A Luz Para Israel

Comentário sobre a Parashá da Semana Bô

 

A Razão das Pragas

A Parasha começa com a antepenúltima praga, a praga dos gafanhotos. Em seguida, vem a penúltima praga que os egípcios receberam, a escuridão, pouco antes da morte dos primogênitos.

Os Sábios nos ensinam que todas e cada uma das pragas estavam direcionados, principalmente, para os egípcios, como todos nós sabemos, mas também foram direcionados para os filhos de Israel. Pois, haviam alguns princípios da fé que, embora já o povo já os conhecesse, de maneira geral, através de seu intelecto, também deviam poder adquiri-los através dos sentidos e, então, aprofundizar o significado destes princípios.

Estamos falando, é claro, dos princípios que se referem à onisciência do Criador, que também estão associados a recompensa e punição por nossas ações.

Mesmo hoje em dia, é difícil de acreditar e aceitar, além de ser muito mais difícil de entender, que o Criador conhece e Lhe “importa” o que fazemos, e, assim, recompensa ou pune de acordo com nosso comportamento. A filosofia grega, representada por Aristóteles, apresenta um Deus imóvel, imutável (αμετάβλητος), um Ente Puro, que não está interessado em tudo o que acontece no mundo, mas sim somente “pensa pensamentos” (νόησις νοήσεως) e, portanto, cada um pode fazer aquilo que bem entender
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A Torá nunca descreve a essência divina, tampouco o fazem nossos sábios ao longo da história, mas estes nos ensinam que o Criador atua neste mundo em que vivemos, interferindo com a intenção de orientar os moradores da terra, através de recompensas e castigos

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A Escuridão e a Luz

A punição dos primogênitos, a última das dez pragas, corresponde ao que o Criador disse a Moisés quando lhe enviou ao Faraó (Êxodo, capítulo 4): “Meu filho mais velho é Israel. E Eu digo: Deixe ir o meu povo, para que me sirva, e se você recusar deixá-lo ir, eis que terei que matar o seu filho primogênito” (4:22-23). O restante das dez pragas não são nada mais do que uma multiplicação de milagres que tem como finalidade transmitir a mensagem de onisciência e onipotência do Criador, como dito no início da nossa Parashá (Êxodo 10:1-2) e, um pouco antes (9:29).

Dentro de todas estas pragas, se destaca a penúltima, a escuridão. Nos perguntamos, o que exatamente acontece nesta praga? O que expressa? Supõe-se que as pragas vão de mais leve à mais grave, das mais simples às pragas com mensagens mais complexas. Sendo assim, o que essa praga da escuridão agrega?

Nossos sábios nos ensinam que esta praga, possibilitou aos Filhos de Israel obter uma capacidade incomum, que contrastava fortemente com a punição dos egípcios. Enquanto os egípcios se encontravam atolados na mais profunda escuridão, Israel desfrutava de uma visão sem limites que ultrapassava paredes e não conhecia distâncias. O mesmo se diz do momento em que o povo se encontrava às margens do Mar das Canas (ou seja, o “Mar Vermelho”, chamado erroneamente), descrito no verso que fala da separação de pilares de nuvem e fogo entre estes e o exército egípcio (Êxodo 14:20): “E estava a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite”. A incoerência é explicada na explicaçãp de que as nuvens e as trevas era para com os egípcios, enquanto que a Coluna de Fogo iluminava a noite para os Filhos de Israel.

A Escuridão dos Egípcios

Esta praga vem representar dois extremos: por um lado, os egípcios vivem um estado de escuridão, que não é apenas físico, nos três e nos outros três dias de escuridão da praga, eles também viviam uma escuridão espiritual que obscurecia até mesmo seu próprio intelecto, uma vez que não tendo clara a espiritualidade, o restante do conhecimento tampouco pode ser válido e completo.

A escuridão impede que os egípcios “vejam uns aos outros” (“seus irmãos”, nas palavras da Torá), criando, desta maneira, um isolamento espiritual em que cada um se preocupa apenas com si mesmo, criando um mundo egoísta e egocêntrico. Impede também que estes “se levantem de seus lugares” (“de baixo de si mesmos”, de acordo com a Torá), ou seja, que possam se desenvolver espiritualmente, condenando-os a uma estagnação moral e espiritual.

A Luz de Israel

Enquanto isso, os filhos de Israel possuem “luz em suas casas”, que, como explicado por nossos sábios no Midrash, lhes permite ver os tesouros que os egípcios tinham escondidos nas suas casas. Se trata de uma capacidade espiritual que ilumina a visão de Israel, permitindo que percebam os pontos fortes das pessoas. É uma luz otimista, uma luz de vida e de bondade que lhes permite enxergar o melhor de seu vizinho, so invés de focalizar em suas falhas. Uma luz que precede a luz que receberam pouco mais tarde, no Monte Sinai, com a mensagem da Torá, que explicaria a forma de alcançar este ponto de vista positivo. De qualquer forma, no momento em que a praga acontece, no primeiro dia do primeiro mês (chamado mais tarde de ‘Nissan’), alcançaram uma primeira gama desta luz, que mais tarde seria aperfeiçoada.

Curiosamente, mas não por coincidência, o tratado talmúdico que trata sobre Pessach, em lembrança ao êxodo do Egito, começa com a palavra “luz” em uma expressão que poderia ser entendida como uma contradição, uma vez que se trata sobre o período da ‘noite’. Os comentaristas explicam tal questão, argumentando que esta noite é cheia de luz, da qual utilizamos para olhar nas profundezas de nossos corações e banir os últimos vestígios de “Chametz”, o pão fermentado, que nos é proibido durante os sete dias da festa.

A Vela do Senhor

O verso de Provérbios (20:27) diz que “a vela do Senhor é a alma do homem, e vasculha cada parte de seu ventre”. Com essa vela que é a nossa própria alma, devemos buscar dentro de nós mesmos revelar as forças que possuimos e aumentá-las, assim como, eliminar todo o negativo.

De qualquer forma, a ciência da sabedoria em geral, e especialmente a sabedoria da Torá, é a que nos fornece esta luz intelectual, como nos ensina o mesmo livro de Provérbios, nos seus primeiros versos, este livro (tanto a Torá, de uma maneira geral, como também o livro Provérbios) servem para “…aprender a sabedoria e sua instrução, entender conceitos profundos, receber um sábia instrução, justiça, juízo e equidade, para dar prudência ao simples, e aos jovens, conhecimento e discrição. O sábio escutará e crescerá em conhecimento, e o inteligente adquirirá destreza, para entender provérbios e metáforas, as palavras dos sábios, e seus enigmas.”

Hoje temos à nossa disposição uma extensa facilidade para permitir que este estudo esteja a nosso alcance. Existe uma enorme propagação de livros impressos e formatos digitais, além de aulas e cursos on-line em vídeo, com a qual podemos, e temos de, aumentar a nossa sabedoria espiritual e moral. Não há mais desculpas, devemos começar a trabalhar!

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