A Haftará de “Pará”

O Costume das Quatro “Parashiot” 

Desde tempos imemoriais têmos o costume de ler na Torá, determinados temas em quatro sábados no final do inverno e antes da festa de Pessach. No sábado que precede o primeiro dia de Adar, se lê “Shekalim”, antes de Purim “Zachor” é lido, no sábado que se segue a Shushan Purim se lê “Pará” e, antes de Pessach, “HaChodesh” é lido. Cada uma destas porções da Torá, é acompanhada de uma “Haftará” especial. A ‘Haftará’ é a leitura adicional a Torá, feita a cada Shabat, de um dos livros proféticos.

“Shekalim” é a porção dos versículos 11-16 do capítulo 30, do Livro de Êxodos, que trata sobre as oferendas trazidas ao Tabernáculo. A ‘Haftará’ deste Shabat é retirada do segundo Livro dos Reis, cap. 11:17 – 12:17. A porção de “Zachor” são os versículos 17-19 do capítulo 25 do Livro de Deuteronômio, e a ‘Haftará’ respectiva é retirada do Primeiro Livro de Samuel, 15: 1 – 34. “Pará” é a porção do capítulo 19 do livro de Números, e a ‘Haftará’ está no capítulo 36 de Ezequiel 16-36. E, a porção de “HaChodesh” está no capítulo 12 do Livro de Êxodo, do versículo 1 ao 20, e sua ‘Haftará’ está em Ezequiel 45:18-46:16.

A Profanação do Nome

Hoje, prolongaremos sobre a Haftará desta semana, da Parashá “Pará”.

O profeta Yechezkel (Ezequiel 36) não apresenta um breve resumo do exílio de Israel. O profeta fala de uma primeira fase (versos 16-19) em que o Povo impurifica a terra onde vivem, através de seu mau comportamento, quando o Criador decide puni-los, expulsando-os do país até que compreendam o seu erro e o corrijam.

A segunda fase (versos 20-21) é a interessante. O profeta relata a reação das nações que foram de encontro ao povo de Israel, quando punidos pelo Criador. As nações não entendem desta maneira, e preferem pensar que o D’s de Israel não teve força suficiente para defender seu povo, e, protanto, estes foram expulsos de seu país e se espalharam pelo mundo. A culpa, dizem as nações, é do Criador, que não tem força. Desta forma, o exílio se torna um sacrilégio, uma profanação do nome do Criador.

Assim sendo, na terceira fase (versos 22-24) vêmos como, para eliminar este estado de sacrilégio, o Criador “não tem escolha” a não ser trazer de volta o Povo de Israel ao seu país ancestral. A frase central é a “Não faço isso por vocês, ó casa de Israel!”. Ou seja, vocês não merecem.

Devemos entender o que D´us nos está dizendo. Ele havia começado um processo de corrigir o mau comportamento de Israel, que deveria ser realizado no exílio, mas, por motivos alheios, este processo não pode continuar. Como acontecerá, então, o processo de reabilitação? Para isso temos a próxima fase:

A Purificação

14845MNesta quarta fase (versos 25-27) existem dois processos: em primeiro lugar, as águas puras que purificam todas as impurezas. O segundo processo não parece tão amigável, pois se trata de um transplante de coração: deve-se remover o coração de pedra para substitui-lo por um coração de carne. E, em seguida, o Criador faz penetrar um espírito divino e faz com que obedeçam aos seus mandamentos.

Em seguida, vem a fase (versos 28-31) de prosperidade como resultado de tal purificação. Mas logo, a sentença que já tinhamos visto na terceira fase, é repetida: “Não é por amor de vós que eu faço isto, diz o Senhor D´us, notório vos se, envergonhai-vos, e confundi-vos por causa dos vossos caminhos, ó casa de Israel.”

A Haftará termina com os versos 33-36 que se relacionam com a purificação de impurezas relacionadas a reconstrução do país. Voltam a povoar as cidades e as ruínas são reconstruídas, a terra desértica volta a ser cultivada novamente. Então exclamam, as nações que a haviam insultado, “esta terra desértica se tornou um paraíso”. E, assim, compreenderão as nações que este foi todo um processo divino, liderado desde o início, pelo Criador.

Os Dois Temas

Se juntam nesta Haftará dois temas: a impureza de Israel, que deve desaparecer, e a profanação do Nome de D´us. É claro que, sem a impureza de Israel, a profanação não seria necessária, uma vez que poderiam retornar  sua pátria. Como já vimos, se trata de uma impureza moral, por mau comportamento, muito além da impureza ‘legal’.

Esta Haftará, como dissemos, acompanha a leitura da Torá do capítulo 18 do livro de Bamidbar (Números), que trata da purificação necessária para subir ao templo para celebrar as obrigações, e, especialmente sobre a festa de Pessach, na qual todos devem comer o sacrifício de Pessach. Para isso, todos e cada um dos participantes deve ser purificado, e caso tenham estado em contato com a morte, com algum defunto, não há outra opção a não ser usar a água especial preparada com as cinzas da vaca vermelha. E é por isso que este parágrafo é lido pouco antes da festa de Pessach.

imagesMas não podemos esquecer que existe um outro tipo de impureza, muito séria, expressada pelo profeta Yechezkel, que causou o exílio grave no qual, ainda, infelizmente, estamos muito submersos. É verdade que a maioria ou quase maioria do povo já deixou este exílio e voltou para a terra natal dos nossos ancestrais, para reconstrui-la. De qualquer forma, continua sendo um grave problema a profanação do Nome do Criador, enquanto ainda há judeus vivendo na diáspora, significando que ainda não foi concluído o processo de purificação pela má conduta.

Lembre-se que, de acordo com nossos sábios, estamos pagando neste exílio, pelo pecado do “ódio gratuito”, o ódio sem motivo, aquele que só pode ser resolvido com uma “overdose” de ‘amor gratuito’!

One thought on “A Haftará de “Pará”

  • January 9, 2017 at 11:53 pm
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    Muito interessantes esses ensinamentos de forma sucinta e clara.

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