vinha não são motivos suficientes para receber uma isenção do exército. Esses elementos estão lá para que aqueles que estiverem realmente com medo possam deixar o campo de batalha e não desmoralizar os outros, sob o manto de que talvez tenham uma nova vinha, poupando assim o amor-próprio do soldado assustado.

7a aliá (20:10-21:9) Na iminência de guerra, tenta a paz primeiro.  Mas se a paz for recusada, faz a guerra até ao fim, para não se dar o caso de os sobreviventes te desviarem. Não destruas árvores de fruto quando cercares uma cidade.  Quando for encontrado um corpo no campo, a cidade mais próxima realizará uma cerimónia declarando que não é responsável por esta morte.  A terra precisa de ser limpa de sangue inocente.

Depois das leis da guerra, a Torá volta a um corpo solitário encontrado morto no campo.  E a necessidade de limpar a liderança e a terra deste sangue inocente.  Isto também é uma espécie de equilíbrio e controlo sobre os militares.  Não penseis que temos pouca consideração pela vida.  A perda de vidas inocentes profana a terra e profana-nos a nós.  Faz a guerra com moderação.