A Nudez da Terra

Comentários sobre a porção semanal da Torá de Metsorá

 

Identidade Nacionalshutterstock_israel-ref-g

Estamos nos preparando para Pessach, na qual lembramos a nossa libertação da escravidão no Egito e nossa independência nacional. Na verdade, é o momento em que surgimos no mapa das nações.

Até este momento, não éramos mais do que um conglomerado de tribos, escravizados pela superpotência egípcia. Não tinhamos nenhuma identidade nacional.

O que aconteceu no Egito? Como isso influencia a formação de nossa identidade nacional? Estas são questões muito importantes que, encontramos algumas respostas nos livros do Maharal de Praga, escritos há quase quinhentos anos atrás. Estão, especialmente, no livro ‘Gvurot Hashem’ (Os Poderes do Criador).

Este livro analisa os primeiros capítulos do Livro de Shemot (Êxodo), em que o relato é sobre a nossa escravidão no Egito e as dez pragas infligidas sobre os egípcios no processo de nossa libertação.

A Nudez da Terra

Já no Livro de Breshit (Gênesis), vêmos que os irmãos de Yosef, chegam ao Egito e ao Vice-Rei, que ainda não havia se revelado como irmão, e dizem-lhe (a Yosef) que estes ‘vierão para ver a nudez do país (ou ‘da Terra’)’. Consideram isso como uma acusação de espionagem, o que não era verdade. Mas não mentiram para ele. Uma das principais missões dos filhos de Israel no Egito era “ver a nudez da terra”.

O Egito era um país muito civilizado com avanços, poderíamos chamar, “científicos” incríveis. Possuiam grande conhecimento de astronomia, arquitetura, medicina, etc. deixando-nos atordoados até hoje, sem respostas a muitos dos enigmas que encontramos.

Mas dentro desta “civilização” não se via o aspecto ético e moral. Os egípcios não conheciam ou tinham abandonado as relações familiares direitas.

No capítulo 18 do Livro de Vayicrá (Levítico), podemos encontrar uma longa lista de incesto, prostituição e outras depravações praticadas pelos egípcios (e os cananeus, gregos, romanos, etc) que foram a razão básica para sua queda. Eles representavam a destruição da unidade familiar e, portanto, social.

Politicamente Incorreto

Infelizmente, este padrão se repete nas sociedades do mundo em que vivemos, das quais não preciso entrar em mais detalhes sobre o que acontece. Mas, precisamente por termos nos “acostumado” a este comportamento, é difícil para nós compreender o horror moral que representa.

Ainda assim, aos poucos estamos descobrindo os distúrbios psicológicos ou comportamentais sofridos por muitos (graças a D-s, não todos!) filhos de pais solteiros, filhos de homossexuais, adotados, vítimas de abuso infantil, etc… Todos eles resultam do tipo de relações citadas no capítulo acima do Levítico.

Estas questões tornaram-se quase um tabu em conversas, melhor dizendo, é proibido criticar, por ser considerado parte da vida privada das pessoas, e aonde “todo mundo pode proceder como lhe agrada”. Desvios da vida ‘tradicional’ de casado não podem ser considerados defeitos, nem doença, muito menos depravação em discussões ou escritos, e os autores que querem expor tais questões do ponto de vista da Torá ou do judaísmo, se vêem forçados a fazer acrobacias verbais, para se sair bem com todos.

Mas quem lê corretamente, buscando a verdade da Torá, não pode chegar a outras conclusões: o fato de ser proibido essas ações implica que estas cometem um erro grave na vida humana. Não só para judeus, uma vez que critica tanto os egípcios e os cananeus, e, portanto, para todo o ser humano que o cometa.

A verdade é que a humanidade passou por várias crises no passado, de gravidade maior ou menor. Mas parece que agora passamos pela pior e a mais generalizada.

Distúrbios Psicossomáticos

A Parasha Metsora nos conta precisamente da particular doença daqueles que são guiados pelo comportamento impróprio em suas vidas sexuais: ambos, homens e mulheres. Além do fluxo normal, o período da menstruação feminina e da ejaculação masculina, também nos deparamos com exemplos patológicos em ambos os sexos derivados, de acordo com nossos sábios, da má conduta sexual que deve ser corrigida antes que seja tarde demais, através de ‘dias limpos’ e alguns sacrifícios no Templo.

Não se trata de “doenças venéreas” no sentido patológico, que podem ser curadas por medicamentos ou tratamentos, tal como era a ‘lepra’ bíblica, que se tratava de uma doença de pele. São distúrbios psicossomáticos, ou seja, que os problemas da “psique”, em outras palavras, a alma, superam os do ‘soma’, do corpo. Mas o Talmude já fala sobre isso desde a destruição do Templo, quando não poderiam ser realizados processos educacionais apropriados para restaurar a saúde espiritual dos estados de impureza, que então foram substituídos por doenças similares.

Avisos

A razão de tudo isso não é mas que um aviso divino, destinado a ajudar-nos a corrigir nossos comportamentos quando ainda somos donos do nossos destinos e não após caírmos em uma rotina que nos mantêm doentes ou em uma situação muito difícil de corrigir. Aqueles que optarem por continuar censurando, ou calando a boca, daqueles que criticam estes comportamentos anormais, apenas estreitam suas chances de reabilitação e fecham os olhos para a realidade (humana, física e espiritual). A crítica deve ser feita, é claro, em um estado de empatia, através de uma honra indubitável pelos seres humanos e compreensão das circunstâncias famíliares, sociais, entre outras, que podem ter levado a este tipo de comportamento, mas não subestimar a importância de tais atos.

Precisamente porque a sociedade humana atingiu uma crise tão grave, é preciso fazer um grande esforço para compreender os processos que levaram a esta situação e buscar soluções aceitáveis, respeitando o livre arbítrio pessoal de cada um. O estudo do comportamento, a psicologia individual e social, os transtornos causados por diferentes tipos de comportamentos nas pessoas, suas famílias, seus filhos e outros parentes devem lançar luz sobre o verdadeiro significado destas proibições e então conseguiremos alcançar tratamentos mais plausíveis.