Um passado judaico secreto: a jornada multinacional da genealogista Genie Milgrom para descobrir as suas raízes

Um passado judaico secreto: a jornada multinacional da genealogista Genie Milgrom para descobrir as suas raízes

Por: Eve Glover

A genealogista premiada, autora e palestrante Genie Milgrom cresceu como católica, mas a partir dos onze anos sentiu instintivamente que era judia.

Nascida em Havana, Cuba, em 1955, Milgrom frequentou escolas católicas em Cuba e nos Estados Unidos, mas “sentia que algo estava errado… É difícil explicar, mas a maioria das pessoas que vêm desse tipo de raízes [passam por] esse fenómeno”, disse ela à The Jewish Press.

Genie casou com um católico cubano quando era muito jovem e teve dois filhos. Aos 28 anos, no entanto, sentiu-se compelida a mudar de rumo. “Eu simplesmente não posso continuar a fazer isto”, recorda. “Sempre fui uma pessoa espiritual, uma pessoa religiosa, e estava a ter muitos problemas com o dogma da religião católica.”

Nos sete anos seguintes, mudou radicalmente sua vida ao divorciar-se e converter-se ao judaísmo ortodoxo. Ela tinha um pressentimento de que já era judia de nascimento – mas nenhuma prova.

Morando em Miami, Milgrom mergulhou na comunidade judaica, tornando-se presidente da comunidade e tesoureira da sinagoga local Young Israel. Através de seu trabalho na indústria farmacêutica, conheceu o seu segundo marido, Michael, um judeu chassídico asquenazita, e sentiu-se instantaneamente em casa com a família dele.

No dia em que Milgrom casou novamente, a sua avó avisou-a sobre como é perigoso ser judeu – o que Milgrom achava que significava o perigo de a sua alma deixar o catolicismo. Foi só anos depois, após a sua avó morrer em 1993 e Milgrom receber um par de brincos com a Estrela de David, que ela percebeu o verdadeiro significado das palavras da sua avó, e de costumes que a avó lhe ensinara, como certificar-se de que não houvesse sangue nos ovos e varrer para o centro da sala. Tudo começou a fazer sentido.

(Durante a Inquisição Espanhola, soube mais tarde, os cripto-judeus tinham removido as mezuzot das suas portas, mas, num esforço para manter a área da entrada sagrada, não varriam naquela direção.)

Milgrom também encontrou receitas de família que remontam à Inquisição, como costeletas de porco falsas. “O que eles costumavam fazer era fazer essa costeleta de «porco» com rabanadas, e depois, quando estavam a comer, deitavam uma costeleta de porco verdadeira na lareira e o cheiro espalhava-se, de maneira que os empregados, os trabalhadores e os vizinhos pensavam que eles estavam a comer carne de porco”, explicou.

Milgrom decidiu investigar a sua linhagem estrategicamente, empregando a ajuda de Fernando Gonzalez del Campo Roman, um ex-padre espanhol que também é um especialista em genealogia. “Eu não sou o tipo de pessoa que vive num mundo de fantasia”, disse ela. “Estou muito fundamentada, estou muito enraizada e queria alguém que duvidasse do que está à procura. Este senhor é um ex-padre – ele não vai querer que eu seja judia, então vou contratá-lo para encontrar as minhas raízes judaicas”. Gonzalez del Campo Roman conseguiu traçar a linhagem familiar de Milgrom até 1545.

Os registos de batismo que ele obteve diziam Bajo necesidad ao lado dos nomes de todos os bebés da família de Milgrom. Isso significava que eles não foram batizados, supostamente porque estavam demasiado doentes para ir à igreja fazê-lo.

A mãe de Milgrom, que vinha de uma família cubana de elite que pertencia a círculos sociais onde não havia judeus, inicialmente tentou dissuadi-la de investigar muito profundamente, apontando que havia muitas freiras e padres na família – mas isso era comum em cripto-judeus que queriam esconder as crianças judias da perseguição. O último evento consciente da sua mãe antes de ser acometida pela doença de Alzheimer foi acender velas de Shabat e recitar a bracha com ela. Faleceu há várias semanas.

Em 2014, após mais de 10 anos de pesquisa, Milgrom viajou para um beit din em Jerusalém, onde contou ao dayan sobre a sua árvore genealógica e sobre como os seus avós nasceram em Fermoselle, uma pequena aldeia entre Espanha e Portugal, onde os seus antepassados viveram durante 523 anos. Ele sugeriu que ela descobrisse a história judaica de Fermoselle porque, até onde ele sabia, não havia registo de uma comunidade judaica lá.

Enquanto Milgrom viajava com o marido para Portugal, ocorreu-lhe que a sua família devia ter sido presa pela Inquisição portuguesa. Comparou nomes nos arquivos da Inquisição com a sua árvore genealógica, que confirmou que pelo menos 45 parentes do lado materno eram mártires que foram queimados até a morte por se recusarem a converter.se. “Eu estava a ler sobre essas avós, tias, e meninas de 15 anos com essa fé incrível”, recorda, “e disse a mim mesma: ‘Como poderia eu não ser uma mulher de fé, se os meus antepassados foram assim?’”

Assim que chegou a Fermoselle, Milgrom notou símbolos religiosos gravados em muitas paredes de pedra, incluindo casas que ela logo descobriu que tinham sido sinagogas. “Enviei [fotos dos símbolos] para Oxford, Harvard, Notre Dame.” Um arqueólogo disse-lhe que, se ela quisesse descobrir o segredo por trás dos símbolos, deveria olhar para eles quando o sol os atingisse, às 14h, pois essa era uma maneira comum de os cripto-judeus deixarem mensagens.

Um desses símbolos que ela conseguiu ver com mais clareza às 14h, conhecido como criptocruz, era uma cruz com uma âncora dentro de um círculo por baixo dela, sendo a âncora o mesmo símbolo encontrado em antigas moedas israelitas. Milgrom reconheceu este símbolo na entrada dos fundos de uma igreja onde uma mezuzá teria sido colocada.

“Não está escrito em lado nenhum, mas eu sei que eles tocavam na cruz”, explicou. “Fermoselle foi construída sobre uma montanha de rocha, granito… Todas as parede são ásperas ao toque. Quando você chega àquela porta dos fundos da igreja com aquela cruz com a âncora, é macia como manteiga. As pessoas tocaram-na durante gerações… As pessoas tratavam-na como uma mezuzá .”

Milgrom disse a um historiador em Fermoselle que o seu nome de família era Bollico (“pequeno bolo”), que tem origens judaicas. O historiador ofereceu-se para levá-la a uma sinagoga que já tinha sido transformada em residência particular. No dia seguinte, Milgrom viu-se descendo sete degraus que levavam ao porão da casa e, quando viu uma bica enorme que se projetava para fora, percebeu que estava no meio do que antes tinha sido uma micvê .

Mais tarde, um ex-presidente de câmara da vila levou-a para uma sinagoga diferente, onde ela viu os bancos e o lugar onde teria sido colocado o Aron Hakodesh . “Tudo o que estou a fazer é chorar pela história judaica perdida”, disse ela, “e naquele momento, foi quando se tornou minha missão que era isso que eu iria fazer – iria aos quatro cantos do mundo falar sobre isto.”

Enviou provas que descobriu de 22 gerações da sua linhagem para um rabino em Israel, que não aceitou testes de DNA e exigiu que todos os registos fossem documentados em papel. Demorou anos para que alguns dos documentos fossem traduzidos para o hebraico. Finalmente, recebeu uma resposta do rabino. “Recebi uma bela carta a dizer que nasci judia. A carta dizia que D’us me trouxe a este lugar de uma maneira muito indireta, mas que todos os meus ascendentes e descendentes eram judeus. Foi um dia incrível!”

Milgram começou a postar sobre sua ascendência redes sociais em 2010 e ganhou milhares de seguidores, muitas das quais perguntavam a Milgrom como ela descobriu o que descobriu e diziam que gostariam de procurar o seu passado possivelmente judaico também.  Começou a escrever um livro sobre histórias e receitas de cripto-judeus que viveram durante o tempo da Inquisição espanhola. O seu público aguardava ansiosamente o próximo capítulo, que ela postou nas redes sociais enquanto o escrevia, ao mesmo tempo que viajava por todo o mundo para revelar o seu passado.

Milgrom recebeu a Medalha das Quatro Sinagogas Sefarditas em Jerusalém pelas suas descobertas inovadoras sobre a história judaica de Fermoselle. Dois dos seus livros, My 15 Grandmothers e Pyre To Fire, ganharam o prémio International Latino Book Awards.

Hoje, Genie Milgrom faz parte do comité consultivo da Society for Crypto-Judaic Studies of Greater Miami e falou no Knesset, no Parlamento da UE e no AIPAC. Também é diretora para a América Latina do Kulanu.org, onde ensina judaísmo em espanhol e o seu marido ensina em francês.

Nos últimos 10 anos, Milgrom tem trabalhado como genealogista para ajudar as pessoas a encontrar as suas raízes judaicas. Falou num painel com o renomado demógrafo Dr. Sergio Della Pergola, que estimou que existem cerca de 50 milhões de outros descendentes de cripto-judeus de Espanha que ainda não conhecem o seu passado.

“Há uma quantidade impressionante de pessoas que podem mudar a face do povo judeu”, disse Milgrom.

Link para o artigo original em Inglês

RASTREANDO RAÍZES JUDAICAS ATRAVÉS DE REGISTOS CATÓLICOS E DA INQUISIÇÃO

RASTREANDO RAÍZES JUDAICAS ATRAVÉS DE REGISTOS CATÓLICOS E DA INQUISIÇÃO

O Centro Ma’ani da Shavei Israel apresenta “Rastreando Suas Raízes Judaicas Através dos Registos Católicos e da Inquisição” com a nossa querida amiga Genie Milgrom.

A nossa ligação especial a Genie Milgrom

A nossa ligação especial a Genie Milgrom

A nossa ligação a Genie Milgrom é profunda e rica. Quer seja apreciando a sua companhia durante as suas visitas aos nossos escritórios de Jerusalém ou beneficiando do seu enorme trabalho em nome dos Bnei Anussim, o valor que a genealogista e pesquisadora cripto-judia adiciona ao nosso trabalho e à nossa equipa é incomensurável.

Entre os vários livros que escreveu, Genie escreveu um capítulo importante sobre genealogia no nosso livro  ‘¿Tiene usted raíces judías? ‘  [Você tem raízes judaicas?], no qual orienta as pessoas sobre como pesquisar suas raízes judaicas.

Há pouco tempo, recebemos os seus livros mais recentes, ‘ My 15 grandmothers ‘ e ‘ Recipes for my 15 grandmothers ‘.

Ler o livro Mis 15 abuelas durante o Shabat foi fascinante. Não consegui deixar de ler até ter acabado o livro. É tão fascinante como Genie descobriu quinze gerações do seu próprio passado. Em particular, a história especial que se desenrolou em Fermoselle, uma cidade no oeste de Espanha, foi muito cativante. Genie pesquisou as suas raízes durante anos e descobriu que a sua família estava firmemente ligada a Fermoselle. Quando Genie chegou lá, já tinha construído uma árvore genealógica de 800 membros que remontava ao ano de 1545. Depois de perguntar aos habitantes locais se conheciam alguma memória ou história sobre os judeus e apenas receber “não” como resposta, estava quase a desistir quando encontrou uma senhora que “por acaso” tinha respostas. Claro, só poderia ter sido a providência divina que guiou Genie até essa senhora, que era historiadora.

Como profissional que trabalha com os Bnei Anusim, achei este livro muito inspirador, além de muito útil como guia para quem procura as suas raízes judaicas. Na minha opinião, esta é a prova da providência divina, de que De’s está trabalhando “nos bastidores” para garantir o retorno dos judeus perdidos e ocultos e de que De’s queria Genie de volta ao seio do povo de Israel.

Eu recomendo este livro, não apenas para as pessoas interessadas nas suas próprias raízes judaicas, mas também para quem simplesmente deseja desfrutar de uma leitura fascinante.

Em Homenagem a Dona Gracia, «A Senhora» – «A Rainha»

Texto de Jayme Fucs, guia de turismo cultural em Portugal e Israel.

Lá estava eu em Tiberíades, frente ao monumento em homenagem a Dona Gracia, que no ano 2010 comemorou 500 anos de sua vida. Observando o monumento, pensei: Como pode ser que tão poucas pessoas saibam sobre essa incrível mulher judia portuguesa! Por isso resolvi fazer este pequeno relato, que possa ajudar a resgatar seu legado e sua Memória. Quem foi Dona Gracia Mendes Hanasi? O que ela tem a ver com a Cidade de Tiberíades?

Dona Gracia Mendes nasceu em Portugal, em Lisboa, em 1510, de família de cristãos novos que foram expulsos da Espanha para Portugal em 1492. Dona Gracia era casada com D. Franscisco Mendes, cristão novo, dono de uma das maiores fortunas do mundo. Depois de poucos anos de casada, Dona Gracia se torna viúva, adquirindo toda a fortuna de D. Francisco Mendes. Os pais de Dona Gracia eram cristãos novos que, como muitos, guardavam em segredo os princípios judaicos em suas casas, e, mesmo com todas as dificuldades, conseguiram passar para os seus filhos esses valores.

Com a morte do marido, Dona Gracia vai ter em Portugal uma situação de respeito e destaque: a corte portuguesa vai depender muito de seus favores, e, com muita sabedoria e cuidado, Dona Gracia vai usar esse seu poder como forma de enfrentar a Inquisição em Portugal, exigindo certa liberdade e direitos para os cristãos novos. Essa situação vai levar Dona Gracia a ter que fugir de Portugal e transferir toda a sua fortuna para a Bélgica, onde, com ajuda de seu sobrinho, D. Yosef Hanasi, vai administrar seus negócios.

Na Bélgica a situação também fica muito ruim para Dona Gracia, pois os tentáculos da inquisição vão ameaçar seus projetos, tendo ela que fugir da Bélgica e se mudar para Veneza, e de lá para o Ducado de Ferrara (também no que hoje é a Itália), que dará a ela toda a sua proteção. Isso vai possibilitar a Dona Gracia voltar a praticar o judaísmo de forma aberta, e transforma Ferrara num refúgio para muitos cristãos novos em regresso ao Judaísmo. Vai ser em em Ferrara que Dona Gracia vai ajudar a traduzir o famoso Tanach de Ferrara em ladino, idioma usado entre os Judeus originários de Portugal e Espanha.

Mas a situação fica perigosa também em Ferarra, pois o Ducado sofre ameaça diretamente do Papa Paulo IV, que ameaça fazer uma intervenção bélica, o que vai levar Dona Gracia a ser convidada pelo Sultão Sulimão O Grande, em 1552, a transferir toda a sua fortuna e sua vida ao Império Otomano. O Sultão oferece a Dona Garcia garantias de poderes e regalias. Dona Gracia aceita o convite do Sultão, porém pede a cidade de Jerusalém para ser governada por ela. O Sultão nega o pedido de Dona Gracia, mas oferece em troca a cidade de Tiberíades.

Já vivendo no Imperio Otomano, Dona Gracia vai organizar, em 1556, um boicote ao porto de Ancona, situado dentro do território do próprio Papa Paulo IV, como represália pelo sofrimento e perseguições que os Bnei Anussim (cristãos novos) sofrem. Em Tiberíades, Dona Gracia vai construir as muralhas da cidade, vai abrir vários centros de estudos judaicos, constrói uma fabrica de seda e de lã, e, o mais importante, Tiberíades será um grande refúgio para os Judeus Bnei anussim, que voltam ao Judaísmo sob a sua proteção, sem a necessidade da conversão, e sim de retorno, como bem definiu o sábio Maimónides.

Dona Gracia faleceu em 1569. Era considerada para muitos judeus Bnei Anussim como «A Rainha», ou «A Senhora». Dona Gracia não conhecia o termo moderno de Sionismo, mais hoje, com a descoberta de sua fantástica historia toda documentada, podemos dizer que Dona Gracia foi a primeira percursora do Sionismo, antes mesmo de Thedor Hertzl! Ela já no seu tempo dizia que os Judeus deviam abandonar a diáspora e voltar a viver na terra de Israel. Finalmente, em 2010, Dona Gracia foi consagrada pelo governo de Israel por sua contribuição para o Estado Judaico moderno, e especificamente, para o desenvolvimento da cidade de Tiberíades. Existe uma reverência que até hoje é cantada pelos Bnei Anussim em homenagem a Dona Gracia – «A Senhora», ou como muitos gostavam de a chamar, «A Rainha.» Dizem que quando ela chegava às sinagogas dos Judeus Bnei anussim, Dona Gracia era colocada numa cadeira de honra e como reverência diziam: «Dona Gracia, Dona Gracia, Dona Gracia Nosso Amor / Dona Gracia Dona Gracia, Dona Gracia Por Favor»

Cara a cara com Edith Blaustein

Uma entrevista com a vice-diretora da Shavei Israel, traduzida do original em espanhol, um artigo do Semanário Hebreo Jai, um jornal judaico da América Latina. Entrevista por Janet Rudman

Gostaria que a Edith nos contasse a sua biografia em poucas palavras.

Estou muito honrada de que o Semanario Hebreo queira conduzir uma entrevista através de si, querida Janet. É realmente um grande prazer me reconectar com a Janet e com os leitores do Semanário. 

Nasci em Montevidéu em 1955. Os meus pais imigraram no final dos anos 1920, minha mãe de Kobrin e meu pai de Chernovich. Tenho quatro filhos – Dina, Raquel, Shie e Ionatan, sete netos, e sou casada com o Dr. Yehuda Sczwartz.

Eu me formei no Instituto Yavne em 1972, terminei meu ensino de história no Instituto de Professores Artigas e obtive o título de Mestre em Educação pela Universidade Católica. 

Pertenço à primeira geração de graduados do Leatid, programa da Joint, em Buenos Aires. Mais tarde, fiz a pós-graduação do Instituto Melton de Educação da Universidade Hebraica de Jerusalém. Além disso, sou técnica ontológica. Obtive o diploma no instituto dirigido pelo Dr. Rafael Echeverría na Universidad del Desarrollo de Santiago do Chile.

Trabalhei como professora de História Hebraica no Instituto Yavne e na Escola Integral. Dirigi o Centro de Estudos Judaicos entre 1982 e 1989. Fui Diretora Geral do Instituto Yavne entre 1991 e 1995. Mais tarde, já no Chile, fui Diretora Geral do Vaad Hajinuj e do Instituto Hebraico de Santiago do Chile entre 2002 e 2008. 

Em 2008 fiz aliá com meu filho Ionatan. Meus filhos Raquel e Shie já moravam aqui; Dina mora em Montevidéu. Viemos morar em Jerusalém. 

Trabalho desde fins de 2008 como vice-diretora da Fundação Shavei Israel.

O que representou para si o CEJ? Que contar aos nossos leitores que não o conheceram? Que memórias tem da publicação Contextos?

O nosso encontro, Janet, foi no Centro de Estudos Judaicos, um empreendimento do Departamento Dor Tzahir da Agência Judaica, em conjunto com as Universidades de Jersualem e de Tel aviv. Foi uma grande honra ser nomeada diretora de uma instituição de educação para adultos numa época difícil. Lembremos o contexto da ditadura que havia no Uruguai. Uma crise econômica muito importante, também, precisamente nesse ano de 1982. Locais de estudo foram fechados, então também foi um privilégio para o Uruguai ter aquele espaço. A comunidade judaica foi muito enriquecida pelo Programa de Identidade Judaica ministrado pelo CEJ, que durava dois anos. O CEJ foi, sem dúvida, uma luz em todos os sentidos; uma equipa de professores locais de alto nível com professores convidados de Buenos Aires, da Universidade Hebraica e da Universidade de Tel Aviv.

Lembro-me do valor que os formandos davam ao diploma final, voltam sempre à minha memória, tanto professores da comunidade quanto alunos inesquecíveis que passaram pelas suas salas de aula. Pessoas adultas muito cultas. Entre as iniciativas que realizávamos no CEJ estava a revista Contextos, com uma equipa editorial de estudantes de luxo, com artigos, entrevistas, ilustrações feitas com profissionalismo e amor, que influenciaram a vida comunitária da época. E a Janet também fazia parte dessa linda equipa.

A Edith trabalhou na educação judaica em vários países da América Latina? Como foi a sua experiencia?

Foi uma experiência enriquecedora, que me permitiu conhecer a vida judaica latino-americana. Quero destacar a minha experiência chilena como diretora geral do Vaad Hajinuj e do Instituto Hebraico, um colégio modelo com cerca de 1.500 alunos. Foram anos muito intensos que me permitiram fazer parte da comunidade chilena e fazer amizades excelentes, com as quais continuo em contato até hoje. Tenho muito carinho pela comunidade chilena e sou muito grata pela oportunidade que tive de realizar projetos e transformar a educação judaica naquela comunidade. O fato de ter tornado o Instituto Hebraico trilíngue foi um dos alicerces do seu sucesso atual. Levei a experiência do Taglit para o Chile, e também do Hillel para jovens universitários. Fizemos um programa de intercâmbio com um colégio de New Jersey. Acrescentámos à viagem de estudo a Israel uma paragem na Polónia, e dessa forma elevámos a viagem a uma dimensão de experiência transformadora para os alunos. Desenvolvemos a Semana de Verão para a comunidade adulta e uma infinidade de outros projetos. Lembro-me de quando saí do cargo para fazer aliá, deixei trinta projetos em andamento.

Em que anos trabalhou no Yavne? Quantos alunos compareceram?

Fui diretora geral da Yavne entre 1991 e 1995. Naquela época havia cerca de 500 alunos. Foram anos muito intensos na direção, onde programámos, com o corpo docente, profundas mudanças estruturais. Duas lembranças que me vêm à mente: quando chamei um pai, jovem na época, Dani Cohn, e lhe pedi que fizesse parte da comissão diretiva (tudo o resto é história), e quando trouxemos o minian da Bney Akiva da Escola Integral, que funcionava nos Yamim Noraim, ao Yavne, e essa foi a base do minian de sucesso até hoje em um belo Beit Knesset.

Como foi a sua adaptação a Israel profissionalmente? E pessoalmente?

Fiz aliá com a convicção de que Eretz Israel niknet al isurim, ou seja, que «a Terra de Israel consegue-se com sacrifício». Eu tive siata dishmaia, ajuda divina, na klitá. A Raquel já era casada, ela já tinha três filhos, e a Shie veio morar com o Ionatan e comigo até casar e hoje já tem quatro filhos. Assim, meus filhos foram e continuam sendo um apoio constante que me permitiu aclimatar-me como em casa. Ao longo do caminho conheci pessoas maravilhosas, incluindo meu marido, que junto com meus amigos de longa data, o Rabino e Rabanit Birenbaum, permitiu que Ionatan e eu tivéssemos uma klitá muito boa, não sem dificuldades, é claro, mas certamente bem-sucedida.  

Desde 2008, trabalho como vice-diretora da Shavei Israel (www.shavei.org), uma fundação criada por Michael Freund, que fez aliá de Nova Iorque. Michael, enquanto servia como assessor de Netanyahu no seu primeiro mandato, recebeu uma carta de um grupo no nordeste da Índia que se apresentava como descendentes da tribo Menashe. Na carta, eles pediam a «seu irmão Yehuda» que os ajudasse a chegar a Eretz Israel. Michael, ao contrário de outros que rejeitaram a carta, decidiu responder-lhe. A partir dessa carta, ele prometeu fazer todos os possíveis para trazê-los para Israel. E essa é uma das nossas tarefas na Shavei Israel, onde Michael é o principal responsável pela angariação de fundos e eu pela administração da instituição. Temos departamentos que se encarregam dos Bnei Anusim (descendentes daqueles que mantiveram o judaísmo em segredo após a expulsão dos judeus de Espanha), há quem queira voltar plenamente ao judaísmo e nós os ajudamos, tanto os que vivem na Europa como na América Latina. Dentro deste departamento funciona o Machon Miriam, que acompanha a conversão dos alunos falantes de espanhol, português e italiano, e o Machon Milton, para os alunos falantes da língua inglesa. 

O Rabinato Chefe de Israel é quem estabelece os critérios para todo esse trabalho. Trabalhamos também com os judeus ocultos da Polônia, que esconderam seu judaísmo após a Shoah e hoje seus netos se descobrem judeus e querem voltar às suas raízes. Também trabalhamos com os Subotniks na Rússia e com a comunidade judaica Kaifeng na China. Com o patrocínio do Ministério da Cultura, criámos o Centro Maani, de preservação da cultura das diferentes comunidades com as quais temos contato, onde aprendemos e compartilhamos as diversas tradições que cada comunidade desenvolveu para preservar o Judaísmo.  Portanto, tenho um trabalho apaixonante. 

Já conseguimos trazer para Israel cerca de 3.000 bnei menashe, que vivem em doze cides de Israel. Criámos para eles um centro de absorção para quando chegam a Israel, e lá os acompanhamos durante três meses para eles passarem pela conversão com os Daianim do Rabinato de Israel. Depois os acompanhamos na sua absorção nas diferentes cidades, quando já estão instalados. 

Já viajei várias vezes à Índia para dirigir a «operação retorno». Em uma das viagens, foi a minha vez de trazer um grupo de cem bnei menashe para Israel. A verdade é que é a coisa mais próxima de se sentir Moshe Rabeinu por algumas horas. A emoção é indescritível; eles têm um hino que fala da esperança de chegar à Terra de Israel e Jerusalém, eu sempre choro de emoção ao chegar em Israel com aquela música e ver como cada um beija a enorme mezuzá que está na entrada do aeroporto. Neste momento o governo de Israel aprovou a chegada de 250 olim bnei menashe e estamos em pleno planejamento e organização; serão trazidos por um avião da El Al que fretámos especialmente e, junto com o Ministério de Absorção, cuidaremos da sua inserção na sociedade israelense depois de passarem pelo centro de absorção que montámos, onde passam a conversão. 

Sem dúvida é um privilégio fazer parte desta importante instituição.

Eu conheci a Edith como sendo ortodoxa moderna. Tenho a lembrança de Shabat do papel higiênico cortado no banheiro de sua casa. Como é a sua vida hoje nesse sentido?

Minha família, quando nasci, não era religiosa; na verdade, até chegar a Yavne no primeiro ano do ensino médio, e em Bnei Akiva, eu não sabia hebraico. Foram essas instituições, que evidentemente moldaram minha vida, que me permitiram me apaixonar pelo judaísmo, estudar e começar a cumprir mitzvot

Adotei o algoritmo Judaico, do qual fala o Rabino Jonathan Sacks (ZT´L), em minha vida. Acredito com plena convicção que o Judaísmo é um modo de vida cheio de significado, não há dia que não estude um capítulo do Tanach e agora também a página diária do Talmud, é alimento para a alma.

Do que sente saudades, de Montevidéu?

Em primeiro lugar, da minha filha Dina que mora lá, dos meus pais (Z´L) que estão enterrados no cemitério de La Paz. Não sinto falta de nada específico, mas certamente carrego Montevidéu no coração. Um fenômeno interessante é a língua, o espanhol: tenho a felicidade de dominar (ler, escrever) o espanhol, o inglês e o hebraico, mas às vezes sinto falta do espanhol, quero ver um filme ou ler um livro… porque falar hebraico ou inglês para mim é como estar vestida para sair para a rua, e o espanhol é estar de pantufas, com roupa de andar por casa.

Suas amigas de longa data, de que origem são elas e de que época da sua vida?

Tenho amigas de longa data que fui fazendo em diferentes fases da minha vida, da Bnei Akiva, CEJ, Yavne, amigas chilenas que são incríveis e, ultimamente, também israelenses. Quero mencionar a minha amiga Lea Cesarco, que conheci no CEJ, com quem tenho contato o tempo todo. Também a Cuca Sandbrand e Mary Fogjel… A lista é muito longa graças a D’us.

A Edith sempre foi uma mulher muito trabalhadora. Dentro do lar judaico…

Quando meus filhos andavam no gan, aprendiam que «o pai trabalha e a mamãe cozinha.» Acho que ninguém fala assim hoje. Meus filhos me viram trabalhar toda a minha vida, com esforço, e eles também o fazem. Minhas filhas são profissionais, têm mestrados e trabalham em cargos importantes, minha nora também. Eu acredito que as mulheres judias podem ser profissionais em vários campos. Mesmo na vida judaica, na sinagoga, também houve muitas mudanças nos lugares que as mulheres ocupam como professoras, estudiosas do Talmud, etc.

Hoje, no Uruguai, temos uma vice-presidente mulher, conhecida por lutar pelas mulheres. Golda Meir foi primeira-ministra em 1969. O Uruguai tem mais mulheres no Parlamento e, pelo que li, Israel tem menos nesta legislatura do que na anterior. O que me pode me dizer sobre isto?

Sem dúvida, as mulheres em Israel ocupam um lugar muito importante. Isso vê-se na mídia e também na política. Em relação ao Uruguai, as mulheres aqui, nesse sentido, têm mais relevância. A Diretora Geral da Indústria Aeronáutica de Israel é uma engenheira, funções que não eram tradicionalmente associadas às mulheres. 

A Edith é avó. Diga-me o que significa para si ser avó e exercê-lo.

Ser avó para mim é como receber um prêmio. Por enquanto, tenho sete netos, a mais nova tem três anos e os mais velhos 18 (são gêmeos). Eles são todo o meu orgulho. É muito especial estar com eles e desfrutá-los. Todas as sextas-feiras, quando nos cumprimentamos para o Shabat, eu digo-lhes o quanto os amo e como estou orgulhosa deles. Confesso que exerço um «avózismo» ativo, preocupo-me em estabelecer rotinas, às vezes organizo peulot, como quando era madrichá. Gosto de passear, preparar comida para eles, comprar doces, ensinar espanhol, estudarmos juntos, coisas que com certeza vão se lembrar quando, com a ajuda de De’s, forem adultos.