Aguente esta, Rei Fernando e Rainha Isabel: o retorno dos Bnei Anussim espanhóis!

Baruch and Sarah Israel at the KotelNo início deste ano, num brilhante e ensolarado dia em Jerusalém, um menino e sua família celebraram uma emocionante – e um pouco tardia – vitória sobre a Inquisição Espanhola e seus capangas.

Enquanto sua mãe e sua avó o olhavam, o garoto de 13 anos, Baruch Israel, vestiu seus “Tefilin” pela primeira vez no Muro Ocidental em razão de seu Bar Mitzvá, envolvendo, cuidadosamente, as tiras de couro em torno de seu braço, assim como os judeus têm feito por todas as gerações antes de recitar as orações matutinas, de segunda a sexta.

Contudo este não era nenhum rito “ordinário” ou “passageiro” para Israel e seus parentes. Foi a primeira vez, em mais de 500 anos, que alguém de sua família pôde comemorar o começo da vida judaica adulta e a aceitação do jugo dos mandamentos. em sua vida.

Nascido na cidade de Elda, na província de Alicante, no sudeste da Espanha, Israel e sua família são Bnei Anussim (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo de “marranos”).

Seus antepassados judeus foram obrigados a converter-se ao catolicismo em algum momento no século 14 ou 15, apenas para serem perseguidos pelos fanáticos da Inquisição, que procuraram destruir qualquer atividade “cripto-judaica” clandestina.

No imaginário popular, a Inquisição Espanhola e a expulsão dos judeus da Espanha estão interligados e, muitas vezes confundem, contudo a Inquisição começou antes de 1492 (data da expulsão) e continuou por muito mais tempo depois.

A partir de registros históricos, sabemos que antes, em 1391 – um século antes da expulsão dos judeus da Espanha – pogroms anti-semitas já disseminavam pelo país, deixando milhares de mortos e devastando muitas. Nas décadas que se seguiram, houveram ondas de conversões forçadas como parte de um ambiente cada vez mais hostil e perigoso aos judeus. Este atingiu o clímax em 1492, quando o Rei Fernando e a Rainha Isabel deram aos judeus restantes da Espanha, uma escolha terrível: converter-se ou deixar a Espanha para sempre.

Um grande número de judeus escolheu o exílio. O historiador americano Howard Morley Sachar estimou o número de exilados judeus da Espanha em cerca de 100.000, enquanto que o docente Haim Beinart, da Universidade Hebraica estima o total em 200 mil e outros têm falado em ainda mais.

Mas um número incontável de judeus que se converteram a força, bem como aqueles que voluntariamente passaram pelo batismo, permaneceu.

Muitos destes Bnei Anussim (hebraico para “descendentes daqueles que foram forçados”) continuaram, bravamente, a cumprir com a prática judaica, secretamente, passando sua herança de geração em geração.

De acordo com o falecido historiador Cecil Roth, os capangas da Inquisição mataram mais de 30.000 destes “judeus secretos”, enquanto que muitos outros foram condenados por conservar, secretamente, práticas judaicas.

Seus descendentes vivem hoje em, praticamente, todo o mundo de língua espanhola e portuguesa, e nos últimos anos um número crescente de Bnei Anussim de toda a Europa, América do Sul e partes dos EUA, começaram a retornar a Israel e ao povo judeu.

Para Baruch Israel e sua família, o retorno a casa começou como uma busca espiritual, mas culminou com a descoberta de seu direito de primogenitura ancestral. Como sua mãe, Sarah, explica, foi sua mãe, agora conhecida como Shulamit, que passou muitos anos pesquisando, desejando descobrir “a verdade sobre a existência de D’us”. “Ela buscou a resposta no vegetarianismo, na naturopatia, na yoga e mesmo em diferentes religiões”.

Mas nenhum destes pode oferecer as respostas que ela estava procurando.

Então, em 2007, ela conheceu o Rabino Nissan Ben-Avraham, emissário da Shavei Israel – organização que presido – para a Espanha.

“Foi então que descobrimos nossa verdadeira identidade,” Sarah diz, acrescentando que “esta necessidade de busca espiritual” acabou por ser uma expressão profunda de uma longa história de raízes judaicas ocultas em sua família.

Sarah conta que, inesperadamente, uma série de costumes incomuns de sua família começaram a ser mais percebidos. Por exemplo, cada um dos seus avôs tinha mantido duas cozinhas em suas casas, “uma que estava sempre limpa e outra que não usávamos”, uma prática que possivelmente sugere uma alimentação Kasher e sua prática de separar a carne do leite.

Na primavera, o avô limpava os potes e panelas da cozinha de uma maneira curiosa, removendo todos os parafusos das pegas e as imergindo em água, de maneira semelhante à aquela na qual são “purificados” os utensílios da cozinha para poderem serem usados na festa de Pessach.

“Lembro-me de dizer a ele: ‘Vovô, essas panelas são tão baratas, porque você simplesmente não compra novas?'”, lembra Sarah.

Sua família nunca freqüentava a igreja – algo raro na cidade rigorosamente católica em que viviam – e eles acendiam velas memoriais a cada ano em honra aos entes queridos falecidos. Em seguida, Sarah descobriu que o sobrenome da família, Pardo, era um nome judeu sefaradita tradicional – que tinha sido compartilhado por muitos rabinos proeminentes e líderes comunitários.

Em 2007, Sarah participou de um seminário anual da Shavei Israel para os Bnei Anussim da Espanha, que, naquele ano, foi realizado em Palma de Mallorca.

“Esse foi nosso primeiro contato real com outras pessoas com origens ‘Bnei Anussim'”, relata Sarah. A família, então, começou a participar de reuniões subsequentes, e Baruch e sua avó viajaram para Israel pela primeira vez em uma viagem que a Shavei Israel havia patrocinado. “Todas essas experiências nos incentivaram e nos convenceram a seguir em frente.”

Durante o processo, a família começou a viver uma vida judaica observante na Espanha.

“Paramos de comer todos os alimentos proibidos pela Torá, coloquei Mezuzot em casa e começamos a cumprir o Shabat. Baruch foi circuncidado por um judeu, cirurgião e mohel”, diz Sarah.

Não é necessário dizer que as mudanças no estilo de vida foram mais intensas para Baruch.

“Se iamos a algum lugar, ele não podia comer muitas das coisas servidas. Não celebrava os eventos escolares, tais como o carnaval, que é realmente uma festa pagã e ele não ia para a escola nos feriados judaicos”, Sarah lembra. Cada vez mais, “nossos familiares, amigos e vizinhos, que sabiam que praticávamos o judaísmo, nos diziam que deveríamos ir viver em Israel.”

Depois de passar por uma conversão formal ao Judaísmo sob os auspícios do Grão Rabinato de Madrid, a família fez Aliá em 2012 e se estabeleceu perto de Jerusalém.

Sarah agora trabalha em uma creche, enquanto participa do Ulpan. “Estou no nível gimel agora”, ela relata com orgulho. Baruch, enquanto isso, está prosperando. “Ele tornou-se completamente israelense, com muitos amigos que o amam”, diz Sarah. Ele também está indo muito bem na escola, recebendo 100 em suas aulas de Mishná, de Torá e de Talmud. “D’us nos enviou pessoas maravilhosas que se preocupam com o nosso bem-estar.”

Entre estas pessoas maravilhosas está a família Dimri, companheiros e vizinhos que também falam espanhol, que trouxeram estes novos imigrantes para “debaixo de suas asas”, convidando-os para as refeições do Shabat e abrindo, completamente sua casa, para eles. A influência de Yonatan tem sido particularmente importante pois, afirma Sarah, Baruch cresceu sem pai (seus pais se divorciaram quando ele era muito jovem). Assim, quando Baruch recebeu seu primeiro par de tefilin, foi Yonatan que lhe ensinou como colocá-los e os providenciou para a cerimônia no Muro Ocidental.

Sarah estava exultante ao ver seu filho celebrando o Bar Mitzvá em Israel, e cumprindo, assim, tantos sonhos – dela própria e o anseio de tantos antepassados Anussim.

“Estamos certos de que nossos antepassados estão felizes por nós e orgulhosos por termos voltado ao nosso povo”, diz Sarah. “E eles estão, sem dúvida, saboreando a vitória sobre a Inquisição, que no final das contas, não conseguiu atingir seu objetivo de suprimir as almas judias da nossa família.”

Baruch diz que aguarda com expectativa se juntar ao exército israelense, após o ensino médio, para que possa ajudar a defender a Terra de Israel e o povo judeu.

Por todo o mundo, existem muitos mais Bnei Anussim como Baruch, Sarah e Shulamit, cujos ancestrais judeus foram arrancados de nós, contra suas vontades, sob as mais terríveis circunstâncias.

E um número crescente destes têm desejado retornar.

Com emissários atuando na Espanha, Portugal, sul da Itália e Sicília, além de Colômbia, Brasil, El Salvador e outros países, a Shavei Israel é hoje a maior organização do mundo a trabalhar com os Bnei Anussim.

Fazemos pois, como Sarah afirma de maneira tão eloquente, “os Bnei Anussim fazem parte do povo de Israel, e todos nós somos responsáveis uns pelos outros.”

Chegou o momento do Estado de Israel reconhecer os Bnei Anussim, estender a mão a eles e recebê-los de volta em casa. Nós devemos isso a eles, bem como a nós mesmos, corrigindo assim o erro histórico que foi feito com eles. Apesar da já haverem passado mais de cinco séculos, ainda não é tarde demais.

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