“Ainda não está perdido” – o perfil de Michael Freund no jornal israelense Ma’ariv

13/06/2013Michael-at-home-Maariv

Em algum lugar, nos países e cidades que parecem nunca terem recebido qualquer estrangeiro, existe uma rica e dinâmica vida comunitária que gira em torno de antigos costumes judaicos, e às vezes até mesmo para os próprios residentes a origem deste folclore tradicional não é bastante clara . Em uma época em que declarar seu judaísmo não parece ser a opção mais segura, a organização Shavei Israel atua em diversas áreas remotas com as comunidades mais distantes, e os auxilia na luta pela sua identidade, suas tradições e sua religião.

Descendentes de Anussim (conversos) de Espanha, Portugal e América Latina; os Bnei Menashe da Índia; os judeus escondidos da Polônia; os Subbotniks da Rússia e mesmo as comunidades judaicas de China, Peru e Itália – a organização tem mantido conexões com todos estes em um esforço em manter a centelha judaica viva. “Somos um pequeno povo de um país pequeno, não temos muitos amigos no mundo”, diz Michael Freund, fundador da organização que transformou a sua visão na missão de sua vida. “Mas, por outro lado, existem essas comunidades que faziam parte de nós, e, se incentivarmos e fortalecermos estas conexões, apenas nos beneficiaríamos.”

 

A jornada de Freund com estas comunidades perdidas começou em 1996, quando imigrou para Israel de Nova York e encontrou trabalho no escritório de diplomacia pública do primeiro governo de Netanyahu. Freund foi o vice-diretor, e lidava, principalmente, com a comunicação com jornalistas estrangeiros. O trabalho deste novo imigrante estava calmo, até que lhe chegou uma carta que mudou seu mundo.

“Lembro-me deste envelope até hoje, feito de papel enrugado, laranja”, lembra Freund. “Era da comunidade dos Bnei Menashe, no nordeste da Índia, dirigida ao primeiro-ministro, em que eles pediam para voltar para a terra de seus pais, a Terra de Israel. Minha primeira resposta foi que isso parecia completamente absurdo – como poderiam os membros de uma tribo em uma área remota na fronteira com a Birmânia, Índia, serem nossos irmãos? – Mas algo na carta tocou meu coração, e eu lhes respondi.”

“Então me encontrei com eles. Vi que são muito sérios em seu desejo de se juntar ao povo judeu e viver uma vida de Torá e mitzvot, e eu disse para mim mesmo – se alguém é louco o suficiente para querer se juntar a nós, e fazem isso com honestidade e um desejo real, por que mandá-los embora? Eu aprendi suas tradições e costumes, até que me convenci de que estes eram realmente descendentes das tribos perdidas, e que são nossos irmãos”.

Freund conseguiu 100 vistos para eles virem a Israel, se converterem e receberem o status de novos imigrantes. Hoje, 17 anos após a primeira parada de sua jornada, Freund conseguiu reunir dezenas de comunidades que afirmam pertencer ao judaísmo mas, que perderam suas tradições ao longo dos anos.

Hoje, a Shavei Israel é a única organização judaica que atinge os “judeus perdidos” nas extremidades da terra, a fim de ajudá-los a voltar ao judaísmo. “Nós não somos apenas uma equipe de pesquisadores”, os membros da organização esclarecem “abordamos cada caso em um nível humano, oferecendo ajuda, apoio e compreensão em suas buscas sobre suas raízes judaicas, sua história judaica e a possibilidade de voltar a nação de Israel”. Freund e sua equipe estão ativos em 10 países, com uma grande variedade de comunidades especiais. Os Bnei Menashe na Índia são a maior delas, com cerca de 2.000 que já emigraram para Israel. No próximo ano, espera-se uma imigração adicional de 7.000.

“Após 2700 anos de peregrinação, eles estão voltando para casa. É o fechamento do círculo da história”, acrescenta Freund.

Os descendentes das 10 tribos

Os Bnei Menashe não são os únicos. Os descendentes dos conversos forçados de Espanha, Portugal e do sul da Itália estão lentamente voltando ao seu passado judaico que seus ancestrais tentaram esconder do terror da Inquisição. Em 1391, pogroms anti-judaicos varreram a Espanha. Milhares de pessoas foram mortas e milhares de outras foram forçadas a se converter ao cristianismo. As perseguições não pararam pelos próximos cem anos e, atingiram seu pico com a expulsão dos judeus da Espanha em 1492. Somente a Sicília, que era, então, parte do reino espanhol, tinha mais de 50 comunidades com milhares de judeus. Freund: “Nos últimos anos, mais e mais conversos estão “saindo do armário” e tentando voltar às suas raízes e ao seu povo.”

Nesta busca por diferentes judeus, tornou-se claro que algumas tribos indígenas, étnicas e grupos folclóricos em todos os continentes, foram identificados como possíveis descendentes das 10 tribos. Mas nem toda comunidade que tem costumes judaicos está necessariamente relacionada ao judaísmo. “Alguns anos atrás, fui abordado por um grupo de nativos americanos do Tennessee, que se autodeclararam descendentes das 10 tribos. Eu pedi para ver provas, o que praticavam, o que tinham, como sabiam, e eles me enviaram provas infundadas – era mais um desejo. Eu respeito o direito de cada pessoa de se auto-identificar com o que querem, mas isso não significa que temos que concordar com eles “, Freund diz. “Em certos casos, são pessoas que apenas querem uma passagem para um novo mundo. Tentamos ter muito cuidado para trabalhar apenas com casos de que estamos bem convencidos.”.

Libertação do comunismo

Os nativos americanos não foram tão bem sucedidos, mas na China, nos últimos anos, uma comunidade judaica real foi descoberta. Nos séculos VIII e IX, os comerciantes judeus chegaram na China através da ‘Rota da Seda’ entre a Pérsia e o Iraque, e lá se instalaram, com a bênção do rei. Segundo a lenda, eles não podiam dizer seus nomes judaicos e, assim, Levy, por exemplo, se tornou Li.

A comunidade cresceu, construindo uma sinagoga em 1163, chegando a uma população de 4.000 – 5.000 judeus durante a Idade Média, com instituições locais. Até os dias de hoje, na cidade de Kaifeng, existem cerca de 1.000 pessoas que parecem chineses, mas são identificados como os descendentes da comunidade judaica, inclusive com árvores genealógicas para provar isso.

A Shavei Israel diz que o comunismo chinês não conseguiu, nos últimos 70 anos, apagar completamente a memória desta tradição. “Há ainda jovens desta comunidade que se lembram de um avô que não trabalhava no sábado ou que mantinha certos costumes”, diz Freund.

Nos últimos anos, a China se abriu para o mundo e para a Internet, e a nova geração descobriu novas fontes de informação que anteriormente não tinham acesso. Freund: “Tudo o que esta geração sabe é que eles são descendentes do povo judeu. Recentemente, após terem sido expostos à mais informações, começaram a se reunir uma vez por semana, a fim de celebrar o Shabat e estudar juntos. Nos últimos anos, trouxemos dois pequenos grupos de 12 pessoas a Israel, e todos foram convertidos.”.

Vingança por anos de exílio

Não entenda errado: Estas mesmas comunidades judaicas ou talvez-judaicas, mundo afora, não estão somente esperando “para serem descobertas” e voltar a Israel. Muitos dos conversos de Espanha e Portugal, por exemplo, não estão interessados na religião, mas estão conscientes de sua conexão com o povo judeu. Mesmo assim, a Shavei Israel ainda acredita que reforçar a ligação com estas comunidades pode ser útil para a diplomacia pública, para a luta contra o anti-semitismo e, para o turismo.

Freund promete não abandonar a obra de sua vida: “Devemos fechar o círculo da história. Pode ser a melhor vingança por tudo o que nos foi feito no decorrer do Exílio – trazer o povo judeu de volta para casa!”

 

Este artigo foi publicado originalmente no site do Ma’ariv em Inglês, como parte da série “Os 100 Judeus Mais Influentes no Mundo.”

 

One thought on ““Ainda não está perdido” – o perfil de Michael Freund no jornal israelense Ma’ariv

  • February 28, 2017 at 1:15 am
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    E há pessoas que ou por estarem doentes, ou por já terem demasiada idade, querem apenas voltar à religião e não a Israel onde dada a doença e idade já não teriam qualquer utilidade e seriam sim um peso inutil. Mas não sei se as compreendem.

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