A Ressurreição e o Mundo Vindouro – Noções de judaísmo

Para pessoas vivas

A Torá é um livro para pessoas vivas, ou seja, que vivem neste mundo. Deste modo se concentra em especificar as funções que devemos cumprir aqui e agora, sendo estas muitas e que exigem muito esforço.

Na Torá existem 613 mandamentos, dos quais, 248 são ativos e 365 são proibições. Cada um destes tem seus derivados, suas ramificações e pequenos detalhes, além de tudo mais que foi adicionado pelos nossos sábios, ao longo da história para evitar que nos afastar ainda mais das proibições.

Esta mesma Torá ensina sobre a recompensa pelas boas ações e sobre a punição pelas transgressões. Conceitos estes que fazem parte dos princípios da fé judaica, por ser essencial acreditar em recompensa e punição, como um resultado da fé na justiça divina.

Obviamente que, como parte essencial da vida civil do Povo de Israel, as leis da Torá também estabelecem punições (e também algumas recompensas) em forma de atos praticados neste mundo. Mas estas são as punições do tribunal ‘inferior’, o tribunal humano.

Aonde foi dito isso?

A questão é: aonde a Torá diz que existirá castigo depois da morte? Quando a vida após a morte é tratada em nossos textos sagrados?
Como escrevi no início, a Torá é um livro para as pessoas que vivem e não está “preocupada” com o que acontece após a morte. Mas, mesmo assim, deve haver alguma referência a algum tipo de vida após a morte neste mundo em que vivemos.

A verdade é que existem alguns textos que podem ser interpretados como insinuações ou referências a uma vida futura, mas não mais do que isso. Estas são ‘insinuações’, que podem ser interpretadas de outra forma, sem deixar de apresentar o contexto em que foram mencionadas. Um exemplo é Avraham, ou mesmo Itzchak. Suas mortes são descritas pela Torá como “reuniram-se com seu povo” (Gênesis 25: 8; 35:29). Isso pode significar simplesmente que eles foram enterrados nos túmulos de seus antepassados, ou algo do gênero. Em seguida, em outro versículo (Levítico 23:29), diz-se que o delito de alguém pode significar a extirpação de sua alma do “povo”, ou seja, isso pode significar que tal pessoa perde o direito de uma vida futura. Mas, como dissemos, é apenas uma sugestão e não uma declaração clara e precisa.

Portanto, repito a pergunta: por que o Mundo Vindouro não é mencionado na Torá?

Agora vamos vê-lo!

A resposta é que quando a Torá foi dada ao povo de Israel não havia necessidade de conhecer e compreender o Mundo Vindouro, porque o povo já vivia neste.

O Mundo Vindouro não é em Marte ou em qualquer outro planeta, não é em uma nuvem felpuda, e nem no Monte Olimpo, na Grécia. Não é um lugar fora da nossa galáxia, onde há belos jardins, ou donzelas, como aquele reivindicado pelos muçulmanos. Tudo isso são absurdos que nem merecem ser mencionados.
O Mundo Vindouro é aqui, quando se cumpram certas condições. O Mundo Vindouro é estar em contato constante com o Criador, sem intermediários humanos, vivendo plenamente com o nosso corpo e, principalmente, nossa alma bem acordada e ativa.

Estas condições foram cumpridas por alguns grandes personagens do nosso passado, os chamados profetas, que conseguiram um alto grau de contato com o Criador. Eles foram capazes de viver e fazer os outros viverem, atingindo a capacidade de, entre outras coisas, ressuscitar os mortos. Enquanto a profecia durou até o início do segundo templo, os filhos de Israel poderiam ver esses personagens vivendo no Mundo Vindouro. Contam nossos Sábios que, durante o período profético, que durou até quase novecentos anos após o êxodo do Egito, houveram mais de um milhão de profetas em Israel, mas somente aqueles cujos a profecia foi necessária para as gerações posteriores foram registrados nos textos sagrados. Isso nos dá uma média de cerca de três mil profetas em um determinado momento desses novecentos anos de história sagrada.

Quem viveu estes tempos não precisava ver, por escrito, que era possível reviver, pois viam pessoas ressuscitadas. Estes não precisavam de um verso para falar do Mundo Vindouro, pois podiam ver seus vizinhos ou mesmo sua própria família, os profetas, já vivendo neste Mundo Vindouro. Quando saímos do Egito todos alcançamos o nível de profecia, todos atingimos o nível de contato direto com o Criador, como nossos sábios dizem: ‘O que viu mesmo uma escrava no Yam Suf (o Mar Vermelho), nem o profeta Yechezkel (Ezequiel) foi capaz de ver’.

A Alma Imortal

Intelectualmente, podemos perguntar por que é bom ter uma alma sobrenatural se morremos depois de oitenta ou noventa anos? O que acontece com esta alma?

Na Torá Oral aprendemos que a alma segue viva mesmo após a morte do corpo, e quando chegar o momento da ressurreição irá voltar a residir em um corpo físico, mas sem as limitações atuais que impede que cumpramos nossas principais funções. E então continuaremos a desenvolver nossas qualidades infinitas nesta vida presente, mas em um estado de muito maior contato com o Criador.

Após o desaparecimento da Profecia, há cerca de 2400 anos atrás, nossos sábios viram a necessidade de explicar a existência deste Mundo Vindouro que, até então, era óbvio. Deste modo, começaram a aparecer referências à Ressurreição nos discursos rabínicos, que foram escritos somente após a destruição do Segundo Templo em Jerusalém. Obras como o Midrash e o Talmud estão cheios de referências ao Mundo Vindouro, tanto quanto à Ressurreição, e assim também, se tornou parte de nosso livro de orações – na primeira página -, numa bêncão que recitamos, todas as manhãs, ao levantar. Nesta, agradecemos ao Criador por ter restaurado a alma ao nosso corpo que, por algumas horas, foi simplesmente um cadáver, e menciona que, no futuro, vai restaurar a alma ao corpo que esteja na sepultura.

O que nos interessa é o mundo de hoje

Concluindo, voltamos a aquilo mencionado no início. Não estamos interessados no Mundo Vindouro, pois isso pode nos fazer equivocar e desviar-nos de nossos deveres neste mundo atual, que é o que realmente deve nos preocupar. Temos missões a cumprir, e temos de usar todas as nossas forças e recursos para isso. É bom e importante saber que existe uma recompensa no Mundo Vindouro, mas não devemos ficar sonhando com ele e, assim, negligenciar o nosso trabalho no presente.

Nossos sábios acrescentaram que não devemos trabalhar para receber uma recompensa no outro mundo, mas sim cumprir com a intenção de servir a Vontade Divina, que é muito mais importante do que qualquer recompensa que recebamos. Fazemos o bem porque é bom e porque o Criador nos ordenou a sermos bons, e não pela recompensa após a morte ou no momento da ressurreição.

Um versículo importante no livro de Provérbios (3:6), afirma: “Conhecê-Lo em seus caminhos, e Ele endireitará tuas veredas.” Se podemos reconhecer a presença do Criador em tudo que fazemos, e, assim, obedecer aos Seus mandamentos e realizar nossos deveres, Ele nos acompanhará em todas nossas ações e irá torná-las um sucesso. O que mais se pode querer? De acordo com o Talmud (Brachot 63a) se trata de um pequeno texto contendo todos os princípios da Torá.

Finalmente, devemos notar que a expressão hebraica é “Mundo Vindouro”, isto é, um mundo que está por chegar, isso irá depender de nossos esforços em trazê-lo. Não teríamos que morrer, a fim de alcançá-lo, se não fosse os erros da humanidade em seus primeiros momentos da história. Mas podemos trazer este mundo para perto de nós, assim como já vivemos antes.

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