PÃO DOS SETE CÉUS: UMA TRADIÇÃO SEFARDITA PARA SHAVUOT

PÃO DOS SETE CÉUS: UMA TRADIÇÃO SEFARDITA PARA SHAVUOT

Por Ronit Treatman

Quando os judeus deixaram a Península Ibérica após a promulgação do Decreto de Alhambra, levaram consigo a sua língua, tradições e cultura. O Pão dos Sete Céus era um tipo especial de chalá simbólica para Tikkun Leil Shavuot, a sessão de estudo de Shavuot durante toda a noite.

Essa tradição quase desapareceu durante o Holocausto, quando 96% da população judaica sefardita de Salónica foi morta. Este ano, preserve a tradição e a memória daquela comunidade fazendo o seu próprio Pão dos Siete Cielos.

Os primeiros sefarditas chegaram a Salónica, cidade do Império Otomano, em 1492, vindos de Maiorca. Eram “arrependidos”, que tinham voltado ao judaísmo após a conversão forçada ao catolicismo. Nos anos seguintes, juntaram-se-lhes judeus de Castela, Sicília, Aragão, Nápoles, Veneza, Provença e Portugal. Em 1613, os judeus compunham 68% da população.

Thessaloniki é o único exemplo conhecido de uma cidade desse tamanho na diáspora judaica que manteve uma maioria judaica durante séculos. Essa comunidade influenciou o mundo sefardita, tanto cultural quanto economicamente, e a cidade foi apelidada de A Mãe de Israel.

Uma das tradições que trouxeram da Península Ibérica foi uma chalá láctea feita especialmente para Shavuot. O Pan de Siete Cielos provavelmente recebeu o nome da antiga expressão “estar nos sete céus”. Este pão festivo foi feito pela primeira vez no início do século VIII, período conhecido como “a coexistência”.

A coexistência foi uma época de ouro para os judeus espanhóis, uma época em que judeus, cristãos e muçulmanos conviviam em paz, tornando a Península Ibérica um centro de inovação e intercâmbio cultural.

Os judeus sefarditas provavelmente foram inspirados pelas Monas de Pascua dos seus vizinhos cristãos. Eles começaram a fazer o pão dos sete céus para Shavuot, um dos poucos feriados em que é costume comer laticínios.

Alguns historiadores especulam que as Monas de Pascua e o Pan de Siete Cielos foram reinventados no Novo Mundo como Pan de Muerto. Quando os conquistadores (muitos deles convertidos) chegaram, encontraram uma cultura de sacrifícios humanos. Ficaram tão horrorizados que substituíram essa tradição pelo cozimento de um tipo de chalá doce, redondo, com símbolos esculpidos.

Para fazer o Pan de Siete Cielos é preparada uma massa de chalá rica e leitosa. São esculpidos na chalá símbolos da entrega da Torá no Monte Sinai. Primeiro, forma-se uma chalá redonda para representar o Monte Sinai.  Enrolam-se e pressionam-se em volta da chalá redonda sete pedaços de massa, formando um anel ao redor dela. Esses pedaços representam os sete céus. São então esculpidos e pressionados contra as nuvens símbolos da história de Shavuot.

Cada família tem as suas próprias tradições, mas alguns símbolos comuns são a Torá, a escada de Jacob, o poço de Miriam, a Estrela de David, a Hamsa ou as tábuas dos Dez Mandamentos. Depois de a chalá estar cozida, espalha-se mel por cima e polvilha-se com sementes de gergelim [sésamo]. Como uma avó explicou: “A Torá é tão doce quanto o maná para aqueles que se alimentam dela”.

Pão dos Sete Céus

Adaptado do livro de receitas Cookbook of the Jews of Greece (Livro de Receitas dos Judeus da Grécia), de Nicholas Starvroulakis
Ingredientes:
• 8 xícaras de farinha• 1⁄2 xícara de leite• 2 xícaras de água morna• 5 ovos• 2 colheres de chá de fermento biológico (fermento de padeiro) seco• 2 xícaras de açúcar• 3/8 xícara de manteiga derretida• 1 colher de chá de extrato de anis ou Arak• Mel e sementes de gergelim [sésamo] torrado
Instruções:
1. Despeje a água morna num recipiente grande.
2. Adicione o açúcar e o fermento.
3. Misture bem e espere até a mistura espumar, cerca de 10 minutos.
4. Numa tigela separada, coloque 3 xícaras de farinha.
5. Faça um buraco no centro da farinha.
6. Despeje a mistura de fermento neste buraco.
7. Comece a misturar a farinha até obter uma massa leve.
8. Cubra a tigela com um pano de prato limpo e deixe a massa descansar durante cerca de 45 minutos.
9. Abra a tigela e adicione os ovos, o leite, a manteiga e o extrato de anis ou o Arak.
10. Amasse e vá acrescentando mais farinha na massa até esta ficar elástica. Pode ser menos de 8 xícaras para atingir a textura desejada.
11. Cubra a tigela com um pano de prato limpo e deixe a massa crescer até dobrar de tamanho, cerca de 2 horas.
12. Quando a massa estiver levedada, pode esculpir seu Pão dos Sete Céus.
13. Primeiro, corte um pedaço de massa e enrole-o formando uma bola. Este será o Monte Sinai e será colocado no centro. Coloque-o numa assadeira grande forrada com papel manteiga [papel vegetal de cozinha].
14. Corte 7 pedaços de massa e abra-os com as mãos para formar cordas.
15. Enrole-os em volta da bola de massa. Estas são as 7 nuvens.
16. Em seguida, esculpa os símbolos de Shavuot à sua escolha e pressione-os contra as nuvens. Faça os símbolos que tiverem mais significado para si.
17. Cubra o pão com um pano de prato limpo e húmido.
18. Deixe a massa dobrar de tamanho.
19. Retire a toalha e pincele o pão com ovo batido (gemas batidas com um pouco de água).
20. Pré-aqueça o forno a 350 graus Fahrenheit (175 graus Celsius).
21. Coloque o pão no forno.
22. Coza durante cerca de 30 minutos, ou até que o pão esteja dourado e o fundo do pão soe oco ao bater.

DULCES EN ALMIBAR

Genie Milgrom, uma querida amiga da Shavei Israel, nasceu em Havana, Cuba, numa família católica de ascendência espanhola. Num trabalho incomparável de genealogia, ela foi capaz de documentar detalhadamente a sua linhagem judaica materna ininterrupta de 22 gerações, indo até 1405, época anterior à Inquisição em Espanha e Portugal. Genie viajou várias vezes para Fermoselle, a vila de seus antepassados ​​na região de Zamora, na Espanha, enquanto fazia pesquisas sobre o último judeu de Fermoselle e arredores.

Genie Milgrom já falou no Knesset em Israel e dá conferências ao redor do mundo, consciencializando o público sobre o assunto do retorno dos judeus convertidos ao cristianismo na época da Inquisição.

Genie é a autora do livro Mis 15 abuelas, bem como de Cómo encontré a mis quince abuelas, um guia passo a passo, De la Pira al Fuego e, é claro, Recetas de mis 15 abuelas: receitas e histórias únicas dos tempos dos cripto-judeus durante a Inquisição Espanhola, de onde vem este delicioso doce para Shavuot. Aproveitar!

Dulces en Almibar

Os doces
3 ovos
6 colheres de sopa de açúcar
6 colheres de sopa de manteiga derretida
1 colher de chá de fermento em pó
½ libra de farinha, e um pouquinho mais, se necessário
¼ xícara de leite integral
Azeite
Misture os ovos, açúcar, manteiga, fermento em pó e um pouco de farinha até que possa formar uma bolinha. Adicione o leite e adicione mais farinha aos poucos até formar uma pasta. A mistura deve ser a mais macia possível. Coloque a fritar, deitando a mistura no azeite com uma colher, e, depois de escorrer, coloque em um prato e despeje a calda sobre eles.

Mais uma iguaria espanhola!
Almibar
2 xícaras de água
1 xícara de açúcar
1 colher de sopa de rum ou outro licor
1 colher de sopa de raspas de laranja ou limão
Misture tudo em fogo médio-alto, mexendo sempre, até formar uma calda pesada.

Desfasagem Parashiot

Desfasagem Parashiot

Perguntas:

O que são parashiot?

Quem as instituiu?

Quando começamos a ler a Torá?

Por que às vezes lemos uma Parashá em Israel e outra diferente na Diáspora?

O que acontece se um dia festivo coincide com Shabat?

Parashá traduz-se como o “caso”, “tema” ou porção” da Torá a estudar. É uma divisão do texto da Torá em partes, para facilitar a leitura da mesma. Cada parshá tem como nome a expressão ou palavra com a qual começa. Por exemplo, a Parshá Vaikrá tem esse nome porque começa assim: Vaikrá El Moshe vaidaber HaShem elav …(E o Eterno chamou Moisés e falou Hashem com ele…).

Cada parashá, por sua vez, é dividida em partes chamadas “aliot” (plural de “aliá”, que literalmente significa “subida”). Essas partes são chamadas aliot porque, para a leitura de cada parte, na sinagoga, é chamado um homem diferente, que sai fisicamente do lugar onde está sentado e se desloca (“sobe”) para o lugar onde está a Torá, para a “ler.” (Entre aspas, porque na verdade há na sinagoga um leitor de Torá, que lerá por ele.)

A Torá, no mundo judaico, é lida publicamente por partes: a cada semana corresponde uma parashah, e a leitura pública, na sinagoga, é feita todas as segundas, quintas e Shabat. Nas segundas e quintas é lida a primeira aliá da parashá, e no Shabat é lida a parashah completa.

Segundo o Talmud, este sistema de leitura foi estabelecido pelo escriba Esdras, após o retorno do exílio na Babilônia. Este sistema acontece em todas as sinagogas do mundo. A divisão por parashiot faz com que o mundo judaico se conecte, já que todos nós lemos a mesma parte pré-definida a cada semana, por ordem, de tal modo que, no final do ano, temos a Torá completa lida por inteiro.

Quando isso acontece, ou seja, quando chegamos ao fim da Torá, celebra-se uma festa, que é a festa de Simchat Torá. Nesta festa celebra-se o final de um ciclo de leitura e o começo de outro. Lê-se a última parashá, que é VeZot HaBerachá, e a primeira aliá da primeira parashá da Torá, que é Bereshit (que significa, precisamente, “no principio”, e nos relata o principio da Criação, sendo também precisamente o princípio da Torá).

Mas há exceções a este sistema de leitura: quando uma das três festas chamadas Shalosh Regalim (Pessach, Shavuot e Sucot) coincide com Shabat, lê-se a parte correspondente à festa, e não aquela que seria “normal” ler naquele Shabat, de acordo com a ordem das Parashiot. Por exemplo, este ano (5779), o primeiro dia de Pessach coincidiu com Shabat, pelo que, em vez de se ler a parashá Acharei Mot (que seria o normal, porque a anterior foi Metzorá), leu-se a parte correspondente à festa de Pesach, que se encontra na parashá Beshalach. Quando isso acontece, a leitura normal é retomada no Shabat seguinte. Neste caso, foi lida então Acharei Mot.

Por outro lado, devido à lentidão das comunicações e à ausência de tecnologia que existia no mundo antigo, os nossos sábios determinaram que fora de Israel, na diáspora, estas três festas (Pessach, Shavuot e Sucot) fossem celebradas com dois dias festivos consecutivos, e não apenas um como em Israel, para evitar que, por algum erro de cálculo, alguma comunidade isolada corresse o risco de se enganar no dia e celebrar o Yom Tov (dia festivo) no dia errado. Isto é, para cada feriado ordenado pela Torá, os sábios acrescentaram mais um dia para a diáspora.

Por esta razão, e embora, como eu disse, todo o mundo judaico leia as mesmas parashiot ao mesmo tempo, quando na diáspora o segundo dos dois dias festivos consecutivos coincide com Shabat, há um  desfasamento entre Israel e o resto do mundo judaico em relação à leitura da Torá.

Este ano, esse desfasamento ocorre esta semana, quando na diáspora estarão a ler Acharei Mot, enquanto em Israel já estaremos a ler Kedoshim. (Porque quando lemos Ajarei Mot em Israel, na diáspora leram a leitura do oitavo dia de Pessach, que não existe em Israel, porque em Israel apenas se celebram 7 dias de Pessach.)

Outra particularidade da organização da leitura da Torá em parashiot é o fato de existirem parashiot que podem ser lidas juntas. (Mejubarot). As razões para o estabelecimento desses “pares” de parashiot são complexas e estão fora do âmbito deste texto, mas pode dizer-se, para simplificar, que esses pares foram estabelecidos porque as semanas do ano não seriam suficientes para ler a Torá inteira, devido à própria duração do ano judaico e ao facto de que quando uma festa coincide com Shabat, não se lê a parashá correspondente ao Shabat mas  sim a da festa, como vimos anteriormente.

Graças à existência destas parashiot mejubarot, as leituras de Israel e da Diáspora serão igualadas novamente em agosto, (no 2º dia do mês hebraico de Av), quando as Parashiot Matot e Masei forem lidas juntas na diáspora. A partir desse dia, até novo desfasamento, estaremos novamente todos juntos.

Mas em pensamento estamos sempre! A nossa Torá une o povo de Israel no seu espírito e na sua devoção, mesmo que a sua leitura esteja temporariamente desfasada. É curioso pensar que, no que diz respeito à leitura da Torá, pode considerar-se que Israel, em certos momentos, está à frente no tempo, vivendo de certa maneira no futuro. Quem viajar da Diáspora para Israel numa dessas semanas e regressar ao seu país no Shabat seguinte, sentirá essa “viagem no tempo”, porque, quando regressar e ouvir novamente a mesma parashá, sentirá que viajar para Israel é como viajar para o futuro.

Shabat Shalom desde Israel,

Rabino Elisha Salas