PÃO DOS SETE CÉUS: UMA TRADIÇÃO SEFARDITA PARA SHAVUOT

PÃO DOS SETE CÉUS: UMA TRADIÇÃO SEFARDITA PARA SHAVUOT

Por Ronit Treatman

Quando os judeus deixaram a Península Ibérica após a promulgação do Decreto de Alhambra, levaram consigo a sua língua, tradições e cultura. O Pão dos Sete Céus era um tipo especial de chalá simbólica para Tikkun Leil Shavuot, a sessão de estudo de Shavuot durante toda a noite.

Essa tradição quase desapareceu durante o Holocausto, quando 96% da população judaica sefardita de Salónica foi morta. Este ano, preserve a tradição e a memória daquela comunidade fazendo o seu próprio Pão dos Siete Cielos.

Os primeiros sefarditas chegaram a Salónica, cidade do Império Otomano, em 1492, vindos de Maiorca. Eram “arrependidos”, que tinham voltado ao judaísmo após a conversão forçada ao catolicismo. Nos anos seguintes, juntaram-se-lhes judeus de Castela, Sicília, Aragão, Nápoles, Veneza, Provença e Portugal. Em 1613, os judeus compunham 68% da população.

Thessaloniki é o único exemplo conhecido de uma cidade desse tamanho na diáspora judaica que manteve uma maioria judaica durante séculos. Essa comunidade influenciou o mundo sefardita, tanto cultural quanto economicamente, e a cidade foi apelidada de A Mãe de Israel.

Uma das tradições que trouxeram da Península Ibérica foi uma chalá láctea feita especialmente para Shavuot. O Pan de Siete Cielos provavelmente recebeu o nome da antiga expressão “estar nos sete céus”. Este pão festivo foi feito pela primeira vez no início do século VIII, período conhecido como “a coexistência”.

A coexistência foi uma época de ouro para os judeus espanhóis, uma época em que judeus, cristãos e muçulmanos conviviam em paz, tornando a Península Ibérica um centro de inovação e intercâmbio cultural.

Os judeus sefarditas provavelmente foram inspirados pelas Monas de Pascua dos seus vizinhos cristãos. Eles começaram a fazer o pão dos sete céus para Shavuot, um dos poucos feriados em que é costume comer laticínios.

Alguns historiadores especulam que as Monas de Pascua e o Pan de Siete Cielos foram reinventados no Novo Mundo como Pan de Muerto. Quando os conquistadores (muitos deles convertidos) chegaram, encontraram uma cultura de sacrifícios humanos. Ficaram tão horrorizados que substituíram essa tradição pelo cozimento de um tipo de chalá doce, redondo, com símbolos esculpidos.

Para fazer o Pan de Siete Cielos é preparada uma massa de chalá rica e leitosa. São esculpidos na chalá símbolos da entrega da Torá no Monte Sinai. Primeiro, forma-se uma chalá redonda para representar o Monte Sinai.  Enrolam-se e pressionam-se em volta da chalá redonda sete pedaços de massa, formando um anel ao redor dela. Esses pedaços representam os sete céus. São então esculpidos e pressionados contra as nuvens símbolos da história de Shavuot.

Cada família tem as suas próprias tradições, mas alguns símbolos comuns são a Torá, a escada de Jacob, o poço de Miriam, a Estrela de David, a Hamsa ou as tábuas dos Dez Mandamentos. Depois de a chalá estar cozida, espalha-se mel por cima e polvilha-se com sementes de gergelim [sésamo]. Como uma avó explicou: “A Torá é tão doce quanto o maná para aqueles que se alimentam dela”.

Pão dos Sete Céus

Adaptado do livro de receitas Cookbook of the Jews of Greece (Livro de Receitas dos Judeus da Grécia), de Nicholas Starvroulakis
Ingredientes:
• 8 xícaras de farinha• 1⁄2 xícara de leite• 2 xícaras de água morna• 5 ovos• 2 colheres de chá de fermento biológico (fermento de padeiro) seco• 2 xícaras de açúcar• 3/8 xícara de manteiga derretida• 1 colher de chá de extrato de anis ou Arak• Mel e sementes de gergelim [sésamo] torrado
Instruções:
1. Despeje a água morna num recipiente grande.
2. Adicione o açúcar e o fermento.
3. Misture bem e espere até a mistura espumar, cerca de 10 minutos.
4. Numa tigela separada, coloque 3 xícaras de farinha.
5. Faça um buraco no centro da farinha.
6. Despeje a mistura de fermento neste buraco.
7. Comece a misturar a farinha até obter uma massa leve.
8. Cubra a tigela com um pano de prato limpo e deixe a massa descansar durante cerca de 45 minutos.
9. Abra a tigela e adicione os ovos, o leite, a manteiga e o extrato de anis ou o Arak.
10. Amasse e vá acrescentando mais farinha na massa até esta ficar elástica. Pode ser menos de 8 xícaras para atingir a textura desejada.
11. Cubra a tigela com um pano de prato limpo e deixe a massa crescer até dobrar de tamanho, cerca de 2 horas.
12. Quando a massa estiver levedada, pode esculpir seu Pão dos Sete Céus.
13. Primeiro, corte um pedaço de massa e enrole-o formando uma bola. Este será o Monte Sinai e será colocado no centro. Coloque-o numa assadeira grande forrada com papel manteiga [papel vegetal de cozinha].
14. Corte 7 pedaços de massa e abra-os com as mãos para formar cordas.
15. Enrole-os em volta da bola de massa. Estas são as 7 nuvens.
16. Em seguida, esculpa os símbolos de Shavuot à sua escolha e pressione-os contra as nuvens. Faça os símbolos que tiverem mais significado para si.
17. Cubra o pão com um pano de prato limpo e húmido.
18. Deixe a massa dobrar de tamanho.
19. Retire a toalha e pincele o pão com ovo batido (gemas batidas com um pouco de água).
20. Pré-aqueça o forno a 350 graus Fahrenheit (175 graus Celsius).
21. Coloque o pão no forno.
22. Coza durante cerca de 30 minutos, ou até que o pão esteja dourado e o fundo do pão soe oco ao bater.
DO HOLOCAUSTO AO RENASCIMENTO DO POVO DE ISRAEL – (ESPANHOL)

DO HOLOCAUSTO AO RENASCIMENTO DO POVO DE ISRAEL – (ESPANHOL)

O Centro Ma’ani da Shavei Israel tem o prazer de partilhar uma palestra em espanhol do rabino Yejiel Chilewsky, ‘Do Holocausto ao Renascimento do Povo de Israel’, com foco especial na sua influência nas comunidades da diáspora, como as comunidades judaicas ocultas na Polónia e comunidades de Subbotniks na Rússia, ambos os quais a Shavei Israel auxilia no retorno à sua herança cultural, alguns continuando para um processo de conversão e até mesmo aliá (imigração) para Israel.

ALUNOS DO ENSINO MÉDIO BNEI MENASHE VISITAM AUSCHWITZ PELA PRIMEIRA VEZ PARA APRENDER SOBRE O HOLOCAUSTO

ALUNOS DO ENSINO MÉDIO BNEI MENASHE VISITAM AUSCHWITZ PELA PRIMEIRA VEZ PARA APRENDER SOBRE O HOLOCAUSTO

Cinco adolescentes da comunidade judaica Bnei Menashe visitaram Auschwitz como parte de uma viagem para alunos do 12º ano com o objetivo de educá-los sobre os horrores do genocídio nazista contra o povo judeu.

Os cinco jovens, que fizeram aliá do estado indiano de Manipur em 2012 e 2014 com a ajuda da Shavei Israel, estudaram na escola Abir Yaakov, na cidade de Nahariya, no norte de Israel.

Visitar a Polónia para aprender sobre o Holocausto no local onde aconteceu é uma parte regular do currículo do ensino médio israelense, com milhares de estudantes fazendo a viagem de uma semana a cada ano. No entanto, esta é a primeira vez que um grupo da comunidade Bnei Menashe se junta a esta experiência israelense de amadurecimento.

“Sinto-me mais conectado ao judaísmo por ter aprendido sobre a Shoah ”, disse Yaniv Hoinge, usando a palavra hebraica para o Holocausto. “Na verdade, isso me dá um sentimento mais forte de amor por Israel. O Holocausto torna Israel ainda mais importante para o povo judeu”.

Hoinge é de Churachandpur e fez aliá em 2012 com os seus pais. Os outros jovens que foram para a Polónia esta semana são os irmãos Obed e Simeon Lhouvum de Gamgiphai, Manipur, que também vieram para Israel em 2012, e David Haokip e Tzion Baite, que chegaram ao país em 2014 com as suas famílias.

Abir Yaakov é um internato. As famílias dos alunos vivem em Migdal HaEmek, Acre e Ma’alot, comunidades onde os imigrantes Bnei Menashe se têm estabelecido nos últimos quatro anos desde que a aliá da Índia foi retomada.

O grupo do ensino médio Abir Yaakov desembarcou em Katowice e passou a primeira noite em Cracóvia. Visitaram os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau no seu segundo dia. O Shabat foi passado em Varsóvia, e incluiu orações na sinagoga Nozyk da cidade e um passeio pelo Gueto de Varsóvia.

O grupo também visitou túmulos judeus antigos e dois outros campos de extermínio – Treblinka e Majdanek – durante a viagem.

“Durante o Holocausto, os alemães e seus colaboradores assassinaram milhões de judeus em Auschwitz, incluindo membros da minha família”, disse o fundador e presidente da Shavei Israel , Michael Freund. “Como parte dos nossos esforços para ajudar os Bnei Menashe a retornar ao povo judeu depois de terem sido isolados por 27 séculos, consideramos essencial incutir neles uma melhor compreensão dos horrores do Holocausto e o seu lugar central na história judaica.”

Freund acrescentou: “A luta pela sobrevivência judaica é algo que diz muito aos Bnei Menashe, pois eles enfrentaram enormes adversidades ao longo dos séculos e ainda conseguiram se apegar à fé dos seus antepassados. É isso que torna esta visita dos jovens Bnei Menashe a Auschwitz tão comovente e significativa, porque sublinha o poder do destino judaico e o espírito indestrutível do povo judeu”.

Os Bnei Menashe são descendentes da tribo de Manassés, uma das Dez Tribos Perdidas exilada da Terra de Israel há mais de 2.700 anos pelo império assírio. Até agora, cerca de 3.000 Bnei Menashe fizeram aliá graças à Shavei Israel . Outros 7.000 Bnei Menashe permanecem na Índia esperando a chance de voltar para casa em Zion.

Descendentes criptojudaicos estão em contacto, mas ainda há obstáculos

Descendentes criptojudaicos estão em contacto, mas ainda há obstáculos

Por: Sasha Rogelberg

“Shabbat Shalom a Todos” escreveu um membro do grupo do Facebook Sephardic and Crypto-Jewish Research para um público de mais de 400 membros, muitos dos quais vivem no norte do México ou no sudoeste dos Estados Unidos. 

O post aparece por cima de acima de uma consulta para encontrar um livro sobre guardas da marinha espanhola publicado em 1954 em Madrid e por baixo de uma imagem antiga de um manual escolar mostrando uma mulher a ser levada perante a  Inquisição na Cidade do México.

O conteúdo dos posts do grupo é variado, mas todos dizem respeito ao criptojudaísmo, a prática secreta do judaísmo pelos judeus sefarditas em Espanha e suas colónias durante e depois da Inquisição.

Numa época em que os católicos continuam a ser a grande maioria nos países de língua espanhola e na Península Ibérica, os judeus desses países permanecem estigmatizados, embora a Inquisição tenha terminado há séculos. É por isso que esses grupos do Facebook são preciosos para tantas pessoas que estão agora mesmo a descobrir as suas origens sefarditas depois das mesmas lhes terem sido ocultas durante gerações.

Ronit Treatman, da Filadélfia, (na foto) é membro de mais de 25 desses grupos, incluindo Sephardic and Crypto-Jewish Research.

Em 2012, Treatman descobriu a sua própria história através de testes de ADN: Uma descoberta surpresa indicou que alguns membros da família se tinham mudado de Espanha para a Polónia.

“Isso mostrava que parte deles foi forçada a converter-se e teve que ir para o Brasil”, disse Treatman.

“A descoberta de origens judaicas, particularmente de ascendência criptojudaica, tornou-se mais comum agora, com os  testes de DNA mais acessíveis”, disse Treatman. Empresas como a Family Tree DNA podem pesquisar mais especificamente as as raízes sefarditas.

Treatman descreve-se como “o outro lado do espelho”. Enquanto tantos outros membros dos grupos foram educados como católicos e estão agora a tentar aprender mais sobre as suas raízes judaicas, Treatman sempre soube que era judia (o seu pai foi diplomata israelita). 

Ao longo de quase uma década a conhecer pessoas nesses grupos, Treatman tem conseguido ajudar dezenas de pessoas a encontrar textos, recursos e membros da comunidade, e tem reunido descendentes criptojudaicos de volta ao judaísmo.

Os judeus da Filadélfia estão habituados a ajudar descendentes de criptojudeus, também chamados de Conversos, Bnei Anusim ou Marranos,  a palavra espanhola que quer dizer “porco” e que, na opinião de Treatman, é uma terminologia inadequada para o grupo.

A Congregação Mikveh Israel, a sinagoga mais antiga da Filadélfia, foi fundada por judeus espanhóis e portugueses através de uma sinagoga sefardita em Amsterdão.

Na década de 1920, foi a primeira sinagoga sefardita a responder aos pedidos do Comité Português de Marranos, “para que sejam aplicados fundos no retorno ao judaísmo de mais de 14.000 marranos que vivem em Portugal, como cristãos em público e como judeus secretamente, há mais de quatro séculos”, escreveu o líder religioso de Mikveh Israel Leon H. Elmalah numa carta de 31 de outubro de 1926.

O apelo foi feito em parceria com a Comunidade Sefardita de Londres, a Associação Anglo-Judaica e a Aliança Israelita, explicou a carta. A doação feita pela Mikveh Israel seria o equivalente a USD $ 50.000 de hoje, disse o rabino da Mikveh Israel, Albert Gabbai.

“Como somos uma sinagoga espanhola e portuguesa, e traçamos a nossa ascendência até aos judeus que escaparam — porque somos uma congregação que segue essa tradição iniciada por esses judeus, foi natural para nós ajudá-los”, disse Gabbai.

Gabbai visitou a comunidade judaica portuguesa, que agora tem entre 50 e 100 membros, em 2017, décadas depois dela ter recebido uma educação judaica por parte de rabinos israelitas enviados para ensinar os feriados judaicos.

A viagem foi animadora, disse Gabbai, pois conseguiu ver o que a ajuda da Mikveh Israel 90 anos antes  foi capaz de fazer. Mas ainda há na zona preconceitos em torno dos judeus, disse ele.

Na viagem, Gabbai viu um turista numa igreja — erguida no lugar de uma antiga sinagoga — que perguntou o que tinha acontecido com os judeus que deixaram a sinagoga.

“O guia disse: ‘Nós convidámo-los a deixar o país’”, conta Gabbai.

O estigma contínuo reafirma o trabalho de Treatman, disse ela. Também impulsionou o trabalho de um amigo de Treatman, que ela conheceu num evento criptojudaico no Facebook: Keith Chávez, natural de Albuquerque, Novo México, que descobriu que era judeu aos 13 anos.

“A minha bisavó estava a morrer. Ficou acamada por um longo período de tempo antes de falecer, e queria falar comigo, com o meu irmão e com o meu primo”, disse Chávez. “Então convocou-nos juntos e disse: ‘Somos Sefarditos.’ Somos Sefarditos.”

Em retrospetiva, a origem judaica de Chávez fazia sentido para ele, apesar de, durante a infância, ter  frequentado com o pai uma igreja católica. Enquanto a maioria das mulheres católicas do Novo México varria a casa empurrando o lixo para fora da porta, a sua bisavó usava uma pá, já que varrer para fora da porta violava as leis da mezuzá (embora a família nunca tivesse tido mezuzot nas ombreiras das suas portas). Ela insistia em obter e preparar a carne para as refeições do fim de semana de uma maneira que se assemelhava à lei kosher.

A história de Chávez assemelha-se à de muitos outros descendentes de criptojudeus, mas ele ainda se considera diferente. 

Muitas outras pessoas com origens criptojudaicas negaram firmemente as suas origens familiares, dando preferência à sua educação católica. Se quiserem aprender mais sobre judaísmo, poderão enfrentar obstáculos por parte de alguns líderes judeus que não consideram os descendentes de criptojudeus como sendo judeus válidos sem passarem por uma conversão.

Agora professor adjunto de história e antropologia na Universidade do Novo México, Chávez tem ensinado sobre a presença de descendentes de criptojudeus no sudoeste dos EUA e a sua própria Inquisição, que só terminou no século XIX.

Como Treatman, Chávez é administrador de vários  grupos criptojudaicos no Facebook. O Facebook ajudou a mudar a situação dos descendentes de criptojudeus que procuram conectar-se, disse Chávez, embora essas conexões permaneçam menores do que ele queria.

A certa altura, ele ajudou uma mulher finlandesa, que tinha acabado de descobrir a sua ascendência judaica, a conectar-se com um rabino em Helsínquia. Depois o rabino acabou por ajudá-la a fazer o processo de conversão.

“Senti-me muito bem,” disse Chávez. “Porque ela voltou para casa.”

Pode ler Aqui o artigo original em inglês.

Parashá da Semana – Mishpatim

Parashá da Semana – Mishpatim

Parashá Mishpatim

Por: Rav Reuven Tradburks

Começamos uma nova era na Torá: a era das Mitzvot. Nos primeiros 86 versos da Parasha, há 51 mitsvot. A maior parte da parashá são mitzvot de direito civil. O final da parashá retoma a narrativa, descrevendo a iminente entrada na terra de Israel. Moshe sobe a montanha para receber as tábuas.

Para dar alguma estrutura a essas 51 mitsvot, introduzi cada seção com um título em negrito, indicando o tópico das leis que se seguem.

1ª aliá (21:1-19) E estas são as leis nas quais deves instruí-los. As leis dos escravos: os escravos judeus ficam livres depois de trabalhar 6 anos. Se quiserem, podem estender a escravidão permanentemente. O proprietário ou seu filho podem casar com uma escrava. Se optarem por não o fazer, ela fica livre quando chegar à puberdade. A agressão física que resultar em morte é punível com a morte; tal como agredir o pai ou a mãe, sequestrar, amaldiçoar o pai ou a mãe. Para agressão corporal que não resultar em morte, é feito um pagamento por danos, desemprego e despesas médicas.

A Parasha da semana passada terminou com a experiência máxima da revelação no Sinai – e o medo do povo ao ouvir a voz de D’us. Que contraste, ter as leis sobre a escravidão e agressão imediatamente a seguir a isso. Rashi ressalta que a primeira palavra da parashá tem um “vav”, “E estas são as leis”. Embora para nós esta seja uma nova parashá, na Torá é a continuação da narrativa do Monte Sinai. Temos que fazer a pergunta óbvia: de que maneira todas estas leis civis estão relacionadas com a narrativa?

A longa permanência no Egito teve vários propósitos: 1) permitir que todo o povo judeu passasse pela experiência da Mão de D’us na História, 2) permitir que todo o povo judeu passasse pela revelação no Sinai e 3) ensinar ao povo judeu que tipo de sociedade eles não devem querer imitar. Estamos a caminhar para uma nova vida, uma sociedade judaica na terra de Israel. Não estamos apenas a deixar o Egito; temos um destino. Mas, essa sociedade que vamos construir – não a façam como a do Egito. Deixem a sociedade egípcia para trás. A nossa sociedade judaica não deve ser em nada como aquela: estamos a construir uma sociedade anti-Egito. Deixem para trás o seu abuso de escravos, o seu desprezo irreverente pela vida humana (bebés no rio), o seu uso excessivo de força física (o capataz).

A nossa sociedade judaica respeitará a vida, respeitará os outros, delineará o respeito pela propriedade dos outros e construirá uma sociedade de bondade e justiça. Então, a esse respeito, faz todo o sentido começar a descrição da sociedade judaica com as mesmas coisas em que a sociedade egípcia falhou: escravidão, agressão física, violação de propriedade.

2ª aliá (21:20-22:3) Agressões físicas que resultam em pagamento financeiro: agressão a escravos ou a uma mulher grávida resultando em perda da gravidez. A agressão a um escravo que resultar na perda de um olho ou dente concede ao escravo a sua liberdade. Danos causados ​​pelos meus bens ou ações: um boi a marrar resultando na morte de uma pessoa, a morte de um animal como resultado de um buraco escavado por mim, ou como resultado do meu boi marrar outro. O roubo e venda ou abate de animais exige a restituição de 4 ou 5 vezes o valor da perda. No furto clandestino, se o ladrão for morto, considera-se que quem o matou agiu em legítima defesa. A punição para o roubo é o dobro do objeto roubado.

Além do respeito pela dignidade dos outros, a nossa sociedade deve ser justa. O tópico desta aliá não é bois a marrar em bois; são as pessoas que assumem a responsabilidade pelas suas propriedades. Se a minha propriedade danificar a sua, eu assumo total responsabilidade. Pessoas a respeitar a propriedade dos outros.

3ª aliá (22:4-25) Bons vizinhos: danos na sua propriedade devem ser compensados ​​se causados ​​pelos meus animais de pasto ou por um fogo ateado por mim na minha propriedade; leis de compensação por perda de propriedade sua enquanto estiver a ser guardada por mim ou me tiver sido emprestada. Leis sobre uma pessoa se aproveitar de outra: seduzir uma mulher solteira, os feiticeiros são mortos. Se alguém oprimir o estrangeiro, a viúva ou o órfão e eles clamarem a Mim, as vossas esposas serão viúvas e os vossos filhos órfãos.

Voltando ao tema da rejeição das normas do Egito, a superpotência: o poder não concede privilégio. Existem pessoas com poder. E pessoas sem. O estrangeiro, a viúva e o órfão não têm poder – estão sozinhos, sem ninguém para defender a sua causa. Não te aproveites da falta de poder deles. Eu, diz D’us, sou o Defensor daqueles que não têm poder. Eles podem não ter a quem recorrer. Mas, eles sempre Me terão a Mim. Tu, com poder, que te aproveitas de quem não o tem, tu, terás que lidar Comigo.

4ª aliá (22:26–23:5) Bons cidadãos: não amaldiçoar juízes ou governantes, não adiar obrigações, nem se aliar a trapaceiros para perverter a justiça, nem seguir más companhias em disputas. Vizinhos prestáveis: devolve os animais perdidos, ajuda a aliviar a carga de um animal sobrecarregado, até mesmo se for do teu inimigo.

O desequilíbrio de poder do Egito que gerou ressentimento dos que estão no poder não é para nós. Nós somos eles – respeita os que estão no poder, pois eles estão lá para nos servir. A nossa sociedade deve ser cooperativa para o bem de todos nós. E melhorar a vida dos outros não é responsabilidade exclusiva do governo: todos nós podemos melhorar a vida dos outros – tendo a iniciativa de devolver itens perdidos, ou aliviando o fardo dos outros.

5ª aliá (23:6-19) Justiça: não pervertas a justiça – a dos pobres e fracos, através de mentiras e subornos, e a do estrangeiro, pois vós fostes estrangeiros no Egito. Os limites do Homem no mundo de D’us: trabalha a terra 6 anos, deixa-a para os pobres no 7º. Trabalha 6 dias, permite descanso aos teus trabalhadores no dia 7. Cumpre as 3 festas de peregrinação: Pessach, Shavuot, Sucot. Não apareças de mãos vazias.

Esta lista detalhada do que chamaríamos de direito civil termina com Shmita, Shabat e os feriados. A raiz de uma sociedade judaica é a realização saudável dos limites do Homem e a nossa parceria com D’us. Nós trabalhamos; mas a terra é dEle. Empregamos trabalhadores; mas todos nós somos servos Dele. A nossa agricultura é pontuada por feriados, de modo a temperar a nossa busca da riqueza pela riqueza com momentos para estar diante dEle.

6ª aliá (23:20-25) Viagem à Terra: Enviarei o Meu anjo para vos guiar até à terra de Israel. A lealdade ao que eu digo garantirá o vosso sucesso na colonização da terra. Não adoreis ídolos lá; pelo contrário, servi a D’us e desfrutareis de bênçãos e saúde na terra.

A lista das mitsvot termina e a narrativa recomeça. Estamos a caminho da terra de Israel. Por que motivo a narrativa foi interrompida com as 51 mitzvot? Temos que nos lembrar de que nós conhecemos a história dos 40 anos no deserto. Mas eles não. Moshe foi informado por D’us de que Ele iria tirar o povo do Egito, trazê-lo para o Monte Sinai e trazê-lo para a terra de Israel. Até agora eles sairam do Egito e estiveram no Sinai; agora, estão prontos para caminhar para a terra de Israel. Na mente do povo, a lista das mitzvot que constituem uma sociedade justa e bondosa faz todo o sentido. Porque em apenas alguns meses eles estarão a estabelecer uma nova sociedade judaica na terra de Israel. Depois de ouvir essas mitzvot, eles agora sabem como será uma sociedade judaica – de acordo com essas leis boas e justas.

7ª aliá (23:26-24:18) Os vossos oponentes na terra recuarão. Eu farei com que eles saiam lentamente, ao longo do tempo, para que a terra não fique desolada quando chegardes. Não façais aliança com o povo da terra; eles não podem viver convosco para que vós não acabeis servindo os seus deuses. Moshe subiu à montanha e escreveu as palavras de D’us. Construiu um altar ao pé da montanha; foram trazidas oferendas. Ele leu as palavras da Aliança; o povo respondeu que cumpriria tudo. Foi aspergido sangue como pacto. Moshe ascendeu com Aharon, Nadav e Avihu e os 70 anciãos; eles viram safira, a pureza dos céus. D’us chamou Moshe até a montanha para lhe dar as luchot, a Torá e as Mitzvot. A nuvem de D’us estava na montanha, a visão de D’us era como um fogo consumidor. Moshe esteve lá 40 dias e 40 noites.

A última aliá de uma parasha recebe pouca atenção. Mas este último parágrafo? Safira, a visão da pureza dos céus, uma nuvem e fogo na montanha… Embora muitas vezes nos concentremos no conteúdo dos 10 mandamentos no Sinai, na Torá é dada muito mais atenção ao drama da experiência, tanto em Yitro, na semana passada, quanto nesta descrição. A experiência do Sinai é assustadora. As pessoas sentiram-se inseguras, assustadas, indignas, oprimidas, confusas. Queriam um D’us próximo e benevolente, mas podem muito bem ter pensando duas vezes ao ver o Seu poder e as implicações do que significa ter um D’us próximo.