A fábula do vento e do sol e os judeus de Kaifeng

Conta-se que o vento e o sol constantemente discutiam sobre qual dos dois era mais importante. Vendo um dia um nômade num abrigo no meio do caminho, resolveram fazer um acordo para solucionar, de uma vez por todas, a discussão onde cada um, a sua vez, tentaria fazer com que o homem abandonasse o seu abrigo. O ganhador seria aquele que conseguisse em menos tempo. Feito o sorteio o vento seria o primeiro a tentar. Este lançou rajadas geladas, porém só conseguiu fazer com que o nômade se protegesse e se fechasse ainda mais em seu abrigo. Esgotado pelo esforço o vento se deu por vencido e passou a vez para o sol. Este, sorrindo, enviou seus cálidos raios quentes sobre o homem, que em poucos minutos estava fora do abrigo.

Nesta parábola o nômade é o judeu, o abrigo é sua identidade como judeu, o vento é o anti-semitismo, o ódio, a discriminação; e o sol é a tolerância e a aceitação. De acordo com a parábola, o anti-semitismo, o ódio e a discriminação não podem conseguir fazer com que o judeu abandone sua identidade, enquanto que, paradoxalmente, a tolerância e a aceitação causam, que eventualmente, o judeu perca sua identificação.

A parábola não é necessariamente certa em todos os casos. Na Espanha por exemplo, antes da reconquista, os judeus viveram durante séculos livres e totalmente aceitos sem perder sua identidade judaica. Mesmo sendo um pouco cínico afirmar, a tolerância e a assimilação podem causar o desaparecimento das comunidades judaicas, perigo que ameaça aos judeus dos Estados Unidos.

Um exemplo clássico de como a ausência do ódio e da discriminação causou a total assimilação de uma comunidade judaica, é a história dos judeus de Kaifeng.

Em algum momento, durante o século 10 e 11, um grupo de mercadores judeus, provenientes da Pérsia, chegaram a Kaifeng, uma metrópole com mais de um milhão de habitantes, capital da China, durante o reino da dinastia Song. Apresentaram-se diante o imperador, e lhe solicitaram a permissão para residir na cidade. O imperador lhes deu as boas vindas, lhes autorizando a viver na cidade, bem como continuarem praticando a religião de seus antepassados.

A comunidade, que nunca chegou a passar de mil ou dois mil membros, construiu uma sinagoga (que devido a incêndios e inundações, foi reconstruída várias vezes), uma mikve (banho ritual), uma cozinha comunal, um lugar de estudos, facilidades para fazer o alimento kasher e uma sucá para usá-la durante as festividades de Sucot.

Nunca sofreram perseguições nem discriminações, diferente de seus correligionários da Europa. Adotaram nomes chineses e se casaram com chineses e chinesas, mesmo requerendo destes uma prévia conversão.

Falavam só o chinês, vestiam-se com roupas chinesas e tinham as mesmas ocupações de seus vizinhos. Eram agricultores, comerciantes, artesãos, soldados, médicos. O Serviço Civil do império chinês promovia seus subalternos baseando-se nos resultados de exames sobre os textos clássicos do Confúcio. Os mais brilhantes jovens da comunidade, ansiosos de progredir na sociedade onde viviam, optaram por estudar o confucionismo, o qual exigis total dedicação, em vez de estudar os livros sagrados do judaísmo.

A completa aceitação que lhes deu a sociedade chinesa, e seu afastamento das comunidades judaicas do resto do mundo, deram como eventual resultado, sua total assimilação.

Esqueceram de falar, ler e escrever o hebraico. Em meados do século XIX os empobrecidos sobreviventes da comunidade judaica de Kaifeng venderam os rolos da Tora a um grupo de missionários cristãos. Em 1860 a sinagoga foi demolida e anos mais tarde o terreno foi vendido a missionários canadenses.

Hoje existem em Kaifeng, aproximadamente trezentas pessoas que se dizem descendentes destes judeus.

Pearl S. Buck, a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1938, escreveu a história dos judeus de Kaifeng em seu livro “Peony”, que li fazem 50 anos e cujo último parágrafo me ficou gravado: “Aonde existi uma sobrancelha mais grossa, um olho mais brilhante, ali existe um deles; onde uma voz canta mais melodiosa, ali existe um deles; onde existe um político mais honrado, um juiz mais justo, ali existe um deles; onde existe uma mulher mais bela, mais sábia, ali existi uma delas”.

Há alguns dias uma jovem de 18 anos, descendente dos judeus de Kaifeng, demonstrou que não somente um olho mais brilhante, uma voz mais melodiosa é o que ficou dos judeus, mais também o coração. Jin Wen-Jing retornou ao judaísmo após ser aprovada num exame oral diante de três rabinos sobre seus conhecimento da religião e tradição judaica. Seu nome é agora Shalva (Serenidade) que é a tradução ao hebraico de seu nome chinês Wen-Jung.

Pearl Buck se equivocou na última frase de seu livro ao escrever,  “já não existem em Kaifeng”. Shalva demonstrou que sim existem.